La Dueña


Estava mais que visto, nos llanos não tardaria em aparecer outra lenda. Para um povo que vivia por elas, era menester. E só o tempo diria se aquela nova história poderia competir com a que tinha acabado bem há pouco.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “La Dueña: Devoradora de Homens”

La Dueña, de subtítulo Devoradora de Homens, foi o primeiro livro de J. A. Alves, escritor venezuelano a viver em Portugal. Mais conhecido pelo livro Batalha Entre Sistemas: O Começo de Uma Era, José Augusto Alves teve em La Dueña o seu primeiro livro, publicado em 2012 pela Corpos Editora.

Ambientado nos llanos venezuelanos, entre os Andes e o Guayanés e com o maravilhoso rio Arauca como dono e senhor, La Dueña é uma história de mitos e crenças, de demónios e superstições numa envolvente rural. La Dueña é a história de um acordo terrível que viria a aterrorizar populações e a fomentar crendices ao longo dos tempos. Uma lenda de terror num palco de extrema beleza.

sem-titulo
Rio Arauca (RCN Radio)

Como tudo começa

Jalina é uma velha índia que, numa noite de tempestade, encontra uma mulher sozinha em trabalho de parto. Isso não era suficientemente mau: os guerrilheiros colombianos andavam por ali. Usando-se dos seus parcos recursos, Jalina leva a mulher, chamada Yolanda, para uma velha igreja em ruínas. Ali, o trabalho de parto revela-se inexequível e a índia parece entrar em transe, nada fazendo para a salvar. Completamente desesperada, Yolanda fixa o olhar na imagem de uma santa e grita para a figura de arte sacra que a criança será sua se a salvar. Miraculosamente, a criança nasce saudável.

Os anos passam-se e Yolanda deu o seu próprio nome à filha. Fez de Jalina sua empregada e confidente, e a jovem Yolanda cresce saudavelmente, muito apegada à índia.

Yo nací en esta ribera

del Arauca vibrador.

Soy hermano de la espuma,

de las garzas, de las rosas,

y del Sol

“Alma Llanera”

Os eventos estranhos começam a ocorrer. A mãe Yolanda anuncia o seu casamento com Francisco,  um homem rico e bem-parecido de Caracas. A jovem Yolanda não aceita bem o casamento da mãe, mas também nada pode fazer para o contrariar. Um dia, ela própria envolve-se com um belo rapaz no berço de uma árvore junto ao rio, e o incrível acontece. Após o acto sexual, o rapaz morre.

Ao mesmo tempo que a mãe Yolanda regressa com o seu noivo à região, traz consigo a figura da santa a quem ofereceu a filha – e a promessa de Francisco em construir uma nova capela ali, em sua honra. Os sinais começam a ser evidentes que os traços da santa são semelhantes aos da rapariga, e isso torna-se desconfortável para todos, ao mesmo tempo que os rapazes com quem a jovem Yolanda faz amor, morrem de imediato.

sem-titulo
Capa Corpos Editora

É já no seu leito de morte que a mãe Yolanda conta à filha a promessa que fez à santa. Louca e enraivecida com o seu destino, a jovem Yolanda vai até à capela e esconjura a santa, gritando-lhe que não lhe pertence. É então que, surpreendentemente, surge Francisco. Surpreendentemente, porque o esposo da mãe a tinha abandonado na doença, alegadamente envolvido nos seus negócios em Caracas.

Francisco revela ser, na verdade, o próprio Coisa Ruim, o Diabo em pessoa. Ele oferece a Yolanda uma alternativa. A velha índia Jalina, também presente, é testemunha de um pacto que viria a mudar a vida de todos. A figura da santa é destruída e Yolanda aceita um acordo com o Diabo que traz vantagem a ambos: ela terá todos os homens que quiser, mas as almas deles serão, a seu tempo, sugadas pelo Demo.

sem-titulo
Los llanos da Venezuela (newagevenezuela)

Os novos vizinhos

Christian é um jovem norte-americano que viaja até à Venezuela, para conhecer a herança do seu tio MiguelLa Guapa Llanera – uma bela fazenda junto ao Arauca. Leva consigo a sua bela noiva, Ana Clara. Os dois fascinam-se com a beleza daquele local verdejante e cheio de vida, ao mesmo tempo que o palacete que os aguarda parece-lhes digno de reis. Miguel Araucho é o guia que os leva até lá, um homem afável e dedicado. O caseiro, Perález, é um homem conversador e um pouco ébrio, e a cozinheira, Guadalupe, uma mulher devota. Já a sua filha, Jimena, parece uma rapariga estranha e misteriosa, desdenhando de Ana Clara desde o primeiro momento.

As relações não começam da melhor forma, com Guadalupe a querer agradar aos seus novos patrões de forma nervosa, Jimena a irritá-los a todo o instante e Perález a lançar-lhes avisos enigmáticos. A fazenda vizinha, La Dueña, é um lugar perigoso e não devem aproximar-se. Mas tanto Chris como Ana Clara querem socializar e conhecer mais daquele lugar, pelo que tal anexação torna-se difícil. Ainda para mais quando Yolanda, a bela mulher que governa a fazenda vizinha, lhes aparece à porta montada num belo cavalo puro-sangue, chamado Infierno, e Chris fica desde logo refém daquela mulher.

