Resenha: Presas Fáceis


Manda um polícia à paisana, a ver se alguém reparou no puto das pizzas ou viu alguém a abrir a caixa da moto…

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Presas Fáceis” (Formato BD)

Conhecido pelos trabalhos de notória crítica social, Miguelanxo Prado é um argumentista e ilustrador galego que usa o absurdo e o bizarro para caricaturar situações problemáticas do mundo moderno. Com trabalhos por todo o mundo, foi com naturalidade que a sua participação em Sandman de Neil Gaiman e no design da animação Men in Black se tornaram nos maiores destaques, pela repercussão mediática dos mesmos.

Ainda assim, são obras como O Manancial da Noite, Fragmentos da Enciclopédia Délfica e Tangências que definiram o estilo de Miguelanxo Prado. E com Traços de Giz arrebatou vários prémios em 1994, como o prémio de Melhor Álbum Estrangeiro no famoso Festival de Angoulême, que já havia ganho em 1991 com Manuel Montano. A sua obra Presas Fáceis foi publicada no nosso país o ano passado, na Colecção Novela Gráfica da Levoir em colaboração com o Jornal Público.

Sem Título
Capa Levoir / Público

Presas Fáceis

A burla é o tema central de Presas Fáceis. Se o gestor bancário é uma figura de confiança para a faixa etária mais elevada, principalmente em zonas mais isoladas, este pode também tornar-se perigoso pelo poder a que tem acesso. A manietação das classes menos escolarizadas para benefício de grupos financeiros torna-se um problema difícil de resolver.

A narrativa acompanha a investigação policial dos inspetores Olga Tabares e Carlos Sotillo, na peugada da verdade sobre os homicídios suspeitos de várias pessoas ligadas à banca galega. Tal perseguição vem, no entanto, trazer um embaraçoso conflito moral. E isso porque o contrato social que deriva da Revolução Francesa veio restringir a defesa dos cidadãos quando isso prejudica os grandes centros financeiros. Assim, a paz social é colocada em cheque e o debate em torno dos direitos e deveres de cada um toma proporções gigantescas. Por vezes, a lei não pode agir. Por vezes, a única solução é fazer justiça pelas próprias mãos.

Sem Título
Prancha Levoir / Público

Após o suicídio de um casal de idosos, sucede-se uma sequência de homicídios e a dupla de inspetores procura juntar as peças do puzzle, percebendo que as descobertas decorrentes das suas investigações revelam os conflitos amargos do dever profissional e dos próprios interesses pessoais das vítimas. A pergunta que se impõe é: quem tem razão? Quem é o detentor da moral? As vítimas ou aqueles que viram no crime a sua desesperada alternativa para fazer justiça?

Uma inspetora resoluta a desempenhar o seu papel de forma isenta depara-se com um cenário de contundente crise social, atolada em debates morais e com um sentido prático determinado em chegar a uma resolução minimamente justa. O seu lado pessoal entra em conflito com o profissional. Latente está a sensação de que o verdadeiro interruptor de todas as tragédias foi a crise financeira de 2008.

Sem Título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Nascido na Galiza, Miguelanxo Prado é um dos maiores autores de banda desenhada espanhola. Começa a sua carreira em fanzines galegos em 1979, quando ainda estudava para ser arquitecto. Depois do sucesso dos seus primeiros álbuns em Espanha, Prado atingiria a consagração em 1994, ano em que Traços de Giz, uma das suas obras mais conhecidas, vence vários prémios em França, incluindo o de Angoulême. Detentor de um traço notável, Prado é também considerado como um dos mais originais argumentistas actuais.

Tendo como pano de fundo a crise actual, por entre as indemnizações milionárias a gestores e políticos que levaram um país à falência e o desespero dos cidadãos comuns que sofrem as consequências da fraude bancária, uma sucessão de homicídios de banqueiros lança dois polícias numa investigação que se tornará num verdadeiro thriller. Uma história de vingança que gira à volta dos temas mais recentes: os despejos, a corrupção e a impunidade.

OPINIÃO:

Imbuído de uma carga crítica contundente e dilacerante, Miguelanxo Prado justifica, neste álbum, o porquê de ser considerado um dos mais influentes autores de BD vivos, no que diz respeito às matérias sociais. Sem uma pontada de humor, Presas Fáceis revela a ironia da situação no próprio contexto apresentado, levando uma dupla de polícias a vasculhar a fundo a vida de idosos para descobrir uma série de crimes. Prado invoca o estado social como a verdadeira ironia do livro.

Com um texto profundamente reflexivo e catalisador de debates, o autor galego maravilha com vários jogos de sentidos profundamente encastrados na sua obra, desnudando-a como uma alegoria sobre o ser moderno, sobre a maturidade apreendida, sobre a falta de parcialidade ou de justiça nas mais variadas circunstâncias da vida. Em jeito de denúncia, somos apresentados a um relato tão absurdo como as situações mais corriqueiras da nossa realidade. A verdade está ao virar da esquina.

Sem Título
Prancha Levoir / Público

Mais que uma crítica social, Presas Fáceis é também um policial, protagonizado por uma mulher de personalidade forte e insurgente. O ritmo narrativo começa lento, vindo a aumentar de intensidade à medida que os acontecimentos se sucedem. As revelações surgem nas entrelinhas, sem necessitarem de explicações ou de relatos minuciosos. De uma forma coesa e fluída.

Se os exageros ou as minúcias foram claramente dispensáveis na narrativa, fazendo com que ela funcione na perfeição pela realidade e claridade que enceta, o tom sombrio e cinzento dos desenhos, acompanhado pelo traço forte e percetível do autor, vêm oferecer um álbum rico a todos os níveis. Mais uma excelente aposta da Levoir e da sua Colecção Novela Gráfica.

Avaliação: 8/10

Advertisements

feedback

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s