Estou no Wattpad #14


Saudades do mais intrépido guerreiro de Semboula? Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer está de volta para mais um capítulo. No último volume, Língua de Ferro enfrentou Vance Cego, que o deixou K.O. e lhe ofereceu uma profecia e uma missão. Inexplicavelmente, as certezas do nosso herói mudaram e os seus sentidos também se tornaram mais apurados. Será mesmo verdade que a essência – seja ela o que for – o reclamou para si? Determinado a descobrir a verdade, Língua de Ferro assassinou Agravelli Domasi e pediu a Marovarola que o levasse a Averze, o senhor que controla a cidade de Ccantia. O que esperar deste novo capítulo?

CAPÍTULO CATORZE: O OLHAR DA MORTE

“Deambulei por horas, dias, semanas. Encontrei um grupo de salteadores num vale arborizado. Escondi-me nas sombras e ataquei sem sobreavisos. Eu estava sedento de vingança; Apalasi estava sedenta de sangue. Nunca soube se aqueles homens mereciam a morte. Pelo menos, uma morte tão cruel quanto aquela que lhes ofereci. Degolei, desmembrei, cuspi para cadáveres enquanto praguejava aos deuses. Todos eles pagaram por um crime do qual não tinham culpa. Lucilla. Perdi Lucilla no último momento. O meu plano, o elaborado plano que tanto me inflamara de presunção, tinha falhado. Mas eu só pensava nela. Luce.”

Havia uma caravana de camelos a atravessar a rua escura, empurrando a populaça para as bermas da estrada. Esperaram que ela passasse.

― Este fedor a camelos ― grunhiu Marovarola, levando a mão ao nariz ― dá-me sempre a volta ao estômago.

― O que me dá a volta ao estômago é a tua hipocrisia, Dagias ― murmurou Língua de Ferro, ao seu lado.

― Ora, Val… Todos queremos o mesmo, não adianta fingir que somos os melhores amigos, mas nunca fui hipócrita contigo; sempre soubeste que eras um instrumento nas minhas mãos.

A tentação de fazê-lo engolir aquelas palavras nauseantes com o seu aço era grande. Deixaram Tayscar amarrado no esconderijo da Companhia dos Ossos, assim como Seji, depois de encerrarem a taberna. Mais tarde, decidiriam o que fazer com eles. Os encontrões sucediam-se entre os transeuntes, a maioria gatunos e comerciantes, a fauna mais abundante nas ruas de Ccantia.

― Não subestimes a minha paciência ― disse Língua de Ferro ― , caminhamos há quase meia hora.

Marovarola virou-se com ar jovial e abriu os braços. Tinha o florete embainhado na anca esquerda e o seu olhar eram duas moedas de prata.

― Tu pediste para te levar ao rei do crime, aquele que controla os bordéis e faz tremer os agiotas. Não achas que a discrição é um seguro de vida?

Língua de Ferro franziu a testa e continuou a andar.

― Estamos a andar às voltas?

― Não exatamente, digamos que estamos apenas a seguir um curso mais longo.

― Estás a adiar o inevitável.

― Não, não, não, não! A evitar ser perseguido, o que seria de certa forma embaraçoso. Marovarola é um espião, ser alvo de perseguição seria o equivalente a ser apanhado a mijar num salão de baile, com as calças caídas pelos tornozelos.

novo-6dez

 

Língua de Ferro sorriu. Estava na posse de faculdades que Marovarola não podia prever. Não estavam a ser perseguidos. Continuaram por uma via transversal, menos movimentada.

― Dagias Marovarola?

― Eu?

― És patético.

Marovarola encolheu os ombros.

― Eu sei que sim ― respondeu.

Pararam ao fim da rua. Ali ficava uma mansão de dois andares, com sebes de arbustos bem aparados a fazer de muro à volta de um jardim. Através do portão gradeado, com as figuras de leões encastrados em baldaquinos laterais, podiam ver um jardim colorido e bem podado, com canteiros altos e uma estrada de paralelepípedos em calcário.

