O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1


Todas as histórias são verdadeiras – retorquiu Skarpi – mas esta aconteceu realmente.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Nome do Vento”, primeiro volume da série Crónica do Regicida

Patrick Rothfuss é já um nome sonante do panorama fantástico mundial, graças somente a dois livros publicados: os dois primeiros volumes da Crónica do Regicida. O Nome do Vento, o seu romance de estreia, lançou-o para o estrelato. Publicado em 2007, este fenómeno de vendas foi editado por cá em 2009, pela Edições ASA/1001 Mundos. Em 2011 foi publicado o segundo volume, O Medo do Homem Sábio, dividido no nosso país em dois livros, embora o terceiro e último volume da Crónica, Doors of Stone, não tenha previsão de lançamento.

Patrick mudou várias vezes de área de estudos enquanto frequentou a Universidade. Natural do Wisconsin, o autor de O Nome do Vento viveu dividido entre a engenharia química e a psicologia clínica, detalhe que se revela interessante e influência clara no percurso académico do seu personagem principal – Kvothe. Foi durante o seu tempo de estudos que Pat Rothfuss começou a desenvolver A Canção da Chama e do Trovão, o romance que viria a tornar-se a sua trilogia ainda inacabada, quando em 2002, um pequeno excerto lhe granjeou o prémio maior do concurso Writers of the Future. Foi o trampolim para que o seu livro fosse aceite e acabasse por se tornar O Nome do Vento, um dos mais vendidos pelo New York Times.

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Capa 1001 Mundos

O contexto

Os Quatro Cantos da Civilização são o mundo criado por Patrick Rothfuss. Apesar de não serem apresentados muitos pormenores sobre localizações nem dados importantes sobre o mundo, as cidades e os locais são descritos de forma densa e profunda. Trata-se de um mundo de inspiração medieval, monoteísta, onde a religião fundada em torno do deus Tehlu é um dos pilares basilares da sociedade, embora a política comungue de semelhante importância. Duques, condestáveis e outros aristocratas dividem poderes, em reverência ao rei, figura máxima que não chegamos a conhecer.

A moeda em vigor varia de terra em terra, sendo o talento aquela mais utilizada no decorrer da trama. Neste mundo ficcional, cada ano compreende oito meses e cada semana onze dias. O calendário sofreu várias alterações, o que resultou numa diferença de nomenclaturas atribuídas a cada dia da semana. O número sete tem um grande significado simbólico que é fomentado ao longo de toda a narrativa.

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Kvothe The Bloodless (Mario Teodosio em deviantart)

A identidade de Kote

O Nome do Vento apresenta-nos a Kote, um misterioso estalajadeiro de cabelo ruivo e olhos verdes, que não parece muito preocupado com a falta de freguesia na sua estalagem Pedra do Caminho. Os clientes são sempre os mesmos: o velho Cob, Graham, Jake, Shep e poucos mais. Era noite de caedes e o grupo de Cob contava histórias sobre o Grande Taborlin e o Chandrian, quando Carter, um habitué do estabelecimento surge completamente enlouquecido e cheio de sangue, após ter sido vítima de um ataque que vitimou a sua égua. A investida de uma aranha enorme, com lâminas onde seria suposto ter patas. Ninguém sabe que criatura é aquela. Ninguém, excepto Kote.

O estalajadeiro possui conhecimentos variados sobre demónios e criaturas invulgares, conhecimentos que alega resultarem de histórias ouvidas aqui e ali. O que nenhum daqueles homens desconfia é que Kote é muito mais do que parece. Kote é Kvothe, uma lenda viva. A verdade, só a sabe Bast, o seu criado e discípulo, um aprendiz, que se revela tão ou mais misterioso que o mestre. Aos olhos comuns, não passa de um garoto com um belo par de botas, mas quem o observa com atenção, percebe que Bast tem cascos em vez de pés, pois pertence a uma espécie de fadas e não é humano.

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Bast (kingkiller chronicle wikia)

Kote revela preocupação com a aparição do aranhiço e resolve ele mesmo pesquisar sobre o assunto, uma vez que a criatura em questão nunca surge sozinha. É numa das suas demandas que se cruza com um cronista na floresta, que havia sido assaltado no seu percurso. Apesar da dificuldade de comunicação inicial e do ceticismo do indivíduo, são atacados por aranhiços e Kote salva a vida ao redator, levando-o para a estalagem para cuidar dos seus ferimentos.

