Estou no Wattpad #10


Viva! Chegámos a dezembro e o décimo capítulo do meu livro de leitura online, Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, já está disponível na plataforma Wattpad e aqui no blogue. Língua de Ferro e Marovarola chegaram a Ccantia, a cidade-sombra, e reencontraram velhos amigos, agora líderes da Companhia dos Ossos. Embora ninguém confie em ninguém e planos estejam a ser urdidos sub-repticiamente, uma aliança é encetada entre a Companhia e os dois forasteiros. Mas será que essa aliança irá manter-se depois de encontrarem o inimigo comum a ser levado como escravo, pelo centro da cidade?

CAPÍTULO DEZ: LUCILLA

“Não me apaixonei por ela à primeira vista. Não foi como as lendas contam. Bardos são tagarelas que não sabem do que falam. Ela era insípida e pequena. Demasiado pequena. Demasiado bonita. Demasiado estranha. Mais do que tudo o resto, foi a estranheza nela que me cativou. A cumplicidade entre Luce e Dooda, a forma como eles se compreendiam e em como estavam quase sempre de acordo, despertou algo insano dentro de mim. Tivemos dois momentos terríveis, em que o coração subiu-me à garganta. Duas desavenças. Isso fermentou dentro de mim como cerveja velha. Certa noite, Dooda, Agravelli e Bortoli saíram para negociar com contrabandistas. Esgueirei-me até à tenda dela e fitei-a, assombrado com aquilo que via. Dos tornozelos às ancas, do ventre liso aos seios de menina. Nua. Ela também me viu. Podia ter gritado, mas não o fez. Perdemos o nosso olhar um no outro, e depois os nossos corpos foram embalados pelo calor da noite. Foi assim que começou. A partir dessa noite, ela deixou de pertencer a Dooda. A partir dessa noite, tudo mudou entre os Doze Vermelhos.”

Língua de Ferro fitou Marovarola com curiosidade enquanto ele comia a quinta sobremesa. A refeição da noite estava espalhada pela mesa e pelo chão, alguns pratos estavam partidos, as taças manchadas de vermelho escuro, tudo sujo de molho e resíduos. Desde o primeiro dia em Ccantia, Marovarola mostrava que não tinha a intenção de ser discreto. Em tudo o que fazia, abria um precedente. Eles desciam para os restaurantes mais caros do bairro Riis todas as noites, esbanjavam, comiam e diziam o que queriam, para que todos os espiões que ali paravam soubessem quem eles eram. Marovarola achava aquilo tudo muito divertido, embora Língua de Ferro não partilhasse do seu entusiasmo.

Naquele dia, Dagias Marovarola levou consigo os doces que restavam em cima da mesa e enrolou-os numa trouxa, deixando duas pratas a tilintar sobre o tampo de cerejeira do balcão, antes de abandonar o restaurante. Quando regressaram ao quarto cheio de pulgas que haviam reservado, deixou a trouxa num canto e ignorou a comida como se todo o seu apetite não fosse mais que uma mera encenação. E era.

― Os nossos inimigos comuns vão achar o nosso empenho em engordar… curioso ― lembrou Língua de Ferro.

Marovarola ergueu uma sobrancelha e acenou distraidamente, enquanto removia a jaqueta.

― Seguramente, Val! É a curiosidade deles que os irá denunciar, mais cedo ou mais tarde.

― Não gostaria de ser surpreendido ― adiantou Língua de Ferro.

― Uma adaga a meio da noite não seria surpreendente.

― Pois não. ― Língua de Ferro pensou naquilo, enquanto arrancava uma bota do pé, sentado na cama de cobertores velhos e manchados. ― Pergunto-me até que ponto a tua exuberância não será… perigosa.

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Capa Língua de Ferro

Marovarola estava nu da cintura para cima. A sua pele era castanha e parecia macia, coberta de manchas brancas de antigas cicatrizes. Desdobrava o saco-cama onde iria dormir, quando se endireitou com um sorriso no rosto. Uma cascata de caracóis escuros derramou-se pelos ombros pontudos.

― Estamos à espera de ser abordados, esqueceste-te? É para isso que aqui estamos. Comer, foder, e esperar por mais. Tripas à mostra, coisas do género. Alegra-te, homem… Quase me tinha esquecido do teu humor de cão.

Língua de Ferro permaneceu calado por um bocado.

