Autoridade, Área X #2


Uma planta. Um rato morto. Uma espécie de imprecação irracional. Ou um qualquer tipo de piada ou partida. Ou a contínua evidência de uma espiral descendente, um salto da falésia para um oceano repleto de monstros. Talvez lá para o fim, quando decidiu integrar a décima segunda expedição, a diretora estivesse a praticar uma qualquer variação perversa do Scrabble.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Autoridade”, segundo volume da trilogia Área X

É a segunda vez, em pouco mais de dois meses, que vos falo de Jeff Vandermeer. O autor norte-americano, que cresceu nas Ilhas Fiji e tem livros publicados em mais de vinte línguas, é um dos nomes mais notáveis do sub-género New Weird Fiction e a sua trilogia Southern ReachÁrea X em Portugal – está na base de toda a empolgação.

Vencedor de vários prémios, Vandermeer é vulgarmente comparado a nomes como H. P. Lovecraft ou China Miéville, sendo um dos percursores de uma literatura especulativa que mescla o terror psicológico ao bizarro. A trilogia de que vos falo hoje é interpretada largamente como uma metáfora dos perigos que o Homem suscita ao interferir na natureza.

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Capa Saída de Emergência

Aniquilação – Um breve resumo

No primeiro volume, vimos quatro mulheres a ser atiradas para o interior de uma zona rural inusitada, a Área X, tendo em vista explorar a sua vegetação abundante e as suas peculiaridades. Supostamente, são a décima segunda expedição e aqueles que voltaram daquele lugar anteriormente, regressaram sem emoções, tendo vindo a falecer de cancro. A protagonista é uma bióloga, e tal como as restantes personagens não lhe é conhecido o nome – a organização que as enviou (a Extensão Sul) trabalhou no sentido para que não viessem a estabelecer qualquer relação afetiva. Sabemos, no entanto, que esta bióloga está ali para descobrir o que matou o esposo, um membro da expedição anterior que regressou como uma mera sombra da pessoa que fora, até acabar por morrer. Sabemos também que o marido chamava-a vulgarmente de Pássaro Fantasma.

Das outras três mulheres, pouco é revelado. Uma é psicóloga, as restantes topógrafa e antropóloga. Desde que encontram uma torre afundada na terra com uma misteriosa frase apocalíptica escrita por fungos numa parede, os acontecimentos sucedem-se e duas delas acabam por desaparecer misteriosamente. A bióloga descobre que a psicóloga guardava grandes segredos, e que estava a hipnotizá-las. Descobre também um farol com uma fotografia sinistra e diários horripilantes de antigas expedições, uma natureza transtornada e completamente inquietante.

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Ilustração (fsgworkinprogress)

Autoridade – A Extensão Sul

O segundo volume, Autoridade, começa atrás de uma secretária. O protagonista deste segundo volume é John Rodriguez, o novo diretor da agência Extensão Sul. Porém, gosta que todos o tratem por uma alcunha antiga – Control. Através dele, sabemos que a psicóloga do primeiro volume era muito mais do que isso; Cynthia era a diretora da agência, que decidira tirar conclusões pelos próprios olhos. Sabemos também que foi a única desta última expedição a não regressar. A topógrafa e a antropóloga regressaram para as suas famílias, enquanto a bióloga – que protagonizou o primeiro volume – surgiu num terreno baldio.

Control tem em mãos a tarefa árdua de resolver um puzzle intricado: continuar o trabalho da anterior diretora, descobrir porque ela deixou um rato morto e uma planta dentro de um vaso no seu escritório (para além de uma parede coberta de palavras arrepiantes, as mesmas que haviam sido encontradas na torre da Área X), e interrogar a bióloga, de modo a descobrir os mistérios que a Área X esconde e o porquê de ter aparecido naquele terreno. Mas Control tem muito mais com que lidar.

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Villa Altona (abduzeedo) – próximo do que imagino ser a sede da Extensão Sul

Autoridade – Os mistérios

Em primeiro lugar, Control tem de debater-se com a sua própria identidade. Vive ensombrado pelo fantasma da mãe, Jackie Severance, uma mulher misteriosa que desde muito cedo o educou com mão de ferro, oferecendo-lhe pouquíssimo afeto, mas sempre tenha parecido munida de grandes contactos e influências para o livrar de todos os sarilhos. Apesar do apelido, Control sempre teve muito pouco controlo sobre a própria vida. Partilha casa com um gato chamado El Chorizo, e responde sempre perante uma Voz, o seu exigente contacto com a Central da agência. Recorda-se vulgarmente do pai, que o acompanhou até morrer, e do avô materno, Jack Severance, que o fez pegar numa arma pela primeira vez.

No duche, começou a chorar porque ainda não conseguia esquecer-se da sensação da parede na sua mão, por mais que tentasse. Não conseguia esquecer o modo como a chuva parecera desaparecer, a expressão no rosto de Whitby, a pose rígida de Grace ou o facto de que tudo aquilo tinha acontecido apenas uma hora antes e ele ainda não tinha qualquer explicação.

Depois, há que lidar com os subalternos. Grace, a sub-diretora da Extensão Sul, é uma mulher negra que o vê como um mero diretor interino, desvalorizando-o constantemente, como se esperasse que a qualquer momento a diretora regresse para continuar o seu trabalho, o que faz com que ambos estejam normalmente em desacordo.

