Estive a Ler: A Dança das Andorinhas


Não te devias ter preocupado, sabias que estávamos no escritório!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Dança das Andorinhas” (Formato BD)

Seguindo o estilo definido e elogiado de Marjane Satrapi, em Persépolis, a autora libanesa Zeina Abirached surpreendeu o mundo com este A Dança das Andorinhas – Morrer, Partir, Regressar. Galardoada com o Prémio Face/Vozes de França do Pen American Center, a autora foi nomeada com este livro para os prémios de Angoûleme em 2008, que viu tornar-se um sucesso em França e editado em mais de 10 países. A Dança das Andorinhas foi publicada pela Cambourakis em 2007 e chegou ao nosso país o ano passado, incluída na Colecção Novela Gráfica, pelas mãos da parceria Levoir/Público, que pela primeira vez publicaria uma mulher. A tradução é de Carlos Xavier.

Natural de Beirute, onde nasceu em 1981, a autora estudou na Academia Libanesa das Belas Artes, onde viria a desenvolver o seu gosto pelo desenho gráfico e pelo trabalho em preto e branco, que a caracteriza. Em 2002 ganhou o prémio do International Comic Book Festival de Beirute com a sua primeira novela gráfica, Beyrouth- Catharsis. Mudou-se para Paris em 2004 e dois anos depois lançou duas novelas gráficas e uma curta-metragem, Moutons, que foi nomeada no Festival Internacional de Teerão. Foi quando se mudou para Paris, onde a cultura da BD está profundamente enraizada, que deu maior ênfase à sua vocação.

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Prancha Levoir/Público

Uma noite em Beirute

A guerra civil estalou no Líbano. O país conseguira manter a paz durante vários anos entre as facções xiitas, sunitas e cristãs após a independência, mas a guerra viria quando as tropas palestinianas da OLP no sul do Líbano foram exiladas no seguimento do Setembro Negro. Foi neste cenário que Zeina Abirached nasceu, em 1981. A Dança das Andorinhas é um relato auto-biográfico de uma noite da sua infância. A cidade de Beirute estava a ferro e fogo, sob bombardeamentos contínuos. Fraturada. Dividida entre muçulmanos e cristãos. Os bens básicos, o saneamento e a comida tornaram-se tesouros, pela sua escassez.

E é o medo pelos que não estão presentes o que acompanha os protagonistas deste livro. Uma noite de bombardeamentos, como tantas outras. Uma menina a pensar nos pais. Uma tentativa de seguir em frente, com o mundo a desabar à sua volta. A esperança a permear a incredulidade e o medo. Um relato de uma vida em 1984, como tantas outras poderiam testemunhar, na atualidade.

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Prancha Levoir / Público

Zeina é a protagonista do seu livro. Uma menina escondida na sua casa,  num átrio à entrada do apartamento, com um grupo de vizinhos e conhecidos. Aquele lugar transformou-se no seu bunker, o único em que se sentem em segurança, capazes de sobreviver aos movimentos bélicos que chovem à volta da residência. A singeleza e frugalidade de tarefas do quotidiano tornam-se complexas, tragando a liberdade que julgavam conhecer. É na vida, nos pequenos gestos, que esta gente encontra esperança.

A autora tinha 10 anos quando a guerra terminou. Um muro dividia a sua rua em duas, mantendo o seu “lado” completamente exilado do remanescente da cidade. Até ao fim da guerra, guerra foi a única coisa que Zeina conheceu.

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Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

A libanesa Zeina Abirached, nascida em Beirute, em 1981, viveu os primeiros dez anos da sua vida numa cidade debaixo de fogo, destruída por uma sangrenta guerra civil que provocou mais de centena e meia de milhar de mortos, mas no seu livro, A Dança das Andorinhas, sobressai uma obra fascinante, de grande ternura e humanismo, que, centrada numa noite de bombardeamentos no auge da guerra, em 1984, retrata com grande sensibilidade e humor a dicotomia entre a realidade exterior hostil de uma cidade destruída pela guerra, e a intimidade protectora do espaço familiar. Mesmo que esse espaço esteja confinado ao átrio de um apartamento fustigado pelas bombas.

“Em Outubro de 2006, no site na Internet do Instituto Nacional do Audiovisual encontrei uma reportagem gravada em Beirute em 1984. Os jornalistas entrevistavam os habitantes de uma rua situada na proximidade da linha de demarcação, que cortava a cidade em dois. Uma mulher, bloqueada pelos bombardeamentos na entrada do seu apartamento, disse uma frase que me perturbou: “Sabem, acho que, mesmo assim, se calhar estamos mais ou menos em segurança, aqui”. Essa mulher era a minha avó”. – Zeina Abirached

OPINIÃO:

Tocante, subtil e ternurento, A Dança das Andorinhas é um hino à sobrevivência e à vida de muitos, que a cultura ocidental muitas vezes só conhece através destes testemunhos – reais e palpáveis, mas longínquos. Zeina Abirached é uma autora libanesa que começa a implementar o seu cunho na BD francófona, através de testemunhos emocionantes de situações complexas e cenários de guerra, contextos que conheceu de perto.

Se os seus relatos são fragmentos de histórias reais, que nos deviam incomodar a todos e que espelham situações que ainda hoje se vivem em muitos países do Médio Oriente, a sua narrativa é embalada por uma certa inocência e visão singular dos acontecimentos. Zeina consegue transmitir o clima de confinamento e exclusão, a segurança débil e uma estabilidade “fingida”, trazida por muros e paredes que muitas vezes nada significam.

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Prancha Levoir / Público

A autora faz também um jogo interessante a nível gráfico, permeando o álbum com uma simbiose de estilos que variam do muçulmano ao chinês, moldando com perfeição o traço a preto e branco às sombras e expressões que nos fazem olhar para estas personagens quase como se de um jogo de fantoches se tratasse. Paralelamente a isso, a situação calamitosa em que a situação se encontra permite o uso de um humor característico, que torna toda a narrativa mais adocicada. Quase uma história para crianças, o que de facto não é.

Não sendo uma novela gráfica que me cativasse, A Dança das Andorinhas proporcionou-me momentos de reflexão e de humanismo, trazendo de forma suave um assunto melindroso e sobre o qual toda a Humanidade devia refletir, num momento em que a guerra está mais presente do que nunca. Um volume fascinante pela simplicidade com que os temas são tratados.

Avaliação: 6/10

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