O Diário do Meu Pai


E quanto ao meu pai… Hoje só me lembro da sua silhueta, de costas, a trabalhar em silêncio.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Diário do Meu Pai” (Formato BD)

O Diário do Meu Pai é uma banda-desenhada publicada pela Levoir em colaboração com o Jornal Público na famigerada Colecção Novela Gráfica, em 2015. Da autoria do renomeado autor Jiro Taniguchi, falecido em fevereiro deste ano, o livro é um hino ao saudosimo e ao amadurecimento.

Jiro Taniguchi foi um dos mais célebres autores de banda-desenhada japonesa. Depois de um início de vida profissional como empregado de escritório, começou a coligir os primeiros desenhos, influenciado pela cultura francesa no género. A partir do trabalho de Jean Girou (Moebius), Taniguchi criou a série Ícaro, com que viria a chamar a atenção. Foi o vencedor dos prémios Osamu Tezuka em 1997, Shogakukan em 2003 e do prestigiado Festival de Angoulême por duas vezes, em 2003 e em 2005.

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Prancha Levoir / Público

O regresso a casa

A morte do pai leva Yoichi Yamashita, um designer a residir em Tóquio, a regressar à terra natal, francamente empurrado pela esposa. Imbuído de sentimentos antagónicos, Yoichi vai revelando, pouco a pouco, os pormenores complexos da sua infância e da relação difícil com o progenitor. As primeiras memórias são escassas, mas a distância do pai é uma constante. Obstinadamente dedicado ao trabalho na barbearia, o seu pai parece uma figura fria e censurável, mas à medida que Yoichi vai falando com outras pessoas e registando as homenagens durante o funeral, vai tirando outras ilações.

O regresso a Tottori transforma-se numa avalanche de recordações. A mãe era a figura afetuosa na vida de Yoichi, mas o casamento idílico modificou-se e ela acabou por abandoná-los. Se, numa fase preambular, a sua felicidade era mantida pela alegria constante da mãe, as atitudes egoístas da mesma vieram a dar outros contornos à visão que tinha da vida conjugal dos progenitores. E quando a mãe os deixa, a mente de Yoichi é levada a culpabilizar o pai e a sua personalidade pelo ocorrido.

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Prancha Levoir / Público

A mudança ocorre

Vários pormenores são revividos pela mente nostálgica de Yoichi. Um grande incêndio que os deixou na penúria, a afeição ternurenta por um cão, a austeridade do pai sempre presente, mesmo quando uma nova relação amorosa nasce entre o progenitor e outra mulher, até ao consequente distanciamento de Yoichi. Da infância à idade adulta, o protagonista da história vai-se indignando com o comportamento do pai, até à cisão total.

Sem manter contacto há vários anos, Yoichi é assim assoberbado por uma tempestade de informações que o levam a construir uma nova visão sobre o pai. Afinal, tudo o que testemunhara foram fragmentos soltos de uma vida, de um propósito, de uma personalidade que, descobre agora, não conhecer nem um pouco. O regresso a Tottori muda assim, por completo, a sua vida.

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Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Nascido em 1947 em Tottori, no Japão, Jiro Taniguchi começou a sua vida profissional como empregado de escritório, até descobrir que aquilo que queria realmente fazer era desenhar. Nos inícios dos anos 70, começou a publicar os seus trabalhos em diversas revistas japonesas, dando início a uma carreira sólida e prestigiada. Grande conhecedor da BD franco-belga e admirador confesso de autores como Moebius, Schuiten e Tito, Taniguchi, que já desenhou um argumento de Moebius, colaborou com Boilet e Peeters em Tokio est mon Jardin, foi o único autor japonês a ganhar dois prémios em Angoulême, o maior Festival de BD europeu, que lhe dedicou uma grande exposição em 2015.
Em O Diário do meu Pai, Taniguchi conta-nos a história de Yoichi Yamashita um designer que vive em Tóquio e regressa a Tottori, a sua terra natal, depois de uma longa ausência, para o funeral do seu pai. Um regresso às suas raízes, que o leva a evocar a infância e a perceber finalmente o verdadeiro motivo por que o pai abandonou a família.


Taniguchi queria contar uma história que tivesse a sua terra natal, Tottori, como cenário, mas, como refere numa entrevista a Benoit Peeters: “quando me pus a reflectir na história, apercebi-me que, de facto, não sabia quase nada sobre o meu pai. Imaginei então uma personagem que regressa à sua terra natal para descobrir quem era verdadeiramente o seu pai. Comecei a fazer as pesquisas, voltei a Tottori para recolher documentação e aos poucos, a história nasceu (…) A história é inventada, mas os sentimentos e o espírito da história resultam da minha experiência pessoal. Tinha em relação ao meu pai o mesmo tipo de sentimentos que estão descritos no livro. No fundo, durante a minha juventude, tinha a ideia que não queria ser como ele. Achava que a vida do meu pai não era uma vida interessante. Mas depois, descobri que afinal não era bem assim, e é isso mesmo que tento transmitir neste livro”.
Não sendo a primeira vez que os leitores portugueses têm oportunidade de descobrir o trabalho de Taniguchi, pois O Homem que Caminha foi editado em 2005 na Série Ouro da Colecção Clássicos da Banda Desenhada, foi preciso esperar 10 anos para o poder voltar a ler novamente em português, mas desta vez numa edição em capa dura, traduzida directamente do japonês. Também por isso, valeu a pena a espera!

OPINIÃO:

Cativante, nostálgico e introspetivo, O Diário do Meu Pai de Jiro Taniguchi é uma mais valia em qualquer estante. Cheio de referências sentimentais, este livro pode ser visto como autobiográfico, conforme o autor confirmou, ainda que os personagens sejam ficcionais.

De forma lenta e de digestão demorada, Taniguchi apresenta uma narrativa cadenciada de belo efeito, não só estrutural mas acima de tudo emocional. De facto, O Diário do Meu Pai evoca a infância e a forma como todos nós mudamos a capacidade de compreender as situações à medida que crescemos. Não é uma leitura doce ou benevolente, mas um relato cru e austero sobre a ingratidão da vida, as dificuldades porque cada um de nós é obrigado a passar e acima de tudo um aprendizado sobre o ser humano e a frugalidade das idiossincrasias.

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Prancha Levoir / Público

O estilo próprio de Taniguchi revela neste seu regresso às origens a inspiração francesa que pautou o seu trabalho. Embora o enalteça por ser um dado adquirido do autor e não por ser um expert em BD, conheço o suficiente dos estilos franceses e japoneses para avalizar a identidade imprimida no trabalho de Taniguchi. Somos apresentados a um Japão nostálgico que podia ser o berço de qualquer um de nós.

A simplicidade do desenho é outro dos motivos de destaque. É a singeleza de traço e a expressividade do trabalho a carvão que enriquecem o álbum. Sem grandes enquadramentos, O Diário do Meu Pai vale acima de tudo pela mensagem e pelo emocional, assim como pelo tom lúgubre que acompanha, página a página, a operação de entendimento do protagonista.

Avaliação: 8/10

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