― Só estou ansioso ― revelou. ― Só isso. Não quero voltar a ser apanhado desprevenido.

Marovarola soltou uma risadinha enquanto se metia dentro do saco-cama. ― Valentina, Valentina. Somos demasiado bons para sermos apanhados desprevenidos.

― O excesso de confiança é um erro.

― E se nos surpreenderem? Eles não nos vão querer mortos. Sabes disso tão bem como eu.

Língua de Ferro franziu o sobrolho.

― Não nos vão querer mortos. Isso diz-me que sabes mais do que me contaste.

Marovarola deu-lhe as costas, preparando-se para dormir.

― Val, poupa-me a lições de moral. Claro que não te contei tudo o que sei. Não confio em ti, lembras-te?

― Lembro ― disse Língua de Ferro. ― E lembro-me que faz uma semana que encontramos Luce no centro de Ccantia, a ser levada como escrava. Podem não nos matar, como dizes. Mas um dedo a menos, um joelho quebrado, uma ameaça às partes íntimas… preferia não ser sujeito a isso.

Marovarola voltou-se para ele.

― Sabes o que aconteceu a Lucilla. Alguém chegou a ela antes de nós. E tu sabes quem. Aquele que nós sabemos tem uma rede de espiões tão grande que chega a envergonhar o Império.

Língua de Ferro não poderia oferecer argumentos. O que é estás tu a esconder-me, Marovarola?

― Vamos dormir. Amanhã lidaremos com o eunuco.

Marovarola assentiu com a cabeça e voltou a virar-se para a parede. Língua de Ferro moveu-se dentro da cama.

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Piratas das Caraíbas (fan art em zerochan)

Os seus sonhos foram dominados pelo grotesco terror das fúrias de areia, do gosto metálico do ar e das águas tumultuosas dos mares mortos. Torvelinhos do deserto rezoli ecoavam aos seus ouvidos, recitando promessas antigas à espera de cobrança. Uma luz turva e fumarenta jorrava do cosmos, fazendo Língua de Ferro nadar em ar seco com o gosto a água salgada na boca. Não me recordo do sabor a água salgada, disse ao subconsciente. Estava num caldo de nada, um oceano primordial onde balançava em posição fetal, embalado como um embrião no ventre da mãe. No ventre do mundo. Um trovão ribombou na sua cabeça. O clarão intimidou-o e fê-lo encolher-se. Uma sequência de lampejos surgiram-lhe na mente, intervalados por aquele clarão terrível e intenso. Olhos brancos. Olhos brancos de cegueira. O homem na cela de vidro da Prisão. A menina que se virou para ele na confusão do bairro. Uma voz a reboar na sua cabeça. Palavras macabras.

Acordou sobressaltado, alagado em suor.

Olhou instantaneamente para a janela, e viu que ainda era noite. Marovarola ressonava profundamente, o que parecia normal, depois de tudo aquilo que comera. Emborcou o conteúdo de um jarro de estanho à cabeceira e saltou da cama. Calçou as botas, afivelou Apalasi atrás das costas, cobriu-se com a capa em pele de cabril e passou pelo saco-cama do companheiro de quarto.

― Vou sair. Não me perguntes onde vou e não me tentes seguir ― disse. Marovarola continuou a ressonar, embora Língua de Ferro soubesse que ele o estava a ouvir. Marovarola era tudo, menos aquilo que parecia.

A noite estava quente. Macacos empoleirados nos balaústres das sacadas. Passadiços de corda a bambolear-se ao vento ameno. Homens bêbedos, vulgo poderosos, a sair de tabernas e prostíbulos, a cagar dinheiro para os bolsos rotos das meretrizes. Nas barbas do Império. Livres da opressão do Império. Aquilo era uma anedota. Ccantia, a cidade-sombra, era uma anedota. A lama nas margens de Chrygia, a sede do Império. Língua de Ferro riu-se com a analogia. O único rio que não secou, provavelmente.

Caminhou pelas ruelas pouco transitadas da noite ccantiana, com o cabelo turquesa a adejar sobre os ombros. Conseguiu ver as três luas pelo intervalo dos prédios e sorriu. O improvável está sempre a acontecer. Parou diante de uma porta de madeira apodrecida e bateu três vezes com o punho fechado. Ouviu o arrastar de socas e um praguejar enrouquecido pelo sono antes que os passos se aproximassem e a porta se abrisse abruptamente. Uma cabeça semi-calva surgiu de entre o espaço aberto e reconheceu o rosto escuro e sujo de Seji, o criado de Agravelli.

