Estou no Wattpad #16


Estou no Wattpad a publicar o 16.º capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, o meu livro de leitura online. No último capítulo, assistimos às maquinações de Bortoli pelo olhar de Empecilho, no momento em que os exércitos rezoli espalhavam o terror em Ccantia. Apesar das advertências e conselhos de Jupett Vance, Bortoli ordena a morte de uma das personagens principais desta trama. A partir de agora, nada será como antes.

CAPÍTULO DEZASSEIS: MASSACRE EM CCANTIA

“Encontrei Eduarda num dia terrível, cheio de relâmpagos, profecias e coisas piores. Dois tipos apostavam os seus parcos recursos sobre a tempestade do dia seguinte. Não eram muito espertos, talvez por isso foram os únicos homens a sul de Tavela a aceitar seguir-me por aquele deserto sem fim à vista. O oásis revelou-se ao cair da noite. Uma baía imensa, cheia de embarcações prenhes de remendos e com péssimas condições de calafetagem, atracadas à margem. Ainda assim, soube que não tinha escolha. Era um animal a agir por puro instinto, com apenas Apalasi em quem confiar. Via muitas cabeças ao longo da margem, de homens vivos e mortos, e sons que sugeriam amena cavaqueira, troça ou algum ritual esquisito. Enviei os meus dois seguidores como isca. Quando comecei a ouvir os gritos, esgueirei-me até à água, onde resisti à tentação de a beber. Fui até ao primeiro bote e desprendi-o da escora onde o prenderam. Um galeão pirata esperava por mim. Lancei um desafio aos céus e pedi aos deuses que me confundissem com um deles. Beijei o meu polegar da sorte. Quando me içaram uma corda, vi a morte no seu olhar. O homem que baixou o monóculo era o líder da Trupe da Morte, como contou logo que fui levado à sua presença. Avaliou-me. Desafiou-me para um duelo. Os relâmpagos tremeram diante do choque das nossas espadas. Lutei e perdi. Era ridículo pressupor isso. Ninguém me derrotava. Ninguém. Mas ele fê-lo, como faria uma e outra vez, caso nos voltássemos a defrontar. Derrotou-me, e para me castigar ainda mais, deixou-me viver.”

A mansão de “Averze” já não era um lugar seguro. Os homens às suas ordens entraram pelo escritório dentro, com olhares assustados e dedos a tremer nos cabos das armas. Um estouro fez-se ouvir quando um qualquer objeto atingiu a janela oriental e uma chuva de fragmentos de madeira se espalhou pelo pavimento. Merren “Anéis da Morte” Eduarda ergueu-se do seu assento quando um dos seus homens perguntou:

― O que fazemos?!

― Vamos embora daqui ― respondeu ele, sem humor.

O belíssimo jardim da mansão estava a arder. As plantas, outrora verdes e viçosas, encarquilhavam-se em tons alaranjados. Marovarola encolheu-se quando uma planta de caule comprido se desfez na sua direção. Língua de Ferro avançava atrás dele, com Eduarda e um grupo de guardas nos seus calcanhares.

― Uma toufelina! ― guinchou Marovarola, virando-se para Língua de Ferro. ― Já te contei o que esta planta…

― Sim ― disse Língua de Ferro, puxando-o por um braço. ― Cura diarreias.

Saíram do jardim de armas em punho. Língua de Ferro desembainhara Apalasi e segurava-a agora com as duas mãos. Marovarola exibia um revólver de freixo em cada mão e Eduarda um bacamarte mais longo, esculpido em cerejeira. Ambos mantinham as lâminas afiveladas à cintura. Foram surpreendidos ao atravessar a rua. Uma companhia de indígenas rezoli, de tochas em punho e expressões ameaçadoras, mudou a sua rota conquistadora ao avistarem o grupo, e avançaram para eles. As poucas roupas que traziam eram feitas de lã pura, e as armas pareciam rudimentares. Os guardas de Eduarda dispararam tiros certeiros na direção deles, e fumo evolou-se também das armas de Marovarola e Eduarda.

