Príncipe dos Dragões, Elric #1


Este é o povo de Melniboné, Ilha dos Dragões, que dominou o mundo por dez mil anos, apenas para ver o poder diluir-se ao longo dos últimos séculos. Um povo cruel e inteligente, para quem «princípios morais» significam pouco mais que o devido respeito pelas tradições de uma centena de séculos.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Príncipe dos Dragões”, primeiro volume da série Elric

Publicado pela Edições Saída de Emergência em 2007, Príncipe dos Dragões é o título português do livro Elric of Melniboné, lançado em 1972 pelo autor britânico Michael Moorcock. Influenciado por um poema de Bertold Brecht, Moorcock criou aquele que viria a tornar-se um dos personagens mais conceituados do género fantástico do último século.

Numa época marcada por aventureiros corpulentos e heróis de capa e espada, Moorcock criou um protagonista enfermiço, cheio de debates interiores e comportamentos ambíguos. Elric de Melniboné tornou-se uma referência no fantástico, sendo comparado vulgarmente a outros personagens carismáticos como Conan e Solomon Kane de Robert E. Howard. Elric juntou-se a eles no panteão de heróis imortais que vigia perene e atentamente este género literário.

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Capa Saída de Emergência

O Príncipe dos Dragões

Melniboné é um Império poderoso, uma nação lendária com séculos de hegemonia assentes no poder da feitiçaria e dos dragões. É uma ilha de arquitetura belíssima e histórias com perfume a truques e maravilhas, tendo em Imrryr a capital. Os tempos de bonança e magnitude, porém, parecem ter ficado para trás. Melniboné perdeu o seu poderio inabalável, e apesar de ainda ser superior a todos os Reinos Jovens que dealbaram à sua volta, não é mais que uma sombra daquilo que foi. Os dragões estão doentes, perdendo muito tempo a recuperar as suas energias. E o trono está fraco, com a liderança de Elric, um imperador albino, enfermiço, de moralidade inusitada.

Os senhores de Melniboné trazem consigo uma tradição de perversidade e sadismo, obrigando escravos a comer carne humana e incutindo tortura aos seus prisioneiros. Sadric, o pai de Elric, aboliu algumas tradições, como o hábito de assassinar as esposas numa cerimónia solene. Muitos sussurram que a perda desses hábitos antigos está diretamente ligada ao declínio da civilização.

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Elric (comicvine)

Elric não só prossegue na senda do pai, como demonstra ser muito mais nobre e cortês do que aqueles que o rodeiam. É uma alma gentil, que muitas vezes restringe a sua própria natureza para respeitar os cânones sagrados da sua gente. É no meio dessa ambiguidade que Elric nada contra a corrente, reinando num meio-termo entre a sensatez e a tradição. A benevolência tantas vezes demonstrada, porém, não é vista com bons olhos por aqueles que o rodeiam.

Yyrkoon, o primo de Elric, deseja ardentemente o seu lugar. Se Elric é um homem debilitado, frequentemente doente e dependente de drogas para se reestabelecer, Yyrkoon é a face da Melniboné de antigamente. Um homem poderoso em truques e feitiçarias, cheio de cobiça, perversidade e recursos. Yyrkoon será capaz de mover montanhas para roubar o trono ao seu primo. Todavia, Elric não é ingénuo e muitas vezes revela-se mais matreiro que o seu parente.

Entre Yyrkoon e Elric está Cymoril. Cymoril é a irmã de Yyrkoon e a amada de Elric, que pretende desposar. Bela, frágil e consciente da sevícia do seu irmão, Cymoril é um arquétipo de donzela, capaz de deixar tudo pelo seu amor. Muitas vezes, porém, não consegue compreender a benevolência e maciez de comportamento de Elric em relação a Yyrkoon. Ambos sabem que ele pretende reclamar o trono para si, mas o Imperador é obstinado em nada fazer contra o primo, por uma única razão: gostar dele.

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Elric of Melnibone (io9 gizmodo)

A contenda

Os povos bárbaros dos Reinos Jovens vêm na fragilidade de Melniboné uma oportunidade, e avançam pelos mares numa tentativa épica de saque. Tais investidas são vistas pelos melnibonianos como mera diversão. Apesar de ser uma civilização em declínio, Melniboné ainda está bem defendida pelos seus labirintos, e mesmo os exércitos ainda são francamente superiores aos dos seus inimigos. Elric decide ele mesmo participar no combate e liderar um dos navios, ao lado do seu melhor amigo, Dyvim Tvar, o Senhor das Cavernas dos Dragões, e do primo Yyrkoon.

A batalha naval revela-se mais difícil do que imaginavam, mas ainda assim é favorável aos melniboneanos. Todavia, Elric é traído pela doença e longe das suas drogas vê-se ao alcance de Yyrkoon, que num golpe traiçoeiro atira Elric para o mar e vê-o a afogar-se. Yyrkoon regressa a Imrryr como novo Imperador, anunciando a morte de Elric, para desgosto de Cymoril. Ao chegar, no entanto, ao tão cobiçado trono, vê-se surpreendido por um fantasma. Elric está lá sentado.

