Estive a Ler: Monge Guerreiro


Morrerá templário quando sua hora chegar, um monge sim, mas um monge guerreiro.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Monge Guerreiro

Fugindo aos estéreotipos de romance histórico ou fantasia medieval, Monge Guerreiro é um livro passado na turbulenta primeira metade do século XIII. Recheado de liberdades históricas e fantásticas, foi produzido pelas mãos do autor estreante Romulo Felippe, amante de História e jornalista de profissão.

Publicado pela brasileira Editora Drakkar, sediada no Brasil, Monge Guerreiro foi publicado em dezembro de 2016, mas assistiu-se a uma repercussão tão positiva que foi já vendido para Itália. As 420 páginas do romance são divididas em 10 partes, todas elas adornadas pelos trabalhos gráficos do também brasileiro JD Burton, enquanto a arte de capa pertence ao artista espanhol A. J. Manzanedo.

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Arte de JD Burton (Fonte: mongeguerreiro.com.br)

Os artefactos sagrados

À frente de sete mil guerreiros e dotado de uma ambição desmedida, Slatan Mondragone é um líder guerreiro destemido e invencível. Nasceu após a morte da mãe, razão pela qual alega ter nascido da morte, e foi criado e encaminhado na sua senda de poder pelo enigmático Nuray, um velho conhecedor de magias negras. Carregado de um poder bélico inigualável, Mondragone – também chamado de Rei Negro – cerca a icónica Fortaleza Ilhada, que pertenceu por mais de mil anos à linhagem Jaroslav.

Sophyr Jaroslav, o rei de Orhan, na Bulgária, é assim sitiado por um inimigo bem instruído e armado. Confiante na inexpugnabilidade do seu reduto, é surpreendido quando corpos ceifados pela peste são arremessados por catapultas para o interior das suas muralhas. Em pouco tempo, vê o seu pequeno filho morrer, e tanto ele como a esposa, a chamada Rainha Corvo, têm um destino horrível às mãos do odioso Mondragone.

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Arte de JD Burton (Fonte: acervodoleitor.com.br)

Enquanto o Rei Negro tomava Orhan como quartel-general, o rei Luís IX de França, alheio a tal infortúnio, destaca um monge miguelino a transportar a lendária Lança do Destino, a sagrada lança que perfurou o flanco de Jesus Cristo na Cruz, para a França.  Também os Cavaleiros Templários, oriundos da Terra Santa, transportariam consigo um objecto sagrado: a Coroa de Espinhos. A Fortaleza Ilhada fora o local predeterminado para o encontro entre monge e cavaleiros, para que daí conduzissem ambos os artefactos em segurança para o coração da França.

Christopher Blanche é o grão-mestre da Ordem do Templo. Guerreiro lendário, um dos melhores do seu tempo, teve um papel fundamental nas Cruzadas e travou-se com o temível Nuray, conhecendo de perto os segredos negros da sua magia. Ele sabe melhor que ninguém que o seu percurso estará cheio de obstáculos, mas está disposto a tudo para chegar a França com a Coroa de Espinhos. Nem que tenha de se travar com os hunos de Odoacro, o Lobo, descendente de Átila, e ver a grande maioria dos seus homens tombar.

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Arte de JD Burton (Fonte: mongeguerreiro.com.br)

O Monge Guerreiro

O monge miguelino destacado para portar a Lança do Destino é Bastian Neville. Trata-se de um homem marcado pelo tempo e pela vida, que pertenceu em tempos à Ordem do Templo, à qual virara costas. Convocado para desempenhar um papel fundamental na História da Fé Cristã pelo próprio rei da França, e convicto de que tal poderá mitigar os sentimentos de culpa que o corroem por dentro, Bastian lança-se numa demanda heróica, que, mais cedo ou mais tarde, viria a cobrar o seu preço.

