Terra de Sonhos


E foi assim que o Tam se tornou verdadeiramente num amigo inseparável de nós os dois.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Terra de Sonhos” (Formato BD)

Depois de V de Vingança, o segundo álbum da Colecção Novela Gráfica 2016 da Levoir em colaboração com o Jornal Público foi o livro Terra de Sonhos de Jiro Taniguchi, autor que já tinha sido publicado pela coleção de 2015 com O Diário do Meu Pai. Trata-se de uma banda-desenhada de contornos ternos que enaltece o amor pelos animais de estimação e por aqueles que nos rodeiam.

Falecido este ano, Taniguchi foi o único autor japonês a ganhar dois prémios, primeiro em 2003, como melhor argumentista, e em 2005, como melhor desenhador, no maior Festival de BD europeu, o de Angoulême, o que lhe valeu uma homenagem em 2015. Por cá, e também em 2015, venceu o Prémio Clássicos da Nona Arte do Festival AMADORA BD pelo álbum O Diário do meu Pai, edição da Levoir/Público.

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Capa Levoir/Público

Ter um cão

Terra de Sonho apresenta, sob a forma de cinco histórias curtas que se interligam, a história de um casal nipónico de classe média que lida com o declínio natural do seu animal de estimação, um cão que os acompanhava há quinze anos. Sem filhos, os dois transportaram todo o afeto para o seu velho amigo, sendo também obrigados a lidar com a velhice do mesmo e a trabalhar para atenuar as dores do fim.

Divididos entre ajudá-lo a morrer sem sofrimento e em prolongar a dor do fim para o manter vivo, este casal é obrigado a enfrentar a truculência da doença e a aceitar os limites fisiológicos do animal. Assim sendo, têm de lidar com o seu próprio sofrimento e com a dor da perda, que se revela bastante cruel.

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Prancha Levoir/Público

Uma nova oportunidade

O momento de luto é doloroso e o casal jura não voltar a apegar-se a nenhum animal, mas essa convicção é ultrapassada quando encontram uma gata persa sem dono, que ainda por cima se encontra grávida. Eles aceitam ficar com uma cria, mas sentem um novo debate moral e não são capazes de separar a mãe dos rebentos, acabando por ficar com os três gatos.

A nova família revela-se a companhia perfeita para a sua sobrinha, que vem passar com eles o verão. Akiko é uma menina que se refugia em casa dos tios para fugir à revolução na sua casa. O pai morreu e a mãe encontrou um novo amor, que a menina não vê com bons olhos. É ali que ela encontra conforto e ternura, partilhando o gosto pelo basebol e pelos animais.

O último conto, A Terra Prometida, desvincula-se da história desta família, apresentando Kawamura Keisuke, um alpinista que fez uma promessa à esposa, de quem espera um bebé. Preocupada com o perigo das montanhas, fê-lo prometer que abandonava o desporto. Kawamura cumpre o prometido, mas é-lhe difícil esquecer a adrenalina do alpinismo. Uma história de caráter espiritual e alegórico, sobre o ultrapassar de obstáculos e a necessidade do homem em definir objetivos.

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Prancha Levoir/Público
SINOPSE:

Jiro Taniguchi começou a sua vida profissional como empregado de escritório, até descobrir que o que queria realmente fazer era desenhar. No início dos anos 70 irá descobrir a BD europeia, que o influenciará durante o resto da sua carreira, cada vez mais orientada para temas quotidianos. Taniguchi foi o único autor japonês a ganhar dois prémios em Angoulême – em 2003 como melhor argumentista e em 2005 como melhor desenhador -, o maior Festival de BD europeu, que lhe dedicou uma grande exposição em 2015.

Em 2015, este autor foi galardoado no Festival AMADORA BD pela edição da Levoir e do Público do livro, “Diário do meu Pai” com o Prémio Clássicos da Nona Arte.

Ao longo de histórias impregnadas da observação do quotidiano, Terra de Sonhos mergulha-nos na realidade das emoções humanas: a morte de um cão e a tristeza que ela provoca, o nascimento de uma ninhada de gatos, a chegada de uma jovem sobrinha que fugiu de casa, os sonhos que um alpinista abandonou a troco de uma família… Relatos da felicidade e da melancolia simples da vida como ela é.

OPINIÃO:

Belo como muito do que é triste, Terra de Sonhos é um relato profundo e intenso dos paradoxos inerentes à natureza humana, dos seus sentimentos e emoções. A ternura e a melancolia permeiam a narrativa com suavidade, enquanto os debates morais e as vicissitudes da maturidade dão voz às interrogações do Homem enquanto ser errante, enquanto aprendiz da vida. 

Jiro Taniguchi leva-nos a pensar. A pensar na efemeridade dos que nos são próximos, a pensar que nem sempre estamos certos, nem devemos estar, que o certo e o errado são por vezes uma ilusão, que todos estamos sujeitos à encruzilhada, onde o tato é determinante mas nem ele nos permite escolher uma alternativa livre de sofrimento. Todas as escolhas carregam consigo um preço, e ser adulto é perceber que não se pode fugir a ele.

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Prancha Levoir/Público

Profunda, fascinante e simples, a narrativa de Taniguchi conquista pela maturidade dos dilemas apresentados, pela maciez da forma como os apresenta, pelo perfume nipónico dos seus personagens e pela complexidade disfarçada de temas quotidianos que ondulam ao sabor das ações.

O traço é vigoroso e simples, ao mesmo tempo que espelha na perfeição o perfil dos personagens, a ternura de gestos singelos que podem, aqui e ali, erradamente, ser tomados por frugais. É na arte que Taniguchi revela o esplendor da sua obra e o cadenciado de um relato introspetivo que, muitas vezes, torna-se uma conversa do leitor consigo mesmo. Gostei mais de O Diário do Meu Pai, mas este é mais um álbum recomendadíssimo.

Avaliação: 8/10

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2 thoughts on “Terra de Sonhos

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