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Estamos a entrar na reta final de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. O nosso protagonista chegou aos Poços e encontrou as filhas de Lucilla presas nas cisternas. Mas um mal muito antigo revelou-se. Língua de Ferro foi finalmente reclamado pela essência, revelando-se preparado para um embate que poderá ser-lhe trágico. A chegada de Merren “Anéis da Morte” Eduarda fará pender os pratos da balança?

CAPÍTULO VINTE: APALASI

“Segurava Apalasi com todas as minhas forças. Via as linhas venosas a percorrer os meus braços como serpentes, terminando na base do pulso, numa lamela de rugas que mais pareciam cicatrizes. Apalasi. Significava Língua de Ferro no antigo idioma rezoli. Com o passar dos anos, outros significados foram-lhe atribuídos. Língua Morta de Reis, Martelo dos Deuses ou Mijo dos Deuses foram significados soprados por vozes leigas. Diziam que havia sido forjada a partir da urina congelada de um deus. Ainda me rio desses boatos. Sei o que ela é. Uma bela espada, forjada a partir de duas lâminas menores, dobrada cem vezes sobre si mesma, por um célebre ferreiro uraniano chamado Qizello. Oferecida ao meu pai antes de eu ter nascido. Lembrar-me das minhas raízes enrola-me os cordões intestinais num nó cego. O passado não era coisa que eu gostava de me recordar. Agora, não era mais necessário. Tudo o que fazia por norma tinha um propósito. Naquele dia, os meus propósitos estavam embotados. Rugi como um diabo e movi os braços da esquerda para a direita. O boi caiu ao meu golpe. O seu cheiro impregnou-se em mim com tanta potência, que não pensei em vomitar. Fi-lo, e caí sobre o cadáver do bovino. Antes, estava no que parecia uma fazenda. Depois, quando acordei, parecia estar num palheiro, ou num estábulo, não consegui decifrar. Cheirava a feno velho, mas não a cavalos. Era outra coisa. Animalesca. Cruel. Uma língua vermelha lambeu-me o rosto. Alguém me havia levado até ali, disso não restavam dúvidas. Quando ergui os olhos, percebi que a língua que me havia despertado pertencia a um diabo. Sim. Foi naquela manhã que conheci Hije.”

Os seus olhos brancos não estavam cegos. Conseguia ver na perfeição tudo à sua volta, como se o sol tivesse vencido a noite e irrompido por todos os poros daquela cisterna. Via tanto os detalhes interiores, como exteriores. Cada fragmento de pó a levitar no ar, cada pedaço de textura do ferro que forrava as cisternas. A água morta no seu interior. A sua cor. A sua temperatura. Fria.

― Val! És tu?

Foi com uma tristeza imensa que soube que o iria matar naquela noite. Um rival terrível que se transformara num amigo. O Fluído assim o exigia. Estava escrito nas estrelas. Língua de Ferro sabia daquilo e não conseguia lutar contra isso. Não conseguia e não queria. Era como se o tivesse aceite. Seria essa aceitação e compreensão aquilo que Vance sentia? Sou um instrumento, pensou Língua de Ferro, ao perceber que estava a ser utilizado por uma força maior. Viu Eduarda na perfeição quando ele chegou à plataforma onde o esperava. Vestido de gibão negro, com uma espada embainhada à cintura. Tinha aqueles olhos negros como a morte cheios de dúvida e temor. Partira com uma caravana de Ccantia, desejoso de recuperar as suas filhas. Língua de Ferro rumara até ali para fazer o mesmo. Agora sabia que não. Sabia que o seu propósito mudara, porque estava a ser coagido a isso. Vance Cego empurrara-o para ali porque sabia que ele iria impedir Eduarda de cumprir o seu propósito. Teria também Sander Camilli sido influenciado pela entidade que os coagia, a aprisionar ali as crianças?

Inicialmente, partira do princípio que Camilli colocara a vida das meninas em risco como uma rédea para os movimentos de Lucilla e Eduarda, tal como fizera com Allen para constranger Dzanela. Talvez fosse a mesma técnica. Talvez fosse um dois em um. Na verdade, isso pouco importava. Pegara em Apalasi antes que Eduarda o encontrasse com o olhar. Não era fácil detetar alguém naquela escuridão, mas Língua de Ferro não era tão pequeno que não se conseguisse ver.

