Aniquilação, Área X #1


Onde jaz o fruto estrangulador que caiu da mão do pecador eu farei brotar as sementes dos mortos para que partilhem com os vermes…

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Aniquilação”, primeiro volume da trilogia Área X

Que Jeff Vandermeer é um dos nomes mais falados da ficção especulativa do século XXI não é novidade. A sua primeira grande obra, City of Saints and Madmen granjeou-lhe o reconhecimento dos fãs, a que se vieram juntar muitos outros no decorrer de outras obras, tornando-se uma das faces mais proeminentes do New Weird, um tipo de ficção especulativa que mistura o fantástico com o bizarro. Publicado em 2014, Aniquilação é o primeiro volume da trilogia Área X e não deixou ninguém indiferente, vencendo os prémios Nébula (cujos nomeados anunciei aqui o ano passado) e Shirley Jackson de Melhor Romance.

Aniquilação é contado pelos olhos de uma bióloga, a protagonista da trama, através do seu próprio diário. Ela é uma das quatro mulheres que compõem a décima segunda expedição à Área X. Trata-se de uma área selvagem que foi delimitada há mais de trinta anos. A população local morreu e todos os que ali entraram acabaram por perder-se: morrer, enlouquecer ou regressar sem a personalidade de antes. Misteriosamente, essa área insana parece ampliar-se cada vez mais.

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Capa Saída de Emergência

Para estudar as suas peculiaridades e tentar enfrentar essa ameaça silenciosa, a agência secreta Extensão Sul envia várias expedições à Área X. A bióloga é acompanhada por uma antropóloga, uma topógrafa e uma psicóloga. Em nenhum momento conhecemos o nome das personagens, e pouco é revelado sobre elas. A narradora adianta desde o início que isso pouco importa, porque nenhuma delas permanecerá viva durante muito tempo. Supõe-se que haveria também um quinto elemento, uma linguista, mas tê-la-iam perdido junto à fronteira. Quando a ação começa, vemos já as quatro aventureiras a desbravar caminhos pela floresta, encontrando desde logo um terrível javali. Mas o mistério toma realmente forma quando se deparam com um túnel afundado na terra. Estranhamente, a bióloga é a única que parece ver aquilo não como um túnel mas como uma torre afundada na terra.

Inspirado no poço da Quinta da Regaleira, em Sintra, como o autor confessou em conversa no Goodreads, esta torre parece ela mesma um ser vivo, e quando se encontra no seu interior, a bióloga sente estar no âmago de um terrível predador. Essa sensação adensa-se quando encontra uma série de palavras sinistras, de quase inspiração bíblica, nas paredes desse túnel. Palavras terríveis e sem sentido, formadas por fungos e frutificações. Escritas por uma entidade terrível, a que a bióloga apelida de Rastejante.

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Flyer Saída de Emergência

Ao inspeccioná-las, a bióloga é alvejada pela descarga de uma dessas formações. De algum modo, esse evento torna-a imune à hipnose, e isso faz com que descubra que a psicóloga do grupo as estava a hipnotizar, levando-as a agir mediante as suas orientações e desígnios. A bióloga percebe, desde logo, que a psicóloga possui mais informações sobre a Área X do que lhes foi revelado, e que as está a usar como “carne para canhão”. Quando encontra uma das colegas morta nas profundezas da torre, a bióloga percebe de imediato que a titereira a terá enviado deliberadamente para a morte, mas quando regressa ao acampamento, a psicóloga desapareceu.

Pronta a dar caça à psicóloga, a protagonista atravessa uma povoação despojada de vida e alcança um misterioso farol. A fotografia de um faroleiro rodeada por uma circunferência e um esconderijo com diários de outras expedições são o mote para uma alucinante viagem à descoberta de sentidos e entendimentos. A natureza parece reclamar tudo, transformando todas as formas de vida em outras formas de vida.

Em contraponto, a narrativa é pontuada de vários flashbacks, onde se conhece mais do passado da bióloga e do seu relacionamento com o marido, o único personagem masculino do livro. Ele foi um dos médicos destacados na expedição anterior, a décima primeira, e regressou vivo, mas vazio por dentro. Acabou por morrer de cancro, fenómeno que ocorreu com todos os outros exploradores. Por essa razão, e para descobrir o que consumiu o seu esposo, a bióloga decidiu rumar à Área X. Descobrimos também a sua natureza solitária e misantrópica, uma fascinação estranha pelo estudo e compreensão das coisas. Obsessão que se revela na sua abordagem às estranhezas da Área X. Quando qualquer um poderia ficar aterrorizado, a bióloga apenas se sente mais curiosa e aliciada pela verdade.

