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Lucilla morreu. Língua de Ferro e Merren “Anéis da Morte” Eduarda uniram-se em busca de vingança e agora o salteador mais famoso de Semboula está determinado em encontrar justiça pelas próprias mãos, perseguindo o comboio de onde Mario Bortoli partiu de Ccantia. Espero que gostem de mais um capítulo cheio de emoções protagonizado por Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer.

CAPÍTULO DEZOITO: COMBOIO PARA A MORTE

“Perdi os sentidos na margem do Rio Ava na manhã de um dia nebuloso, ao terceiro mês do ano de Ralhya. Quando acordei, não ouvi pássaros a cantar, não senti a maresia a escorrer pela minha testa ou o odor do sal marítimo. Estava envolto num lençol de areia, com formigueiros por todo o corpo. Tossi e afastei os grãos arenosos da testa e do nariz. Cambaleei até Apalasi, e forcei-me a vaguear por ali. Eu tinha a certeza que estava à beira de um golfo, não podia compreender de que forma fora empurrado para um deserto. A minha mente estava trôpega, quase tanto quanto os meus movimentos. Encontrei uma caravana umas dez horas depois. Estava a desfalecer de sede. A caravana pertencia a um mercador chamado Xispas, sujeito sardónico de tez morena e traços angulares, com uma cicatriz em forma de V na testa e um fio cheio de diamantes ao pescoço. Cuspiu-me para cima, ficou-me com a espada e forçou-me a contar de onde eu vinha, antes de me oferecer um odre de água. Disse-me para o guardar como um tesouro, pois seria a única água que eu veria enquanto caminhasse ao seu lado. Em troca, trabalhei para ele como burro de carga. Não tive direito a camelo e transportei mais rolos de peles e quinquilharias às costas do que qualquer outro. Acampamos ao cair da noite. A tenda de Xispas era a mais sumptuosa do acampamento, com uma tela pálida e macia. Pôs-me de guarda e proibiu-me de dormir. Nessa noite matei-o. Na manhã seguinte, ouvi os primeiros boatos de que os mares tinham desaparecido.”

Rolos de areia evolavam-se do horizonte, seguindo as regras impostas pelo vento. Língua de Ferro fitava pacientemente a linha-férrea, esperando alcançar o comboio de Mario Bortoli antes do anoitecer. Passou com a língua, dormente como cortiça, pelos lábios secos. Estava perto de Chrygia, podia sentir o cheiro das suas sarjetas imundas, mas ainda se encontrava nos desertos. O mundo é um deserto, pensou para si mesmo.

Acariciou o pelo de Hije com ternura e fê-lo avançar a jusante da linha ferrugenta e tortuosa. Com os punhos cerrados nas rédeas ásperas e um lenço carmesim sobre os lábios, para se defender da areia levadiça, cavalgou o diabo com uma fúria de titã. Estava preparado para entrar em guerra, mesmo sabendo que aquele era um novo tipo de guerra, uma guerra na qual a honra não tinha lugar.

Fechou as pálpebras ao sentir a areia a picar-lhe os olhos. Sentia o coração acelerado no peito, a bater ao ritmo de uma locomotiva, quando ouviu. Trruum Trruum. Serpenteou pelas cortinas de areia até avistar ao longe o comboio rudimentar, com as erupções de fumo a envolverem-se na areia. Com um grunhido animalesco, aumentou o ritmo de galope e avançou para o transporte, com a fome de vingança a vencer o auto-controlo.

Alcançou o veículo pouco depois.

Era uma composição de quatro carruagens em ferro, atreladas umas às outras, com uma locomotiva a vapor no formato de um bico de falcão. Vários frisos desenhavam-se na sua dianteira, distendendo-se pelas laterais. Língua de Ferro alcançou a lateral do veículo, mas não conseguiu distinguir nada no seu interior. Aproximou-se perigosamente da via-férrea, vendo a engrenagem das carruagens a provocar faúlhas no encontro com a linha.

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Locomotiva a vapor (railroad)

― Vamos! Vamos! ― gritou para Hije, fazendo o diabo avançar até aos ferros que ligavam a locomotiva às carruagens.

Por um momento, o comboio ganhou vantagem ao diabo, mas depressa voltou a alcançá-lo. Língua de Ferro aproveitou o balanço dado ao animal para saltar para a ligação de acesso entre a caldeira e a carruagem. As suas mãos pareceram ventosas sobre o ferro, ao fixar-se na lateral na carruagem e pontapear as ripas de madeira de uma janela, apenas para usar os pés como ganchos. Com os pés presos naquelas ripas, posicionou-se com dificuldade de modo a alcançar uma outra aba de madeira com as mãos. Balançou-a com força, para testar a resistência da mesma. Ao auferir o que pretendia, Língua de Ferro assobiou e viu Hije, que ficara para trás, a aproximar-se. Poderia ainda ser-lhe útil. Assentiu com a cabeça e o diabo voltou a distanciar-se, até que Língua de Ferro deu um puxão à grade de madeira e ela veio atrás de si, levando-o a cair para trás com o impulso. Os seus cabelos ficaram terrivelmente próximos da linha-férrea, mas Língua de Ferro parecia já estar preparado para isso. Deixou cair o pedaço de madeira pelo caminho. Com um grito, impeliu-se para cima e atirou-se para o interior da carruagem pela janela sem grade, desenganchando os pés de onde os mantinha seguros.