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Soldado (pinterest)

― Valentina, graças aos deuses! Não pensei que cá chegasses primeiro. Não imaginas como fiquei aliviado quando vi Hije nas redondezas.

Graças aos deuses, pensou Língua de Ferro. Pertinente.

― As tuas filhas estão aqui ― disse sem humor. Viu os ombros de Eduarda crescerem e diminuírem de tensão e alívio. O seu coração pareceu esvaziar toda a pressão existente.

― Foste tu que provocaste toda aquela confusão lá em baixo? Bom trabalho, Val. Onde estão as minhas meninas? Precisamos libertá-las.

Eduarda virou-lhe costas à procura das filhas e Língua de Ferro fitou a menina possuída por um deus chamado Profundo. O pai precisaria de mais algum tempo até encontrá-la com o olhar. Quando a encontrou, ela tinha a cabeça caída para baixo e parecia debilitada.

― Pelos malditos infernos… Aquele cão. Ajuda-me a tirá-la dali, Valentina!

― Não vou fazer isso, Anéis da Morte ― disse, sem contemplações.

― O quê?!

Eduarda ampliou os olhos de terror. Mesmo com a aproximação, não conseguia ver que os olhos de Língua de Ferro estavam brancos. Ainda assim, o azedume na sua voz não o deixava enganar-se. Aquele homem não o iria ajudar.

― Aquelas crianças não são o que pensas, Eduarda ― disse com tato. ― Não são mais as tuas filhas.

O olhar de Eduarda aprofundou-se. Terríveis sulcos pareceram abrir-se-lhe à volta dos olhos. A sua mão deslizou imediatamente para a empunhadura da espada na anca esquerda.

― O que se passa, Val?! Estás feito com Camilli, é isso?! O que te ofereceu ele?! Eu ofereci-te o Império, o que pode ser mais valioso do que isso?

O que pode ser mais valioso do que isso?, perguntou Língua de Ferro a si próprio.

― Nasci no seio de uma família nómada. Um dia, atacamos uma caravana imperial para a roubar, porque o meu pai fizera alguns trabalhos para o Império, como batedor e, por isso, conhecia as estradas que percorriam. Nesses tempos, foi-lhe entregue Apalasi. Foi-lhe entregue ou roubou-a, nunca quis saber. Nunca tínhamos sido tão pouco subtis, mas a necessidade obrigou-nos a isso. Passamos por períodos difíceis, nos desertos; a fome é uma coisa tramada. Matamo-los a todos. Eu tinha dez anos quando a minha mãe tentou matar-me, para comer a minha carne. O pai tentou impedi-la, e ao fazê-lo, morreu com um punhal na curva do pescoço. Aproveitei a distração para a matar. Eu tinha duas opções: apertar uma faixa de couro que tinha à mão sobre a sua garganta não seria exequível. Não tinha força de braços para a asfixiar antes que ela ganhasse controlo sobre a situação. Rastejei até Apalasi e tentei fugir da minha mãe. Esperei que ela me alcançasse, voraz e cheia de pragas nos lábios, para a fazer tropeçar. Caiu sobre mim e morreu varada na espada. Foi a primeira vez que matei. Ainda hoje tenho pesadelos com a baba dela, a gotejar sangue sobre a minha testa, os lábios a tremelicar e a sussurrar que eu era o reles de um bastardo. Sobrevivi sozinho, por uns bons tempos, depois disso. Enfim, como vês, nem eu nem a minha espada temos grande paciência para dramas familiares. E o Império? Não preciso de ti para o subjugar. Conquista os Poços; Conquista o Império, nunca ouviste o chavão?

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O Poço da Ascensão: Mistborn (Jon Foster)

Eduarda ainda estava em choque quando disse:

― A tua mãe tinha razão.

― Ah, sim?

― Sim, não passas do reles de um bastardo!

