Estou no Wattpad #26


A chegada a Chrygia não podia ser mais inesperada e cheia de surpresas. Língua de Ferro conheceu finalmente Sander Camilli, embora o homem não fosse propriamente aquilo que esperava. Personagens como Ceil, a sua filha, ou a poderosa Intendente, porém, revelam a sua face na corte. Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer é a minha publicação quinzenal no Wattpad e aqui no blogue. Boa leitura!

CAPÍTULO VINTE E SEIS: APRENDER A DANÇAR

“Deixei-me capturar por conveniência. Foi num verão infernal, quando o calor toldava o discernimento dos homens e fazia-o cair nas maiores patranhas. A verdade é que os verões depois desse não foram melhores, mas àquela data era impossível julgar que aqueles dias soalheiros se repetiriam. Aconteceu na estrada férrea que ligava Veza a Constania. Sabia que o Sargento Bary Feyman ia naquele comboio. A sua reputação ainda não era nada comparativamente à que ganhou após a minha captura, mas já era conhecido no deserto pelos seus esforços na perseguição de salteadores. Já o tinha visto uma vez, em Veza, e pelo menos por aqueles dias, gabava-me de nunca esquecer uma cara. Ao internar-me no comboio, procurei-o avidamente. Assustei senhores de bigodes repenicados e matronas afetadas, como era hábito, na esperança de que os seus gritinhos o chamassem para mim. Demorei um pouco mais do que presumira, mas ele veio até mim. Era um homem esguio e arguto, com uma compleição física que não me intimidou. Desafiei-o com palavrões e ofensas pessoais, e quando avançou para mim, golpeei-o na junta de uma perna com a minha. Ele caiu no chão, mas quando voltou a investir para mim, humilhado, fui lento de movimentos propositadamente, e deixei que ele me golpeasse no rosto. Senti o sabor metálico do meu próprio sangue e deixei que os seus subalternos me amarrassem. Foi com um lenho nos lábios e uma vontade enorme de ver aquilo concluído que cheguei a Constania. Na esquadra local ficaram em êxtase por me prender, se bem que eu achasse tudo aquilo uma encenação ridícula. Não precisaria de muito para escapar-lhes. Estavam bem armados de arcabuzes e revólveres, mas nem sequer os sabiam usar com desenvoltura. Esperei que a notícia da minha captura corresse meio mundo para, na noite que antecedia o meu julgamento, me resolvesse a chamar o carcereiro. De moto próprio, as coisas correram-me de feição. Uma festa afastou a maioria dos agentes naquela noite. Fingi que estava com falta de ar e o guarda de plantão, tão ingénuo quanto embotado pelo sono, aproximou-se das grades o suficiente para que eu lhe esmagasse a cabeça contra elas. Roubei-lhe as chaves do cinto e fugi. Antes de abandonar Constania para recolher o fruto das minhas apostas, porém, recebi um convite.”

― Espero que goste dos seus aposentos. Duvido que alguma vez tenha dormido em cama tão cómoda ― disse a Intendente.

― Você não sabe nada sobre mim ― ripostou Língua de Ferro, com uma voz dura e cheia de desprezo, enquanto cruzavam um corredor largo e fresco, com paredes forradas a veludo e ornamentadas de quadros a óleo.

A idosa soltou um risinho franco, e quando parou diante de uma porta prateada, disse-lhe:

― Aceito o seu desdém, Valentina. Tenha uma boa noite. ― Quando ia para se virar, reteve-se, com um brilho jocoso no olhar. ― Ah, e cuidado com Ceil. Ela é a primogénita de Sander e tem uma vontade irrevogável. Se quer manter-se discreto nos próximos tempos, aconselho-o a não a contrariar. Se ela, porém, lhe fizer alguma proposta que viole o bom-senso, exorto que reporte-o ao pai. Terá notícias minhas amanhã.

Com um sorriso desafiante, a Intendente virou-lhe costas e afastou-se, muito embora Língua de Ferro a tenha parado com uma pergunta:

― Onde são as termas?