Bastian começara a guerrear era ainda um menino, tendo participado na lendária Cruzada das Crianças, na qual um grande número de crianças marchara para o Sul de Itália com o objetivo de libertar a Terra Santa. Segundo alguns relatos, todos haviam sido mortos ou escravizados. Na Grécia, Bastian Neville tornou-se um monge, recluso no Mosteiro Suspenso devoto a São Miguel Arcanjo, mas as marcas do seu corpo não escondem um passado de dor e violência.

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O autor, Romulo Felippe (Fonte: aquinoticias.com)

Após lhe ser atribuída a tarefa sagrada de portar a Lança por um dos monges, o Mosteiro Suspenso é alvo de um ataque por parte do Duque de Monos, um senhor vizinho, que muito embora acabe morto por Bastian, assassina muitos dos religiosos do Mosteiro. Depois de encontrar um belo cavalo negro com uma deficiência na fronte, a quem chamou Noitelonga, Bastian dirige-se ao vilarejo de Athos, em busca do guerreiro mongol que o guiaria até à Fortaleza Ilhada. Consigo porta uma espada templária, lembrete dos seus tempos na Ordem, chamada Viacrucis.

Na pequena povoação grega, Bastian percebe que o filho do Duque de Monos está no seu encalço, como também percebe que o guia mongol que lhe fora prometido trata-se de uma bela mulher chamada Setseg, nada mais, nada menos que a neta de Genghis Khan. Enfrentando nobres cobiçosos, guerreiros incríveis e reis lendários, Bastian e Setseg avançam com a lendária Lança do Destino para a Bulgária, onde o tenebroso Rei Negro espera reunir os artefactos sagrados para dominar o mundo.

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Capa Drakkar Editora
SINOPSE:

Maior rei da história da França, Luiz IX (hoje São Luiz) determina que duas das mais importantes relíquias do Cristianismo sejam transportadas dos confins da Terra Santa e da Grécia binzantina até o coração do seu reino. De Jerusalém partem os valentes Cavaleiros Templários liderados pelo grão-mestre Christopher Blancher, um experiente combatente que carrega preso à armadura a coroa mais poderosa do mundo; do Monte Meteóra, e por decisão do destino – quiçá divina –, parte o monge ortodoxo Bastian Neville, um dissidente da Ordem do Templo, cuja missão é levar de encontro aos antigos irmãos de armas a Lança de Longinus. Entre as duas relíquias sagradas, entretanto, há um rei pagão de nome Slatan Mondragone. Sua missão? Reduzir a pó todos os reinos Cristãos. E para isso uma profecia deverá ocorrer na boca do Vesuvius, o vulcão mais furioso da Europa. Com mais de oitenta personagens e combates épicos – eclodindo em um final apoteótico no coração de Veneza – Monge Guerreiro narra não uma, mas diversas odisseias no coração negro do século XIII.

OPINIÃO:

Um antigo Templário a montar um unicórnio? Um dragão a sobrevoar as maiores cidades da Itália medieval? Fantasia e História face to face num relato histórico de fundações reais? A ideia tinha tudo para ser desastrosa, mas o autor brasileiro Romulo Felippe mostrou-me que não. Foi com um grande sentimento de honra que recebi o convite do Romulo, um autor tão apreciado no Brasil, para ler e comentar o seu livro. Posso dizer que foi uma leitura proveitosa, fluída e, diria até, compulsiva. Monge Guerreiro venceu o meu sono por algumas noites e ganhou o meu apreço.

A leitura, porém, teve os seus espinhos (tal como a Coroa, by the way). Romulo conseguiu fazer interagir Balduíno II, Luís IX, Frederico II, o Papa Gregorius IX, até aqui tudo bem. Mas ter um descendente direto de Átila e a neta de Gengis Khan em grande foco pareceu-me um pouco irreal, e se lhes acrescentarmos um senhor nórdico… As distâncias percorridas pelos personagens também me custaram a engolir. Se a urgência em que Bastian e Blanche chegassem a Orhan era tanta, como raios o pequeno Kyriacos ou o huno Odoacro conseguiram tomar caminhos que os ultrapassaram? Sinceramente, não estou a dizer que era impossível, mas tive dificuldade em aceitá-lo.