Isto é uma loucura, pensou Língua de Ferro.

sem-titulo
Batalha (lovelessdevotions em deviantart)

Vários indígenas tombaram para o lado, com feridas de bala nos corpos desnudos e jatos de sangue a espirrarem à sua volta. Mas eles eram demasiado numerosos. Continuavam a avançar e, muito embora o grupo de Língua de Ferro se enfiasse às arrecuas pela via ocidental, os homens de Bortoli pareciam estar espalhados por todo o lado. As armas de fogo precisavam ser recarregadas e não havia tempo para isso. Marovarola tinha os olhos cheios de horror quando colocou os revólveres no cinto, atrás das costas, e desembainhou o seu florete. Eduarda cerrou os dentes e atirou o bacamarte para o lado, desafivelando uma lâmina larga de trinta centímetros, que pôs a nu com um silvo.

Língua de Ferro sorriu com a ironia. Ele, a lutar ao lado de Anéis da Morte e Marovarola, era uma situação tremendamente improvável. E, no entanto, ali estava ele, de espada em punho, ao lado dos dois espadachins mais notáveis com quem já tinha tido a oportunidade de privar. Certamente resolveriam aquele problema sem grande dificuldade – trinta rezolis não eram oposição. Todavia, apareciam mais homens, rezolis mas também rhovianos, de todos os lados da rua. A sua testa franziu-se de apreensão.

A noite estava quente. Ou gelada. Não sabia dizer. Suores frios percorriam todo o seu corpo, a cada movimento. A sua carne enchia-se de calor com o sangue dos inimigos, a cada golpe certeiro. Os seus movimentos eram fluídos, animalescos, irracionais. Os únicos sons que ouvia eram o raspar do aço em madeira, os gritos dos moribundos e a terra a ranger sob os seus pés. O braço direito movia-se com leviandade da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. Exibia uma expressão ferina no rosto franzido. Rugidos terríveis jorravam dos seus lábios. Recuou diante de um rezoli de lança, para evitar a sua ponta aguçada a fogo. Com um estridular bárbaro, avançou para o adversário e abriu-lhe o ventre de um golpe. Os olhos do rezoli abriram-se muito quando sentiu as tripas a escorrerem-lhe pela pélvis. O sorriso de triunfo de Língua de Ferro, porém, morreu num segundo.

Três rezolis atiraram-se aos seus ombros. Um golpeou-o com uma adaga num braço, mas ele conseguiu esquivar-se e dobrar-se para a frente, obrigando os adversários a caírem com ele. Levou as mãos à terra e balançou-se para cima de novo, quebrando um queixo com um cotovelo. Desbaratou o segundo adversário com uma cabeçada potente e tinha já uma faca cravada no joelho quando largou Apalasi, cravando-a em pé na terra à sua frente, e partiu o pescoço do inimigo com as duas mãos.

Dentes cravaram-se no pescoço de um rhoviano. Com os olhos injetados de sangue e os cabelos azul-turquesa a levitarem como cortinas de seda, Língua de Ferro parecia um vampiro. Mordeu a jugular e cuspiu um pedaço de carne para o lado, enquanto um jato de sangue esguichava para o ombro do rhoviano enfraquecido. Língua de Ferro pontapeou os dois homens que se aproximaram das suas costas, quebrando lanças e patelas, voltou a segurar em Apalasi, rodou-a nas suas mãos com aparente leveza e mais sangue e gritos jorraram na noite.

Marovarola esquivava-se com uma perícia inusitada. Era veloz e leve, e a ponta do seu florete estava banhada de sangue. Perderam de vista os guardas chrygianos de Eduarda, restando somente um ccantiano que foi varado por uma comprida lança rezoli. Marovarola engoliu em seco e avançou, com a expressão atrapalhada de quem não queria hostilizar ninguém.

― Isto é tudo um terrível mal-entendido, senhores. Não somos todos amigos? Não me reconhecem? Sou Marovarola. Ma-ro-va-ro-la, imperador entre os pedintes. Ahh, raios, o amigo de índios. Cara pálida amigo? Não?