Sem título
Woman (Fonte: Charlie Bowater)

Encontrou Ceil num tanque largo, sob uma nuvem de vapor, que se movia vagarosamente à sua volta. Colgaduras vermelhas e prateadas tornavam o tanque um local mais privado dentro da espaçosa divisão, onde piscinas menores revelavam-se desertas àquela hora da noite.

A jovem acendia uma vela de cheiro na orla do tanque, quando o viu. Sorriu-lhe com voluptuosidade. O local estava impregnado de odores afrodisíacos com toques de canela, lavanda e menta. Língua de Ferro cruzou os braços.

― Nem um guarda? Nem uma dama de companhia? O que a leva a ter tanta certeza que não sou uma ameaça à sua integridade?

Quando ela se voltou totalmente para si, viu que ela estava nua. A água dava-lhe pelas ancas.

― Não temo pela minha integridade, senhor Língua de Ferro. Você não sabe nada sobre mim.

Língua de Ferro sorriu.

― E você também não sabe nada sobre mim. O que a levou a pensar que eu viria ao seu encontro?

Ela fez rolar os olhos.

― Ora, os homens são todos iguais, presumo.

― Bela maneira de iniciar uma relação ― disse ele. O corpo da morena chamava-o para si, ainda que soubesse que não cometeria qualquer loucura. Tem idade para ser minha filha, dizia a si próprio. Era filha de Sander Camilli. E havia ainda a memória de Lucilla a morder-lhe os calcanhares. Ainda assim, viu-se a despir a roupa e a encaminhar-se para os degraus de acesso ao interior do tanque. Sentiu o cabelo azul-turquesa a desdobrar-se sobre os ombros proeminentes.

A rapariga franziu o nariz e sorriu diante da imponência da sua nudez, mas quando ele levou um pé ao degrau, ela ergueu os braços e disse:

― Espere, espere!

O local era iluminado por velas acesas na orla da piscina, produzindo sombras sinistras que se passeavam pelos seus corpos.

― O que foi agora?

― Certamente que os vossos costumes bárbaros vos ensinaram que uma mulher deve ser tomada com uma certa… liberdade, mas você está no coração do Império. Aqui, somos um pouco mais civilizados.

Língua de Ferro cruzou os braços e sentiu-se tentado a dizer-lhe que era filha de uma escrava e que nada sabia de civilização. Aquilo a que chamavam de Landon X era tão bárbaro quanto ele, e os anos em que vigorara tinham vindo a esmagar o legado cosmopolita de Cacetel Domasi.

― Pensas que sabes muito sobre Língua de Ferro, rapariguinha. O que queres de mim, afinal? E porque é que precisamos de ser vigiados pela tua irmã?

A jovem pareceu empalidecer. Nunca suspeitara que ele se pudesse aperceber dela, mas desde que chegara, Língua de Ferro havia compreendido que uma das raparigas que tinha encontrado com Ceil junto ao fontanário os espiava por detrás de uma colgadura. Ceil estremeceu, mas depois sorriu.

― Ameiha, podes ir.

Língua de Ferro não lhe viu a cara nem a expressão vexada, mas sentiu-as quando a rapariga se afastou aos tropeções e foi-se embora a correr.

Sem título
Steampunk woman (Fonte: pinterest.pt/joanasampaio52/desenhos-diversos)

― Onde é que nós estávamos? ― perguntou Língua de Ferro, ao sentir os passos de Ameiha a distanciarem-se.

― Como vê, eu não estava propriamente sozinha. Se bem que a pequena Ameiha não fosse de grande monta, se me planeasse atacar.

Língua de Ferro ignorou-a.

― Creio que lhe perguntava o que queria de mim.

Ceil aproximou-se, fazendo a água menear-se lentamente à sua volta.

― Três perguntas, e poderá entrar neste tanque. ― Para evitar que ele simplesmente a renegasse e lhe virasse costas, acrescentou: ― Se se recusar a responder-me, terá muito com que se preocupar durante a sua estadia por aqui.

Língua de Ferro encolheu os ombros. Conhecia bem a crueldade das mulheres rejeitadas e, se as palavras da Intendente fossem verdadeiras, Ceil seria uma jovem caprichosa, a quem não se negavam coisas daquelas.

― O que quer saber?