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Arte de JD Burton (Fonte: acervodoleitor.com.br)

Confesso, a narração ser feita no presente, os pensamentos dos personagens serem feitos entre travessões, confundindo-se com diálogos, e os ocasionais erros ortográficos morderam uns dois valores na minha avaliação global. A passagem de Bastian e Setseg pelo Reino das Sequóias também me desagradou. Não que tenha sido mal escrito ou algo parecido, simplesmente a cena pareceu um deja-vu demasiado explícito da estadia no reduto do Senhor do Caúcaso, exatamente a passagem anterior. A criticar tenho também a forma apressada com que as cidades italianas foram apresentadas e as batalhas travadas, na reta final do livro. Precisamente, as passagens que mais gostei em todo o volume.

“Um antigo Templário a montar um unicórnio? Um dragão a sobrevoar as maiores cidades da Itália medieval? Fantasia e História face to face num relato histórico de fundações reais? A ideia tinha tudo para ser desastrosa, mas o autor brasileiro Romulo Felippe mostrou-me que não.”

Romulo Felippe abusou de alguns estéreotipos na sua criação. Um protagonista debilitado pelas marcas do passado, mas fiel à honra. Uma mulher guerreira bela, brava e corajosa. Um mestre bom, um mestre mau, animais amiguinhos e um senhor das trevas. Nada de mal advém daqui, mas gostaria de ver mais nuances em qualquer um destes personagens. Alguns foram eliminados para dar protagonismo a outros, e a meu ver faltou alguma consistência no esqueleto do livro. A primeira metade podia ter sido cortada a meio, a metade final mais desenvolvida.

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O autor e o “seu monge” (Fonte: allevents.in)

Senti que as mulheres foram bastante sexualizadas ao longo do livro, uma vez que as zonas íntimas eram sempre realçadas nas suas descrições, e a maioria só servia para ser estuprada ou morta, mas tal parece-me mais defeito do tempo em análise do que defeito do autor. Romulo Felippe revelou-se talentoso em múltiplos aspetos. A escrita dele é empolgante, o vocabulário rico e algumas cenas foram tão brilhantemente descritas, que me fizeram senti-las em primeira mão. Essa é uma das grandes qualidades do Romulo. Desde o primeiro momento do livro, sentimo-nos sugados para dentro da ação do livro. Monge Guerreiro não é uma fantasia que tenta aproximar-se à realidade histórica. Ainda que muitos personagens e até reinos sejam fictícios, sentimo-lo como um romance histórico credível, com traços fantásticos.

“Romulo Felippe revelou-se talentoso em múltiplos aspetos. A escrita dele é empolgante, o vocabulário rico e algumas cenas foram tão brilhantemente descritas, que me fizeram senti-las em primeira mão.”

As cenas de mortes às mãos do Rei Negro foram deliciosamente macabras, as descrições de batalha, fantásticas, e as inclusões de fantasia – dragões e unicórnios, sim – conseguiram, surpreendentemente, parecer verosímeis. A descrição de Romulo Felippe é rica sem perder tempo em minúcias; por vezes, a sua escrita pareceu-me demasiado apressada, mas nunca deixou de ser versada. No fundo, senti a paixão de Romulo ao escrever e fui contagiado por ela durante a leitura. Com uma revisão mais aprofundada de texto e um melhor equilíbrio narrativo, Monge Guerreiro seria uma das melhores leituras do ano. Em vários momentos, senti que estava a ler uma versão mais real e adulta de O Hobbit, escrita por Bernard Cornwell. Romulo Felippe, um nome a não esquecer.

Avaliação: 6/10

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