Estive a Ler: Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3


– Regras? Não há regras! – Riu-se. Fletiu um braço e músculos sobrepuseram-se a músculos. O Grande Ronaldo ficaria impressionado se o circo de Raiz algum dia viesse a Albaseat. – Força! É essa a regra.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Imperador dos Espinhos”, terceiro volume da série Trilogia dos Espinhos

Como autor, Mark Lawrence angaria amores e ódios por onde passa. O escritor, que nasceu nos Estados Unidos da América e mudou-se para Inglaterra ainda em criança, é o autor da fantasia Trilogia dos Espinhos, que inclui os livros Príncipe dos Espinhos, Rei dos Espinhos e Imperador dos Espinhos. A publicação original foi um sucesso, entrando na lista de best-seller do Sunday Times na sua primeira semana de vendas. Assim como os livros anteriores da trilogia, o derradeiro volume foi finalista do Goodreads Choice Awards, e o autor já foi vendido para mais de vinte línguas.

Lançado pela Harper Voyager em agosto de 2013, Imperador dos Espinhos chegou ao nosso país este ano, com tradução de Renato Carreira. A trilogia foi publicada em Portugal pela TopSeller, e é sobre o último volume da série que hoje vos venho falar.

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O WW tem uma palavra a dizer (Fonte: memecenter)

Um Império fraturado

O Império Arruinado sofreu um trambolhão desde que o príncipe de Ancrath se tornou o rei de Renar aos quinze anos de idade, ao assassinar o seu tio. Jorg de Ancrath cresceu, e à medida que isso aconteceu muitas revelações foram feitas sobre o seu mundo. Tecnologias de ponta são apresentadas como mistérios insondáveis, um resquício da antiga civilização povoada pelos chamados Construtores. Hologramas, bombas nucleares e relógios são vistos como artefactos ou “coisas do além” por um mundo que regrediu à era medieval.

De uma ponta à outra do mundo, as esperanças de um amanhã melhor estavam direccionadas para o Príncipe da Flecha, Orrin. Um homem bom e um líder inspirador. Há mais de cem anos que o Império não conhece um Imperador, uma vez que nenhum candidato consegue o número de votos necessário para ser eleito. Os sussurros sugeriam que Orrin seria o homem a quebrar a “maldição”. O homem indicado para unir os estilhaços de um mundo.

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Imperador dos Espinhos (Fonte: mark—lawrence.blogspot.com)

Uma nova meta

Todavia, Orrin da Flecha morreu, numa altura em que Jorg de Ancrath o desafiara abertamente e uma batalha dera-se entre os seus exércitos. Alguns dizem que Orrin era demasiado fraco. Fala-se que foi o próprio irmão quem o matou. As esperanças no amanhã melhor voltaram a fenecer, e essa janela de oportunidade trouxe um mal tenebroso à ribalta. O Rei Morto move as suas peças, preparando as suas hordas de mortos-vivos para mostrar quem, de facto, tem nas mãos o volante do mundo.

Jorg mudou. Aos vinte e poucos anos, está casado com Miana, com quem se casou quando ela tinha apenas onze. A rapariga está à espera de um bebé, a quem Jorg chama de William, em memória do seu irmão mais novo, o menino que viu morrer e nada pôde fazer para o salvar, uma vez que estava preso num espinheiro. Depois de saber que a esposa foi alvo de um atentado, perpetrado por um enviado da papisa, Sua Santidade Pio XXV, Jorg molda um plano ambicioso. Pega na esposa grávida e no seu grupo de confiança, e parte em direção a Vyene, para o Congresso que, de quatro em quatro anos, reúne os reis para votarem num Imperador.

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O manuscrito (Fonte: mark—lawrence.blogspot.com)

Da Península Ibérica a Marrocos

Paralelamente a isso, acompanhamos a jornada de Jorg cinco anos antes. Como bem o conhecemos, sente alguma dificuldade em engolir a forma como foi enganado pelo matemago Qalasadi no Castelo Morrow, a propriedade do seu avô materno, o Conde Hansa. Desse modo, parte com um cavaleiro que apelida de Soalheiro até Albaseat, próximo dos Reinos Ibéricos, local onde as violentas explosões – o rebentar de mil sóis – transformaram a península num terrível mar de fantasmas, onde a radiação ainda se faz sentir em larga escala.