― O Boca de Ferro? O que é que quer a estas horas?

Língua de Ferro sentiu-se tentado em dizer que os maiores negócios de Ccantia eram encetados àquelas horas, mas soube que aquele não era um homem a quem o sarcasmo agradasse. Retirou do interior da capa um sobrescrito, que entregou a Seji.

― Dentro desse envelope tem um contrato-promessa que agradará ao seu amo, Seji. Entregue-lho imediatamente.

Seji enrugou a testa e passou com as mãos calejadas e peludas pelo sobrescrito com algum receio. Tinha os olhos cheios de remela e não conseguia abri-los na totalidade. Voltou o olhar para Língua de Ferro e pressionou o envelope contra o peito nu.

― Entregá-lo-ei ao raiar da manhã. O meu amo está a dormir.

Língua de Ferro virou as costas, mas olhou por cima do ombro para Seji, com um meio sorriso, e voltou-se.

― Conheces um traficante de escravos chamado Varro?

Os olhos de Seji pareceram abrir-se muito.

― E se conhecer?

― Tudo bem, vou procurar noutro lado, informações sobre ele…

O homem pigarreou e estudou a rua deserta à sua volta.

― Varro, o Escudado. Amante das três filhas do senador Sander Camilli. Boatos dizem que também é amante do pai. Homem forte do Império. O que tem ele?

Seji dera-lhe mais respostas do que tinha pedido.

― Passou por aqui há uma semana. Mas creio que isso pode ser considerado… vulgar.

O criado fez que sim com a cabeça, não parecendo ter interesse em falar mais do traficante de escravos, mas não resistiu a uma última pergunta.

― Porquê a curiosidade?

Língua de Ferro sorriu.

― Talvez este contrato-promessa esteja relacionado com Varro e os seus negócios. Possivelmente ao raiar da manhã já não estarei por cá, Seji. ― Deu a entender que iria virar-se, mas deteve-se por um momento. ― Ah, e não é Boca, mas Língua.

Seji sacudiu a cabeça, confuso.

― Desculpe?

― Língua de Ferro, é como me chamam.

Com um sorriso, desapareceu nas sombras. O criado fechou a porta da sua residência modesta, com uma expressão cheia de dúvidas.

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Rua de mundo fantástico (minomi9 em deviantart)

Língua de Ferro não pretendia desaparecer de Ccantia naquela noite, nem pretendia sequer fazer qualquer contrato-promessa com Agravelli. Escondeu-se nas sombras de um beco, certo que Seji não esperaria pelo amanhecer para informar o líder da Companhia dos Ossos.

Menos de cinco minutos mais tarde, Seji voltou a sair de casa, com um colete manchado de vinho tinto e ainda a unir os atilhos das suas calças. Segurava o sobrescrito debaixo do braço e internou-se na noite impregnada de perfumes mórbidos. Língua de Ferro ajustou Apalasi às costas e seguiu-o pelas sombras, como um coiote a farejar a sua presa. Como sabia de antemão, Seji não se dirigiu à taberna de Agravelli, onde a Companhia dos Ossos se reunia para as suas jogatanas. Afastou-se do bairro Riis e entrou numa viela coleante que levava às ruas menos prestigiadas de Ccantia, rumo aos confins de Sylia Má.

Seji bateu numa porta de madeira. Não parecia ser um estabelecimento, por fora. Uma mulher alta e grisalha abriu a porta e mandou-o entrar, fechando-a em seguida. Língua de Ferro avaliou a rua circundante. Meteu-se num beco, escalou uma parede arranhada e galgou uma balaustrada de calcário para se esconder numa varanda. Daquela posição, conseguia observar a única janela aberta do edifício que acolhia Seji. O interior da divisão mostrou a mulher velha, de avental, a falar com o criado, naquilo que parecia ser um vestíbulo. Passado algum tempo, surgiu uma figura familiar. Estava em tronco nu e vestia umas calças de pijama. Não era Agravelli. Era um idoso de bigode repenicado, visivelmente irritado por ser acordado a meio da noite.

Brovios.