Nesse momento, a cabeça da rapariga na cisterna ergueu-se com um sorriso. Abriu a boca, e de entre os seus lábios jorraram fumos negros como piche. Línguas fumarentas percorreram o poço na direção dos dois, e quando os alcançaram pareciam tentáculos de uma massa viscosa e irreal. Os braços de terror abriram-se como uma teia de aranha em direção às costas de Eduarda, que se sentiu impelido para a frente, mas quando parecia cair foi suspenso por aquela mesma massa fétida. Eduarda fechou os olhos e soltou um grito, as suas mãos abriram-se sem força e sentiu a massa a subir-lhe a coluna vertebral até à nuca, e da nuca ao topo da cabeça, até lhe chegar à testa. Língua de Ferro fitou aquilo com surpresa. O que se assemelhava a uma mão negra passeava-se na testa de Merren Eduarda, até que encontrou os seus orifícios oculares e toda a massa negra se aspirou pelos seus olhos.

A cabeça da menina voltou a cair, aparentemente sem vida, e os olhos de Anéis da Morte abriram-se, negros como a massa que o envolvera. Os dedos da mão direita de Eduarda fletiram-se, e fecharam-se de imediato no punho da sua arma. Língua de Ferro soube, naquele momento, que não seria a luta entre Língua de Ferro e Anéis da Morte. Seria a luta entre a essência e os deuses mortos. Uma ironia.

Nunca esperou que Eduarda fosse tão rápido a desembainhar a espada. Defendeu-se do seu ataque com um movimento fluído e elegante. Aço cruzou-se com aço e o som não foi agradável. Merren “Anéis da Morte” sorria. Mas o sorriso não era seu. Era o sorriso de Profundo. Um deus morto. A voz terrível que saiu dos seus lábios refutou-o.

― Sou Profundo, sou Antigo, sou Bravo, sou Negro, sou Anátema, sou Luz, sou Benesse e sou Punho. Os oito deuses num só. Habitamos em duas crianças até à tua chegada. Agora, estamos unos num corpo preparado para nós. Um corpo ligado por sangue às duas hospedeiras. Um corpo preparado para te derrotar.

Tenta, pensou Língua de Ferro.

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Mage: The Ascension (Mark Jackson)

Sentia uma loucura genuína dentro de si. Uma vontade de matar que não lhe era estranha. Um contentamento sádico. Indignava-o que isso não o surpreendesse. Às vezes, não se conhecia a si mesmo, e não era o controlo da essência que o deixava nesse estado. Perguntou-se qual a última vez em que refletira sobre a sua conduta. No dia em que matara a mãe? No dia em que os deuses morreram? Quando o mundo se virou do avesso ou da última vez que viu o seu reflexo no fundo de uma garrafa? A aguardente sempre lhe propiciara grandes momentos de circunspeção. Sentiu o peso à espada e a fome de sangue alastrou-se dentro de si. Iria matar um homem bom, sabia-o, mas isso nunca fora impeditivo para fazer o que era certo. O mundo tinha daquelas coisas. Prosas de bardo chamar-lhe-iam injustiça. Vance chamá-lo-ia Fluído. Língua de Ferro limitava-se a fazê-lo. Cortaria peça a peça, se fosse necessário. Inflingir-lhe-ia a dor de dentes quebrados, de dedos torcidos, o vazio de membros lacerados, o horror de um esfolamento, caso o obrigasse a isso. Sangrá-lo-ia por um bem maior. Mas a tortura não derrubaria aquele mal milenar que o corroía por dentro. A morte talvez. O homem bom era só uma casca. Língua de Ferro sabia que ele não se importaria, uma vez que aquilo que estava em causa era soberano. A sobrevivência. Um império. Não. O Império.

O movimento seguinte pertenceu-lhe. Foi por puro instinto que Língua de Ferro se moveu para evitar que um golpe lhe lacerasse o ombro. Seguiram-se uma série de movimentos de ataque e defesa. Língua de Ferro investia com mais voracidade, mas a sua sequência de ataques era assertivamente defendida pela lâmina de Eduarda. Língua de Ferro sorriu um sorriso lupino ao vê-lo recuar para a cisterna e percebeu que não se cansava. Os seus movimentos pareciam mais líquidos e fluidos e o corpo não se ressentia. Parou quando a lâmina encontrou a cisterna e Anéis da Morte rodou sobre si mesmo para lhe acotovelar o peito.

