Estive a Ler: A Fortaleza da Pérola, Elric #2


– Mas que perigo podemos correr? – perguntou ele.

Oone sacudiu a cabeça.

– Quem sabe? Muito ou pouco. Nenhum? Os ladrões-de-sonhos costumam dizer que é no País do Amor Esquecido que são tomadas as decisões mais importantes. Decisões que podem ter as mais monumentais consequências.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Fortaleza da Pérola”, segundo volume da série Elric

Saltou para as bancas nacionais em março de 2007 – há coisa de dez anos, imaginem! – a segunda aventura escrita em português do célebre melniboneano Elric de Michael Moorcock. Lançado em 1989, A Fortaleza da Pérola apresenta um upgrade em relação ao primeiro volume, atirando o personagem-título para novos problemas e tarefas a desempenhar.

Ombreando com gigantes literários, Moorcock viria a tornar-se um dos mais bem-sucedidos nomes do género, catalogando Elric como uma das maiores referências em todo o mundo na literatura fantástica. Diz-se até que se deve a Moorcock o termo espada e feitiçaria, atribuindo-o ao tipo novo e original desenvolvido por Robert E. Howard à época. A proposta pegou e o próprio Elric não ficou imune a ela.

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Elric de Melniboné (Fonte: Robert Gould em earrch.livejournal.com)

Uma ameaça em Quarzhasaat

A espada Tormentífera (Stormbringer no original) é uma das mais populares no mundo da fantasia. Alcançada por Elric nos domínios do Caos, enquanto perseguia o seu primo Yyrkoon, a tenebrosa espada sugadora de almas viria a acompanhar Elric pelas suas aventuras, conferindo-lhe alguma da força e vitalidade que procurava em drogas e mezinhas antes de dela se apropriar. Avassalado ao Duque do Inferno, Arioch, Elric é um homem bom a servir de instrumento para o mal. E é com a Tormentífera à anca que encontramos o Imperador Albino no início deste volume.

Depois de muito deambular pelos desertos, Elric encontra um jovem chamado Anigh, que o leva até à cálida cidade de Quarzhasaat, onde o Conselho se prepara para um intempestivo curso eleitoral. Débil e exangue, Elric acaba por aceitar a ajuda do jovem e este procura uma forma de o curar do seu estado limiar entre a lucidez e o delírio. É dessa forma que Raafi as-Keeme, um mensageiro, lhe oferece um elixir que o reestabelece de imediato. O preço a pagar por ele, porém, pode ser demasiado caro.

O elixir reestabelece-o, mas também lhe gera dependência. Trata-se de uma droga potente, cujo antídoto muito poucos sabem preparar. Elric é levado até ao palácio do Lorde Gho Fhaazi, um dos candidatos eleitorais, e é este quem lhe revela a verdade sobre o elixir. Fhaazi põe também as mãos em Anigh, tomando-o como refém. Pensando que Elric se trata de um mercenário de Nadsokor, a Cidade dos Pedintes, Fhaazi instiga-o a atravessar os desertos em busca de uma pérola lendária. Só quando a trouxer, lhe proporcionará o antídoto contra o elixir, assim como a liberdade a Anigh. Elric aceita o acordo, desde que ele não faça qualquer mal ao rapaz.

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Elric de Melniboné (Fonte: NicolasRGiacondino em deviantart.com)

A Estrada Encarnada

O imperador melnibonês coloca-se então a caminho dos desertos, sem saber ao certo o que fazer ou onde encontrar a tão desejada pérola. Baseando-se apenas em profecias e em ditos quarzhasaatis, como a frase “a Lua de Sangue arderá em breve sobre a Tenda de Bronze”, Elric atravessa o deserto conhecido como Estrada Encarnada em busca do famigerado Oásis da Flor de Prata, onde supostamente encontrará a tal Tenda de Bronze que lhe abrirá passagem para a Pérola.

Os perigos no caminho até lá, porém, sucedem-se. Primeiro, é abordado por um grupo de Feiticeiros Aventureiros, os célebres campeões de Quarzhasaat, que o tentam demover a procurar a pérola para Fhaazi, uma vez que estão filiados a outros membros do Conselho. O primeiro deles é Manag Iss da Seita Amarela, parente da Conselheira Iss. Depois, Oled Alesham, da Seita da Dedaleira. Por fim, é atacado por um grupo de assassinos da Irmandade da Traça. Elric desdenha de todos eles e prossegue na sua senda, sem esperar que os Feiticeiros, vingativos pela sua obstinação, lhe tenham enviado um monstro felino para o parar na sua empresa.