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Yyrkoon (statueforum)

Elric foi salvo da morte por uma figura etérea chamada Rei Straasha, um velho amigo que governa sob os mares. Elric poupa a vida ao seu primo, obrigando-o a comer a carne de um dos seus lealistas, o capitão da guarda Valharik, como castigo. No entanto, Yyrkoon é um feiticeiro poderoso e acaba por fugir com o seu lacaio e uma centena de homens fiéis. Consigo, leva também Cymoril, o que move Elric a dar-lhe caça.

Desesperado, Elric é obrigado a convocar Arioch, um dos Senhores do Caos, que o ajuda mediante certas condições. Arioch representa tudo o que os seus ancestrais tanto prezavam, a crueldade sanguinária misturada com uma ardúcia vulpina. Com a ajuda do Rei Straasha, que lhe fornece um navio que navega por mares e terra, e com o seu amigo Dyvim Tvar, Elric avança por terra e por mar, até por fim encontrar Yyrkoon e fintar os seus truques e trapaças. Elric recupera Cymoril, mas tardiamente. Yyrkoon enfeitiçou-a, e para quebrar tal feitiço, precisa voltar a perseguir o seu primo, desta feita para uma dimensão de deuses e de horrores, onde as lendárias espadas Tormentífera e Enlutada esperam por eles para um despique épico.

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Cymoril e Elric (alexielapril em deviantart)
SINOPSE:

Finalmente em Portugal, uma das maiores sagas de sempre.

Chega a Portugal uma das obras mais emblemáticas da carreira do escritor britânico Michael Moorcock: Elric, o príncipe albino da ilha de Melniboné. Apenas uma das encarnações da saga do Campeão Eterno, Elric tornou-se um dos heróis mais famosos da fantasia épica. Decadência, paixão e aventura, são algumas das emoções que preenchem as páginas de Elric, Príncipe de Dragões. Michael Moorcock criou aqui um anti-herói que desafia as convenções generalizadas sobre o Bem e o Mal. Tendo como missão manter o equilíbrio entre Ordem e Caos, Elric tem provavelmente na sua própria espada o seu maior némesis. Um livro a não perder.

OPINIÃO:

Moorcock é um nome indiscutível para quem lê fantasia. A sua saga Elric, da qual Príncipe dos Dragões é o primeiro volume, foi influência para muitos dos melhores autores fantásticos das últimas décadas. Desde logo o protagonista, bem como o seu povo, são facilmente identificáveis. São os primos maus dos elfos de Tolkien, os irmãos dos ska de Vance, os pais dos Targaryen de Martin. São senhores de uma beleza etérea, reis entre os homens, donos de dragões, sediados numa ilha imensa, negros de coração. Dotados de uma profundidade emocional difícil de atingir e até de compreender.

Carregado de um lirismo poético, um ambiente impregnado de nostalgia e tragédia, mas também de esperança, Príncipe dos Dragões foi uma boa leitura. É um livro pequeno, que se lê numa tarde ou em dois ou três dias, para quem como eu só lê à noite. Apesar da profundidade psicológica dos seus personagens, não é um livro complexo. A trama é simples e fácil de perceber, com não mais que meia dúzia de personagens dignos de destaque.

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Elric (myconfinedspace)

Não li este livro com grandes expectativas, muito embora Michael Moorcock seja um notável no género. Elric está na linha de Conan, que embora seja uma das minhas maiores paixões literárias, não oferece grande desafio como nomes mais recentes do fantástico, o que é compreensível. O mundo evolui e os nomes superam-se. À época em que foi escrito, Elric of Melnibone é um livro tremendamente simples em prosa, mas complexo em moralidade. Uma das principais questões que este livro levanta é onde termina o certo e onde começa o errado, cuja resposta não é tão linear como se presume. Os juízos de valor perdem-se e as mentes mais bem definidas tornam-se geringonças quando as circunstâncias mudam.

A escrita de Moorcock encanta pela simplicidade, pormenorizando detalhes de uma forma invulgar, quase palpável, mas que não nos deixa submergir no mundo criado, mantendo-nos à margem, a assistir. Um pouco como a prosa de Tolkien ou Howard. Apesar de preferir largamente histórias mais complexas, que nos façam viver a trama mais intensamente, Elric não me desiludiu. Já esperava encontrar um livro com histórias clichés, tantos foram os autores que se inspiraram nestas narrativas, e o perfume a clássico que nomes como Lovecraft e Howard me incutem, mas encontrei também um épico simples de uma monumentalidade incrível. Fica ainda a sensação que tanto ficou por mostrar e por dizer, uma promessa poderosa que paira no ar para os próximos volumes.

Avaliação: 7/10

Elric (Saída de Emergência):

#1 Príncipe dos Dragões

#2 A Fortaleza da Pérola

#3 Os Mares do Destino

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5 thoughts on “Príncipe dos Dragões, Elric #1

  1. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #9 – Nuno Ferreira

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