Yolanda é agora uma mulher bela e indomável, que governa a fazenda La Dueña e vive com a muito velha índia Jalina. Ocasionalmente, recebe a visita do seu compadre – o Coisa Ruim – numa cave da sua habitação. A relação entre os sócios fora muito produtiva ao longo dos anos, e graças a ela Yolanda mantém uma beleza perene. Nenhum homem lhe resiste. Mas ao conhecer Chris, pela primeira vez a verdadeira paixão aflora no seu peito, levando-a a vacilar. Enquanto o norte-americano se vê enredado nas teias de sedução da Devoradora de Homens, Ana Clara conhece a vila local, e ao mesmo tempo que descobre que os habitantes parecem meros mortos-vivos, descortina coisas ainda mais terríveis sobre aquele lugar e sabe que terá de agir rapidamente, ou perderá o seu noivo muito em breve.

sem-titulo
Paisagem Venezuelana (geologia venezolana)
SINOPSE:

Devido a um parto difícil, Yolanda foi prometida a uma Santa local. Cresceu com o estigma desta promessa da qual nada sabia. No pequeno povoado do interior de Los Llanos – a desolada planície do centro da Venezuela – ninguém ousava se aproximar dela. Para se libertar, Yolanda faria um pacto com o Diabo: seria bela e rica para sempre em troca da alma de todos os homens que a amassem. Anos mais tarde, um jovem americano e a sua noiva chegam a Los Llanos para ocuparem uma fazenda deixada como herança…
Este é o primeiro romance do escritor luso-venezuelano J.A.Alves, lançado em 2012 pela Corpos Editora que, ainda no início de carreira, assinou o livro com o seu verdadeiro nome: José Augusto Pereira Alves.
É um livro cheio de mistério, amor e vingança onde a vida real se mistura com o misticismo e o mistério de uma Venezuela mergulhada em um oceano de crenças religiosas e de uma mulher que ousa unir o Céu e o Inferno para satisfazer a sua sede de vingança.

OPINIÃO:

Opinar sobre o trabalho de um amigo nunca é tarefa fácil, mas a sinceridade nunca me faltou nestas ocasiões. Depois de ter lido o Batalha Entre Sistemas do J. A. Alves o ano passado, fica claro que La Dueña é um trabalho muito mais completo e bem executado. O potencial que já tinha encontrado no livro de ficção científica, encontro-o agora na minha opinião mais que comprovado.

Apesar de ter sido publicado primeiro, La Dueña foi escrito depois do Batalha, e desde logo o que mais salta à vista é a forma de narração. Um dos principais problemas de Batalha Entre Sistemas foi a forma como ele narrou certos acontecimentos sem os mostrar, limitando-se a fazer um resumo do que estava a acontecer. Em La Dueña, todos os eventos foram bem retratados. A escrita dele precisa de ser limada em alguns aspetos, mas em outros está bem e recomenda-se.

sem-titulo
Cena de telenovela Dona Barbara (keyword-suggestions)

A história é bastante agradável. Não sou fã de narrações que envolvam o Diabo e coisas do género, mas esta agarrou-me desde o primeiro momento e tornou-se viciante. Senti que estava a ler a história de uma típica telenovela sul-americana, com os seus ranchos e triângulos amorosos, com belas amazonas a cavalo e banhos a nu no rio. Se esses já eram argumentos que me agradavam bastante, quando a aura de mistério e sobrenatural dominam por completo a narrativa, esta não perde qualidade.

Os mistérios adensam-se pouco a pouco e nunca sabemos bem o que esperar dos personagens, que nem sempre são tão previsíveis como pensávamos. O fantástico acaba por dominar o real, mas mesmo aí o autor consegue manter o ritmo e a credibilidade de mãos dadas, o que culmina num final algo em aberto que dá sentido ao prólogo do livro.

sem-titulo
Vivências llaneras (cuentaelabuelo)

Se o livro tivesse muitas coisas que me desagradassem, acabaria por não as enumerar. Como não foram assim tantas, nem frequentes, irei apontar aquilo em que o autor deve melhorar. Em primeiro lugar, faltou algum encadeamento lógico em duas situações. Na primeira, Ana Clara é salva por Jimena, e alega sentir-se segura com ela, apesar da inamizade patente, e pouco depois, pensa que a outra não lhe estenderia a mão nem se estivesse a cair de um abismo – o que me pareceu contrassenso. Por muito que não gostassem uma da outra, Jimena tinha acabado de a salvar. A outra situação acontece também nos pensamentos de Ana Clara. Num momento diz-se que ela gostava de chamar aos habitantes da vila de mortos-vivos, pouco depois diz-se que ela os chamava de sonâmbulos. Também notei que alguns pontos-de-vista de personagens mudavam rapidamente, por vezes de um parágrafo para o outro sem que percebêssemos de imediato.

Notei o timbre venezuelano – o idioma do autor – na escrita. Não foi muito presente nem registou erros ortográficos dignos de registo, um dos principais problemas do Batalha entre Sistemas, mas o termo mirada como sinónimo de olhar, utilizado várias vezes, não me soou bem. Todos os outros termos específicos da Venezuela utilizados foram devidamente explicados num glossário fornecido no final do livro. Acima de tudo, parece-me claro que bastaria uma pequena revisão para este livro ficar 5 estrelas. Gostei bastante.

Avaliação: 7/10

Anúncios

One thought on “La Dueña

  1. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #9 – Nuno Ferreira

Comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s