Estou no Wattpad #21


Com algumas horas de atraso em relação ao que vos habituei, chega agora o capítulo 21 de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, a minha história de leitura online. No último capítulo assistimos a um confronto entre os deuses renascidos e a essência, através dos corpos de Língua de Ferro e Anéis da Morte. Depois de ter abandonado os Poços ao cuidado de Seji e Tayscar, o anti-herói avançou para a cidade de Chrygia com as duas filhas de Lucilla e Eduarda. O que o esperará nessa cidade sob cerco? Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E UM: CERCO MONTADO

“O nome dele era Gero. Encontrara-me quase morto sobre o cadáver de um boi e levara-me para o solar dos seus patrões, ali perto. Estava em Sinara, uma província despida de riquezas ou preconceitos, mas bem almofadada a frutos do campo. Até ali, a terra tinha sido fértil, mas todos sabiam que não seria assim por muito mais tempo. O futuro era um desafio para todos nós. Nós, os que sobrevivíamos da água. Gero revelou-se um tipo cortês, pouco dado a conversas, o que não o abstinha de se revelar gentil, quando podia. Manteve-me escondido naquela estrebaria, alimentado a batatas meio apodrecidas e a nacos de carne cheios de sal, já orlados de bolor. Via na expressão dele o quanto lhe custava, alimentar-me assim. Algo dentro de mim nutria alguma simpatia pelo homem, mas isso não me coibiu a fazer o que fiz. Hije era um dos seis diabos sob aquele teto de madeira. Pertenciam a El Roq’ia, o fazendeiro. Certa noite, acordei com o cheiro a óleo a arder. Aproximei-me da janela e vi que eram eles, quem se aproximava. Gero, e Roq’ia, o seu patrão. Consigo, trinta capangas, bem armados com bacamartes e tochas em punho. Gero parecia envergonhado quando escancarou a porta e o luar lhe orlou o rosto com sinais de tristeza. Chamou por mim com cautela, mas eu sabia que era uma armadilha. Tudo na minha vida, até ali, tinha sido uma armadilha. Sabia que usá-lo como refém não me salvaria a vida, pois não passava de um capataz. Só um capataz. Assim que o asfixiei com as minhas próprias mãos, libertei Hije e saltei para o seu dorso. Fugi dali por entre disparos e nuvens de fumo, com mais de uma vintena de homens no meu encalço. De nada lhes adiantou. Quando me fecharam os canais de fuga e me vi cercado, fui obrigado a desembainhar Apalasi e a matar. Roq’ia foi o último a morrer. Cortei-lhe a língua e as pontas dos dedos, e deixei-o amarrado, enquanto me via a matar a mulher e as filhas. Quis que ele me visse a violá-las, mas não consegui fazê-lo. Algo dentro de mim renegava o ato de estupro, ainda que isso não fosse perdão para os meus atos.”

― Onde é que está esse músculo? Entre as pernas? Vamos lá a trabalhar ― gritava Opyas “Boca de Sapo” Raymon aos rhovianos que escavavam terra de forma a gerar uma vala comum. Corpos eram atirados para o interior. Eram corpos de nómadas, os donos do acampamento que a horda de Mario Bortoli engolira com a sua crueldade. Trinta metros a ocidente, erguiam-se as torres e minaretes imponentes de Chrygia, a capital do Império, rodeados por uma muralha de pedra com mais de duzentos metros de altura. Uma outra circunferência sitiava a cidade. O exército de Bortoli.

Era princípio de tarde e estava um calor infernal. Cheirava a pele de animal recentemente esfolada, ou seja, cheirava verdadeiramente mal. Empecilho apareceu sem sobreaviso, com um manto em pele de cabril atirado sobre um ombro e umas calças de couro que lhe davam um pouco abaixo dos joelhos. Sandálias do mesmo material protegiam-lhe os pés. Era escoltado por um par de rhovianos de rostos chupados e expressões terríveis, que o encaminhavam para uma das tendas quando quase tropeçaram em Raymon.