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Elric de Melniboné (Fonte: Sephiroth-21 em deviantart.com)

A Fortaleza da Pérola

Quem o ajuda a enfrentar e a derrotar o monstro é um jovem chamado Alnac Kreb, um ladrão-de-sonhos com quem Elric trava facilmente amizade, e que o conduz até ao Oásis da Flor de Prata. Ali deparam-se com um clã bauradi a concluir um rito fúnebre. Esperam que a cerimónia termine e percebem que o caixão está vazio, porque o funeral é feito a um inimigo que querem ver morto em breve. Trata-se, nem mais nem menos, de Gho Fhaazi, que enviara a sua leva de homens para se apossarem de uma menina, com as mais vis das intenções.

É Raik Na Seem, o primeiro ancião do clã, quem os coloca ao corrente da situação. Trata-se da sua filha, Varadia, que permanece muda e inexpressiva, como se estivesse sob transe, desde que a recuperaram dos malfeitores. E ela encontra-se na Tenda de Bronze, em estado vegetativo. Percebendo que comunga dos ideais de vingança daquela gente, Elric propõe-se a ajudar. Assim como Alnac, que se julga apto para adentrar no mundo dos sonhos e recuperar a menina para o mundo.

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Oone (Fonte: stormbringer.wikia.com)

A tentativa de Alnac, porém, é frustrada pela sua própria inexperiência. O ladrão-de-sonhos morre ao querer salvar a Criança Sagrada, e desde logo surge a sua preletora, uma mulher chamada Oone, para tentar recuperar a sua honra e cumprir onde ele falhou. Para isso, precisa da ajuda de Elric. Ele então compreende que a jornada que o levará à pérola será vivida no mundo dos sonhos e não no mundo real, uma vez que a pedra preciosa se encontra no interior da criança.

Elric e Oone embarcam então numa aventura pelos Reinos Oníricos, deambulando pelos sonhos de Varadia na tentativa, não só, de encontrar a Fortaleza da Pérola, como de acordar a rapariga para o mundo. Pelo caminho, encontram as mais bizarras formas de vida, desde o divertido Jaspar Colinadous e o seu gato que suga as formas de vida que morde, ao tenebroso Guerreiro da Pérola que tanto parece clamar por uma aliança como encerrar-lhes todos os caminhos. No final, é a Rainha Sough quem os conduz até à Fortaleza da Pérola, onde a própria Varadia está encerrada.

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Elric de Melniboné (Fonte: Daniel Govar em danielgovar.com)
SINOPSE:

Um dos grandes clássicos da fantasia

Para salvar a sua vida, Elric, o Príncipe dos Dragões, vê-se obrigado a encontrar uma pérola mágica e mítica. Terá que superar provas horrendas e os mais determinados adversários. Mas a sua maior batalha será travada dentro da cabeça de uma criança. Num estado comatoso, Elric entrará no Reino dos Sonhos, onde terá as suas mais épicas, exóticas e emocionantes aventuras. 

OPINIÃO:

A Fortaleza da Pérola é a segunda aventura de Elric de Melniboné publicada em português. Dotado de uma escrita poética, que parece característica comum aos autores da época, Michael Moorcock fascina pela ligeireza com que descreve cenários irreais de forma minuciosa e elegante, sem perder a simplicidade narrativa. 

Equilíbrio parece ser a toada dominante na obra de Moorcock, quer a nível de escrita, quer a nível de ritmo. De forma leve e descontraída, o autor britânico passeia-nos pelos cenários mais rocambolescos sem deixar de descrever com detalhe os cenários enunciados, revelando riqueza de vocabulário sem perder fluidez ou aparentar grande erudição.

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Capa Saída de Emergência

De forma despretensiosa, A Fortaleza da Pérola é mais um testemunho do inegável talento de Michael Moorcock. Não esperem um livro emocionante cheio de plot-twists e inovações. Este livro foi escrito no final dos anos 80, como tal é uma narrativa com um herói tradicional e aventuras pouco credíveis, mas que ainda me fascina mais do que o popular Senhor dos Anéis, talvez pela simplicidade ou pelos cenários apresentados.

“Não esperem um livro emocionante cheio de plot-twists e inovações. Este livro foi escrito no final dos anos 80, como tal é uma narrativa com um herói tradicional e aventuras pouco credíveis, mas que ainda me fascina mais do que o popular Senhor dos Anéis, talvez pela simplicidade ou pelos cenários apresentados.”

De facto, o que mais me agradou neste volume foram as passagens por Quarzhasaat e pelos desertos, os eventos na Tenda de Bronze e o final, não só bem amarrado como até surpreendente. A viagem pelo mundo dos sonhos, cheia de irreverências muito bem descritas, acabou por ser o que menos gostei neste livro, apesar de não ter desgostado. Em suma, este é um livro que aconselho a todos os iniciantes no mundo da fantasia, mas que decerto agradará a todos aqueles que não esperem nada de muito original ou complexo.

Avaliação: 7/10

Elric (Saída de Emergência):

#1 Príncipe dos Dragões

#2 A Fortaleza da Pérola

#3 Os Mares do Destino

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5 thoughts on “Estive a Ler: A Fortaleza da Pérola, Elric #2

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