― Veio até aqui para matar o meu pai?

Língua de Ferro não sentiu a menor vontade em mentir-lhe. Tudo o que pudesse desafiar a rapariga seria agradável.

― Sim.

A jovem franziu a testa e substituiu a surpresa pela indignação.

― Vai fazê-lo?

― Essa é a segunda pergunta?

A rapariga franziu o nariz.

― Digamos que sim.

― Ainda não decidi ― respondeu. Era verdade.

A expressão de Ceil fazia parecer que tinha uma espinha atravessada na garganta, se bem que há muito o peixe deixara de ser refeição em Semboula.

― Terceira e última pergunta. O pai disse-me que amanhã haverá um baile e que você será o convidado de honra. Certamente que o convidarão a dançar e será de muita descortesia sua declinar. Quer aprender a dançar comigo?

Língua de Ferro soltou uma sonora gargalhada e sentiu o dedo de Camilli naquele convite.

― Ora, e quem lhe disse que eu não sei dançar?

A rapariga sorriu.

― Os costumes típicos de Chrygia? Duvido muito. Mas então venha, e prove-me que estou enganada.

Dançar num tanque? Nus? De repente, a ideia não lhe pareceu desagradável. Reteve-se, pensando naquilo como uma artimanha qualquer para o matar, mas uma arma escondida seria facilmente detetada pela sua visão apurada, e não viu ali alguma. Pensou que veneno seria uma arma mais apropriada, mas não havia ali qualquer bebida ou alimento e os fumos que cheirava eram inofensivos.

Decidiu-se a descer os degraus e a entrar no tanque. Ceil esperou-o de sorriso e braços abertos. Era uma rapariguinha que temia a morte do pai, mas era demasiado frívola para o considerar como algo terrível. Para ela, bons momentos de diversão e um ego alimentado valiam mais do que a vida do progenitor. Segurou-a por baixo dos braços e sentiu-lhe a pele aveludada sobre as costelas, fresca e mole ao toque, mas também o perfume a açafrão que jorrava do seu corpo. Quis beijá-la quando os lábios doces aproximaram-se do seu peito e aninhou a cabeça nele. Os cabelos da jovem cheiravam a lavanda.

Sentiu os dedos da jovem a firmarem-se nos seus ombros e ela deu alguns passos para trás, lentamente, ao que Língua de Ferro correspondeu de forma atabalhoada. Ela deu passos para a direita e ele fez o mesmo com passadas desastrosas. O peso dos seios frescos contra o seu ventre embotou-lhe a lógica. A lascívia ameaçava descontrolá-lo. Ceil soltou uma gargalhada, apartou-se dele e pegou-lhe nas mãos.

― Assim ― disse, e conduziu-o com os braços esticados. Dois passos para a direita, dois passos para trás, três para a frente. ― Isso. Estamos a fazer progressos.

Quando Língua de Ferro sentiu uma movimentação atrás de si, ela abraçou-o com força e colou a cabeça ao seu peito.

― Mas o que é isto? ― ouviu uma voz de rapaz fora do tanque.

Língua de Ferro segurou os ombros da jovem para a apartar e virou-se para o recém-chegado. Era um homem de tenra idade, com uma farda azul cheia de botões e a insígnia imperial ao peito. Tinha o cabelo cortado abaixo das orelhas e um rosto angular de tez morena. Os seus olhos jorravam indignação. Língua de Ferro pensou ter arranjado mais um inimigo dentro do Império.

― Degas, isto… isto não é o que parece ― disse Ceil, claudicante. Língua de Ferro detetou dissimulação na sua voz, enquanto ela escondia os seios com as próprias mãos e fingia constrangimento.

O rapaz não teria mais de vinte anos, mas pela indumentária, seria já graduado. Isso significava que provinha de boas famílias, de uma estirpe intocável no estrito círculo de poder chrygiano.

― És… és… ― Uma cabra, quis Língua de Ferro dizer por ele. O jovem não sabia o que dizer. ― Isto é um ultraje.

