Estive a Ler: O Medo do Homem Sábio, Crónica do Regicida #2 (1/2)


Lembre-se de que há três coisas que todo sábio teme: o mar na tormenta, uma noite sem luar e a ira de um homem gentil.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Medo do Homem Sábio Parte 1”, segundo volume da série Crónica do Regicida

Dividido em Portugal em dois livros, pelas mãos da Edições ASA/1001 Mundos, O Medo do Homem Sábio é o segundo volume da aclamada Crónica do Regicida de Patrick Rothfuss. Saiu por cá em 2011, logo após o seu lançamento, muito por conta da extraordinária repercussão mediática e pela vontade do público aficcionado por ficção fantástica em saber mais sobre Kvothe e as suas façanhas, que já haviam surpreendido meio mundo com o livro inaugural da saga, O Nome do Vento.

Assim que saiu, The Wise Man’s Fear, nome original, saltou para os lugares cimeiros da lista de fantasia do The New York Times. Considerado por muitos como uma gigantesca obra de fantasia em todos os aspetos, o livro foi elogiado pela publicação Publisher’s Weekly como uma “sequela hipnotizante”. Com este livro, Patrick Rothfuss assegurou convictamente o seu lugar entre os monstros do género.

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Kvothe (Fonte: gentaroendo.deviantart.com)

Os espinhos de Kvothe

A estalagem Pedra do Caminho continua a ser um local pouco frequentado, afora as ocasionais entradas e saídas do grupinho de Cob. Kote, o estalajadeiro ruivo, continua assim rodeado de um ambiente profundamente introspetivo, na companhia do seu criado e discípulo Bast, um rapaz com pés de cabra, e do Cronista, um famoso coletor de informações, que após um delicado acidente com “aranhas” ficou retido na estalagem para cuidar dos ferimentos. Foi aí que percebeu que o velho estalajadeiro era, na verdade, o lendário Kvothe. E Kvothe fê-lo adiar os seus compromissos para lhe contar a verdade sobre a sua vida durante três dias. Sim, três dias. O Medo do Homem Sábio compreende o segundo dia de narração.

No primeiro livro, Kvothe narrou a sua infância numa trupe itinerante de Edema Ruh e a morte dos seus pais às mãos de um grupo de sujeitos celebrizados no folclore popular como Chandrian, uma espécie de bicho-papão em que poucos acreditam, mas que afinal é um grupo de sete indivíduos, sendo que um deles é o próprio Haliax, a forma de sombras em que se transformou Lanre, um personagem histórico visto por uns como um herói, por outros como o responsável pelo colapso de um Império.

Kvothe conta também a mendicância e a tortura a que foi submetido nas ruas de Tarbean e a adesão à famigerada Universidade, onde entrou antes de ter idade para isso, para aprender as magias conhecidas como Simpatia e Nomeação. Pelo meio, conheceu a fugidia Denna, uma rapariga misteriosa por quem se apaixonou. O Medo do Homem Sábio traz Kvothe na Universidade, mas a sua vida está longe de parecer confortável. A tocar alaúde para subsidiar os seus estudos, Kvothe tem ali amigos e uma vida, mas os problemas não tardam em aparecer.

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Kvothe (Fonte: artwithcharcoal.artstation.com)

Dívidas pagas e por saldar

Na Universidade, a inimizade entre Kvothe e Ambrose pareceu arrefecer. Os dois já fizeram mal um ao outro que baste, e Kvothe tem a noção que mexer mais na ferida só lhe poderia causar embaraços, uma vez que o seu arquirrival já se mostrara poderoso e influente. Dedicou-se aos estudos e alistou-se nas aulas de nomeação de Mestre Elodin, na tentativa de vir a aprender os nomes das coisas. Porém, as aulas revelaram-se um enigma e nenhum dos alunos pareceu fazer qualquer avanço na matéria. Ainda assim, Kvothe distinguiu-se na oficina de Kilvin e também como simpatista parecia imbatível.