― É a mansão de Averze? ― perguntou Língua de Ferro.

Marovarola meneou negativamente a cabeça.

― Oficialmente, sim. Na prática, um refúgio para padres, aqueles cujo pecúlio patrocina a sua estadia, ainda que, desde a Seca, a sua abundância não derive das esmolas. Hoje podemos encontrar Averze; é o dia da recolha de fundos.

Sabes muito sobre este homem, pensou Língua de Ferro. Seguiu-o em torno da habitação. Ao chegar à esquina, Marovarola parou e levou um dedo à boca, dando a entender que alguém se aproximava. Encostaram-se aos arbustos e fletiram as pernas. Esperaram que dois homens vestidos com camisas de boa pele e com espadas grandes à cintura passassem sem os notar. Caminhavam pachorrentamente e não pareciam jovens, embora fossem bem constituídos e gracejassem sobre mulheres. Quando os homens desapareceram, Língua de Ferro perguntou:

― Quem são eles?

― Ninguém com quem nos devamos preocupar. Guardas chrygianos. Averze é um bom empregador.

sem-titulo
Jack Sparrow (browsing digital art em deviantart) de Piratas das Caraíbas, inspiração para o personagem Marovarola

Aquilo ficou a remoer na cabeça de Língua de Ferro. Quando deu por isso, Marovarola já tinha saltado sobre uma sebe, desaparecendo para lá dela. Língua de Ferro olhou para ambos os lados e fez o mesmo.

O interior do jardim contrastava com tudo aquilo que era Ccantia. Cuidado, organização e uma extrema falta de lixo. Cada pedra parecia ter sido assente com a máxima exatidão, cada planta estimada com afecto. Não era muito comum existirem plantas tão exuberantes em Semboula. Mantê-las exigia água, e para ter água suficiente para cuidar de plantas era necessário ser rico. Muito rico. Um capricho num ecossistema moribundo.

Seguia os passos de Marovarola com precaução. O farfalhar de uma planta fez Língua de Ferro rodar sobre si mesmo. Não viu nada. Os seus sentidos, porém, estavam mais apurados do que nunca. Sabia que havia ali alguma coisa. Marovarola pareceu não reparar na sua hesitação e começou a falar:

― Certa vez, conheci um meliante que tentou roubar plantas aqui. Uma toufelina, aquela ali de caule comprido ― disse, apontando para uma planta alta com um botão azul e pétalas arroxeadas. ― Dizem que cura diarreias.

Língua de Ferro limitou-se a suspirar, macambúzio.

― Aposto em como ficou curado da diarreia com um quadrelo entre os olhos ― retrucou, ao ver um sujeito armado de besta sentado num canteiro. Palitava os dentes com apatia e não pareceu registar a presença de ambos.

Marovarola abriu muito os braços.

― Bem, digamos que Averze consegue o que quer desta cidade com um simples coçar de nariz. O tipo ajoelhou-se, um aborrecimento de convulsões e de justificações, sabes como é. Borrou-se todo e foi para casa.

― Só isso? Simplesmente foi embora?

― Claro que sim, depois de limpar a sujeira com as próprias mãos. O chefe perguntou-lhe se queria que lhe limpassem as mãos, ele disse que sim e cortaram-nas. Averze é um tipo decente, sabes? Pouco pára por aqui, mas não gosta que mexam nas coisas dele.

Língua de Ferro fez que sim com a cabeça. Quando chegaram à porta de casa, encontraram mais dois homens. Um era gordo, com uma camisa aberta para deixar o peito a descoberto e as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Ensopado de suor, tinha um cinto no último furo a segurar-lhe as calças de bom couro. Manejava uma besta com uma mão e um odre de aguardente com a outra. Parecia ser ccantiano, sujo e bem-disposto. O outro era diferente. Tinha o manto imperial, com as insígnias de Landon X – os Poços do Império. Era ainda jovem, com ombros esguios e tensos, e um revólver estava preso à cintura.

― O que se passa aqui? ― perguntou o jovem.