Esse homem é Devan Loches, mais conhecido como o Cronista, um homem de importância na corte e conhecido pelas reportagens e biografias sobre celebridades. Loches observa atentamente o estalajadeiro, vindo a perceber, pelas suas características marcantes, de quem se trata. O Cronista fica absorto ao perceber estar diante de Kvothe em pessoa, o Sem Sangue, o Regicida, aquele que ingressou na Universidade antes de ter idade para isso, da qual foi expulso. Uma vez desvendada a identidade de Kote, o Cronista desafia-o a contar-lhe a verdade sobre a sua história, ao que ele acede. A condição de Kvothe é simples: o homem terá de adiar os seus compromissos com a nobreza, que o levaram até ali, e ficar a ouvi-lo por três dias.

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Patrick Rothfuss e o seu menino (patrickrothfuss)

A infância de Kvothe

Sendo que o primeiro dia de narração corresponde à ação de O Nome do Vento, Kvothe inicia o relato da sua vida, jurando que nada dirá senão a verdade. Kvothe era um menino cheio de truques, com muita facilidade em aprender. Pertencia a uma trupe itinerante de Edema Ruh, uma estirpe de artistas. Aprendeu a tocar o alaúde e a desempenhar papéis teatrais muito novo, sempre com grande sucesso. Os pais, Arliden e Laurian, tinham uma relação especial e afetuosa, que incluía picardias dissimuladas e enviavam o filho para missões inúteis tendo em vista obter momentos de maior privacidade conjugal.

Certo dia encontraram um velho sábio chamado Abenthy, que Kvothe vê a chamar o vento para se livrar de um grupo inoportuno. Desde esse momento, Kvothe sabe que aquilo não é uma mera Simpatia – uma espécie de magia fácil, com uma ciência ligada à conexão entre materiais, que serve, por exemplo, para acender lâmpadas – mas algo mais sofisticado. O nome das coisas. O verdadeiro nome das coisas oferece o poder de as dominar.

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Kvothe em “The Calling” (Beth Sobel)

Kvothe influencia a trupe a incluir Abenthy no grupo, onde o velho se torna o primeiro professor de Kvothe. Parece ser, também, o primeiro a reparar com objetividade na facilidade de aprendizagem do menino, alertando os progenitores para essa evidência. Sub-repticiamente, Kvothe começa os estudos com Abenthy nas artes ocultas. Enquanto isso, os seus pais parecem obstinados em sorver informações sobre Lanre e o Chandrian de modo a compor a melhor canção de sempre. Tentam, então, unir fragmentos de informações ténues e encontrar verdade nelas, o que não é tarefa fácil, uma vez que se tratam de lendas locais, meros contos de fadas.

Numa dada localidade por onde passam, Abenthy acaba por encontrar emprego e despede-se do grupo, deixando com Kvothe somente um livro como orientação e recordação. A ânsia do rapaz em vir a frequentar a Universidade, que ganhara ao escutar uma conversa entre o mentor e os pais sobre o seu futuro, aumenta. Um dia, porém, todos os seus sonhos desmoronam-se. Quando regressa de mais uma das missões inúteis indicadas pelos seus pais, encontra-os mortos, assim como aos restantes membros da trupe. Encontra também os assassinos. Entre eles, um homem de longos cabelos brancos e olhos completamente negros, Cinder, e uma figura encapuzada, que dava pelo nome de Haliax. Fogueiras ardiam em tons azuis.

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Cinder (kingkiller chronicle wikia)

O Chandrian

O jovem Kvothe fugiu e sobreviveu, levando consigo somente o livro de Abenthy e o alaúde do pai. Sabia perfeitamente quem tinha morto os seus pais – o Chandrian, que as lendas diziam tratar-se de um grupo de sete (uma vez que o prefixo do termo significa sete) e cujo símbolo era, efetivamente, a chama azul. Mataram-nos porque os seus pais andavam em busca de informações para cantar a verdade sobre o grupo. O Chandrian não era só um mito rural, um conto de fadas. Kvothe descobrira da pior forma que era real. E soube também que se iria vingar, mais cedo ou mais tarde.

