Estive a Ler: O Rei Macaco


Mas isto é a caverna da cortina de água, na terra abençoada da montanha das flores e fruta. Deve levar-nos ao céu!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Rei Macaco” (Formato BD)

Um dos nomes incontornáveis da BD europeia no último século, o italiano Milo Manara conquistou públicos pela irreverência da sua obra, comummente albergue de teor erótico. Lo scimmiotto é uma das primeiras obras de relevo do autor, uma nova roupagem da famosa fábula chinesa Jornada para o OesteO Rei Macaco, de 1976, marca um período marcadamente político na carreira artística de Manara, com argumento de Silverio Pisu, célebre cantor, ator e escritor italiano, com quem colaboraria em vários momentos. Em Portugal, a publicação saiu o mês passado, pela Arte de Autor.

Manara trabalhou com nomes inolvidáveis da nona arte, como Hugo Pratt em El Gaúcho e Verão Índio ou Alejandro Jodorowsky na polémica série Bórgia. A passagem pela Marvel e DC Comics foi um bom sinal de vitalidade, um exemplo para a nova geração de desenhistas, mas também um testemunho do seu estatuto. Muitos dos seus trabalhos contêm temas como o sadismo, o voyeurismo, o bondage e o paranormal, usando vulgarmente o erotismo como instrumento para abordar as discrepâncias e as contradições da sociedade.

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Capa Arte de Autor

O Jovem Macaco tem tudo para se sentir realizado e feliz, na sua habitação idílica na Cortina de Água, com as suas concubinas. Mas ele parece taciturno. Sente que, mais cedo ou mais tarde, irá envelhecer e morrer. É para o evitar, para alcançar a imortalidade, que ele se lança numa jornada meticulosa e recheada de perigos. A sua presunção, porém, desperta o ódio do Imperador de Jade, quando reclama os seus domínios. Para a ousadia do Jovem Macaco, há um preço a pagar.

Ele sabe que, para alcançar a imortalidade, terá de aprender com um sábio, com um imortal, ou com um buda. Mas não é tarefa fácil encontrar um. É nas suas deambulações pela floresta que encontra finalmente alguém capaz de o ajudar a abandonar os cinco elementos, mas as aulas revelam-se… difíceis. Como aluno, é apelidado de “consciente de vacuidade” e é incumbido de várias tarefas mundanas. Por fim, o Jovem Macaco alcança o seu objetivo final.

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A imortalidade vem apenas criar-lhe mais inimigos. Por acidente – ou talvez não – o Jovem Macaco é atraído para os domínios de Yuma, a morte, e é obrigado a fazer-se valer da sua nova essência para negar tal destino. O Imperador de Jade sente-se cada vez mais obcecado em destruí-lo, e isso só não acontece de imediato porque Indira, uma das suas concubinas, revela grande afeição para com o macaco, e intercede por ele.

O Imperador sabe que, uma vez que o Jovem Macaco alcançou a imortalidade, a única forma de o matar será cortá-lo em vinte mil pedacinhos. E é isso que tenta fazer. Um grande combate aproxima-se, com o Jovem Macaco a defrontar o temível Erlang Shen. Só que… aquele Erlang Shen não é bem o verdadeiro. De facto, só a intervenção de Lao-Tse, o fundador do Taoísmo, e do próprio Buda, poderão roubar ao macaco aquilo que ele tem de mais precioso – a vida.

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SINOPSE:

Baseando-se em Jornada para o Oeste, um dos grandes textos clássicos da literatura chinesa, Silverio Pisu e Milo Manara recriam nesta obra as aventuras do Rei Macaco, transformando-o simultaneamente numa aventura épica e numa referência clara ao contexto sócio-político da China dos anos setenta.

Nascido da fecundação de uma rocha pelas essências puras da terra, o Jovem Macaco, farto da idílica felicidade do seu reino, em breve abandona o seu povo em busca da imortalidade. Autoritário, sedutor e ambicioso, troça de deuses e de reis para atingir os seus objectivos.

Marco incontornável na história da banda desenhada, esta é uma das primeiras obras de Milo Manara.

OPINIÃO:

Muito embora seja apreciador da obra de Manara, principalmente no contraste forte entre a delicadeza e o vigor com que exprime a nudez, as expectativas para O Rei Macaco não eram elevadas. Em parte, por ter lido tratar-se de um dos seus primeiros trabalhos; em parte, porque desconhecia o argumentista. Percebi rapidamente que não estava longe da verdade. O desenho de Manara, um traço sóbrio e enérgico, não fascinou por aí além, revelando uma teia de pretos e brancos que cumpre na expressividade mas que não ombreia com a arte fascinante que conhecemos em obras de grande monta como Clic ou Borgia

A parada sobe, no entanto, no decorrer da leitura. O que mais me agradou neste álbum foi, sem margem para dúvidas, o sentido de humor. Mérito de Pisu, essencialmente. Somos convidados a navegar numa jornada tipicamente oriental, com as suas mitologias caracteristicamente solenes, e tropeçar em piadas com referências contemporâneas fez-me rir sem sobreaviso. A leitura foi um processo ritmado e fluído, com cenas mais lentas aqui e mais rápidas ali.

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Manara, seu velho depravado (comicon.it)

Se o cinema oriental foi uma das minhas predileções juvenis, posso dizer que hoje é um género cultural que me passa ao lado. Os ritmos lentos acabaram por me fazer perder algum fascínio que outrora essa cultura incrível exerceu sobre mim. Sentir o ondular ténue de uma faixa esvoaçante e o sibilar agudo de um movimento abrupto, porém, ainda mexe comigo. E se, ainda assim, este O Rei Macaco não me ofereceu muitos momentos de reflexão, não me posso queixar. É uma alegoria sobre honra e dignidade, uma “paródia” sobre o carpe diem. O ritmo é assertivo e a toada do livro, despretensiosa.

No seu todo, o álbum é um pouco o espelho do seu protagonista: não oferece novidades nem inovações, mas surpreende pela audácia e irreverência. Um bom passatempo de domingo à tarde. Com oscilações de tom e de estrutura, O Rei Macaco é um livro imprescindível para os fãs da cultura chinesa, mas atrevo-me a dizer que agradará a todos aqueles que estão dispostos a passar um bom bocado, sem almejar uma leitura complexa ou muito exigente.

Avaliação: 7/10

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