Estação das Brumas, Sandman #4


Irmã. Estou na minha galeria e convoco a minha família. Sou eu, Destino dos Eternos, quem te chama. Vem.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Estação das Brumas”, quarto volume da série Sandman (Formato BD)

Estação das Brumas é o quarto volume de Sandman. Esta edição da icónica BD de Neil Gaiman é ilustrada por Kelley Jones, Mike Dringenberg e Malcolm Jones III com a participação especial de Matt Wagner, Dick Giordano, George Pratt e P. Craig Russell. Inclui os números 21 a 28 do comic original.

Este álbum mostra-nos as consequências de tudo o que ocorreu nos três primeiros volumes, e também desenvolvimento para muitos dos arcos que haviam ficado em suspenso. Traz-lhes sumo e envolvimento em redor de uma tomada de consciência por parte de Sonho, o Rei do Mundo dos Sonhos. Através da colaboração com a editora Levoir, o quarto volume saiu com o jornal Público de 21 de outubro deste ano. Foi publicada originalmente entre 1990 e 1991.

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Capa Levoir/Público

Desde logo conhecemos mais pormenorizadamente cada um dos Eternos, os irmãos de Sonho. Todos foram convocados para um concílio por Destino, o irmão mais velho e mais sábio, desconhecendo o motivo. Sem um assunto sequer sobre a mesa, Destino deixa os irmãos simplesmente conversar, mas como seria de esperar, rapidamente as vozes elevam-se num rol de acusações. Sonho acaba por tornar-se o alvo da discussão e um acontecimento relatado no segundo volume – o aprisionamento no Inferno de Nada, a princesa que recusou tornar-se sua consorte ao descobrir quem ele era – torna-se uma dessas acusações, um dedo na ferida que será o mote para o desenrolar da trama.

Após a discussão, Sonho decide-se a regressar ao Inferno, onde já estivera em busca do elmo mágico no primeiro volume, desta feita para resgatar Nada e emendar o seu erro. Afinal, fora apenas por orgulho e egoísmo que condenara a princesa ao abismo eterno. Cheio de remorsos, envia Caim como mensageiro ao Inferno, para avisar Lúcifer da sua chegada. Assim que o vê, Lúcifer elogia a ardileza de Sonho, porque uma vez que possui a marca de Deus, Caim não poderá ser morto, o que certamente aconteceria com qualquer outro mensageiro.

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Prancha Levoir/Público

Antes de partir para o Inferno, sonho visita Hob e Lyta Hal, que dá à luz um bebé que, em jeito de presciência, Sonho batiza de Daniel. Quando Sonho chega ao Inferno, porém, não encontra Nada nem nenhum outro demónio. O Inferno está deserto. É o própio Lúcifer que lhe aparece, e revela ter esvaziado o Inferno. É um personagem bem tortuoso e inseguro, carregado de culpas e de ressentimentos, e não o terrível vilão que se aguardava.

Mais que libertar todos os condenados do Inferno, Lúcifer renuncia ao seu reino e entrega as chaves a Sonho, para que faça do Inferno o que quiser – nem que seja um parque de diversões. Sonho depara-se então com um grande dilema. O que fazer com o Inferno?

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Prancha Levoir/Público

Estação das Brumas apresenta um pequeno interlúdio, onde Gaiman mostra que um colégio interno inglês pode ser um inferno… e o Inferno também pode ser um colégio interno. O tema do bullying é explorado, em jeito autobiográfico, centrado no personagem Charles Rowland.

Na peugada de respostas, Sonho tem o corvo Mathew como consciência, mas não será apenas a curiosa ave a requerer a sua atenção. Várias divindades de diversas mitologias surgem no domínio de Sonho, a solicitar o Inferno para si, oferecendo trocas mais ou menos justas, bonanças e até ameaças explícitas. O chinês Susano, os egípcios Anúbis, Bastet e Bes, os nórdicos Odin, Thor e Loki, um casal de anjos e um demónio.

São os anjos que acabam por convencer Sonho a oferecer-lhe o Inferno. Ainda assim, Sonho consegue ganhar a afeição de outras divindades e ainda descobrir a localização de Nada. Quando a salva, consegue com pouca dificuldade o perdão da mulher, ainda que o seu amor continue a ser impossível. Numa praia australiana, Lúcifer conversa com um velho sobre o sentido da vida.

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Os Eternos (DC/Vertigo)
SINOPSE:

Dez mil anos atrás, Morfeu condenou uma mulher que o amava ao Inferno. Mas os outros membros da sua família, os Eternos, convenceram-no de que foi uma terrível injustiça. Para a corrigir, Morfeu terá de regressar ao Inferno e salvar o seu antigo amor – mas o senhor dos domínios infernais, Lúcifer, o anjo caído, jurou destrui-lo. E o confronto será bem diferente do que Morfeu pensava, pois os planos de Lúcifer, Estrela-da-Manhã, são subtis…

OPINIÃO:

Apesar de não ser fã da forma como Neil Gaiman se utiliza de referências para as suas histórias, remexendo num imaginário já muito explorado, fê-lo com genialidade neste Estação das Brumas. Um volume excelente, que atou várias pontas soltas e desenvolveu a história principal com várias questões morais em cima da mesa e uma grande dose de entretenimento.

O conto sobre Nada havia-me fascinado quando li Casa de Bonecas, e saber como essa história iria terminar alimentou o suspense ao longo da leitura deste livro. Condimentado com excelentes diálogos e plot twists como os que envolveram Sandman e Lúcifer, ou deliciosas surpresas como a protagonizada por Loki, Neil Gaiman conseguiu ser ainda mais sarcástico neste quarto volume.

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Delírio (DC/Vertigo)

Desejo acaba por ser o alimento do egoísmo de Sonho, enquanto Morte mostra-se mais humana, aquela conselheira que não se abstém de dizer as verdades para fazer o irmão abrir os olhos. Mathew também funciona um pouco da mesma forma, embora não tenha interferido em igual medida no rumo dos acontecimentos.

E o interlúdio, extremamente apelativo a nível narrativo, apresenta um garoto vítima de bullying. A analogia ao Inferno coube que nem uma luva numa altura em que, na história principal, todas as criaturas do Inferno regressaram ao nosso mundo. Gostei bastante dessa ideia, embora me tenha parecido que fosse pouco explorada. Adorava ter visto todos os mortos a retornarem ao nosso mundo e as várias reações daí adjacentes. Também achei rápida a forma como Nada perdoou Sonho. Pouco credível, depois de ter sido condenada às piores privações durante milénios. Ainda assim, gostei da forma como Gaiman fechou o assunto.

A arte continuou no mesmo registo, bastante competente para a época, mas os desenhos da história principal mostraram-se bem melhores que a ilustração de Matt Wagner no interlúdio. Resumindo, este quarto volume é, até à data, o meu preferido da coleção.

Avaliação: 8/10

Sandman (Levoir/Público):

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

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13 thoughts on “Estação das Brumas, Sandman #4

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