Estive a Ler: A Louca do Sacré-Coeur


Quando há oito anos puseste em prática uma das tuas geniais “teorias”… passaste a ser um “monge universitário”… deixaste de fazer amor para te vestires de violeta!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Louca do Sacré-Coeur” (Formato BD)

Alejandro Jodorowsky e Moebius, dois dinossauros da Nona Arte, uniram-se para conceber A Louca do Sacré-Coeur. Os autores dispensam apresentações. Vanguardista e conhecido pela polémica dos seus escritos, seja na banda-desenhada, no teatro ou no cinema, Jodorowsky ganhou amores e ódios com a peculiaridade e sordidez da sua obra. Já Moebius, pseudónimo do artista Jean Giroud, foi um dos mais notáveis ilustradores franceses do último século.

Dividido em três partes, uma vez que o álbum foi publicado originalmente em três volumes, entre 1992 e 1998, A Louca do Sacré-Coeur saiu por cá em 2015, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em parceria com o Jornal Público. Com tradução de José de Freitas e Pedro Cleto, trata-se de uma crítica religiosa e social mirabolante e tresloucada.

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Capa Levoir / Público

Um professor violeta

A Louca do Sacré-Coeur apresenta-nos Alain Mangel, um professor de filosofia na Sorbonne que parece um homem cheio de valores. É um daqueles professores intelectuais que atraem os alunos com tanta facilidade que quase se tornam uma super-estrela na Universidade. Aquele professor que todos os alunos gostariam de ter. Todas as certezas e seguranças deste selecto professor vestido de roxo parecem desaparecer quando é seduzido por uma jovem aluna e é enredado numa aventura alucinante.

Mangel parece sofrer uma daquelas crises de meia-idade, o que compromete definitivamente o seu casamento. Elizabeth é a aluna que lhe vai dar a volta à cabeça, arrastando-o para uma loucura de contornos místicos e sexuais. Ela leva-o para um mundo iniciático que utiliza a religião em cerimónias lascivas de pura loucura e blasfémia, com recurso a drogas.

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Prancha Levoir / Público

Uma rapariga louca

Tendo como objetivo gerar o novo Messias, a seita onde Mangel se inicia leva-o a pactuar com uma loucura desenfreada, a um baptismo sui-generis, a uma gravidez desejada, ou nem tanto, mas também aos caminhos perversos do crime. Mas o que parece uma brincadeira sórdida pode comprometer não só a sua reputação, como pôr em risco a própria vida e convicções.

A atração física por raparigas bem mais jovens desvirtua este professor catedrático de tal forma, que nem mesmo as suas ideologias religiosas escapam impunes. Drogas, sexo e brincadeiras blasfemas transformam-se numa reflexão sobre a natureza humana e numa corrida pela própria integridade numa história inquietante que mistura dramas pessoais, xamãs, guerrilheiros da América Latina e a conservadora religião estanque no Sagrado Coração de Paris.

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Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius, pseudónimo usado por Jean Giraud, foi um dos mais inovadores artistas de banda desenhada, e encontrou no escritor chileno Alejandro Jodorowsky o parceiro perfeito para desenvolver um estilo muito variado, marcado pelo sentido do real aliado a uma componente onírica e surrealista muito fortes. Juntos, assinaram uma das mais revolucionárias obras de banda desenhada de sempre, a série do “Incal”. Nos inícios da década de 1990 voltariam a reunir-se para este livro, talvez o mais singular da obra destes dois autores.

Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mítica, farsa sagrada, caminho iniciático e exorcismo, o percurso do protagonista vai levá-lo a abrir os seus olhos para outra realidade.

OPINIÃO:

Uma sátira à espiritualidade, à religião e à natureza humana, A Louca do Sacré-Coeur de Moebius e Jodorowsky é também uma espécie de reflexão pessoal do Homem enquanto ser que erra e se deixa influenciar pelo pensamento coletivo. De certa forma autobiográfico, o que se percebe quando Moebius desenha o protagonista do álbum como o próprio Jodorowsky, este livro deixa claramente uma mensagem de que todos pagam o preço pelas próprias escolhas e todos somos falhos enquanto seres humanos. É a partir daqui que se desenvolve uma narrativa louca, que promete alguma diversão e crítica moral.

Não gostei muito deste álbum. Jodorowsky não encanta na escrita. Muito embora tenha adorado o seu trabalho em Os Bórgia, em colaboração com Milo Manara, o autor chileno já não me havia conquistado com Bouncer, e este livro não trouxe melhorias a esse respeito. O que mais me apraz neste autor é mesmo a ousadia e a forma com que escancara a podridão da mente humana. A arte de Moebius é boa, revelando nos traços fortes e cores densas a identidade inconfundível do melhor estilo franco-belga. Confesso que nunca vi mais nada deste célebre artista francês para comparar, mas a fama que o precede não me desapontou.

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Prancha Levoir / Público

Esperava mais deste A Louca do Sacré-Coeur, mesmo tratando-se de uma aventura de bom ritmo com momentos marcantes e cenas bem-humoradas. A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial. As várias histórias a que somos apresentados entrelaçam-se mas acabam por não trazer nada de relevante para o plano principal.

“A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial.”

Em alguns momentos frívolo, em outros pertinente, o álbum A Louca do Sacré-Coeur não foi, porém, uma leitura má. Tanto a proposta como as imagens agradaram-me, a concretização das ideias e a frugalidade dos diálogos e das histórias, porém, comprometeram as minhas expectativas.

Avaliação: 5/10

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