― Empecilho, miúdo, o que raio estás aqui a fazer?

― Como estás, Boca de Sapo?

O homem estreitou os lábios grossos numa expressão surpresa.

― Digamos que me puseram a orientar a mão-de-obra. De vez em quando encontramos um camelo ou uma cabra mumificada, mas podia estar pior, a trabalhar couros em Veza. Bortoli é generoso. ― Piscou-lhe o olho. Havia algo naquela voz que lhe soava a irónico. O homem estava em tronco nu, com a camada de pelos negros colados à pele coriácea pelo suor. Calças de samito cobriam-no até aos pés peludos e descalços. ― E tu, miúdo? Pensava que Bortoli te tinha deixado em Ccantia…

― E deixou. Vance Cego deixou-me como espião. Venho trazer as notícias que tenho para eles.

Raymon esfregou o próprio ombro com a mão direita e resmoneou algo entredentes, como se algo ali não lhe agradasse. Deitou um olhar de través a Empecilho e deixou-os passar com um “boa sorte” sussurrado.

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Fantasy Sand City (Fonte: pinterest)

Chegaram ao pavilhão de cetim mais exuberante do acampamento, com faixas de pano de ouro a esvoaçar sobre alabardas esculpidas em osso, e um par de indígenas rezolis a margear a aba de pano que dava acesso à tenda. Os rhovianos trocaram três palavras com os rezoli num idioma ininteligível para Empecilho e pouco depois um dos guardas retirou-se para o interior, regressando pouco depois com um assentimento de cabeça. Os rhovianos passaram por eles, arrastando Empecilho pelos braços.

O interior do pavilhão regurgitava de odores. Mel, óleo a arder, enxofre, alfazema. Uma mistura de perfumes que tentava disfarçar, com algum êxito, na verdade, os odores nauseabundos do exterior. Havia um silêncio desmoralizador naquela tenda. Uma quietude envolvente, sugestivamente precária. Era uma montanha em risco de desabar. Não registara vento no exterior, por isso era fácil perceber porque é que os foles de cetim não se moviam, mas não ouvia palavras ali dentro. As bocas estavam fechadas, os olhares postos num tripé de ferro, com juntas castanhas de ferrugem. Uma mulher de joelhos tinha os punhos agrilhoados ao tripé, acima da sua cabeça. Mantinha a cabeça pendurada para o peito, com os cabelos castanhos a cobrirem-lhe a maior parte do rosto cor de cacau. Estava nua.

À sua frente, Mario Bortoli mantinha-se afundado numa meia dúzia de almofadas, beberricando de um cálice que não podia ser maior que um dedal. Uma garrafa de vidro esmaltado repousava ao seu colo. Jupett Vance mantinha-se de pé à sua direita, com Ravella logo atrás. Mantinha uma expressão pensativa e, até certo ponto, pesarosa. As sobrancelhas tocavam-se, formando um ângulo expectante. O silêncio foi apagado com o pigarrear de um homem de meia-idade, tão escuro e tão nu como a mulher de joelhos. O torso magríssimo destacava-lhe o par de costelas e as pernas exangues estavam cobertas de varizes. Um rhoviano mantinha uma faca afiada abaixo do seu queixo, onde uma barbela flácida parecia uma bandeira a pender de uma haste.

Podia ser uma tarde normalmente agitada, mas o silêncio fazia das horas sombrias. Ninguém pareceu dar pela presença de Empecilho, muito embora a sua presença tivesse sido autorizada. Por incrível que fosse, foi o indígena sob coação quem lançou ao rapaz o primeiro olhar, um olhar aflitivo e sugestivo, com uma chuva de súplicas. Nenhuma lhe podia valer. Se houvesse um homem que o pudesse salvar da morte certa, Empecilho não seria esse homem.