O golpe foi mais forte do que podia prever e fê-lo voar para trás. Língua de Ferro sentiu as omoplatas a chocarem contra o solo e ergueu-se num salto. As têmporas latejaram-lhe. Sentiu dor. Aquilo não era suposto ser assim. Recordou-se que não estava a lutar com Merren “Anéis da Morte” Eduarda, mas com oito deuses. Naquele momento, uma terrível certeza inundou-o. Língua de Ferro iria vingar a sua derrota no galeão. Gostaria de pensar que seria isso a impeli-lo, e não a vontade da essência em derrotar os deuses, mas não mentiu a si mesmo. De nada lhe valia.

Ergueu Apalasi à frente do rosto e viu o seu próprio reflexo. Os contornos pareciam mais definidos. O olhar, branco como marfim. Rugas terríveis ornavam-lhe os lábios, desenhando um sorriso cínico. Quando ergueu o olhar da lâmina, já uma tempestade avançava na sua direção. Eduarda parecia voar, da forma como os seus pés se moviam em corrida sobre a plataforma metálica. Língua de Ferro gargarejou. A espada de Eduarda colidiu com a sua uma vez, duas, três, quatro vezes. Agora era Eduarda quem investia com mais fulgor, empurrando-o para trás. Língua de Ferro não se incomodava com isso.

Aquilo iria cansá-lo, esperava ele.

Faúlhas foram geradas da colisão metálica entre as duas armas, e Eduarda parecia mais alto do que ele, mas era porque lutava em bicos dos pés, e isso parecia surtir efeito. Língua de Ferro era obrigado a recuar na passadeira entre as cisternas, defendendo com fluidez os golpes do inimigo. Irritou-se quando um golpe passou a um milímetro da sua testa, mas aproveitou a oportunidade para golpear de cabeça o peito de Anéis da Morte. O inimigo recuou um passo. Esse recuo durou apenas um segundo. Voltou a investir e as espadas cruzaram-se novamente. Chocaram duramente quatro vezes, com uma força terrível a coagi-las. Aquelas eram espadas lendárias, mas foram feitas por homens e para homens. Dificilmente sobreviveriam incólumes a uma luta entre deuses.

Mas eu não sou um deus, disse Língua de Ferro a si mesmo, e um laivo de humanidade assomou por um momento à frente dos seus olhos. Isso enfraqueceu-o. Um golpe de Eduarda passou-lhe próximo do pescoço, mas na aproximação algo o reteve. Uma barreira invisível, fraca mas forte o suficiente para o barrar, ergueu-se à volta de Língua de Ferro. Este sorriu. Finalmente, aquilo que eu mais esperava.

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Inquisidor de Aço Mistborn (Emanuele Desiati)

Uma barreira como a que defendia Vance tão inexoravelmente pareceu fluir como um halo do corpo de Língua de Ferro. Isso fez Eduarda soltar um rugido.

― Julgas estar a combater Anéis da Morte, Leidviges Valentina? Esse teu condutor não te preveniu para as forças com que irias lidar?! Esses teus truques não são para os paladinos da nossa igualha.

Língua de Ferro sorriu e recuou dois passos largos. Anéis da Morte investiu para si, e era isso o que ele esperava. O seu último passo foi um decalque na plataforma metálica, que a fez estremecer em toda a sua complexidade.

― Jupett Vance matou-os. Os truques dele também não eram para os paladinos da vossa igualha?

Uma nova pisadela de Língua de Ferro fez a plataforma vacilar com maior violência, e dois dos nove cabos que a sustentavam quebraram-se. Os cabos estavam velhos e ferrugentos, por isso não seria difícil fazer aquilo cair, mas não era propriamente fazê-los cair a ideia de Língua de Ferro. Recuou mais um passo.

― O que trovões estás tu a fazer? ― gemeu Anéis da Morte numa dúzia de vozes.