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Mapa Área X (jeffvandermeer)
SINOPSE:

Vencedor dos Prémios Nébula e Shirley Jackson de Melhor Romance de 2014

Área X. Uma zona misteriosa e isolada do resto do mundo. Onde a natureza reclamou para si qualquer vestígio de civilização. Sucessivas expedições são enviadas para investigar o mistério que levou à sua contaminação, mas todas redundam em fracasso e os seus membros regressam meras sombras das pessoas que partiram.
Até que chega a vez da 12.ª expedição. Composta por quatro mulheres (antropóloga, topógrafa, psicóloga e bióloga), a sua missão é desvendar o enigma. Mas acontecimentos bizarros e formas de vida que ultrapassam o entendimento minam a confiança entre os membros da expedição. Nada é o que parece e o perigo espreita a cada esquina. Que novos horrores se escondem na Área X? Será a 12.ª expedição capaz de revelar todos os segredos… ou estará condenada à pior das tragédias?

OPINIÃO:

Extremamente visual, Aniquilação de Jeff Vandermeer é uma homenagem ao terror psicológico e ao bizarro, mas acima de tudo é um aviso sério sobre as alterações climáticas e ao que pode advir da intervenção do homem na natureza. Com uma narrativa cinematográfica a fazer lembrar grandes filmes como Alien e um terror palpável que me remeteu variadas vezes a Howard Phillips Lovecraft, Aniquilação é o primeiro volume de uma trilogia reconhecida mundialmente que vem dar uma nova roupagem ao terror fantástico.

O primeiro volume da trilogia Área X intervala momentos de tensão e ritmo acelerado com pausas de circunspeção e reflexão, onde conhecemos mais sobre a protagonista. Ela é uma pessoa bastante peculiar, um pássaro fantasma, como o marido a apelida. É uma personagem com quem não é fácil criar empatia, mas por quem nos sentimos tentados a torcer desde o primeiro instante.

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Pormenor de um flyer da edição brasileira (Intrínseca)

O autor não demora muito tempo a desvendar-nos os primeiros mistérios. Adorei o spoiler sobre as mortes, lançado pelo autor logo ao início. Só me fez prender-me mais ao livro. O terror que Jeff Vandermeer apresenta envolve temas como a ecologia e a evolução humana, o que acaba por tornar credível o universo criado. Os conhecimentos científicos apresentados vêm cimentar essa credibilidade.

A escrita do autor não me impressionou, moldado em forma de relatório até nos momentos que exigiam maior tensão. Na verdade, até a aparente passividade de escrita causou o efeito pretendido, o arrepio na leitura, na forma fria com que ele observava, através dos olhos da bióloga, as alterações à realidade.

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Capa original e autor Jeff Vandermeer

O facto de o livro ser narrado por uma mulher fez com que me esquecesse rapidamente que o livro era escrito por um homem. Em jeito de brincadeira, posso garantir que Vandermeer conseguiu transformar-se a si mesmo. Não esperem terminar o livro com grandes respostas: há mistérios que ficaram por desvendar, mas acabei por me perguntar se o consentimento final da personagem principal ao ocorrido deveu-se à sua personalidade ou foi um fenómeno biológico partilhado por todos os que passaram por semelhante experiência.

Aniquilação apresenta-nos uma criatura que rasteja e escreve palavras feitas de fungos, golfinhos com olhos humanos e seres inusitados que soltam rosnidos na noite. Ao contrário do que tenho lido, não achei que o final tivesse ficado com muitas pontas soltas. Vandermeer fez diferente do que estamos habituados, talvez, mas nem me incomodaria se a história não tivesse continuação. O verdadeiro terror é aquele que não se deixa ver por completo. O verdadeiro terror é aquele que nos faz perguntar se ele provém da nossa natureza. O final foi tão inquietante como tudo o resto. Toda a natureza é inquietante.

Se olhássemos na direção do oceano através desta área, tudo o que veríamos seria essa água negra, os troncos cinzentos dos ciprestes e a chuva constante e imóvel de musgo caindo sobre a terra. A beleza de tudo aquilo era algo difícil de entender, e quando vemos beleza na desolação há algo que muda em nós. A desolação tenta colonizar-nos.

A leitura não me agradou a 100% – a escrita estéril de Jeff Vandermeer, a falta de nomes e de detalhes contribuíram grandemente para isso – mas posso qualificar este livro como empolgante e credível. Uma história terrivelmente bem montada, cheia de deliciosas revelações que mantiveram-me preso da primeira à última página. Se posso qualificar este livro como ficção científica, foi certamente o melhor que li este ano dentro do género.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Área X (Saída de Emergência):

#1 Aniquilação

#2 Autoridade

#3 Aceitação

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9 thoughts on “Aniquilação, Área X #1

  1. Pingback: As Escolhas de 2016 – Nuno Ferreira

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      1. O Aniquilação pode encontrar nas livrarias “maiores” como a Bertrand ou FNAC. O meu livro Espada que Sangra está de momento fora de venda, uma vez que rescindi contrato com a editora e irei publica-lo por outra. A antologia Os Monstros que nos Habitam está à venda online e, creio, na livraria Leituria em Lisboa.

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