Marovarola enxutou-os como moscas e gargarejou. Ninguém lhe criou oposição. Atrás deles ficava uma ampla porta de cerejeira com um A escrito por cima de um batente de chumbo. Bateu à porta e pouco depois apareceu uma mulher gorda com um avental.

― Ah, senhor Marovarola. O meu amo estava à sua espera.

Língua de Ferro não prestou grande atenção à mulher. Ouviu um miar de gato atrás de si, oriundo do jardim, e quando se virou por instinto, viu um gato, mais branco que leite, a miar na sua direção. Também os olhos do gato eram brancos, sem a menor expressividade. O gato voltou a miar e correu para longe.

Os corredores eram longos e bem mobilados, com candelabros antigos e boas tapeçarias do período pré-Cacetel. A mulher abriu uma pesada porta de carvalho envernizada, com mais de dois metros, e fez-lhes sinal para que entrassem, dando a entender que esperava que o fizessem rápido. A porta era pesada.

sem-titulo
Imperatriz Laseen e seus filiados (em Malazan Wiki) de Malazan

O interior revelou-se amplo. Um escritório moderno, rico em tapeçarias e com expositores repletos de estatuetas, estelas e mapas, pedaços arqueológicos incríveis como pedras toscas na forma de deuses esquecidos. Uma imponente secretária dominava o salão, à distância, coberta por rolos de pergaminho e mata-borrões. Aquele que devia ser Averze estava voltado para um quadro na parede, sentado de costas para a secretária. Cinquenta centímetros de comprimento por um metro de altura, o quadro mostrava o lendário Ramur de Terra Árida, montado num camelo, com um turbante a pender da cabeça, a testa franzida e uma cimitarra em cada mão, num movimento atacante.

― É engraçado, como heróis vão e vêm, e morrem sempre com os bolsos vazios ― disse o homem, com os braços cruzados atrás da nuca.

Língua de Ferro reconheceu aquela voz. Quando ele se ergueu e virou, não teve dúvidas de quem ele era. Vi a morte nos seus olhos. Merren “Anéis da Morte” Eduarda.

― Trouxeste-o até mim? ― perguntou o homem.

Marovarola pigarreou com uma mão à frente da boca e deu um passo à frente, antecipando uma justificação.

― Ele pediu que o trouxesse até Averze, meu senhor! ― Deslocou o olhar de Eduarda para Língua de Ferro. ― E matou Agravelli…

Merren “Anéis da Morte” Eduarda não parecia revelar a menor pontada de humor. Era um homem alto de ombros largos e peito maciço, com um olhar de esfinge e nariz de falcão. Longos cabelos negros caíam-lhe sobre os ombros e o queixo era agudo como a ponta de uma flecha, ligeiramente recurvado para cima. Vestia um longo e requintado casaco brocado de couro negro com gola alta, todo unido a colchetes, que lhe chegava acima dos tornozelos em pregas escuras como a noite. Botas negras, cheias de fivelas e ilhoses, desapareciam por entre as pregas.

― Eu estava à vossa espera ― disse Eduarda, com aparente calma e algum pesar. ― Brovios está morto. O que fizeste a Lucilla?

Língua de Ferro não estava a compreender. Anéis da Morte era o rei do crime de Ccantia? Não faz sentido, mas…

― Merren Eduarda… o Anéis da Morte ― murmurou com um assobio, dando dois passos em frente sem mostrar propensão a desembainhar a espada. ― O melhor guerreiro com quem já combati. O fundador da Trupe da Morte. Uma das caras de Landon X. O rosto por detrás do Império. E é também Averze, o senhor corrupto da cidade-sombra.

Eduarda franziu a testa e voltou a sentar-se na secretária. As suas mãos eram compridas e viris, cujos dedos repletos de anéis negros justificavam o apelido.

― As circunstâncias em que nos cruzamos foram aspiradas pelas areias do tempo, Leidviges Valentina. A Trupe da Morte foi enterrada sob cortinas de areia, e da areia nasceu uma nova vontade.