O silêncio foi quebrado pela voz do indivíduo, como o tinir de uma peça de xadrez a cair de um tabuleiro:

― Se fizerem mal a Xamandra, as lágrimas de Ke cairão sobre vós! Ela é a filha de Kaxã, o ancião dos mioru. E é filha de Kima, a que descende do deus. Ele virá, degrau sobre degrau, dos avós aos netos, e neles calcará a espora que os fará falar por si. Lanças de prata esventrarão as vossas mulheres quando dos seus ventres penderem os vossos rebentos.

― O que dizes, pagão? ― perguntou Bortoli com uma gargalhada.

O homem atreveu-se a sorrir, embora soubesse que ia morrer. A bravata não escondia o terror no seu olhar.

― Quando esperarem receber nos braços os vossos filhos, das pernas das vossas mulheres jorrará estrume de cavalo. Quando vos julgares fausto no vosso trono de verga, a tosse de sangue ocupar-se-á de vós. Quando fordes…

― Levem-no! ― gritou Bortoli. ― Cortem-lhe os testículos e queimem-no para lhe fechar a ferida. Quero-o vivo, para que saiba o que é sofrer.

O humor desaparecera na voz de barítono de Mario Bortoli. Empecilho sabia que Bortoli estava a oferecer ao indígena a sua própria dor, uma vez que vivera frustrado pela lesão sexual provocada por Língua de Ferro. Nunca seria pai, mas o indígena não sabia disso e as suas pragas tinham surtido um efeito talvez mais terrível do que pretendera. Um rhoviano levou o homem, que esbracejava e grunhia enquanto passou por Empecilho e lhe lançou um olhar que tanto pareceu de súplica, quanto de ironia. Os homens vêm aquilo que querem ver, pensava Empecilho, relembrando-se das palavras do seu pai. Estranhamente, da última vez que cruzou o olhar com o homem, aquilo que viu nele foi uma espécie de diversão.

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Príncipe da Pérsia (Fonte: izabela-wilson.deviantart.com)

― Um absurdo. Isto é obsceno ― disse Mario Bortoli ao erguer-se. Vestia um manto verde com pregas castanhas coladas às mangas. Parecia ofendido. Pegou no queixo da mulher sob o tripé e puxou-lhe a cabeça para cima.

Os cabelos espalharam-se pelo rosto e Empecilho viu a sua expressão angular franzir-se de horror. Os seus olhos eram grandes e expressivos, com uma cor incomum. Dourados. A pele negra como teca parecia brilhar à luz de um braseiro aceso junto ao tripé, completando uma beleza exótica que o rapaz nunca testemunhara. Viu Bortoli a beliscar-lhe um mamilo pontudo e a sorrir lascivamente para ela.

― És tu, quem aquele homem chamou de Xamandra? És mesmo descendente de um deus qualquer, como ele disse? ― Soltou uma gargalhada, com os lábios a abrirem-se numa expressão que mal disfarçava o azedume ali implícito. ― Devias ter ouvido falar de mim. Das orgias de sangue que provoquei. Dos gritos de prazer que soltei enquanto via homens meus a estuprar mulheres mais feias do que tu. Devias ter ouvido falar de Mario Bortoli. Roubaram-me muito, nesta vida, mas não me roubarão os prazeres sádicos de um sátrapa. Comecei como salteador, mas ascendi a mecenas numa das cidades mais importantes de um império. Depois, veio a revolução e tomei-lhe a face. Amanhã, serei Imperador.

Pesou-lhe o seio e soltou uma risadinha. A mulher não demonstrou reação, e isso não o satisfez. Deu-lhe um estalo com as costas da mão, da esquerda para a direita, e o estalido que se fez ouvir não foi simpático. O rosto da mulher virou-se para a direita, mas nenhuma marca pareceu revelar-se no momento. Abriu-lhe o lábio, porém, e um fino filete de sangue escorreu-lhe pelo queixo. Pela primeira vez, a mulher lançou-lhe um olhar com significado legível. Uma expressão ameaçadora. Aquilo perturbou Bortoli, porque voltou-se repentinamente para Empecilho e perguntou:

― Então, rapaz? O que tens para mim?