Os indígenas responderam-lhe com rosnidos pouco amigáveis. Quando um o segurou por um braço, Marovarola empurrou-o para cima dos outros e correu, tropeçando e utilizando os braços para se voltar a endireitar, passando entre as pernas de um rezoli aparvalhado até chegar perto de Merren “Anéis da Morte” Eduarda, que a peleja conduzira para leste.

Ao encontrar Eduarda, Marovarola ficou de queixo caído. Anéis da Morte estava de espada erguida, ereto sobre um monte de cadáveres. Um golpe aberto no seu peito abrira-lhe a veste e a ferida parecia vermelha e esponjosa. Eduarda moveu a espada num movimento ascendente, da esquerda para a direita, e com uma rapidez incrível decepou uma cabeça. Um único golpe. Marovarola olhou-o com orgulho, mas também com a certeza que, por muito bons que fossem, não tinham hipótese de sair dali vivos. Os inimigos jorravam, uns depois dos outros, mais e mais, de todos os lados, tentando queimá-los com as suas tochas em punho. Mario Bortoli via ali feita a sua justiça.

Uma ingratidão.

sem-titulo
Batalha (BrowsingFanArt em deviantart)

O relinchar de um cavalo atraiu atenções e dispersou vários rezoli e rhovianos. Era um garanhão syliano de grande envergadura, negro como um céu sem estrelas, à frente de uma carroça de mercador. Na condução do veículo estava um rapaz de longos cabelos louros, enquanto um sujeito velho e sujo disparava contra os homens de Bortoli com um longo bacamarte de dois canos. Língua de Ferro tinha a vista turva e sentia-se trôpego, mas foi o primeiro a reconhecer os seus salvadores.

Tayscar e Seji. Quando é que a piada termina? Não lhe bastava estar a lutar contra rezolis, ao lado de Marovarola e Eduarda, como também os homens que tinha deixado amarrados no esconderijo da Companhia dos Ossos o vinham salvar. Ainda que não lhe parecesse lógico, sabia não haver qualquer lógica quando tudo dava para o torto. Furou os surpreendidos rezolis com uma correria insana e atirou-se de ombros contra o espaldar da carruagem, caindo no seu interior. Ainda ouviu os gritos e rosnidos dos inimigos, assim como as vozes de Marovarola e Eduarda, ao subirem para a carruagem, instigando os seus salvadores a saírem dali rapidamente. Depois, perdeu a consciência.

Quando voltou a abrir os olhos, o cheiro a putrefação não lhe devolveu a confiança. Tinha golpes nas pernas e nos braços, dentadas nos ombros, o maxilar dorido. Ainda estava na carruagem. Eduarda puxou-o por um braço e colocou-o em volta do seu pescoço. Foi impelido a erguer-se. A noite era escura, mas estava iluminada por tochas. O odor a fumo e a óleo a arder não imperava sobre o doce perfume a carne morta. Estavam ainda em Ccantia, não havia dúvidas, mas noutro lugar. Ainda assim, haviam vários rezolis e rhovianos por ali, e o garanhão que conduzira a carruagem tinha sido decepado pela garupa.

Língua de Ferro segurou em Apalasi pelo punho e deslizou para fora da carruagem, amparado por Eduarda. Seji e Tayscar abriam caminho com espadas longas e adelgaçadas, seguidos por Marovarola, Eduarda e Língua de Ferro, na direção de uma estalagem. Um rezoli preparava-se para queimar Leidviges Valentina com o seu archote, quando Eduarda o silenciou com aço entre as costelas. Removeu a espada de imediato. Língua de Ferro apoiou-se no ombro de Eduarda e assentiu-lhe com a cabeça, dando a entender que conseguiria avançar sozinho.

Nessa tomada de consciência, viu Marovarola a medir forças com um rhoviano, espadeirando à esquerda e à direita. Um outro rhoviano assomou por trás, de adaga em punho, pronto para matar Marovarola pelas costas. Língua de Ferro avançou com uma fúria esmagadora, e sem dar hipótese ao inimigo, cortou-lhe um terço da cabeça com um único golpe de Apalasi. O pedaço da cabeça voou e o sangue foi varrido pelo vento. Marovarola venceu o seu inimigo e voltou-se para Língua de Ferro com altivez. Ao ver o homem morto aos seus pés, percebeu o que tinha acontecido.