Simmon e Willem revelaram-se amigos inseparáveis e viveram com Kvothe os momentos de maior união e camaradagem. As noites na Eólica, onde Kvothe se tornou uma celebridade, foram quentes e alegres. Apenas Denna continuou a escapar-lhe por entre os dedos. A jovem tanto aparecia como desaparecia, e o maior medo de Kvothe era cair no erro de outros tantos homens, quando tentaram restringir a liberdade da rapariga. É quando a vê de braço dado com Ambrose, que a fúria de Kvothe atinge um novo nível de arrebatamento.

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Devi (Fonte: pinterest.com)

Rapidamente, porém, percebeu que Ambrose era mais uma das companhias ocasionais da sua amada, que tão depressa se deixava acompanhar por um homem como o abandonava. Denna era um espírito selvagem, que vira em Kvothe alguém especial exatamente por não a forçar a nada. Kvothe descobriu também que Ambrose ficara com o anel de Denna para o reparar, mas a falta de vontade da rapariga em voltar a vê-lo fê-la sentir-se constrangida para o pedir de volta.

Kvothe recebeu também uma visita especial. Tratava-se de Nina, uma menina que conhecera em Tarbean. Levou-lhe um pedaço de cerâmica que poderia oferecer-lhe respostas acerca do passado do Império e sobre a terrível ameaça que matara os seus pais. O Chandrian. Readmitido nos Arquivos, de onde fora expulso pelo Mestre Lorren, Kvothe vasculhou tudo em busca de informações, mas nada de válido encontrara naquele imenso acervo. Foi ali, no entanto, que os seus amigos Simmon e Willem o apresentaram a uma curiosa personagem, o Marionetista, que vivia num quarto dentro dos Arquivos.

A par de Denna e dos seus amigos mais próximos, Kvothe tinha alguém especial a quem visitar: Auri, a menina que vivia nos subterrâneos. Teve ainda que lidar com as dívidas a pagar a Devi, a mítica ex-aluna da Universidade que lhe emprestara dinheiro. Após uma série de situações, Kvothe foi alvo de uma espécie de voodoo, quando sentiu o corpo sistematicamente violentado por uma força fantasmagórica. Desde logo as suas suspeitas dançaram entre Ambrose e Devi, uma vez que a agiota possuía o seu sangue e ficara deveras ofendida por ele lhe recusar um segredo.

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Denna (Fonte: kingkiller.wikia.com)

Uma nova oportunidade

Com a ajuda de Feila, Simmon, Willem e Moula, Kvothe elaborou um plano rebuscado para humilhar Ambrose e recuperar o anel de Denna, depois de a rapariga ter desaparecido misteriosamente, uma vez mais. A relação de Kvothe com Elodin estreitou-se, ainda que o professor parecesse cada vez mais enigmático. Foi quando os seus bolsos pareciam mais cheios e a vida a endireitar-se que o azar bateu-lhe novamente à porta. A Lei Férrea é contundente e Kvothe foi levado à justiça por danos provocados no passado. Kvothe usou-se da sua imensa lábia para ser ilibado, mas todos o aconselharam a ausentar-se da Universidade. O julgamento em si traria mau nome à instituição, e com isso ganharia o desdém dos professores, o que iria prejudicar gravemente a sua avaliação.

Encontrava-se a passar umas “férias” nas imediações quando o seu amigo Threipe lhe disse ter encontrado um mecenas. Tratava-se de um homem tão poderoso quanto um rei, o maer de Vintas, uma região longínqua. O maer contactara Threipe para que este lhe arranjasse um rapaz com boas maneiras e facilidade para fazer música, o que o aristocrata julgara assentar como uma luva no perfil de Kvothe. Certo de que nada tinha para fazer ali e sequioso de descobrir mais informações sobre o Chandrian e os Amyr, Kvothe aceitou embarcar nessa aventura distante.