Foi como um maltrapilho que vagueou até à cidade de Tarbean. Uma cidade enorme, com uma zona alta para a nobreza e uma baixa frequentada por ladrões, pedintes e prostitutas. Kvothe chegou ali por acaso, foi espancado e viu o alaúde destruído, sendo obrigado a subsistir como mendigo e ladrão, a aprender rapidamente a não entrar na zona nobre, a evitar rixas e, de todas essas formas, a sobreviver. Escondido num esconderijo ou, posteriormente, num acolhimento para órfãos, Kvothe cresceu, sem nunca deixar de aprender, tornando-se bom em muitas atividades.

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Skarpi (kingkiller chronicle wikia)

Numa das suas incursões a uma taberna ouviu um homem chamado Skarpi a contar uma história sobre os Chandrian. Nessa história, Lanre era um herói que enlouqueceu após a morte da sua amada. Se inicialmente, ambos salvavam o reino com a sua ardileza e poderes, Lanre decidiu-se a arruiná-lo, uma vez que nada fazia sentido sem ela. Fora assim que os Amyr, aqueles que levavam a justiça de terra em terra, se lançaram na sua perseguição, e fora assim que Lanre se tornou Haliax, o líder dos Chandrian.

A história de Skarpi levantou muitas dúvidas em Kvothe, e a suspeita de que os Amyr já existiam no período anterior ao Império Aturano, o que refutava a crença de que eram originários de Atur. Quando, porém, Kvothe voltou a procurar Skarpi para recolher informações, o homem foi aprisionado por, alegadamente, falar demais. Ainda assim, deixou claro que tinha amigos na Igreja que o iriam salvar.

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Kvothe (Marc Simonetti)

A Universidade

Kvothe veio a sair de Tarbean à primeira oportunidade de rumar à tão almejada Universidade, onde poderia conhecer os nomes de todas as coisas. A tarefa não se revelou fácil. Na caravana que lhe serviu de boleia, travou conhecimento com Denna, uma bela e enigmática rapariga por quem se encantou. Parecia atrair a atenção de todos os homens, mas nunca ficava com nenhum por muito tempo. Kvothe acabou por se separar do grupo quando o caminho para a Universidade se tornou evidente. Afinal, aquele sempre fora o seu principal objetivo.

A admissão não foi fácil, mas os conhecimentos inusitados de Kvothe e a sua grande lábia foram um valente empurrão para ultrapassar as dificuldades. Assim, foi-lhe atribuída uma bolsa de dois talentos para sobreviver e ele ingressou na Universidade com menos idade do que seria possível, em regra. Alvo da constante observação dos professores, como o Reitor, Kilvin, Elxa Dal, Lorren, Hemme ou o estranho Elodin, Kvothe não deixou de causar sarilhos onde se meteu. Despertou a atenção da bela Felia, a amizade de Simmon, Willem e da misteriosa Auri, uma menina que vivia nos túneis sob a Universidade, e a aversão de Ambrose, o empertigado filho de um nobre, graças a quem viria a ser banido do Arquivo.

Kvothe viria também a ser chicoteado várias vezes, por contornar as regras rígidas da Universidade. Ali ganhou fama, nem sempre pelos melhores motivos, mas poucos foram os que não o admiraram. Foi, porém, numa cidade vizinha, Imre, que Kvothe encontrou soluções para os seus problemas, contraindo empréstimos com uma agiota chamada Devi, tocando em estalagens para ganhar dinheiro e foi também ali que reencontrou Denna, a mulher improvável, aquela com quem haveria de enfrentar um lagarto gigante, aquela por quem haveria de se apaixonar.

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Auri e Kvothe (deviantart)
SINOPSE:

Da infância como membro de uma família unida de nómadas Edema Ruh até à provação dos primeiros dias como aluno de magia numa universidade prestigiada, o humilde estalajadeiro Kvothe relata a história de como um rapaz desfavorecido pelo destino se torna um herói, um bardo, um mago e uma lenda. O primeiro romance de Rothfuss lança uma trilogia relatando não apenas a história da Humanidade, mas também a história de um mundo ameaçado por um mal cuja existência nega de forma desesperada. O autor explora o desenvolvimento de uma personalidade enquanto examina a relação entre a lenda e a sua verdade, a verdade que reside no coração das histórias. Contada de forma elegante e enriquecida com vislumbres de histórias futuras, esta “autobiografia” de um herói rica em detalhes é altamente recomendada para bibliotecas de qualquer tamanho.

