Estive a Ler: O Medo do Homem Sábio, Crónica do Regicida #2 (2/2)


Ouvi-a conter a respiração, espantada, quando viu o tapete de margaridas alongar-se à sua frente.
– Esperei muito tempo para mostrar a estas flores como és bonita – disse-lhe.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Medo do Homem Sábio Parte 2”, terceiro volume da série Crónica do Regicida

Publicado pela Edições ASA/1001 Mundos, este volume corresponde à segunda parte do original The Wise Man’s Fear do escritor norte-americano Patrick Rothfuss. O livro, dividido em Portugal por conta do volume de páginas, faz regressar o icónico personagem Kvothe e a narração da sua história de vida. Distinguido por alguns dos maiores nomes do género, O Medo do Homem Sábio cimentou a popularidade de Pat Rothfuss e granjeou-lhe um estatuto invulgar entre os escritores de fantasia.

2011 foi o ano que marcou o lançamento do segundo volume da trilogia, muito embora o terceiro pareça tardar em chegar. Conflitos editoriais têm vindo a adiar a publicação de Doors of Stone, o volume final, cujo título só aguça a curiosidade de todos aqueles que leram os primeiros livros da série e alimenta uma série de teorias e constatações do que Pat escreveu nas entrelinhas. No entanto, o protelar da última publicação só faz crescer a apreensão e a especulação entre o fandom sobre os enigmas lançados até aqui.

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Kvothe e Felurian (Fonte: Bruno Del Rey)

A caça aos bandidos

Nesta segunda parte, encontramos Kvothe a desempenhar uma tarefa de difícil execução. O maer Lerand Alveron enviou-o para as florestas de Vintas com um propósito em mente: liderar um grupo capaz de parar os bandidos que, nas estradas, roubavam os impostos coligidos para si. Kvothe teve a sensação de que essa nomeação não fora propriamente um reconhecimento dos seus préstimos. Trabalhara de forma notável na corte de Severon, fosse a impedir que o maer fosse envenenado, fosse a elaborar canções para que ele cortejasse a nobre Meluan Lackless.

No entanto, a sensação com que saiu da cidade foi que Alveron o enviou para que, caso regressasse vitorioso, o seu problema nas estradas acabasse; porém, caso regressasse de mãos vazias, o mais provável, teria falhado aos seus olhos e a dívida de gratidão que tinha para consigo seria seriamente aplacada. Ainda assim, Kvothe não teve como declinar a indicação do seu patrono e avançou para os bosques, sem sequer despedir-se de Denna, a sua amada, com quem se havia zangado seriamente. Quando se lembrou disso, enviou um bilhete para a rapariga.

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Kvothe (Fonte: pinterest.com)

O grupo de Kvothe não era grande. Ele liderava o grupo, mas os seus companheiros olhavam-no como se fosse apenas um rapaz. Dedan era um homem grande e temperamental, secretamente apaixonado por Hespe, uma guerreira de rosto fechado. Marten era um homem mais experiente e de aparência sensata. Por fim, Tempi era um mercenário Adem, com a tradicional roupa vermelha tradicional entre os assassinos do Ademre.

Estranhamente, foi com o misantropo Tempi, calado e estranho, que Kvothe encetou uma relação de maior proximidade. Com ele aprendeu a estranha língua do Ademre, as mais variadas expressões e tipos de sorriso, que aquela estirpe demonstra com gestos manuais. Com ele aprendeu também algo sobre a arte do Ketan, a luta Adem, e da Lethani, uma filosofia intrincada sobre os caminhos do homem. Passaram por várias provações e rixas até, finalmente, encontrarem os ladrões.

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Felurian e Kvothe (Fonte: wilhelmblack.deviantart.com)

A arte do amor

Seguiu-se um momento de grande aflição quando a estratégia que haviam gizado falhou redondamente. Com recurso aos ensinamentos na Universidade sobre simpatias e com muita, muita sorte, Kvothe conseguiu que um relâmpago atingisse uma árvore, o que viria a alimentar a lenda em seu redor e a que o comparassem com o mítico Taborlin, o Grande. O grupo conseguiu vencer os criminosos e recolher os tesouros roubados, se bem que o líder, que Kvothe havia reconhecido sem saber de onde, desaparecera de forma misteriosa, quando esperavam encontrar o seu corpo sob destroços.

Ainda dissecavam a experiência terrível quando, no bosque, avistaram um ícone da cultura popular – Felurian. Ela era uma Fae, um ser que diziam seduzir os homens com a sua beleza etérea, e matá-los com sexo. Kvothe ficou completamente inebriado quando a viu e deixou os companheiros para trás, correndo desalmadamente atrás dela. Ela fugiu, levando-o para a terra dos Fae, de onde raros foram os homens que conseguiram sair.

