Rei dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #2


Abre-a e o meu trabalho será desfeito.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Rei dos Espinhos”, segundo volume da série Trilogia dos Espinhos

Rei dos Espinhos é o segundo volume da Trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, recentemente publicado em Portugal pela editora TopSeller.

Tudo o que o wordbuilding de Mark Lawrence transmite é familiar. A Trilogia dos Espinhos passa-se no nosso mundo, depois do fim. O mundo moderno que conhecemos acabou e regrediu a uma era medieval construída sobre as suas ruínas, onde os que viveram na nossa atualidade são conhecidos como os Construtores, ainda que exista pouca informação sobre a era em que nos encontramos.

O que ficou foram escritos mais antigos, dos gregos, romanos ou viquingues, por exemplo, e o uso de certas expressões remete-nos para a identidade perdida: “está no seu dena” é uma alusão ao DNA, como também sabemos que o mundo acabou porque os Construtores acenderam mil sóis. Pode-se entender os “mil sóis” como bombas nucleares, ativadas em algum momento, o que resultou no Apocalipse. O que restou (falando de armas, equipamentos e maquinarias, ou de simples tecnologias como relógios) é visto como magia por esta gente nova.

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Capa TopSeller

Primeiro Príncipe

No primeiro livro, Príncipe dos Espinhos, conhecemos Jorg Ancrath, um jovem inquieto que, depois de assistir, preso num espinheiro de roseira-brava, à morte da mãe e do irmão mais novo, jurou vingança àquele que a havia perpetrado: o conde de Renar. Ao compreender que o pai não iria fazer nada para os vingar, libertou os prisioneiros das suas masmorras e fugiu com eles, fundando assim uma irmandade de forasteiros que viria a dar muito que falar.

Olidan de Ancrath mantinha uma aliança com o conde de Renar e, passado algum tempo, esperava já um filho de outra mulher. Jorg jurou a si mesmo que se tornaria Rei assim que fizesse 15 anos. Pelo caminho, travou conhecimento com necromantes, mortos-vivos e um povo estranho chamado leucrota.

O pequeno vingador destruiu a fortaleza de Gelleth, provando ao pai o seu valor. Julgava ele. Em resposta, Olidan cravou-lhe um punhal no peito e Jorg apenas sobreviveu graças aos poderes necromantes de Corion, bruxo dos sonhos do conde de Renar. Jorg avançou então com os homens da Vigia, com os seus companheiros de estrada e dois leucrota: o pequeno Gog e o gigante Gorgoth. Chegaram a Renar e tomaram a Presença, o castelo do conde que, viríamos a descobrir, era irmão de Olidan e tio de Jorg. Jorg de Ancrath matou o tio e o seu bruxo, e tornou-se Rei.

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Jorg Ancrath (TopSeller)

Agora Rei

O segundo volume passa-se em duas linhas temporais distintas. A primeira acompanha Jorg no dia do seu casamento e a segunda, quatro anos antes, logo após a tomada da Presença. Se em Príncipe dos Espinhos, Jorg era atormentado por uma compulsão de vingança, em Rei dos Espinhos ele é afligido por fantasmas, por aquilo que foi obrigado a fazer para obter tal retaliação. Na verdade, os fantasmas de Jorg manifestam-se mesmo e não somente em sentido figurativo, fitando-o com os seus olhos mortos e natureza visceral.

Jorg quer tornar-se Imperador, mas isso não parece tarefa fácil. O Príncipe da Flecha está muito mais bem cotado para isso, com um exército muito maior e uma integridade de caráter reconhecida por outros reis, que se tornaram lealistas à sua causa. Para obter uma aliança proveitosa, Jorg aceita casar com Miana, uma menina bastante esperta para a idade (um eufemismo, todavia. Miana revelou ser a personagem mais intrigante em toda a amálgama de estrategas e criaturas estranhas).