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Kvothe (Fonte: siliceb.deviantart.com)

Vintas revelou-se o lar da aristocracia, uma terra cheia de barões e baronetes, onde a etiqueta era de elevada importância, assim como os modos e o berço. Kvothe sofrera alguns reveses até ali chegar, mas rapidamente usou-se do seu talento como ator para se integrar na sociedade vintasiana. Chegou à mansão do maer Lerand Alveron, na cidade de Severen, sem saber ao que ia. O maer era um homem aparentemente velho e de saúde débil, que o acolheu como um companheiro de conversas, ofereceu-lhe roupas e aposentos dos mais requintados e criou uma relação de fácil empatia consigo. Era um homem solitário, derruído pela doença, que apenas podia confiar no seu camareiro Stapes e no curandeiro, o alquimista Caudicus.

A vida na cidade de Severen pareceu-lhe entediante, até certo ponto. Kvothe tornou-se o alvo da curiosidade aguçada da burguesia, que não sabia efetivamente quem ele era. Mas, aparte os questionários indesejáveis, Kvothe conheceu Bredon, um homem com aspeto de coruja, com quem aprendeu um jogo que o fez não morrer de tédio. Reencontrou também Denna, na cidade, e percebeu que ela estava ali a agir para o seu Mecenas, um sujeito enigmático de quem nem sabia o nome, e o coração do músico oscilava entre a felicidade dos seus encontros e o receio de avançar na relação. A par dos dilemas amorosos, Kvothe teve ainda que desvendar uma série de mistérios e evitar uma tentativa de homicídio.

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Capa 1001 Mundos
SINOPSE:

Agora em O Medo do Homem Sábio, Dia Dois das Crónicas do Regicida, uma rivalidade crescente com um membro da nobreza força Kvothe a deixar a Universidade e a procurar a fortuna longe. À deriva, sem um tostão e sozinho, viaja par Vintas, onde, rapidamente, se vê enredado nas intrigas políticas da corte. Enquanto tenta cair nas boas graças de um poderoso Nobre, Kvothe descobre uma tentativa de assassínio, entra em confronto com um Arcanista rival e lidera um grupo de mercenários, nas terras selvagens, para tentar descobrir quem ou o quê está a eliminar os viajantes na estrada do Rei.
Ao mesmo tempo, Kvothe procura respostas, na tentativa de descobrir a verdade sobre os misteriosos Amyr, os Chandrian e a morte da sua família. Ao longo do caminho Kvothe é levado a julgamento pelos lendários mercenários Adem, é forçado a defender a honra dos Edema Ruh e viaja até ao reino de Fae. Lá encontra Felurian, a mulher fae a que nenhum homem consegue resistir, e a quem nenhum homem sobreviveu… até aparecer Kvothe.
Em O Medo do Homem Sábio, Kvothe dá os primeiros passos no caminho do herói e aprende o quão difícil a vida pode ser quando um homem se torna uma lenda viva.

OPINIÃO:

Este é um livro que adoraria ter sido eu a escrevê-lo. O Medo do Homem Sábio foi dividido no nosso país, e ainda assim esta primeira parte encheu-me as medidas por completo. Se O Nome do Vento já me tinha agradado muito, este segundo volume agarrou-me ainda mais e Patrick Rothfuss tornou-se já um dos meus autores de eleição. Espero que a segunda parte confirme a minha opinião. Não temos batalhas, não temos cenários épicos, não temos uma gama enorme de personagens badass, não temos cenas de sexo, plot-twists de tirar o fôlego ou dragões ou monstros originais. Pois não. Temos intrigas, truques, inteligência, mistérios, um ambiente que oscila entre o medieval e o renascentista, com traços vitorianos, e um protagonista maravilhoso. Sim, estou a falar do Kvothe.

Se já havia referido a forma comovente com que o autor trata a música, no primeiro volume, posso dizer que este livro cuidou desse tema com ainda mais carinho. O personagem principal é um músico exímio, mas o próprio autor parece fazer música com as suas palavras. Dificilmente encontrarás um escritor de ficção com prosa tão maleável e com tanto coração nas palavras. 