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Kvothe e o Cthaeh (Fonte: joeslucher.deviantart.com)

Felurian era, de facto, de uma beleza estonteante, e pareceu impressionada com Kvothe. Com ela, o músico descobriu os prazeres do sexo e viu-se enredado numa teia de sedução sem fim. Por pouco, ela não o matou de cansaço. Mas a relação entre Kvothe e Felurian viria a ser muito mais do que sexo. Ao descobrir que ele era um músico, ficou fascinada com os seus dotes e quis que ele cantasse para si. Kvothe era, para além de um bom músico, esperto, e já ouvira muitas histórias sobre Felurian. Desse modo, fez com que ela acedesse a deixá-lo partir do reino dos Fae, para cantar músicas sobre ela, alimentando a sua fama.

A Fae acedeu, excitada com a possibilidade, com a condição de que ele retornasse, um dia, para não mais ir embora. A relação entre os dois cresceu e ainda que ele estivesse atento para com o perigo que ela representava, os momentos de hostilidade entre os dois (num dos quais Kvothe chamou o vento de forma inconsciente) dissiparam-se e os afetos pautaram o que restou da sua estadia naquele mundo. Felurian fez, com recursos naturais e luz, uma Shaed, uma capa de sombras, que ofereceu a Kvothe. Também lhe contou histórias. Na ânsia de descobrir mais sobre os assassinos dos seus pais, Kvothe perguntou-lhe sobre os Chandrian, mas até mesmo Felurian sentiu-se petrificada diante da referência, e nada lhe contou.

Um dia, porém, Kvothe deambulava pelos arredores quando encontrou uma enorme árvore, dentro da qual estava aprisionada uma criatura terrível, chamada Cthaeh. A criatura era um oráculo, com conhecimentos plenos sobre o futuro, mas que o proferia de forma a que ele esmagasse mentalmente quem o procurasse. Graças às suas palavras, Kvothe lembrou-se que o líder dos criminosos que enfrentara era um dos membros do Chandrian que mataram os seus pais, e soube que o mecenas de Denna a maltratava. Devastado, regressou a Felurian, que achou incrível que ele sobrevivesse intacto ao contacto com o Cthaeh.

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Tempi (Fonte: kingkiller.wikia.com)

O Ademre

Depois de se despedir de Felurian, Kvothe reencontrou os seus companheiros numa estalagem, onde se contavam histórias um tanto ou quanto exageradas sobre as suas façanhas. Ainda com as hormonas aos saltos, Kvothe acabou envolvido com uma das raparigas do estabelecimento, antes de se fazerem à estrada. Preparavam-se para regressar a Severen quando Tempi revelou que os seus caminhos se separavam, pois tinha de regressar ao Ademre. Convidou Kvothe para acompanhá-lo, para que ele concluísse o seu treino. Ao recordar-se das palavras do Cthaeh, que indicavam os montes do Ademre como um caminho para o Chandrian, Kvothe colocou a liderança do grupo nas mãos de Dedan e decidiu rumar ao Ademre com Tempi.

A receção foi hostil. Densamente povoado por personagens femininas, a cidade de Haert era, a seu modo, uma espécie de Universidade, mais focada nas artes marciais e na filosofia. Shehyn era a líder da comunidade, uma mulher sábia e forte que recriminava a atitude de Tempi em iniciar um bárbaro como Kvothe nos seus costumes secretos. A Lethani não era para todos. Os primeiros tempos não foram fáceis nem para Kvothe, nem para Tempi. Kvothe foi colocado perante uma série de provas, para que percebecesem se ele teria valor para ser instruído. Caso fosse excluído, Tempi seria também severamente castigado pelo descuido.

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Vashet, uma professora sexy (Fonte: kingkiller.wikia.com)

Carceret era uma das locais que mais queria ver Kvothe morto. A professora Vashet foi colocada por Shehyn como responsável por ele, e parecia tão odiosa e terrível como Carceret. No entanto, revelou-se uma professora exigente e amigável, vindo a forjar com Kvothe uma relação de grande proximidade. Também a pequena Celean e a bonita Penthe revelaram-se importantes durante a estadia de Kvothe em Haert. Os Adem eram um povo estranho, onde o sexo era uma prática completamente casual e a música considerada um ato de extrema intimidade.

O caminho de Kvothe levou-o de volta à Universidade, depois de salvar duas meninas das mãos de um grupo de impostores e contar a verdade sobre a sua identidade ao maer. Em Severen, encontrou a inimizade de Meluan Lackless e um enigma sobre uma caixa sem fechadura, assim como uma familiar curiosidade de Alveron sobre a verdade em redor dos Amyr, uma verdade que Kvothe tanto procurou nos Arquivos e que parecia vedada ao mundo.

 

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Capa ASA / 1001 Mundos
SINOPSE:

Agora em O Medo do Homem Sábio, Dia Dois das Crónicas do Regicida, uma rivalidade crescente com um membro da nobreza força Kvothe a deixar a Universidade e a procurar a fortuna longe. À deriva, sem um tostão e sozinho, viaja para Vintas, onde, rapidamente, se vê enredado nas intrigas políticas da corte. Enquanto tenta cair nas boas graças de um poderoso Nobre, Kvothe descobre uma tentativa de assassínio, entra em confronto com um Arcanista rival e lidera um grupo de mercenários, nas terras selvagens, para tentar descobrir quem ou o quê está a eliminar os viajantes na estrada do Rei.
Ao mesmo tempo, Kvothe procura respostas, na tentativa de descobrir a verdade sobre os misteriosos Amyr, os Chandrian e a morte da sua família. Ao longo do caminho Kvothe é levado a julgamento pelos lendários mercenários Adem, é forçado a defender a honra dos Edema Ruh e viaja até ao reino de Fae. Lá encontra Felurian, a mulher fae a que nenhum homem consegue resistir, e a quem nenhum homem sobreviveu… até aparecer Kvothe.
Em O Medo do Homem Sábio, Kvothe dá os primeiros passos no caminho do herói e aprende o quão difícil a vida pode ser quando um homem se torna uma lenda viva.