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Mistborn fan art (Fonte: Lexi Gold)

― Com que então, Eduarda rumou aos Poços… ― Bortoli cofiava o queixo, caminhando de um lado para o outro. ― Aquele mísero bastardo!

Com um passo assertivo, Jupett Vance aproximou-se e Ravella seguiu-o como uma sombra. O homem dirigiu o olhar cego para Empecilho, mas foi para Bortoli que falou:

― Como lhe adverti, Língua de Ferro e Eduarda estarão ocupados com os Poços por um bom tempo. Não serão estorvo na vossa empresa.

Bortoli permaneceu um momento em silêncio, a acariciar os pelos hirsutos que lhe despontavam do queixo.

― Preferia que estivessem mortos! Já deviam estar mortos por esta altura. Neste momento, tenho muito mais com que me preocupar. Aposto um polegar em como os cães grandes da cidade não conseguem pregar olho a pensar em como quebrar este cerco. Devem ter enviado todos os homens sãos para a muralha. Devem ter contratado rapazes para separar munições e velhos para racionar pólvora. Mulheres foram pagas para fazer sopa aos patrulheiros, e outras para lhes aquecerem a cama. Algumas para ambos os ofícios. Uma aposta em como foder-me tornou-se o principal meio de subsistência para o povo de Chrygia. Uma aposta em como Camilli se revira na cama, alagado em suor, pensando em quebrar-nos. Ele não faz ideia de que o demónio em pessoa irá reclamar o Império para si.

O demónio em pessoa. Empecilho sentiu-se ligeiramente divertido ao perceber a forma destrutiva como Bortoli falava de si próprio. Também recordou-se que Língua de Ferro falava do seu polegar como um amuleto da sorte. Parecia algo que ambos aprenderam em conjunto, a avaliar o modo como Bortoli apostava o seu. Bortoli virou-se para Vance e colocou-lhe uma mão no ombro.

― Confio em ti, Vance! Venceremos este cerco.

Jupett Vance sorriu, abrindo as rugas de expressão em volta dos olhos e dos lábios.

― Venceremos, senhor. A essência assim o prediz. Os tempos errados estão a terminar: um trovão de ferro, uma vertigem de seda e um oscilar de ancas prenunciam a nova era. Um mar internar-se-á na cidade de prata, para transformar a sala do trono numa sepultura de água.

Empecilho estremeceu com as palavras. Mais do que as palavras, fora a forma como Vance as proferiu, estante que nem um fuso e num tom profético, o que lançou um tom críptico à frase. Bortoli pareceu igualmente inquieto, e não parecia ter alguma vez ouvido aquelas palavras.

― O meu exército ― disse, levando as mãos ao peito com fervor ― , será esse mar de que falais. E dessa sepultura aquática farei eu um novo Império.

Vance rodou a cabeça na sua direção, satisfeito.

― Descanse, senhor! As profecias falam por si. Há quem diga que o céu é um reflexo da terra. As nuvens podem não ser tão saborosas como um bolo de arroz, mas os seus habitantes não se parecem queixar. Há em cada tom um aspeto da nossa vida, e em cada grau de luz um pormenor da nossa complexidade. Somos seres pensantes, e isso pode tornar-nos pedantes diante da natureza. Se ter o dom de perguntar é uma dádiva, julgar-nos omniscientes conduz-nos a uma ignorância consentida. Não há grande esperteza, em viver empertigado como um sábio. Talvez por isso, hajam tantos. – Franziu o sobrolho. – E tão poucos.

― Ás vezes confundes-me.

Vance respondeu com um sorriso à apreensão do seu soberano.

― A nossa mensagem está quase pronta a ser entregue.