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A ação no presente ocorre durante a batalha entre os exércitos de Jorg e do Príncipe, uma batalha onde Jorg perde homens de valor e a sua humanidade é posta à prova. O fantasma de uma criança e uma caixa presa à anca de Jorg são dois dos grandes mistérios da trama. Sonhos cruzam-se com sonhos, lembranças com cicatrizes.

A maioria dos acontecimentos ocorrem, porém, quatro anos antes. Depois de conhecer Orrin, o Príncipe da Flecha, e ser facilmente humilhado por este, Jorg destacou alguns dos seus homens para o acompanharem numa jornada até ao domínio dos daneses, um povo que herdara os costumes viquingues apesar de se manterem longe do mar. Rapidamente tornaram-se aliados do seu senhor. O objetivo, enfrentar um mago do fogo, Ferrakind, no interior de um vulcão adormecido. Seguramente, Jorg de Ancrath mandou vir fogo para o prato principal.

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Katherine Ap Scorron (azaleasdolls)

No caminho de regresso, os irmãos de estrada perderam-se num pântano terrível, enfrentaram os fantasmas de Gelleth e a necromante Chella, que garantiu a Jorg que uma entidade denominada Rei Morto o queria para si (como se não tivesse já inimigos que chegassem). Vários dos seus companheiros morreram nessa jornada, mas Jorg continuou resoluto dos seus objetivos e rumou às terras da família materna, onde tencionava selar uma aliança.

Disfarçado de jovem recruta, impressionou o lendário Mestre Shimon como espadachim e conheceu Qalasadi, um matemago mouro, que descobriu facilmente a sua identidade. Após os guardas da fortaleza serem envenenados, Jorg foi visto como o principal suspeito, mas conseguiu provar quem fora o responsável por esse ato, cheio de fé e de dissimulação. Revelada a sua identidade, alcançou o apoio da fortaleza para a guerra que estava para vir.

Entrelaçando-se em todas as histórias, Katherine Ap Scorron, irmã da madrasta de Jorg, começa por julgar estar grávida de Jorg, e que este a violou. Não aconteceu, embora não faltasse vontade ao “bom” Jorg. Foi, na verdade, uma mentira criada por Sageous, o bruxo dos sonhos de Olidar que se posiciona agora ao lado de Orrin no tabuleiro de jogo – aparentemente.

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Jorg Ancrath (Jessica Lang)

Mais tarde, Katherine acabou por se casar com o Príncipe da Flecha, amando-o verdadeiramente, segundo os seus relatos, embora se tenha sentido atraída pelo irmão deste, o terrível Egan. Todas as peças moveram-se em direção a um confronto final entre o Príncipe da Flecha e Jorg de Ancrath.

Uma batalha em que Jorg revela todo o seu potencial estratégico e opera verdadeiros milagres da ciência. Orrin revelou-se um homem bom e digno, o unificador de que falavam todas as profecias, e o protagonista Jorg um jovem tenebroso com intenções mesquinhas e um orgulho de gigante. Mas nem tudo é o que parece. Uma sucessão de surpresas fazem pender os pratos da balança: uma gema explosiva, uma pistola secreta e uma batalha interna dentro do personagem principal, entre o Rei Morto e Ferrakind, entre a necromancia e o fogo, que o reclamam para si.

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O meu exemplar
SINOPSE:

O Príncipe Jorg Ancrath jurou vingar a morte da mãe e do irmão, brutalmente assassinados quando ele tinha apenas 9 anos. Jorg cresce na ânsia de saciar o seu desejo de vingança e de poder, e, ao fim de quatro anos, cumpre a promessa que fez — mata o assassino, o Conde de Renar, e toma-lhe o trono.

Aos 18 anos, Jorg luta agora por manter o seu reino, e prepara-se para enfrentar o inimigo poderoso que avança em direção ao seu castelo.

Jorg sempre conquistou os seus objetivos matando, mutilando e destruindo sem hesitar, e agora não pretende vencer a batalha de forma justa, mas sim recorrendo aos mais terríveis segredos.