Sem sobreaviso, Língua de Ferro saltou para um cabo e agarrou-o com a mão esquerda, enquanto a direita segurava Apalasi. Cortou o cabo com facilidade e a ponte metálica sacudiu-se, pendendo assimetricamente para o lado esquerdo. Anéis da Morte deslizou para a esquerda, segurando-se ao corrimão metálico para se apoiar. Língua de Ferro sabia que nada de mal lhes aconteceria se quebrasse a plataforma e caíssem nos destroços, lá em baixo. Não era isso em que pensava. A sua ideia era desconcentrar o inimigo. Conseguiu-o. Apoiando-se precariamente no corrimão metálico, Língua de Ferro deu um duplo mortal no ar que se dirigiu a Anéis da Morte, aterrando a três passos de distância. Foi quase com surpresa que o inimigo reparou na sua aproximação e defendeu-se, erguendo a espada à frente dos olhos. Apalasi moveu-se da direita para a esquerda. Um movimento contínuo de parada e resposta seguiu-se, aparentemente casual, mas Anéis da Morte precisava de maior precaução, para não cair. Estava claramente em posição desfavorável, com Língua de Ferro a atacá-lo de cima para baixo.

Foram trinta e sete ataques consecutivos. Língua de Ferro parecia esfomeado por sangue, sem sinais de cansaço ou de quebra. Rodava Apalasi nas suas mãos, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. Um outro cabo rebentou-se, desgastado pelo tempo e pela força que a quebra dos restantes o obrigava a exercer. A plataforma quase girou por si só. Anéis da Morte desequilibrou-se por um momento e quando se segurou ao corrimão, Língua de Ferro não perdoou a oportunidade que esperava e fez Apalasi romper-lhe o ventre. A espada varou-o e isso não bastou para o atacante. Enquanto o negro dos olhos desaparecia e uma centena de guinchos guturais manavam da sua boca, Eduarda mantinha o corpo em pé, sustido pela pesada espada que lhe saía pelas costelas como um acrescento anatómico. Língua de Ferro puxou a espada para cima com um grito, e ela cortou-lhe o âmago até abaixo do peito. Uma quantidade estarrecedora de entranhas vomitou do seu corpo, e Língua de Ferro removeu Apalasi do cadáver.

Os deuses não morreriam se tudo aquilo caísse lá em baixo, mas não precisamos saber que sobrevivemos para querer evitar certos embates. Até mesmo os deuses têm vertigens, ainda para mais se estiverem presos no corpo de um homem. Até mesmo os deuses temem viver sem um braço ou com o maxilar quebrado. É a humanidade dos deuses a sua maior fraqueza.

Língua de Ferro não sabia como Vance os teria vencido numa época em que apenas estavam presos à natureza, mas não devia ter sido bonito. Nem mesmo tinha a certeza de querer saber. Era problema para depois.

Encontrou Tayscar e Seji aos portões do complexo quando saiu dos Poços, com Apalasi presa às costas e o cadáver de Merren “Anéis da Morte” Eduarda sobre os braços. Tinha o tronco nu violentamente aberto entre o peito e o ventre. O cabelo comprido caía para trás, quase a rasar o solo. Não se viam patrulheiros. Língua de Ferro voltou o olhar para as cisternas e sorriu. Havia muito a explicar, mas não tinha disposição para isso. Tayscar caiu de joelhos ao colocar as mãos no rosto frio de Eduarda. Seji soltou um rosnido ao reparar nos olhos sem íris de Língua de Ferro. Depois desembainhou uma adaga longa e pontiaguda.

― O sacana cego fez-lhe alguma coisa ― rugiu. ― E você matou o nosso senhor.

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Vasher de Warbreaker (Castaguer93 em deviantart)

Língua de Ferro sabia que o criado se condenaria à morte se não visse as duas meninas logo depois. As duas crianças saíram do complexo a correr na sua direção e ladearam Língua de Ferro com ar aflitivo. Tinham ares pueris e estavam quase nuas. Cobriam-se mal com pedaços do gibão que o pai envergava. Alguns pedaços ainda estavam sujos de sangue negro. Parecia goma.

― Não, por favor! Não faça isso ― pediu uma menina, afogueada.