OPINIÃO:

Pat Rothfuss, és um miserável! Se este livro fosse um volume isolado, talvez não tivesse as expetativas tão lá em cima. Fiquei tão fascinado com a primeira parte de O Medo do Homem Sábio, que foi extremamente desapontante passar por esta segunda metade e pensar que se trata do mesmo livro, na sua versão original. Senti-me desiludido, muito desiludido durante várias partes do livro. Não me entendam mal, estou a ser um pouco exagerado e aquela frase inicial não é mais que uma brincadeira, mas este livro ficou verdadeiramente aquém do esperado.

E, mesmo assim, foi das melhores coisinhas que já li. Parece contrasenso? Talvez. Vejam a nota que dei a este livro e percebam que a escrita maravilhosa do autor e a personalidade incrível do personagem principal me impediriam de dar nota mais baixa. Quero com isto dizer que a história foi terrível? Dececionante? Horrorosa? Nem tanto. Vou explicar sucintamente tanto o que não gostei como o que adorei.

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Denna e Kvothe (Fonte: gretlusky.tumblr.com)

O que gostei menos foi a linguagem de expressões completamente estúpida dos Adem e o tempo que o autor perdeu a explicá-la. Os treinos de Kvothe na Ketan e na Lethani, tanto na floresta como na cidade de Haert, foram EN-TE-DI-AN-TES. Se a fase inicial de Kvothe no bosque foi terrível, com personagens fracos a acompanhá-lo durante demasiado tempo, as coisas demoraram a melhorar. A descrição de Felurian e das suas peculiaridades foram realmente boas, mas de cada vez que um novo núcleo era apresentado, a ação demorou imenso tempo a engrenar. O mesmo em Ademre. O tempo perdido com pormenores e treinos foi levado ao limite.

“Quero com isto dizer que a história foi terrível? Dececionante? Horrorosa? Nem tanto.”

Em contrapartida, Pat Rothfuss foi engenhoso e mágico na hora de virar a página. Fosse no combate aos criminosos, na despedida de Fae ou de Ademre, a fase final de cada passagem foi descrita de forma rápida, fluída e bem amarrada, deixando até uma certa nostalgia no ar. Só comecei realmente a gostar do livro após o encontro de Kvothe com o Cthaeh – obrigado Pat por ressuscitares a curiosidade e as teorias – e os interlúdios foram sempre pertinentes e ótimos.

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Kvothe e Elodin num momento memorável de O Nome do Vento (Fonte: kkc-art)

Muito embora não tenha gostado da estadia de Kvothe no Ademre, todos os personagens ali apresentados foram ótimos e ricos em nuances, alguns com menos destaque do que seria presumível, como Tempi (que personagenzinho sem sal), o que acabou por ser positivo. Não gostei da vulgarização e ridicularização da sexualidade neste volume, mas Pat compensou na fase final, com diálogos pertinentes e debates francos sobre a relação homem/mulher, questão que acabou por permear todo o volume. Sim, do meio para a frente, o livro melhorou muito em todos os aspetos.

“Em contrapartida, Pat Rothfuss foi engenhoso e mágico na hora de virar a página. Fosse no combate aos criminosos, na despedida de Fae ou de Ademre, a fase final de cada passagem foi descrita de forma rápida, fluída e bem amarrada, deixando até uma certa nostalgia no ar.”

Melhorou é um eufemismo. Desde o encontro de Kvothe com uma trupe de artistas – eu sei, já é quase na reta final do livro – pareceu que estava novamente a ler a história incrível que tinha deixado a meio. E foi uma conclusão magnífica para o livro como um todo. Tivemos um Kvothe assassino, tivemos revelações, tivemos reencontros, tivemos enigmas. Muitos enigmas e mistérios e uma forma extraordinária de nos pôr a pensar e a divagar e a querer ler mais, muito mais deste autor. Pode parecer contraditório, mas este livro teve muitos momentos saturantes e dececionantes, e momentos mágicos, maravilhosos. No cômputo geral, sou incapaz de dizer que não gostei. És um miserável, Pat, mas és um génio.

Avaliação: 8/10

Crónica do Regicida (1001 Mundos):

#1 O Nome do Vento

#2 O Medo do Homem Sábio Vol. 1

#3 O Medo do Homem Sábio Vol. 2

#4 Doors of Stone (não publicado)

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2 thoughts on “Estive a Ler: O Medo do Homem Sábio, Crónica do Regicida #2 (2/2)

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