Amehia escondia-se atrás de Degas, tímida e apreensiva, e Língua de Ferro percebeu o que aquilo significava quando o jovem trincou o lábio inferior e ergueu um indicador. Ele queria dar voz ao seu agravo, mas não sabia fazê-lo de um modo que não ofendesse Sander Camilli. Então, mudou o peso de uma perna para a outra e foi-se embora, soltando desabafos sem sentido enquanto se afastava em passos rápidos. Amehia seguiu-o, a correr.

Sem título
American Private of the Massachusetts Regiment 1782 (Fonte: pinterest)

Mal os perdeu de vista, Ceil destapou o peito e caiu numa gargalhada. Língua de Ferro cruzou os braços, austero.

― O teu convite foi para isto, então. Utilizaste-me para te livrares de um pretendente inoportuno.

Não fora uma pergunta, pelo que ela limitou-se a corrigi-lo: ― Inoportuno, sim. E irritante. Pretendente não. É mais do que isso. Degas Pantaleoni é filho do general Pantaleoni, e o seu avô é o senador Gogios, a quem o meu pai deve favores. Ele é meu noivo e deverá continuar a sê-lo, se bem que espero avidamente pelo seu ódio. As suas declarações de amor são nauseantes.

Aquilo despertou alguma curiosidade no salteador.

― Impressão minha, ou a tua irmã tem um certo interesse nisto?

― Amehia gosta dele ― respondeu Ceil. ― Somos filhas de escravas, mas o que me difere das restantes é ser a primogénita do pai, o que me confere legitimidade aos olhos da lei. Ninguém se preocupa muito sobre mães, aqui em Chrygia. Para além disso, quem me olha não dirá que eu sou filha de uma escrava uraniana, pelo tom de pele.

A jovem fixou o olhar na água que se movia lentamente à sua volta, e Língua de Ferro viu alguma tristeza e honestidade no seu olhar.

― Onde vive a tua mãe? Aqui no Capitólio?

― Morreu quando eu nasci ― respondeu rapidamente, da forma que até tropeçou nas palavras e lhe soaram como uma única palavra. Mais calma, recuperando o desafio no tom de voz, disse: ― Volte para os seus aposentos. O pai quer mesmo que eu o ensine a dançar. Amanhã, à décima terceira hora da manhã, estarei à sua espera no salão de baile. Não me vai deixar ficar mal. ― Deu-lhe uma palmada no ombro, com um piscar de olhos.

Língua de Ferro sorriu e deslizou até à orla do tanque, onde uma toalha de linho o esperava para se limpar. Quando acabou de se vestir, percebeu que ela esperava que se fosse embora, antes de fazer o mesmo. Amarrou Apalasi à cintura e despediu-se com um aceno de cabeça.

Sentiu dificuldades em reencontrar o caminho de regresso aos aposentos que lhe foram reservados, se bem que as suas capacidades especiais fossem de grande ajuda para que não se perdesse. Os corredores estavam iluminados por candeias de azeite, e quando chegou àquele que lhe dizia respeito, um estranho odor a pelo de cão internou-se-lhe pelas narinas. Não se enganava. Um cão enorme, escuro como penas de corvo, esperava-o à porta do quarto. Língua de Ferro pensou numa armadilha por parte de Degas Pantaleoni, ou talvez que Camilli descobrisse pela boca do rapaz o que se passara e lhe reservasse aquele presente envenenado. Mas quando o canino – raios, ele terá quase um metro? – virou o focinho para si, Língua de Ferro viu não só as gengivas proeminentes e os fios de saliva entre os dentes pontiagudos, mas também o olhar, tão branco quanto o seu. Assim que o encontrou com o olhar, o cão soltou um latido e afastou-se da porta. Parecia estar a conceder-lhe passagem. Língua de Ferro avançou na direção do quarto, sem separar os dedos da empunhadura da espada, e desde que abriu a porta até que a fechou, já no interior, o animal nada mais fez do que mover-se lentamente de um lado para o outro, encarando-o com o olhar vazio e soltando um suave rosnar de entre as mandíbulas. No interior dos aposentos amplos e sombrios, Língua de Ferro pôs-se em alerta. Ouvia a respiração pausada e profunda do animal.

Segundo lhe parecia, montara guarda à sua porta.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis

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