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Kvothe (Fonte: deviantart.com)

O ponto fraco do autor é mesmo o curso interminável de deambulações e dilemas por parte do protagonista, o que resulta no volume imenso destes livros. De qualquer forma, falta de acontecimentos não pode ser um defeito apontado a Rothfuss. A história de Kvothe não pára e novas surpresas ocorrem a cada virar de página, sempre com momentos de maior felicidade ou sofrimento, fazendo o leitor seguir com atenção a vida deste personagem tão fascinante. Com o coração nas mãos.

“De qualquer forma, falta de acontecimentos não pode ser um defeito apontado a Rothfuss. A história de Kvothe não pára e novas surpresas ocorrem a cada virar de página, sempre com momentos de maior felicidade ou sofrimento”

A primeira parte do livro foi uma continuação direta dos acontecimentos finais de O Nome do Vento. Os personagens da Universidade foram explorados, e ainda que eu tenha comparado, na recensão ao livro anterior, esse núcleo ao de Harry Potter, o que foi uma crítica, fui agarrado logo de início com este livro. As conversas entre Kvothe e os seus amigos são hilariantes, o clima de paródia na Eólica ombreia bem de perto com as conversas entre Locke Lamora e os seus The Gentleman Bastards e posso dizer que não lhe fica atrás em momento algum.

Elodin foi um personagem que ainda não teve o destaque que talvez se adivinhasse, mas posso dizer que todas as suas aparições foram uma benção. Frases épicas, saídas inesperadas, e todo um mistério à sua volta. Confesso, não consigo descolar este personagem do mítico Dr. House da série de televisão; na minha cabeça eles são um e a mesma pessoa. Loucos, divertidos e bons no que fazem.

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Kvothe (Fonte: Marc Simonetti)

Se não bastasse este núcleo de personagens tão bons como a “terrível” Devi ou a magnífica Auri para eu achar este um livro tão bom quanto os meus preferidos, Patrick Rothfuss ainda tinha que enviar Kvothe para Vintas. Bye bye escolinha. Olá, novo núcleo. O novo núcleo que Rothfuss apresentou foi bem o reflexo dos melhores mundos fantásticos que conheço e em que gosto de me introduzir, seja como leitor ou escritor: o cenário renascentista. Lordes e damas, banquetes e regras de etiqueta, uma panóplia de adereços e de personagens enigmáticos e fascinantes. E mistérios. Ah sim, muitos mistérios.

Se o livro original ficasse por aqui, este seria certamente um dos melhores livros que já li na vida. Assim, vou avançar para a segunda parte com os dedos cruzados para que ele não me desiluda. O Medo do Homem Sábio está a ser uma leitura maravilhosa e Kvothe é um dos personagens mais desafiantes e incríveis que já tive a oportunidade de conhecer. Pena a edição portuguesa ser bem fraquinha a nível de capa e de material.

Avaliação: 9/10

Crónica do Regicida (1001 Mundos):

#1 O Nome do Vento

#2 O Medo do Homem Sábio Vol. 1

#3 O Medo do Homem Sábio Vol. 2

#4 Doors of Stone (não publicado)

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5 thoughts on “Estive a Ler: O Medo do Homem Sábio, Crónica do Regicida #2 (1/2)

  1. Pingback: O Nome do Vento, Crónica do Regicida #1 – Notícias de Zallar

  2. Olá!

    Aqui está um dos melhores livros que li até hoje. Gostei muito do primeiro, mas este também é fabuloso. Tal como a parte dois o continua a ser.
    Kvothe é uma das minhas personagens favoritas. Cheio de carisma e várias outras qualidades, a juntar a uma boa dose de tontarias, ele é super fixe.

    Rothfuss consegue criar um mundo totalmente novo, dentro de um mundo que tem várias histórias do género. É fantástico. Um contador de histórias nato!

    Continua já a segunda parte! Excelente opinião =)

    Bjs e boas leituras

    1. Obrigado Lamora ^_^ Concordo em absoluto. Já comecei a ler a segunda parte. A história é muito boa, mas a escrita é sem dúvida o melhor do autor. Adoro.
      Beijinhos e boas leituras também para ti.

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