Língua de Ferro sorriu.

― Landon X.

Sem sorrir, Eduarda assentiu com a cabeça.

― Ainda não me respondeste… onde está Lucilla?

― Não faço pálida ideia. Descobri o seu refúgio e revivi… certas emoções do passado. Um tipo cego matou Brovios e ela fugiu nua como chegou à cidade, janela fora. Não fiquei comovido.

sem-titulo
Jaime Lannister, o regicida (akvarion em pinterest) de Crónicas de Gelo e Fogo

Àquela altura, Língua de Ferro já havia detetado uma preocupação em Anéis da Morte. Ele está feito com Luce. E Marovarola é pouco mais que um prestador de serviços. Marovarola e Eduarda trocaram um olhar cúmplice e preocupado.

― Vance Cego ― sussurrou Marovarola. ― Bortoli está por detrás disto.

Eduarda cofiou o queixo, pensativo.

― Ou talvez não. ― Ergueu o olhar do tampo da secretária – onde a estatueta de um escriba gordo impedia um pergaminho aberto de se enrolar – para o rosto hermético de Língua de Ferro. ― Chegamos ao fim da linha, Valentina. Está na hora de colocar as cartas em cima da mesa. És mais inteligente do que contávamos, mais do que Lucilla esperava. Dzanela juntou-se à Trupe da Morte, como é do conhecimento comum. A irmandade dispersou-se e perdeu poder. Muitos de nós acabaram mortos e forjamos uma nova sociedade.

Língua de Ferro suspirou fundo, com os braços cruzados à frente do peito.

― Sim, já o sei. Landon X.

Eduarda assentiu com a cabeça.

― Uma pequena ambição – liderar o submundo rezoli. Encontramos Lucilla num bairro de lata, a asfixiar o pescoço de um proxeneta e a ficar-lhe com as pratas. Achei-lhe piada. Dzanela, como sabes, já a conhecia. Senti relutância em ter uma mulher connosco, mas Lucilla revelou-se, pouco a pouco, o cérebro do nosso grupo.

― A catraia sempre foi matreira ― soluçou Marovarola com uma gargalhadinha, que se silenciou ao perceber o olhar pejorativo de Eduarda.

― Um pastor cego apareceu no nosso caminho. Disse que iríamos conquistar o mundo. Que os mares iriam secar e que a água viria a valer mais do que o ouro. Claro que o ignoramos. Mas depois vieram as evidências. A água começou realmente a secar. Dzanela era o mais irreverente, o único que ficara inquieto com as palavras do homem. Uma ideia começou a germinar na cabeça de Luce. Tínhamos inúmeros devedores. Já controlávamos o submundo. Sabíamos que, para ser mais influentes, precisávamos de certas peças capitais do nosso lado. Corremos três cidades até encontrar Dooda Vvertagla. ― Os olhos de Língua de Ferro piscaram.

― Dooda?!

Na vida, só existem duas opções, dissera-lhe Dooda. Vencer ou morrer. Rir ou chorar. Opto sempre pela primeira.

― O feiticeiro, como sempre lhe chamaram ― confirmou Eduarda. ― O mestre das trapaças. Foi ele quem nos trouxe até Ccantia. Foi ele quem congeminou o que viria a tornar-se o novo Império.

Dooda Vvertagla, a mente por detrás de Landon X? Língua de Ferro tinha os ouvidos prenhes de mentiras, mas algo – talvez o dom inusitado que vinha a despertar em si – dizia-lhe que aquilo era verdade. Fora vítima de uma cabala. Dooda encontrara-o e perdoara-lhe a traição, vindo a perceber exatamente quais eram os terrenos que pisava. Preparou tudo antes de Dzanela entrar em contacto consigo, levá-lo a ser aprisionado por homens do Império e depois agir para o libertar. Não fora o próprio Dooda a levá-lo a Constania, porque seria ele a resgatá-lo. A Dzanela cabia o papel do traidor.