Com uma gargalhada estrondosa, Bortoli bateu-lhe na omoplata. Empecilho enrugou a testa, confuso.

― Vivo? ― perguntou Bortoli.

― Descanse. Sei como realizar um exercício de tortura pelos meios mais terríveis e manter um homem vivo. Allen sobreviverá, prego após prego. O que ele sabe é um perigo para nós. Se nada souber, poderá ser uma oportunidade.

Nem Bortoli nem Empecilho pareceram descansados quanto a isso. Allen… O rapaz ganhava coragem para perguntar por Allen quando a mulher sob o tripé grunhiu e cuspiu uma algaraviada qualquer, que ninguém pareceu compreender no momento. Vance aproximou-se da mulher e acocorou-se à sua frente. A mulher encolheu-se sob o seu olhar branco e, por um instante, também os seus olhos pareceram leitosos e marginados por sombras brancas. Quando se reestabeleceu, ficou em pele de galinha, encolhida em si mesma.

― Este homem ― disse na língua franca ― é um arauto das chamas brancas. Ele carrega consigo o terror dos homens. Evitem-no. Fujam dele.

Mario Bortoli engoliu o seu próprio terror e aproximou-se deles com passos decididos. Afastou Vance da mulher e sorriu para ela.

― Xamandra, Xamandra! Se este homem é aquilo que dizes, então quem devia querer fugir eras tu. Porque ele está comigo e juntos somos poder.

― O poder atrai inimigos ― atreveu-se Empecilho. Todos os olhos voltaram-se de súbito para ele. Ravella censurava o seu atrevimento com o olhar. Vance sorriu. Bortoli pareceu desagradado. Xamandra terrificada.

― O homem que levastes, senhor ― disse a mulher ― é o meu esposo. Um homem de pecados. Estou prometida a ele desde os oito anos de idade. Nunca me tocou. Ke perdoá-lo-á. A vós, homem gordo e sádico, o meu deus sangrar-vos-á até os gritos vos queimarem a garganta.

Bortoli cuspiu-lhe em cima com repugnância.

― Pára com isso, cabra. Os deuses estão mortos. Todos eles.

Xamandra voltou o olhar para Vance com um sorriso.

― Oh, é mesmo? Os deuses morrem e voltam a nascer das suas cinzas. Afinal de contas, não é por isso que aqui estás, arauto?

― A essência o prediz ― repetiu Vance.

Com um laivo de fúria, Mario Bortoli desembainhou uma faca do seu cinto e enterrou-a no crânio da mulher, pela têmpora esquerda. Ela fechou os olhos antes de sentir a lâmina, fria, a enterrar-se-lhe no couro cabeludo. A faca ficou ali, com o sangue a cair em pasta, avermelhando-lhe os cabelos.

Ravella pôs uma mão à boca, indisposta. Empecilho fechou os olhos.

Vance assentiu.

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Conan, o Bárbaro (Fonte: pinterest)

Empecilho foi dispensado pouco depois. Vance juntou-se-lhe quando estavam a fazer cama junto a uma fogueira, e acocorou-se ao seu lado, a limpar as unhas com uma faca afiada. Os reflexos das labaredas orlavam-lhe o rosto de tons quentes, laranjas e vermelhos. Os seus dedos de fogo pareciam querer alcançá-lo, em vão. Suor e calor agarravam-se ao ar, evolados em nuvens de fumo.

― Fizeste um bom trabalho, rapaz… A essência agradece.

O rapaz estudou-lhe o rosto. Não lhe agradava fazer o que o homem lhe mandava, em especial se isso significava trair Língua de Ferro. Ainda assim, nada devia a Merren “Anéis da Morte” Eduarda nem a Dagias Marovarola. Eram homens cruéis, todos eles. O próprio Língua de Ferro era um homem cruel, muito embora já lhe tivesse salvo a vida mais do que uma vez. Uma moeda de ouro surgiu como por magia na mão de Jupett Vance. Voltou-a para baixo e ficou colada na palma. Passado um pouco, caiu sem qualquer som na areia quente. Empecilho cobriu-a de imediato, olhando por cima dos ombros para perceber se alguns dos homens que andavam para cá e para lá o teriam testemunhado. Fechou a mão sem pontas de dedos na moeda, e sentiu o calor da areia e o frio do ouro. Guardou a moeda numa bolsa.