Mike Cheney, o chefe do departamento científico, é um tagarela. Jessica Hsyu, a linguista de serviço, parece cínica. E Whitby Allen, pau para toda a obra no departamento científico, é o enigmático cicerone de Control dentro da Extensão Sul. Pior do que encontrar oposição em alguns deles, é ter a sensação que nenhum deles o respeita como seria suposto, e perceber que todos lhe escondem coisas.

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Jeff Vandermeer (culturesofenergy)

Por fim, trabalhar com o Pássaro Fantasma. Os interrogatórios com a bióloga são abstratos e é difícil tirar-lhe informações de relevo, como se a mulher se divertisse em dificultar-lhe a vida. Pouco a pouco, porém, os interrogatórios com a bióloga tornam-se mais informais, e embora ela não lhe pareça menos provocatória ou obscura, Control começa a apaixonar-se por ela.

A partir do momento em que Control descobre os experimentos científicos que a Extensão Sul realizava, há anos e anos, na Área X, percebe que a verdade – ainda turva – é de uma dimensão muito maior do que podia especular. As perguntas sucedem-se e as bizarrices também. Os vídeos tenebrosos que James Lowry trouxe, ao sobreviver à primeira expedição. Os limites da suposta fronteira com a Área X a avançar. Uma torre na Área X que Control começou por chamar como “anomalia topográfica” e que a bióloga apelida de “túnel”. As crípticas palavras com que a diretora estava obcecada. Um faroleiro e uma menina. Uma luz em espiral. Um portal cintilante. Um mosquito espalmado no pára-brisas sem que se tenha lembrado de matar qualquer inseto. O telemóvel da diretora na sua mochila sem o ter posto lá. O papel da mãe de Control e como ele se tornou diretor da Extensão Sul. A identidade da Voz. A sala de arrumos onde encontra Whitby com uma expressão aterrorizada. Centenas de coelhos junto à fronteira. A bióloga que, subitamente, diz não ser a bióloga.

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Join the expedition (jeffvandermeer)
SINOPSE:

Após 30 anos, os únicos traços humanos detetados na Área X – uma estranha zona contaminada cercada de uma fronteira invisível e sem traços de civilização – são os que foram deixados por expedições sucessivas sob autoridade de uma agência tão secreta que quase foi esquecida.
Face à tumultuosa 12.ª expedição narrada em Aniquilação, a agência tem um novo diretor nomeado, John Rodrigues, também conhecido por Control. A braços com uma equipa desesperada e frustrada por uma série de incidentes e vídeos perturbantes, Control começa a desvendar lentamente os segredos da Área X e dos mistérios narrados no primeiro volume, mas a cada descoberta que faz, é forçado a confrontar verdades sobre ele próprio e a agência que jurou servir.

OPINIÃO:

Se o primeiro volume da trilogia Área X de Jeff Vandermeer – Aniquilação – pareceu um verdadeiro tesouro de ficção científica com evocação ao bizarro, este segundo volume apresentou-nos a mesma história de uma perspetiva completamente diferente. Extremamente panorâmica, esta trilogia traz-nos agora John “Control” Rodriguez como um protagonista complexo e interessante. Em Aniquilação, o problema das terríveis mutações ambientais na Área X é tratado in loco, sendo testemunhado todo o horror através de um cenário verdejante próximo ao mar. Já Autoridade é passado quase integralmente nos escritórios de uma agência secreta. A mesma agência que enviou as exploradoras para a zona contaminada.

Na verdade, os dilemas interiores e os problemas burocráticos de Control não foram tão atraentes do que a vivência da bióloga, chegando até a tornar-se cansativo que este volume tenha passado tanto pela investigação e pelo trabalho atrás da secretária. Desenganem-se, porém, que isso lhe rouba mérito. A nível de mistérios e revelações, Autoridade ultrapassa o primeiro volume em surpresas, e posso dizer que a partir da metade, só consegui parar na última página.

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O meu exemplar

Esqueçam o terror visual do primeiro livro. Este segundo volume vem, não só, complementar o que testemunhamos anteriormente, como nos oferece um terror psicológico mais vívido e inquietante. Tudo o que parece errado pode estar certo, como tudo tem uma razão de ser que nem sempre conseguimos perceber à primeira vista. Neste livro não temos todas as respostas para os eventos do primeiro, mas as revelações são brutais e novos mistérios são deixados para o volume final da trama.

Jeff Vandermeer é um escritor ambicioso, calculista e genial. Ele consegue operar aqui todas as pinceladas próprias dos géneros terror/mistério e começa a unir os cabos do que será uma teia perfeita de ficção científica arrepiantemente próxima ao que poderia ser a realidade. Vandermeer expõe a arrogância do Homem em todo o seu esplendor, e mostra o que ele é – um mosquito que pode facilmente ser esborrachado num pára-brisas – diante da força maior a que chamamos Natureza.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Área X (Saída de Emergência):

#1 Aniquilação

#2 Autoridade

#3 Aceitação

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8 thoughts on “Autoridade, Área X #2

  1. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #9 – Nuno Ferreira

  2. Pingback: Aniquilação, Área X #1 – Notícias de Zallar

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