sem-titulo
Karsa Orlong (slaine69 em pinterest) de Malazan

― Em Ccantia, Agravelli e Brovios juntaram-se a nós ― prosseguiu Eduarda. ― Landon X era uma versão mais sofisticada dos antigos Doze Vermelhos. Agravelli tinha o sangue de Cacetel, ser-nos-ia útil. Apesar disso, tornara-se seco e pouco interessado na sua herança. Brovios, no entanto, assegurou-nos que ele faria tudo o que ele lhe dissesse. ― Isso explica porque Seji entregou uma possível informação valiosa a Brovios, e não a Agravelli, pensou Língua de Ferro. ― Ao controlar a cidade-sombra e todo o submundo daqui até Rezos, de certa forma já controlávamos o mundo. As evidências de que os mares estavam a secar começaram a mostrar-se maiores e maiores. Algo moveu-nos a apostar todas as cartas na profecia do pastor, o que naquela altura parecia loucura, mas começava a fazer sentido. Demoramos seis anos a recolher água aos devedores, a contratar homens para coletar água nos rios e mares, a construir em segredo aquele que viria a tornar-se o símbolo do Império. Duas megalíticas edificações nos desertos, para a armazenar. O novo Império ganhava forma. Ocorreu alguma agitação entre os homens que se julgavam poderosos, mas nós já éramos os mais poderosos em todo o Império.

Língua de Ferro sorriu. Marovarola pareceu momentaneamente perturbado. Parecia não estar totalmente informado sobre aquilo.

― Esse pastor cego deve ser o comandante de Mario Bortoli ― guinchou. ― Vance Cego. Chama-se a si mesmo Assassino de Deuses e disse que me podia oferecer o Império. Garantiu que Landon X conquistou-o graças às suas informações. ― Língua de Ferro viu genuinidade na forma como Marovarola estremeceu e virou o olhar para si. ― E foi esse bastardo quem matou Brovios.

Anéis da Morte encolheu os ombros.

― Leidviges, foste usado como um peão até agora. Somos obrigados, agora, a contar-te a verdade. Dizem que Cacetel suicidou-se, enlouquecido com a morte dos deuses. A verdade é mais terrível. O senado conspirou contra ele e mataram-no com veneno de cicuta. Foi a janela de oportunidade que nos faltava. Aproveitamos a instabilidade política e o nosso poder acumulado para chegar ao trono. Dooda não quis nenhuma posição de poder, embora continuasse a colaborar connosco. Apostou na formação dos novos Doze Vermelhos. Eu, Luce e Dzanela ficamos com o poder em Chrygia, como um Triunvirato, usando Allen como máscara. O senado apoiou-nos numa primeira instância, mas isso mudou. Ao colocarem as mãos no nosso tesouro mais precioso – a água – ganharam também poder. Era algo que não podíamos negar a uma entidade tão importante do governo. Para além disso, o senado tinha a confiança dos patrícios. Enfraquecemos. A nossa única alternativa foi colocar um membro do senado no nosso governo. Sander Camilli foi o escolhido. Não tenho arrependimento maior. Eu saí provisoriamente do Triunvirato, e foi nesse período que me estabeleci aqui, onde exerci o meu papel de rei do crime, a coberto de um nome falso – Averze. Pouco a pouco, Camilli tem vindo a minar a nossa hegemonia. Colocou a sua favorita como comandante-em-chefe dos exércitos, apontou uma arma à cabeça de Allen e armou uma emboscada a Dzanela, durante uma campanha.

Língua de Ferro assentiu com a cabeça.

― Todos nós sabemos o que aconteceu a Dzanela.

― Acabou morto nos desertos, sim. ― Eduarda engoliu em seco. ― A ameaça sobre Allen deixou de fazer efeito. Eu ocupei de volta o lugar em vaga no Triunvirato e Camilli encontrou outro alvo para a sua ameaça.

― Outro alvo? ― perguntou Língua de Ferro, curioso.