― Espero que o meu testemunho não prejudique Língua de Ferro.

Vance ampliou os lábios sem humor, com o olhar branco concentrado nas labaredas.

― Língua de Ferro não terá problemas, rapaz. Ele é um instrumento. Apenas e só um instrumento. Apenas aqueles que não pretendem servir a essência terão algo a temer.

― A essência. Tanto que fala na essência. Quem raios é ela?

― É tão difícil compreender a essência como é difícil cheirar a lua. É como compreender um trava-línguas enlouquecido. Um sussurro de gargantas mortas, aflitivo como um estertor de moribundo. Gostava de te dizer que ela tem cor, sexo ou cara. Não tem. Tem os seus toques de humor, uma construção mental, os seus laivos de violência e quando achas que a podes subestimar, que baixou as barreiras defensivas, habilitas-te a perder a cabeça – literalmente – enquanto dormes. Ela possui toda a magia de que podes imaginar, mas não penses que se trata de um feiticeiro com os seus grimórios e arsenal de magias. Ela controla o mundo e pode viciar-te em quebra-cabeças do mesmo modo que te pode viciar em drogas. Ela controla o curso do vento da mesma forma que controla seitas e políticos. Ela manobra as feitiçarias dos homens em seu proveito. Ah, e tem a sua própria justiça, mais efetiva que a dos homens, o seu mistério e a sua superstição. Podes procurá-la durante toda a vida e morrer sem a encontrar. Tentar conhecê-la é como tentar descobrir o assassino num romance policial, com a diferença de que podes chegar ao fim sem a ter descoberto. Destila preocupação como suor, mas se és tu o motivo, não preciso de dizer quem deve ficar preocupado.

Empecilho engoliu em seco e fez que sim com a cabeça.

Encontrou Allen ao cair da noite, já a maior parte dos homens tinham-se aglomerado em volta das fogueiras para a refeição noturna. Estava amarrado a uma grande cruz de madeira, uma trave maciça sobre um poste de quase quatro metros. Sem qualquer roupa, o homem que fora o rosto de Landon X tinha as mãos e os pés unidos à madeira por pregos, e chagas de sangue percorriam o seu próprio corpo. Um feixe de sangue já seco percorria-lhe o rosto, e tinha feridas a gangrenar. O sol diurno queimara-lhe a pele em muitas áreas. Pequenos penachos de fumo pareciam manar do seu corpo. Compadeceu-se dele.

― Allen.

O homem oscilava entre o delírio e a inconsciência, mas por um segundo pareceu mover a cabeça na sua direção, quando Empecilho caiu de joelhos aos pés da cruz.

― Allen, o que é que te fizeram?

Estavam longe dos pavilhões mais imponentes, numa espécie de descampado entre os maiores aglomerados do acampamento.

― Fizeram-lhe o que te farão a ti ou a mim, se representarmos uma pequena ameaça para os seus desígnios. ― A voz que ouviu, atrás de si, era-lhe familiar. ― Esta noite, Empecilho, quebrarei o cerco a Chrygia e serei recordado como um herói.

Empecilho voltou-se subitamente, ainda confuso. Cambaleou antes de se apoiar na areia e reerguer-se. Reconhecera-lhe primeiro a voz, depois o torso musculado e por fim o cabelo, apanhado num rabo-de-cavalo atrás da nuca. Fiapos de barba azul-turquesa derramavam-se-lhe do queixo vigoroso. Tinha os olhos vazios.

Era Língua de Ferro.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um

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