― Um monstro apoderou-se do papá e este homem salvou-nos ― disse a outra.

Não havia mentira naquilo. Ainda assim, Língua de Ferro não se sentia melhor. Elas não estavam conscientes quando aconteceu. Obrigara as meninas a proferir aquelas palavras, ameaçando a vida da mãe dela, se não o fizessem. Pobrezinhas, pensou. Também a mãe delas estava morta, mas elas não o sabiam e estavam demasiado assustadas para o enfrentar. Língua de Ferro lançou um olhar embaraçado a Seji. Um olhar branco. Ninguém veria o seu embaraço. Mas ele via. Como viu a gota de suor que desceu pela testa do criado. Registou a sua apreensão.

― Vou levar o corpo de Eduarda para Chrygia ― disse. ― E as meninas também. Sindi e Tenna, não é como se chamam? Temos uma longa viagem à nossa espera. Seji, prepara-nos dois camelos e instalações cómodas para as meninas. Depois, quero que rumes a Ccantia e contes o ocorrido a Marovarola. Os Poços são meus. Não peço que compreendam: os deuses manifestaram-se. Estavam aqui, os deuses mortos. Tive de o matar, mas não foi uma escolha fácil. Só peço que não me criem mais inimigos. Como conquistei estes Poços, posso voltar aqui e conquistá-los com maior facilidade. Nenhum de vós é tão terrível como um deus. Raios, nem eu sei como o fiz. ― Mentiras. Mentiras piedosas. ― Quero que Marovarola envie para aqui uma patrulha. Digamos que, um pagamento, por eu lhe ter salvo a vida, se assim preferirem. Tayscar?

O rapaz permanecia de joelhos, com os punhos fechados, cabisbaixo. Ergueu a cabeça e os seus olhos estavam cheios de ódio.

― Matei o teu pai e salvaste-me a vida. Agora matei o homem a quem juraste vassalagem. Não te peço amizade. Se pudesses, matar-me-ias. Eu sei disso. Ambos sabemos disso. Não obstante, és sangue de Cacetel e mostraste ser mais homem que o teu pai. Mostraste valor. O teu avô foi imperador. Tenho planos para ti, e o primeiro deles é fazer de ti chefe desta patrulha. Fica aqui enquanto Seji for buscar os homens. Depois, podes regressar a Ccantia para te acostumares à ideia e arranjares as tuas coisas. Os Poços serão o teu novo lar. Defende-os para mim, e dar-te-ei justiça pelas tuas perdas.

O rapaz ergueu-se, e naquele momento Língua de Ferro sentiu-lhe o ímpeto. Em silêncio, dizia-lhe que nenhuma justiça lhe traria os homens que amara. Depois, soube que seria irrelevante verbalizá-lo. Alguma cobardia ainda media os seus passos. Língua de Ferro iria, a seu tempo, removê-la. Viu-o passar por si em passos largos, com os longos cabelos louros a bailarem nas suas costas. Tayscar Domasi não virou costas aos Poços. Iria aceder ao seu pedido. Talvez por medo. Talvez por honra. Talvez por esperança. Esperança de que as suas palavras fossem verdadeiras. Talvez fossem.

Língua de Ferro atravessou o deserto montado em Hije, numa travessia calma e serena. Atrás de si, dois camelos de pele estalada avançavam lentamente. Uma padiola com dossel de seda sustinha-se entre eles, onde as duas meninas semi-nuas se abraçavam, com o terror a aplacar-se lentamente no seu interior. As filhas de Lucilla. Sangue do sangue da mulher que eu mais amei na vida. Para onde as conduzo eu?

Chrygia, disse uma voz dentro de si. Língua de Ferro teve medo dessa voz. Desembainhou Apalasi das costas e olhou para a sua lâmina. O sol beijava-lhe o aço num reflexo brilhante. A visão apurada de Língua de Ferro viu no seu interior uma vontade de sangue. A sede do aço. Mais rapidamente do que desembainhou a arma, voltou a embainhá-la, e olhou para o horizonte luminoso. Uma explosão de luz solar engoliu-os a todos. Chrygia. Chrygia.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte

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