Com o troar da locomotiva a fazer-lhe lembrar uma tempestade de diabos, Língua de Ferro soprou para afastar os cabelos dos olhos e desembainhou Apalasi, pronto para enfrentar os súbditos de Mario Bortoli. Para sua surpresa, a carruagem estava vazia. Ou quase.

Ao fundo da carruagem, uma figura assomou de trás de uma cortina de cetim bege. Tinha um peitoral de ouro no peito nu, uns calções de caxemira debruados a ouro e umas sandálias. Tinha também um sorriso no rosto. Era Jupett Vance.

― Vance ― grunhiu Língua de Ferro, num quase sussurro.

― Valentina ― soprou por entre o par de lábios quase fechados. ― Estava à tua espera.

― Vim para matar Bortoli.

Erguer a espada pareceu sublinhar a evidência. Vance piscou-lhe o olho com uma pontada de sarcasmo.

― Eu sei. Foi por isso que viemos de comboio. Foi por isso que eles saíram no terceiro apeadeiro. Deixamos rasto para que nos perseguisses. Bortoli indicou-me que te matasse quando chegasses ao comboio.

Língua de Ferro suspirou pesadamente, com frustração. Baixou a espada.

― Ele assassinou Lucilla.

Vance sorriu.

― Disse ao rapaz que iríamos rumar aos Poços na esperança de que caísses na mentira…

― Subestimas a minha inteligência ― disse Língua de Ferra. ― Não há via-férrea para os Poços, apenas pequenas interseções que chegam lá perto. E uma via estrita a vagões de mercadorias que fazem transportar as bilhas de água. Porquê?

Os olhos alvos de Vance pareceram luzir por um momento.

― Esperei que fosse o suficiente. Os Poços levar-te-ão ao coração de Chrygia. Levar-te-ão ao poder. A essência irá utilizar-te para devolver ao mundo a sua chama. Para reconhecê-la. Reverenciá-la.

― A tua amiga essência parece-me mais uma entidade a tentar reclamar o lugar dos deuses que matou.

Vance pareceu hesitar.

― Se colocas a situação nesses moldes, sim. Estamos a viver um período conturbado, não o podes negar. Um período de transição. A entidade que represento não é um deus, mas algo que já aqui estava antes do advento deles. Algo que sempre aqui esteve. Algo que não podes compreender ainda. Algo superior. Uma força que pode trabalhar em favor dos homens se eles estiverem dispostos a cooperar. Ensinar-te-ei a Língua Franca se te vergares à sua evidente superioridade. Há um preço a pagar por aquilo que tenho a oferecer-te.

Língua de Ferro lançou um rugido felino e cerrou os dentes. Descreveu um arco com a espada.

― Quero mais que a tua essência se deite com os porcos. Onde está Bortoli? Vou arrancar-lhe a cabeça e dá-la de comer a Hije.

Vance abriu o rosto numa expressão bem-humorada.

― Fui eu quem matou Lucilla. ― Uma nuvem de ódio perpassou pelo olhar de Língua de Ferro. Saliva espumosa brotou do canto do seu lábio. ― Bortoli deu a ordem e tentei convencê-lo a mantê-la viva, mas Allen insistiu com ele. Parecia temer que ela revelasse algo sobre os seus segredos. É um tipo inquietante, aquele patrício. De qualquer forma, fui eu a mão que empurrou a adaga pelos miolos.

― Matá-los-ei a todos, então ― grunhiu Língua de Ferro com um esgar azedo.

Vance assentiu e desapareceu misteriosamente por um compartimento. Língua de Ferro seguiu-o e viu-o segurar numa espada antes de desaparecer por uma janela. O comboio avançava ao seu ritmo regular quando chegou ao orifício aberto e percebeu que Vance escalava o comboio para o tejadilho. Com uma vontade louca de fazer justiça à sua consciência, Língua de Ferro fez o mesmo.

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Silchas Ruin de Malazan (deathris em deviantart)

Encontraram-se acima do comboio. Língua de Ferro cambaleou e tentou manter-se em pé com as oscilações da carruagem, enquanto Vance o parecia esperar com estabilidade, de espada em riste. Apalasi pareceu demolidora quando Língua de Ferro atacou num movimento de cima para baixo, em arco. Vance, porém, deslizou para trás como por magia, evitando o movimento. Essa perícia singular apenas despertou mais ódio em Língua de Ferro, inflamado como piche a arder.

Avançou em passos largos para Vance, tentando esconder de si próprio que era impossível vencê-lo. A espada do homem calvo parou um novo ataque com facilidade, e quando Língua de Ferro rodopiou sobre si próprio na tentativa de decapitar o inimigo, uma espécie de barreira invisível ativou-se entre os dois sujeitos. Vance soltou uma gargalhada estridente, que se elevou acima dos sons tonitruantes do comboio.

