Estive a Ler: Despertar, Monstress #1


Citando os poetas… Estamos fodidos.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Despertar”, primeiro volume da série Monstress (formato BD)

A autora americana Marjorie Liu é conhecida pela participação em BD’s da Marvel Comics como X-23 ou Viúva Negra, mas foi com Monstress que acabou indicada ao Eisner, em 2016. É um trabalho a quatro mãos com a premiada artista japonesa Sana Takeda, também ela muito ligada à Marvel, em títulos como X-23 ou Miss Marvel, e à Sega, onde trabalhou como designer. Monstress é um dos títulos de maior sucesso da Image Comics, nomeado este ano para três Eisner e para o Hugo Awards na categoria Melhor História.

Publicado pela Edições Saída de Emergência, Monstress faz parte do novo segmento da editora dedicado às bandas desenhadas, iniciado com Nimona. Disponível nas bancas a partir de amanhã, dia 7 de julho, conta com a tradução de Renato Carreira e edição de Safaa Dib. O primeiro volume, Despertar, reúne os números 1 a 6 da publicação original.

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Prancha Saída de Emergência

As Cinco Raças

Os Velhos Deuses quase foram esquecidos no tempo. Pouco ou nada se sabe sobre eles, para além de serem entidades de um poder corrosivo, vistos como algo terrível no tempo em que viveram. Foram banidos do mundo pela deusa primordial, Ubasti, mas diz-se que o pior entre eles ainda vive hoje neste mundo, adormecido…  Filhos de Ubasti, os gatos são a raça mais antiga no mundo. Eles ajudaram-na a expurgar os Velhos Deuses e vivem até aos dias de hoje.

Já a origem dos anciãos é um mistério. São figuras imortais, devotas à deusa lunar, com corpos metade humanos e metade animalescos. Viveram durante séculos em guerra, divididos entre duas cortes: a Corte do Ocaso e a Corte da Aurora. Apesar da guerra, as duas castas nunca se privaram à companhia dos humanos, cuja origem remonta aos mares. E foi do cruzamento entre anciãos e humanos que nasceu uma outra espécie: os arcânicos.

O mundo de Monstress está fraturado. Uma cisão evidente entre arcânicos e humanos agudizou-se, despoletando a terrível Batalha de Constantine e a edificação de uma muralha. Os humanos sempre foram uma raça problemática, representada pela Ordem das Cumaea, bruxas que procuram crianças humanas com poderes mentais que possam igualar os poderes arcanos. São também responsáveis por flagelar arcânicos, para lhes roubar os poderes.

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Prancha Saída de Emergência

Maika Meiolobo

O poder e a ascensão das Cumaea está relacionado ao uso de lilium, uma substância que provém dos ossos dos arcânicos mortos e que pode prolongar vidas e até ressuscitá-las, o principal móbil para a guerra que impera entre as duas espécies. Maika Meiolobo é uma rapariga arcânica, pertencente à minoria desta espécie que tem aparência humana. Aprisionada e leiloada pelas Cumaea, Maika sente-se confusa em relação ao passado e ao legado da mãe.

A sua mente é atravessada por lembranças difusas e vozes que lhe sussurram fragmentos de informações. Parece ser uma menina frágil e sem um braço, mas algo dentro dela mais poderoso e terrível parece querer despertar… cheio de fome. Segundo as Cumaea, a mãe de Maika fora enviada pelo senhor do seu povo para perseguir o túmulo da Imperatriz-Xamã, a arcânica mais poderosa de sempre, responsável pelo mundo ter parecido regredir à Idade das Trevas.