― Raptou as minhas filhas e levou-as para os Poços. Ele controla os Poços e tem as minhas meninas como alvo. Se Sander Camilli morrer, existem ordens para que as minhas filhas sejam afogadas nos Poços do Império. Uma em cada Poço. ― Os olhos de Eduarda mostravam morte. Sempre mostraram. Mas desta vez, é a morte das suas próprias filhas. O terror de um pai. Anéis da Morte está desesperado. Desesperado pela minha ajuda.

― Onde é que eu entro nisto? ― perguntou, sem entusiasmo. ― E Marovarola, porque é que ele provocou esta revolução contra o Império?

Eduarda relaxou momentaneamente e voltou o olhar para Marovarola.

― Estou-me a borrifar para coroas e politiquices, Val ― respondeu Marovarola, com um encolher de ombros. ― Sou um mercenário. Sempre fui. Quero os meus cofres cheios de água e algumas pratas nos bolsos. A conversa de que Luce conquistou o trono e que todos ficamos muito incomodados com a ousadia é balela, como já deves ter percebido. Pelo menos para nós. Bortoli é a excepção.

Anéis da Morte continuou:

― A função de Marovarola era provocar uma rebelião, unir Mario Bortoli a essa revolta e guiar-te para te transformares no general das suas forças. Por isso te prendemos, para te trazer para esta guerra ― assumiu Eduarda. ― Lucilla acreditava, ao início, que só tu poderias liderar um exército assim. Bortoli tem agora um novo comandante, esse Vance Cego, que me desassossega e não faço ideia de quem seja, mas que não é uma prioridade. Eu não posso pôr em risco as minhas filhas. Quero que Bortoli enfrente Chrygia, quero que Bortoli esmague Camilli, quero que os dois se fodam e o Império também. Quero que tu vás até aos Poços e salves as minhas filhas… antes que seja tarde demais. Em troca, o Império é teu… A coroa de acanto será tua, se assim o almejares.

Língua de Ferro estudou a questão e sorriu.

― Já lutei consigo, Anéis da Morte. É um guerreiro formidável. Porque não salva você as suas filhas?

― Um pai não controla as suas emoções, Leidviges. E se tudo correr mal… ― Baixou o olhar. ― Luce nunca me iria perdoar.

Língua de Ferro ergueu uma sobrancelha. Marovarola aproximou-se e disse-lhe ao ouvido, enquanto lhe dava palmadinhas no peito.

― A tua Luce, Val, é a mãe das filhas dele. ― Aquilo pareceu regozijá-lo. ― Mas ainda podes vir a ser Imperador, não é divertido?

Para Língua de Ferro, foi um choque. Anéis da Morte e Luce, juntos? Com duas filhas? Uma série de perguntas martelavam na sua mente. Ravella amava Regan, talvez por isso ela não me contou que foi ele a fundar Landon X?; e Allen, estaria feito com eles? Dooda suicidou-se para me salvar, ou para manter Allen nas minhas mãos? Qual o verdadeiro propósito de Jupett Vance? Lucilla algum dia me amou? Amará Eduarda? A torrente de questões foi interrompida quando bateram à porta. Marovarola afastou-se alguns segundos para cochichar com um guarda e voltou apressado.

― Más notícias… Os exércitos de Bortoli levantaram acampamento e dirigem-se para cá. Os índios e os rhovianos que já estão na cidade começaram a causar problemas graves. E… Bortoli capturou Lucilla. O nosso amigo Mecenas parece ter mudado de planos.

Eduarda ergueu a cabeça, sobressaltado.

― O quê?

Marovarola cofiou o queixo, nervoso.

― Bem… Não lhe gostaria de trazer estas notícias, senhor, mas receio bem que Camilli tenha proposto uma aliança mais proveitosa ao nosso velho amigo Bortoli.

Não faz sentido, pensou Língua de Ferro. Eduarda não parecia comungar da mesma perspetiva. Ergueu-se de um salto e bateu com os punhos na secretária.

― Merda.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze

Advertisements

2 thoughts on “Estou no Wattpad #14

feedback

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s