― O que pensas fazer comigo, Leidviges Valentina? ― perguntou Vance. ― Podes tentar atacar-me até as forças te faltarem, ou renderes-te às evidências. Vamos lá, qual é a tua escolha? O Fluído está definido. O que o contraria embaraça-te. Deixa-te arrebatar pela verdade do Verbo, Valentina. Deixa-te soçobrar nesse orgulho e vê. Vê o que está à tua frente pela primeira vez nessa tua vida nublada.

Língua de Ferro enrugou a testa.

O que é que eu posso fazer? Este homem matou Luce…

― És um cretino ― grunhiu Língua de Ferro, arquejante.

― Tu também.

― Posso não te conseguir matar, mas não me vou vergar à tua vontade. Não serei um instrumento teu.

― Claro que não ― respondeu Vance com um tom irónico. ― Assim como eu, serás um instrumento da essência. Ora, Valentina, Lucilla era só uma mulher. Uma mulher que te usou quando quis e como quis, em seu proveito. Uma mulher como poucas, talvez, mas teve dois rebentos de um outro homem. A tua sede de vingança é assim tão grande que esqueças tudo isso?

― Eu não esqueço ― disse Língua de Ferro, lacónico.

― Não?

― Simplesmente, não importa mais. Eu amava-a, e ela está morta.

― Assim como tu estarás, se te meteres numa guerra que não te pertence.

― Como assim?

― Os Poços ― gritou Vance, para se fazer ouvir. ― Os Poços são as portas para o Império. Conquista-os e terás o Império.

― Eu não…

― Podes não querer o Império, mas se não o reclamares para ti, iniciar-se-á uma guerra entre Mario Bortoli e Sander Camilli. Tens a certeza que queres os destinos de Semboula na mão de um deles?

― Ainda há Eduarda.

Vance meneou negativamente a cabeça.

― Eduarda morrerá nos Poços. ― A sua voz pareceu subitamente ribombante, como se viesse dos céus. Como um trovão. ― E as filhas de Lucilla também, se nada fizeres quanto a isso. O teu lugar não é aqui, Valentina. A tua vingança virá, se jogares bem o jogo da glória. És mais que um peão, meu velho. És a essência reencarnada. Um deus em forma de homem. Um campeão de antanho ressurgido das brumas. O vento sopra, limita-te a seguir o percurso em que ele te seja favorável. A vingança virá no caminho, asseguro-te.

― Não acredito nas suas palavras, cavalheiro ― grunhiu Língua de Ferro.

Vance Cego sorriu. Deixou cair a sua espada e aproximou-se do salteador. Cortinas de areia enleavam-se à sua volta.

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Eshonai de Stormlight Archive (stormlight archive wikia)

― Quando a essência quiser, acreditarás. Um dia, Valentina, irei morrer. É o que eu te juro. ― Com essas palavras, atirou Língua de Ferro para fora do comboio. Sentiu a surpresa e a adrenalina a misturarem-se quando deixou de ver e deixou de respirar.

Língua de Ferro acordou no deserto, com a língua de Hije a percorrer-lhe a face esquerda. Abriu os olhos, meio incerto se tivera sonhado ou vivido aquilo, mas ao ver Apalasi cravada na areia ao seu lado, percebeu que fora real. Estava cheio de sede. As palavras de Vance não lhe saíam da cabeça. Quando a essência quiser, acreditarás. Um dia, Valentina, irei morrer. É o que eu te juro. Quanta verdade existiria nessas palavras? Quanto podia confiar em Vance?

Sempre fora um cético, um pragmático, um homem raso. Nunca sequer fora de perder muito tempo em pensar na humanidade dos deuses, na sua existência enquanto seres pensantes e viventes, e sempre os encarara como algo abstrato, intemporal e distante. Agora sentia estar a lidar com algo mais permanente e agitado que deuses. Algo adormecido que agora parecia acordar, e pretendia usá-lo como marioneta para reclamar um lugar supremo no panteão. Vance era outro instrumento, se o que ele dizia era verdade. Mas, por alguma razão, jogar o jogo deles era a única alternativa que lhe restava. Jupett Vance já lhe provara por várias vezes que mexia com algo poderoso, e não lhe parecia francamente que fossem meras magias negras, como as danças da morte de Nefos ou os pauzinhos negros das tribos ruli. Vance era um profeta, alguém que fora escolhido por um ser superior para determinados fins. Língua de Ferro era o homem certo no sítio certo. Outro instrumento.

― Vou fazer o que queres, Vance ― disse para si mesmo, sentado num montículo de areia, a observar a sua espada e a afagar o focinho de Hije. ― Depois, voltarei para te matar.

Inspirou fundo o ar pejado de areia. Doeu, mas também lhe deu um prazer renovado. Os objetivos ficavam mais claros na sua mente. Tinha um guião a desempenhar e não ia deixar ninguém desiludido. Dezoito horas depois, Língua de Ferro chegou aos Poços.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito

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