Ali, consegue o apoio de Lesha, uma das netas da Intendente, que se oferece para fazer-lhes de guia pelos Reinos Ibéricos. A jovem de rosto queimado, porém, é uma das vítimas do cruel ataque de um grupo terrível de saqueadores chamado Perros Viciosos. Um período de pura tensão e horror, em que Jorg de Ancrath mostra até que ponto se pode considerar… perigoso. Jorg acaba por viajar para o lado de lá do mar, até Marrocos. Durante a travessia, conhece um muçulmano e um misterioso viajante com um também misterioso baú. Dois personagens que se revelam preponderantes para a sua estadia em África e também para o desenrolar da trama. Jorg trava amizades que virão a ser imprescindíveis para o seu futuro.

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Mapa do Império Arruinado (Fonte: itgeekgirls.wordpress.com)

O Congresso

Somos também convidados a acompanhar o ponto de vista de Chella, a necromante que desde o primeiro volume tem sido uma das maiores opositoras do protagonista. Através do seu olhar, compreende-se a fragilidade da sua personalidade e a incerteza na sua posição, torcendo o nariz às diretivas do Rei Morto. Conhecemos também Kai Summerson, um jovem necromante com um papel fulcral na história, que a acompanha até Vyene com um propósito muito específico.

A história de Chella cruza-se com a de Jorg na jornada até ao Congresso. Espectros terríveis tentam travar a progressão do rei de Renar e hordas de mortos são movidas na sua direção. O filho de Jorg nasce com a ajuda de Katherine Ap Scorron, irmã da madrasta de Jorg e viúva de Orrin da Flecha, que revela um inquietante talento para bruxa de sonhos.

Ao lado de Makin, Rike, Kent Vermelho, Marten e Gorgoth, para além das duas mulheres que mais deseja, Jorg de Ancrath chega por fim ao Congresso, onde já estivera anos antes. Comportamentos imprevisíveis moldam a sua atitude, enquanto novos atores e intenções rastejam nas sombras, para o parar. Uma revelação que abalará os alicerces de Jorg chega com as hordas e cem reis não serão suficientes para a aligeirar. Somos apresentados também a uma Rainha Vermelha, e fica a sensação de que nem tudo acaba aqui.

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Capa Imperador dos Espinhos (Fonte: TopSeller)
SINOPSE:

Um rei em busca da vingança

Com apenas vinte anos de idade, o príncipe tornou-se o Rei Jorg Ancrath, rei de sete nações, conhecido em todo o Império. Mas os planos de vingança que tem para o seu pai ainda não estão completos. Jorg tem de conseguir o impossível: tornar-se imperador.

Um império sem imperador há cem anos

Esta é uma batalha desconhecida para o jovem rei, habituado a conquistar tudo pela espada. De quatro em quatro anos, os governantes dos cem reinos fragmentados do Império Arruinado reúnem-se na capital, Vyene, para o Congresso, um período de tréguas durante o qual elegem um novo imperador. Mas há cem anos, desde a morte do último regente, que nenhum candidato consegue assegurar a maioria necessária.

Um adversário temível e desconhecido

Pelo caminho, o Rei Jorg vai enfrentar um adversário diferente de todos os outros, um necromante como o Império nunca viu, uma figura ainda mais odiada e temida do que ele: o Rei dos Mortos.

OPINIÃO:

Finalizada a trilogia, mantenho a minha opinião em relação a ela. Mark Lawrence é um excelente escritor, e um péssimo contador de histórias. Resultado: a Trilogia dos Espinhos é uma leitura mediana.

Não acho que o terceiro volume seja melhor que o segundo. Ambos têm os seus altos e baixos, e o handicap principal continua intimamente relacionado com o desenvolver de duas histórias em simultâneo com o mesmo protagonista: a atualidade e os x anos antes. As histórias são interessantes, mas fraturam o livro como um todo, desconcentram o leitor e fazem-no confundir-se. A História de Chella acabou por ser mais interessante que os pensamentos psicóticos de Katherine no segundo volume, mas não contribuiu em muito para a história.