OPINIÃO:

Rei dos Espinhos, de Mark Lawrence, é o segundo volume da Trilogia dos Espinhos. Se o volume inaugural surpreendeu-me pelo wordbuilding e escrita fluída e elegante, mas desiludiu-me pela condução dos acontecimentos, posso dizer que o segundo volume, embora muito diferente, deixou-me semelhante sensação.

Este livro tem duas linhas temporais, uma no presente e outra quatro anos antes, que numa fase inicial são bem parecidas, focando-se na decisão de Jorg sair do castelo com os seus homens de maior confiança. Embora não me seja estranha a leitura de livros com mais que uma linha temporal (Locke Lamora, estou a pensar em ti), esta opção de Mark Lawrence tornou a primeira metade do livro um emaranhado pouco satisfatório. Na segunda metade, a leitura tornou-se mais diferenciada e fluída, conseguindo intervalar momentos mais monótonos com cenas de ação, e explicações que viriam a dar sentido à ação presente.

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Personagens Trilogia dos Espinhos (Sweez)

A par de uma narrativa sombria, repleta de cadáveres, vómito e inúmeros horrores, Mark Lawrence tem o mérito de causar grande suspense até ao último parágrafo. O mistério é um dos pontos fortes do autor, embora o reverso da medalha não o compense em várias situações: o excesso de mistérios tornou várias situações confusas. Também o protagonista caiu recorrentemente em devaneios que tornaram a leitura lenta em muitos momentos. Apesar de continuar a ser um protagonista-vilão, Mark Lawrence ofereceu mais humanidade a Jorg Ancrath neste segundo volume. Tiro o chapéu ao autor, por nos fazer torcer pelo mau da fita sem hesitar, mesmo conhecendo bem as várias nuances do seu caráter.

Houve um excesso de interlúdios e preâmbulos aos capítulos, não existindo uma ordem explícita para os mesmos. Os capítulos por vezes começavam com uma frase em itálico sobre a História de um local, por vezes não. Por vezes acontecia como no primeiro volume: uma narração de Jorg sobre um dos seus companheiros. Por vezes não. Por vezes os capítulos terminavam com frases soltas dos diários de Katherine. Por vezes não. Por vezes não havia nada sequer. Uma incoerência a somar às duas linhas temporais que só retiraram consistência ao livro. Achei completamente inconcebível que uma batalha que ocupou todo o livro se tenha passado num único dia.

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Príncipe Honorous Jorg Ancrath (CraigPaton em deviantart)

O final agradou-me, em certa medida. As revelações, os mistérios desvendados, a escala de épico quando vemos Jorg mais badass do que nunca. Mas houve um excesso de deus ex-machina. Já não falo dos aliados que surgem à última hora. Foi necessária uma série de recursos “mágicos” utilizados, quando o último a ser usado seria suficiente e não soaria tão forçado.

De qualquer forma, o wordbuilding, a escrita do autor e a capacidade de manter o mistério até ao último fôlego são dignos de registo. A obra é um todo sombrio e adulto, mas acredito que Lawrence tinha a obrigação de o tornar mais credível. A edição da TopSeller mantém-se bonita e cuidada, mas tem vários erros ortográficos e merecia uma melhor revisão.

Avaliação: 6/10

Trilogia dos Espinhos (TopSeller):

#1 Príncipe dos Espinhos

#2 Rei dos Espinhos

#3 Imperador dos Espinhos

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5 thoughts on “Rei dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #2

  1. Pingback: Príncipe dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #1 – Nuno Ferreira

  2. Viva,

    Não deixes de ler até ao fim se continuares a não gostar depois ofereces-me eheheh

    Deixas-me na duvida pois mesmo não tendo muito tempo para sair dos livros que tenho para ler das parcerias e mesmo ai nem dou conta do recado como gostava, este era uma trilogia que gostava de ler 🙂

    Abraço

  3. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #8 – Nuno Ferreira

  4. Pingback: Estive a Ler: Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3 – Notícias de Zallar

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