Estive a Ler: Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3


O destino é inexorável.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Senhores do Norte”, terceiro volume da série Crónicas Saxónicas

Bernard Cornwell é um nome que figura na linha da frente da ficção histórica em todo o mundo. O autor londrino é o responsável por uma sucessão de best-sellers de grande êxito, da trilogia dos Senhores da Guerra às aventuras de Sharpe, passando pelas Crónicas de Nathaniel Starbuck, Stonehenge ou a série Crónicas Saxónicas, que relata a vida do personagem fictício Uthred de Bebbanburg.

Publicado pela Edições Saída de Emergência no passado mês de abril, o livro Os Senhores do Norte é o terceiro volume das Crónicas Saxónicas, com tradução de Paulo Alexandre Moreira. O livro foi adaptado pelas mãos da BBC, correspondendo a parte da segunda temporada da série televisiva The Last Kingdom.

Era o destino que me guiava. Tinha vinte e um anos e acreditava que as minhas espadas podiam ganhar o mundo para mim. Era Uthred de Bebbanburg, o homem que matara Ubba Lothbrokson junto ao mar e que derrubara Svein do Cavalo Branco da sela em Ethandun. Era o homem que devolvera a Alfredo o seu reino, e odiava-o. Por isso ia abandoná-lo. O meu caminho era o caminho da espada, e seria esse caminho que me conduziria até casa. Iria para norte.

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Arte (Fonte: pinterst.com/viking-art)

Uma vingança há muito adiada

De modo algum Uthred de Bebbanburg esqueceu a falta de gratidão de Alfredo para consigo. Depois de liderar as suas forças e fazer o rei vencer a célebre batalha de Ethandun, quando não só o destino de Alfredo como o de toda a Inglaterra podia ter sido desvirtuado em favor dos dinamarqueses, o rei ofereceu-lhe em agradecimento apenas cinco peles, que mais não era que uma pequena porção de terreno. Magoado, Uthred dirige-se a norte, decidido a recuperar o que é seu por direito: Bebbanburg, a fortaleza que o viu nascer, a inexpugnável casa que o tio Ælfric reclamou para si após a morte do seu pai, quando Uthred foi acolhido pelos dinamarqueses e criado entre eles.

O Wessex está mais forte do que nunca. O homem que liderava as forças dinamarquesas, Guthrum, foi derrotado e declarou-se cristão, sendo mesmo batizado e colaborando com Alfredo por imposição tácita. Ragnar, o irmão de criação de Uthred, e a sua amante Brida continuam reféns de Alfredo, mas nada isso impede Uthred de cumprir o seu destino. As tecedeiras fazem as suas tramas aos pés de Yggdrasil e o destino é inexorável.

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Vikings (Fonte: pinterest.com)

Se pudessem, Ivarr e Kjartan transformariam a Nortúmbria num bastião pagão, e Alfredo queria evitar que isso acontecesse. Como tal, Beocca devia pregar a paz e a conciliação, mas Steapa, Ragnar e eu iríamos armados de espada. Éramos os seus cães de guerra, e Alfredo sabia muito bem que Beocca seria incapaz de nos controlar.

E é o destino a colocar Uthred na Nortúmbria natal, onde cães raivosos tentam reclamá-la para si. Junto de Hild, a freira que se tornara sua amante depois de a libertar da prostituição, Uthred regressa às suas origens. Por vontade dos deuses, tropeça em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo. Foi feito escravo, mas quando o liberta das garras dos seus inimigos, percebe também que ele é um rei. Ou, pelo menos, o rei que o Wessex necessita. Num norte fustigado por irascíveis senhores dinamarqueses, Guthred é o pregador da vontade de Deus. Acompanhado por um séquito de padres velhos e irascíveis, como o intragável Hrothweard, e pela irmã Gisela, por quem Uthred se encanta, Guthred defende Cair Ligualid, um pequeno povoado que herdara do seu pai, um afamado conde local.