OPINIÃO:

Dotado de uma escrita fluída e quase musical, Patrick Rothfuss elevou o género fantástico a um novo patamar com este O Nome do Vento. A narrativa é cativante, credível e intensa. Dessa forma, o autor faz-nos sentir na pele toda a tragédia do protagonista, sem nos fazer perder o foco na trama.

Com um sistema de magia científico, um background sem grandes explicações que quase parece real e uma história alucinante sobre superação, O Nome do Vento é uma obra-prima da literatura fantástica. Não me desagradava que todas as fantasias fossem assim. Não esperem cenários de guerra e batalhas empolgantes. Estamos num mundo de contos de fada, em que as fadas podem matar e os protagonistas sofrem espancamentos com alguma frequência.

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Kvothe em Tarbean (Matt Rhodes)

A História deste mundo é quase nebulosa, mas o véu é levantado pouco a pouco e o que se sabe é surpreendente. Patrick lança os mistérios, faz-nos ficar em suspenso, em suspenso, e deixa-nos assim. Vários mistérios são somados e as respostas são escassas, embora possamos encontrar inúmeros segredos e enigmas nas entrelinhas. O que, pessoalmente, delicia-me.

A partir de um dado momento na história, percebi o porquê de O Nome do Vento ser frequentemente comparado a Harry Potter. As amizades, inimizades e relações professor-aluno na Universidade são, de facto, semelhantes. Porém, a sensação com que fiquei ao ler o livro foi permanente: se Rowling escrevesse bem, Harry Potter seria assim. O que pode ser um pensamento algo injusto, tendo em vista que Potter é uma leitura bem mais juvenil e menos exigente.

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Kvothe (Lorenn Tyr)

Deixo um louvor para o rigor de Patrick quando trata a música e a ciência. A música é reverenciada neste livro como algo quase divino, fazendo-nos emocionar pela forma como é tratada no texto. Já a ciência, através da qual as magias são metodicamente definidas, revela mais do que audácia por parte do autor, revela conhecimento. Ele também é ótimo a tratar de relações humanas. Kvothe é um personagem em muitos, mas toda a ação gira à volta dele e tudo é bem explicado e detalhado. As mitologias surgem em sussurros ao ouvido do leitor, mas deixam uma marca permanente e geram uma curiosidade quase aflitiva.

Em suma, adorei o livro. Talvez o perfume a contos de fadas e a escola de magia o impeça de se tornar um dos meus preferidos, mas vou ler o segundo volume e esperar que o terceiro veja a luz do dia. E embora a edição portuguesa não seja a melhor, fica a minha recomendação.

Avaliação: 8/10

Crónica do Regicida (1001 Mundos):

#1 O Nome do Vento

#2 O Medo do Homem Sábio Vol. 1

#3 O Medo do Homem Sábio Vol. 2

#4 Doors of Stone (não publicado)

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5 thoughts on “O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1

  1. Olá!

    Que bela opinião! Muito bem!
    É das minhas histórias e personagens favoritas, em especial o Kvothe. Já li o segundo e o A música do Silêncio e aguardo desde há cerca de quatro anos pelo terceiro (desde a leitura do segundo!). O autor devia despachar-se a escrever o terceiro!

    Fico contente por teres gostado!

    Bjs e boas leituras

    1. Olá Lamora. Foi uma leitura muito misteriosa e agradável. Creio que o terceiro só não saiu por causa de uma tensão séria entre o Pat e a editora.
      Obrigado pela opinião, também tenho de ir ler e comentar a tua opinião ao Imperador dos Espinhos. Beijinho e boas leituras

  2. Viva,

    Subscrevo o comentário da Miss Lamora, gosto muito desta saga e sem duvida que escreveste uma excelente resenha, como habitual. A meu ver vai melhor nos livros seguintes 😉

    Abraço e boas leituras

  3. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #9 – Nuno Ferreira

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