― Salvaste-me a vida, Val?

Língua de Ferro afagou-lhe o ombro com um sorriso e coxeou para o interior da estalagem.

― Agradece-me depois, sim?

As surpresas, porém, não terminavam por ali. Ao entrar na estalagem, viu Tayscar e Seji a cochicharem com um rapaz. Uma figura familiar.

― Empecilho?

O jovem afastou os outros com um gesto e aproximou-se de Língua de Ferro com uma expressão séria. Colocou-lhe as mãos à frente dos olhos, para mostrar que lhe faltavam as pontas dos dedos.

― Parece-me que sim. Bortoli deixou-me aqui, uma vez que não deveria precisar de mim… para onde foi. Fui eu quem encontrou Tayscar e Seji e libertei-os.

Algo ali estava mal explicado. Virou-se para os dois salvadores; pareciam comprometidos, hesitantes.

― Por que razão vocês nos salvaram? Depois de eu ter morto Agravelli, de os ter deixado amarrados…

― Creio que isso não passa de um mal-entendido ― disse uma voz atrás de si. Eduarda. ― Eles salvaram-te porque estavas comigo. Estavas contra o nosso inimigo comum. Eles foram salvar-me, Valentina. Tayscar é meu discípulo, um dos membros mais promissores da guarda ccantiana. E Seji… bem, Seji pertence à velha guarda. Defende Ccantia acima de tudo.

sem-titulo
Guerreiro (Sina Pakzad Kasra em pinterest)

Marovarola estava de olho à janela, depois de ter fechado a porta. Língua de Ferro afastou Tayscar e Eduarda ao ver um cadáver caído sobre uma mesa. Aproximou-se, passo a passo, como se o corpo o chamasse para si. Eduarda pareceu sentir algo parecido e seguiu-o. O corpo nu e cinzento de Lucilla estava ali, a apodrecer. Anéis da Morte soltou um grito e caiu de joelhos. Língua de Ferro cerrou os dentes e sentiu as lágrimas a escorrerem pelas maçãs do rosto. Luce… este é o fim? Tudo o que fiz, tudo o que vivi, todos os lugares por onde andei, para acabar aqui? A minha Luce… Meteste-te com as pessoas erradas, meu amor… Desculpa-me. Desculpa-me. Desculpa-me. Mil vezes desculpa-me. Desculpa-me por não ter chegado a tempo. Por ter duvidado de ti, todo este tempo.

Merren Eduarda não era mais um venerável homem de negro, inexpugnável na sua aura bélica. Era um esposo viúvo, caído de joelhos, a soluçar, com os olhos suplicantes a rogar pragas e as mãos presas nos dedos moles do cadáver. E Língua de Ferro partilhava da sua dor. Os dois homens amavam aquela mulher, e não importava agora qual deles ela amara mais.

― Quem a matou? ― perguntou Língua de Ferro, ao virar-se para Empecilho com um olhar de aparência serena. Limpara as lágrimas do rosto antes de se voltar. Empecilho estremeceu diante daquele olhar.

― Bortoli ― respondeu depois de refletir. ― Foi Mario Bortoli quem a matou. Sim, foi ele.

Língua de Ferro deu alguns passos na sua direção, depois de lançar um último olhar ao cadáver. Aquele rosto macio, tão pálido, tão morto. A curva daqueles lábios, tão triste.

― Para onde é que ele foi? Para Chrygia?

Empecilho engoliu em seco. Sabia o que se esperava dele.

― Os exércitos começaram a marchar para lá. Vance Cego comanda-os. Mas Bortoli não… Bortoli disse que ia apanhar um comboio. Levou Ravella com ele. E uma diligência de rezolis. Pretende tomar os Poços, por alguma estranha razão.

Quem tomar os Poços, toma o Império, pensou Língua de Ferro, e virou-se ao sentir duas mãos nas suas costas. Eduarda, frio como um morto, com os olhos vermelhos de tanto chorar, disse-lhe:

― As minhas filhas, Leidviges. As minhas filhas…

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis

Anúncios

Comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s