Uthred torna-se amigo de Guthred com facilidade, não só pelo charme natural do jovem senhor, como pela sua genuína ingenuidade para com a guerra. Guthred deseja semear o Cristianismo no norte, mas os homens que o seguem não são os mais indicados. Por mais disparatadas que sejam, as vontades dos padres convencem sempre Guthred, desde que lhe digam que sonharam com São Cutberto e que ele lhes disse o que haveriam de fazer. A credulidade de Guthred é uma das coisas que Uthred mais odeia nele, assim como a obsessão em ser tolerante para com os outros e seguir o exemplo de Alfredo, que Uthred tanto odeia.

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Guerreiro dinamarquês (Fonte: amuse.laurakress.com)

As relíquias dos santos são levadas para todo o lado por estes homens, consideradas mais valiosas que as suas próprias vidas. Uthred serve os saxões, mas é um dinamarquês de alma e coração, e cuspir em toda aquela fantochada é uma tentação grande, apenas refreada porque não só deseja ardentemente a irmã de Guthred e gosta do autoproclamado rei, como os seus inimigos são também os dele. Ælfric, o seu tio, em Bebbanburg. Kjartan, O Cruel, em Dunholm, e Ivarr Ivarson, nas terras em redor.

Se Uthred olhava para Ælfric como o seu maior inimigo, não guardava por Kjartan melhor estima. Fora o responsável pela morte do seu pai de criação, Ragnar Lothbrokson, e o raptor da filha deste, a jovem Thyra, em desforra por este ter mutilado o olho do seu filho como castigo por ele a desnudar. Uthred havia estado lá, e tivera papel determinante em tudo aquilo. Agora, era tempo de se vingar. Ivarr não lhe suscitava tanto ódio, mas ele era filho de Ivar, irmão de Ubba, e os irmãos Lothbrokson haviam sido temíveis quando ele era apenas um garoto, o que não o impediu de matar o mais poderoso de entre eles.

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Os Ragnar são todos iguais :p (Fonte: pastemagazine.com)

Uma traição óbvia

Quando a terra de Guthred é atacada por uma esquadra de assalto formada por oito homens de Kjartan, Uthred percebe que os jovens que defendem Cair Ligualid não são tão despojados de valor quanto presumia. Assim sendo, decapita os inimigos, deixando apenas um filho bastardo de Kjartan como aprendiz e refém, Sihtric, e envia-lhes as cabeças como resposta de uma figura fantasmagórica, que antes havia assustado o primogénito do seu inimigo: Sven, o Zarolho. Mas essa ação acontece tardiamente, quando Ivarr já havia sido derrotado pelos escoceses e Guthred se dispusera a abrigá-lo em troca de uma aliança.

A identidade de Uthred é colocada a descoberto, e os planos de Guthred rapidamente saem do controlo do bravo guerreiro. Usando a irmã Gisela como vaca de paz, possível chave para uma aliança estratégica, promete-a ao filho de Ivarr, Ivar, para cimentar a sua aliança ténue. Envenenado por Ivarr e pelos padres, Guthred acaba por sacrificar Uthred, de modo a alcançar um acordo com Kjartan que fosse favorável a todos. Absorto com tal surpresa inesperada, Uthred entrega a Hild a espada Bafo de Serpente e a sua armadura e fá-la jurar que as guarda para si, enquanto é vendido por Guthred a um navio, como escravo.

Nos dois anos em que vive como escravo em alto-mar, Uthred não esquece Gisela nem a sua sede de vingança. Ali conhece Finan, um escravo irlandês com quem enceta uma amizade duradoura, mas é quando regressa ao local onde foi vendido, onde reencontra velhos amigos e inimigos, que irá despoletar uma guerra à escala global, onde Alfredo lançará Uthred e os seus melhores homens como dados para um tabuleiro onde pretende fazer com que Guthred ganhe o norte.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Uma poderosa história de traição, romance e luta numa Inglaterra cheia de convulsões, sublevações e glória

Corre o ano de 878, e o Wessex está livre de vikings. Uhtred, o filho expropriado de um senhor da Nortúmbria, ajudou Alfredo a obter a vitória, mas sente-se desgostado com a falta de generosidade de Alfredo e repelido pela insistente piedade do rei. Parte do Wessex, com destino ao Norte, em busca de vingança pela morte do pai adoptivo e para salvar a irmã adoptiva, capturada num ataque. Para tal, precisa de encontrar o seu velho inimigo, Kjartan, um lorde dinamarquês renegado que se esconde na formidável fortaleza de Dunholm.
Uhtred chega ao Norte para se deparar com a rebelião, o caos e o medo. A sua única aliada é Hild, uma freira saxã ocidental em fuga à vocação, e a sua maior esperança reside na própria espada, com a qual construiu uma reputação formidável enquanto guerreiro. Para obter a tão desejada vingança, precisará do auxílio de outros guerreiros para confrontar os poderosos e cruéis senhores vikings do Norte.
OPINIÃO:

Sem grandes adjetivos que possam fazer-lhe justiça, estamos perante um livro de leitura compulsiva, e sinceramente dos melhores romances históricos que já li. Os Senhores do Norte, terceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, é um livro vibrante, que só nos deixa descansados quando passamos a última página. À semelhança, aliás, dos livros anteriores.

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Guerreiro viking (Fonte: youtube/channel/UC)

Estou a falar de um livro despretensioso. Ele não tem uma história rocambolesca nem muito mais trabalho de fundo que os livros anteriores, nem sequer a escrita de Bernard procura surpreender os leitores com a sua erudição. Não precisa. O autor britânico escreve bem por naturalidade, de forma fluída e descomplexada. De tal modo que certas passagens parecem casuais, e quando estamos a deixar-nos fluir no caudal sereno da sua escrita, ele mata-nos. Não literalmente. Ele surpreende e dá-nos plot twists deliciosos sem dar qualquer indício disso, sem qualquer suspense ou chamada de atenção. E é isso que eu amo em Bernard Cornwell.

“O autor britânico escreve bem por naturalidade, de forma fluída e descomplexada. De tal modo que certas passagens parecem casuais, e quando estamos a deixar-nos fluir no caudal sereno da sua escrita, ele mata-nos. Não literalmente.”

A história em si foi muito bem montada. Parece algo avulsa, sem uma predefinição explícita. Uma ideia momentânea do autor. E, de repente, ele une pontas soltas e resolve os problemazinhos que ele tinha deixado lá no primeiro livro. E isso é delicioso. Adoro os senhores dinamarqueses com toda a sua sobranceria e poderio aparentemente inabalável… pelo menos até aparecer o Uthred nas suas vidas. É como a Guerra dos Cinco Reis das Crónicas de Gelo e Fogo, com um estilo mais corrido e igualmente realista – indubitavelmente mais real em teoria.

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Oh yeah 😀 (Fonte: growabeardnow.com)

Bernard Cornwell consegue fazer o seu protagonista chegar aos vinte e poucos anos já com um rol de mulheres bem grandinho na sua lista vida. E fá-lo sem sexualizar demasiado a mulher, oferecendo-lhes caráter e personalidades únicas. E se faltam cenas íntimas no decorrer dos livros, protagonizadas por Uthred, tal é uma opção que se adapta. Os diálogos adultos e os subentendidos suprimem facilmente essa carência.

Se houve algo que não gostei neste livro, foi a forma com que uma determinada fortaleza foi tomada e a lealdade criteriosa de certos animais para efeitos narrativos. Não tenho nada mais a apontar. É um livro pequeno, que se lê com facilidade e não deixa o leitor separar-se dele por muito tempo.

As Crónicas Saxónicas são uma saga incrível pela forma simples com que nos mostra cenas históricas reais e as torna palpáveis, com uma certa dose de imaginação sempre bem-vinda. Não há grande aprofundamento de personagens, para além do protagonista, mas não é essa a intenção do autor e em boa verdade, o que Bernard Cornwell nos oferece já é bom que chegue.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Crónicas Saxónicas (Saída de Emergência):

#1 O Último Reino

#2 O Cavaleiro da Morte

#3 Os Senhores do Norte

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4 thoughts on “Estive a Ler: Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3

  1. Pingback: O Cavaleiro da Morte, Crónicas Saxónicas #2 – Notícias de Zallar

  2. Pingback: O Último Reino, Crónicas Saxónicas #1 – Notícias de Zallar

  3. Viva,

    mais um grande comentário, este livro está brutal a cena onde conhece o “irlandes” adorei, momentos bem complicados que passaram e concordo com o que achas menos bom, um pouco forçado mas tudo bem, escapa e não belisca tudo o que elogias do escritor, venha o seguinte 😉

    Abraço

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