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Como já referi, a escrita de Lawrence é boa, gostei bastante de algumas cenas, mas a história não oferece grande desafio, o autor não desenvolve plots e chega ao final da trilogia sem uma proposta convincente. Jorg de Ancrath passa de príncipe a imperador – ou perto disso – revelando carisma e mau feitio, como se carisma e mau feitio fossem o suficiente para se conquistarem tronos. Quase de forma despreocupada, o rumo do protagonista pode ser visto como uma alegoria e como uma ilusão. Uma alegoria sobre dignidade, sobre motivações, sobre a força do querer. Uma ilusão porque amuar e achar-se acima de tudo e de todos e uma boa porção de sorte (deus ex-machina até mais não) não fazem uma pessoa superar tudo o que ele superou.

“Jorg de Ancrath passa de príncipe a imperador – ou perto disso – revelando carisma e mau feitio, como se carisma e mau feitio fossem o suficiente para se conquistarem tronos.”

Não ajudou nada misturar espectros com fantasmas dos Construtores, que mais não eram que hologramas. Foi demasiado confuso. Os personagens ficaram-se pelo potencial, com duas mãos cheias de personagens excelentes a não terem mais que meia dúzia de diálogos. Miana, Katherine, Kent, Qalasadi, Marco, entre outros. A cena de sexo foi meio sem nexo, plantada ali só porque o autor concluiu que faltava uma. O final foi atabalhoado e para além de não esclarecer os leitores mais distraídos sobre a tecnologia dos Construtores, deu um destino chocho ao protagonista. A revelação final foi previsível e não teve muito sentido.

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Jorg Ancrath (Fonte: craigpaton em deviantart)

No entanto, se o livro pecou – mais uma vez – no desenvolvimento das ideias, foi pleno de ritmo e emoções. Cenas como a dos Perros Viciosos e a da papisa não serão esquecidas facilmente, e a estadia de Jorg em África também foi um bom bocado de leitura. Gostava que a passagem por Gottering e o terror que lá se viveu fosse mais desenvolvido e algo de mais concreto ali ocorresse, como uma luta, por exemplo. Ainda assim, foi outra das cenas mais marcantes do livro. Dois pontos da minha avaliação final devem-se a estes guilty-pleasures.

Se a inteligência do protagonista muitas vezes traiu-me enquanto leitor, também senti alguma dificuldade do autor em provar ou suportar o que ia criando, pelo que compreendo a opção por, simplesmente, não explicar nada. Opção que seria melhor aceite por mim se o final fosse mais credível e global. Ainda assim, penso que todos os fãs de fantasia devem ler e tirar as suas próprias ilações. Um melhor desenvolvimento de personagens e uma proposta mais esclarecedora levariam a série para outro patamar.

Avaliação: 5/10

Trilogia dos Espinhos (TopSeller):

#1 Príncipe dos Espinhos

#2 Rei dos Espinhos

#3 Imperador dos Espinhos

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6 thoughts on “Estive a Ler: Imperador dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #3

  1. Pingback: Príncipe dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #1 – Notícias de Zallar

  2. Pingback: Rei dos Espinhos, Trilogia dos Espinhos #2 – Notícias de Zallar

  3. Olá!

    Já sabes que eu gosto muito, especialmente deste e do segundo. Gostei bastante da opinião, tocaste em vários pontos interessantes.
    Sei que pode ter parecido estranho, mas aquele final… apesar de esperar algo do género, não estava à espera do rumo que tomou. É como se tudo não passasse de um sonho, mas que não fora e depois ali fica, assim… eu gostei muito. Não estava à espera de me comover nesta trilogia =P

    Bjs e boas leituras

    1. Viva, Lamora. Obrigado pelo comentário.
      Senti que o autor apostou muitas fichas naquele clímax final, mas eu já desconfiava da identidade do Rei Morto desde que a Chella percebeu quem ele era. E não gostei. O Jorg não teve culpa daquilo que nós sabemos. O final do Jorg pareceu-me digno para o personagem, sem mais nada. Tanto a ideia de que ficou amigo dele num outro patamar, como o epílogo de um “fantasma” a escrever a história, pareceu-me out.
      Mas teve momentos muito bons.
      Mais uma vez obrigado pela opinião e boas leituras.

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