Viu-o segurar no sobrescrito e dispensar Seji, que saiu logo de imediato. Depois, Brovios mudou de divisão e Língua de Ferro não viu mais nada. Esperou que o criado desaparecesse da sua vista e soube o que tinha de fazer.

Voltou a descer da varanda e correu para a porta de madeira. Bateu com força. Ouviu a praga de Brovios a sair-lhe pelos lábios, quando percebeu que o papel dentro do sobrescrito estava em branco, no mesmo momento em que a mulher de avental abria a porta. Uma adaga apareceu na mão de Língua de Ferro e afundou-se até ao cabo no olho da idosa antes que conseguisse soltar um grito. Ficou-se por um soluço, afogado na mão áspera do guerreiro. Língua de Ferro fechou a porta atrás de si e sentiu-se envolvido no clima quente da habitação. Apesar do exterior modesto, o interior estava a abarrotar de pratas e cobres, as paredes e o chão eram forrados a veludo e uma grande escadaria em espiral dava acesso ao andar cimeiro. Uma lamparina de azeite estava acesa sobre um cómodo de mogno. De uma divisão interna apareceu Brovios, com um papel branco nas mãos e um rosto pedante a exigir satisfações. Um rosto que ficou tão branco como o papel, quando o viu.

― Val? O que…?

O odor a sangue imperou sobre os bálsamos que aromatizavam a residência. O corpo morto da mulher permaneceu sentado contra a parede. Língua de Ferro pressionou a bota contra o peito do cadáver para lhe arrancar a adaga do olho, suja com detritos de cérebro.

Num movimento rápido, Língua de Ferro puxou Donatello Brovios por um braço e fê-lo cheirar a adaga.

― Fede aos miolos da velha, não é? Imagino que os teus não sejam mais perfumados. Onde está a cabra?

O velho gaguejou.

― Q… quem?

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Guerreiro (kenwong in artstation)

― Se Seji trouxe-te a ti o sobrescrito é porque és tu quem tem mais interesse neste assunto. Mandas nos homens de Agravelli porque és mais poderoso ou porque o traíste. Seja como for, és o homem que eu quero. Luce está em Ccantia. Vi-a como escrava, numa caravana de Varro. Sei que ele continuou, mas não acredito que ela tenha prosseguido. Marovarola quer-me fazer acreditar que Bortoli chegou a ela antes de nós, e que alcançou a máscara de Landon X, tranformando-a em escrava. Não acredito nisso, e penso que Maravarola também não. Acho que tudo não passou de um engodo. Uma armadilha para me caçar, uma vez que a Prisão não foi o suficiente. Nenhuma prisão será suficiente para mim. Sabem que posso resistir bastante à tortura, por isso arranjaram outra forma para me extrair toda a informação de que precisam sobre Bortoli. Fingindo ser meus amigos. Só ainda não tenho a certeza do papel de Marovarola nisto tudo, mas…

― Marovarola é um peão ― disse uma voz suave do alto da escadaria. Um arrepio perpassou a coluna de Língua de Ferro. Há tanto tempo…

Tudo parou. Brovios continuava em silêncio, com um olhar temeroso pousado sobre a adaga vacilante. Língua de Ferro deslizou o olhar para o alto da escadaria, onde uma bela mulher de cabelos escuros segurava numa lanterna de óleo acesa. Tinha olhos tristes, uma tez pálida e curvas ondeantes. Um metro e sessenta centímetros de altura. Vestia um vestido de noite transparente, que deixava entrever as sombras de mulher e os orbes alvos dos seus seios.

Lucilla.

― Marovarola é um tolo que julga ter um tabuleiro de xadrez entre os seus dedos. Mas não o quero desprezar. Tem os seus talentos e não é tão tolo que não tenha chegado à mesma conclusão que tu. ― Começou a descer os degraus. Língua de Ferro parecia ter-se transformado em estátua. Lucilla chegou à base dos degraus e passou com dois dedos pelos traços vincados no queixo do salteador. Olhou-o com olhos doces, olhou-o com respeito. Olhou-o com olhos de Lucilla. Ele não soube explicar a imensidão de sentimentos que brotaram dentro de si. Não soube reagir. ― Sabia que chegarias até mim, Val. Não percorri o caminho de Chrygia até aqui, nua e com vista priveligiada para o traseiro de um camelo, para menos que isto. És meu, Val. Sempre foste.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez |

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