Muito embora a criatura que habita dentro de si tenha a responsabilidade pelos massacres que deixa à sua passagem, a personalidade de Maika não é a de uma menina frágil. Os seus pensamentos são sempre direcionados à pequena Tuya, uma rapariga com quem partilhou os horrores da guerra. Mas é com a pequena Kippa e um gato chamado Mestre Ren que Maika irá tentar escapar às garras das Cumaea e transpôr a muralha que divide os territórios.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Num mundo alternativo de beleza art déco inspirado na Ásia oriental, eis que nos chega uma história de coragem, vingança e compaixão…

Maika Meiolobo é uma adolescente que sobreviveu a uma guerra cataclísmica entre humanos e arcânicos, uma raça híbrida que descende dos Anciãos. Escravizada por bruxas inimigas que suspeitam dos seus poderes latentes,
Maika começa a desvendar o seu misterioso passado e, durante o processo, descobre que tem uma ligação psíquica com uma poderosa criatura de outro mundo.
Perante a opressão e o terrível perigo, Maika torna-se caçadora e presa, perseguida por aqueles que desejam usá-la, colocando-a no centro de uma guerra devastadora entre forças humanas e sobrenaturais. Enquanto isso, o monstro no seu interior começa a despertar…

OPINIÃO:

Parabéns pela publicação, Edições Saída de Emergência. Monstress é, de facto, monstruoso. Precisei de pouco mais de quatro páginas para perceber que esta era uma das melhores BD’s que já li, e não me enganei. Somos atirados para o centro da ação, não compreendemos muito bem – ou quase nada – do que se está a passar, mas o mundo é original, as falas geniais e a história incrível. O contexto é oferecido ao longo do livro, e só nas últimas páginas percebemos perfeitamente o motivo e as implicações da história de guerra entre os povos apresentados.

O álbum começou com tudo. De facto, gostei muito mais dos personagens humanos, do seu modo de vida e excentricidades, do que da Corte do Ocaso, quando os anciãos foram apresentados. Maika Meiolobo, no entanto, é o cerne de toda a narrativa. Não se enganem pelo ar frágil da protagonista, ostracizada pelo mundo e derruída por uma guerra que lhe levou família, amigos e um braço. A rapariga solta palavrões com frequência, não se refreia pela moral e, graças a uma criatura terrível que tem dentro dela, é até capaz de comer criancinhas. E há ainda um gato falante que é o alívio cómico do álbum e só posso qualificá-lo de absurdamente hilariante.

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Prancha Saída de Emergência

A história passa-se na Ásia, ainda que não seja claro se se trata de uma Ásia paralela, uma vez que as crenças do passado não batem com as nossas, ou de algo muito futurista, já que armas de fogo e objetos científicos são utilizados com frequência. Marjorie Liu demonstra um talento incrível com o argumento deste livro, e não só a narrativa como a própria escrita da autora são deliciosas. A reta final do primeiro álbum revelou-se algo mais cliché, mas não deteriorou o fulgor inicial. Os vários flashbacks funcionaram muito bem no entremear da história, e o gancho final deixou muito em aberto.

“A rapariga solta palavrões com frequência, não se refreia pela moral e, graças a uma criatura terrível que tem dentro dela, é até capaz de comer criancinhas.”

As personagens são todas elas ricas e muito fortes, e até mesmo a pequena Kippa consegue representar o leitor, dando voz aos medos e inseguranças em relação à protagonista. As personagens femininas são muitas e variadas, com especial ênfase para as enigmáticas Cumaea e as Inquisidoras. O traço vivo de Sana Takeda, de fácil associação ao grafismo Marvel e ao mangá, conseguiu refletir o clima de terror e suspense, assim como atribuir-lhe os detalhes asiáticos, dos dourados às tatuagens e embutidos, que a história exigia. Com efeito, o talento de duas grandes criativas resultou numa série que tem tudo para ser brilhante.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Monstress (Saída de Emergência):

#1 Despertar

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3 thoughts on “Estive a Ler: Despertar, Monstress #1

  1. Olá!

    Este está na lista de livros que quero! As imagens são muito bonitas e tem uma sinopse muito fixe. Então com a tua opinião fiquei mesmo convencida =D

    Está excelente!

    Bjs e boas leituras

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #11 – Notícias de Zallar

Comentário

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