Estou no Wattpad #28


Perdoem-me o atraso. Sei que vos tinha prometido novo capítulo no domingo, mas com a ida ao Sci-Fi Lx, o aniversário de um primo e o meu, estes primeiros dias de férias não me deixaram qualquer espaço para deixar o capítulo pronto a publicar. Depois de uma lição de etiqueta, Língua de Ferro descobriu que o esclavagista que havia estado em conluio com Lucilla, Varro, está de regresso a Chrygia, mas não é o único a chegar para o grande baile. Anos, o pequeno filho de Sander Camilli, oferece ao salteador pequenas revelações que podem mudar o rumo da história.

CAPÍTULO VINTE E OITO: O BAILE

Se tivesse tomado a liberdade de fintar o destino, havia recolhido a fortuna das minhas apostas, preparado Hije para mais uma viagem e seguido para leste, estabelecendo-me numa das antigas cidades fronteiriças como mecenas ou senhor local. Todavia, essa não era a minha essência, e posso dizer que, por esses dias, como em todos os outros, os ditames do Fluído já haviam sido definidos para mim. De Constania a Careepi havia viajado num camelo surripiado, e depois de encher os bolsos e reencontrar o meu diabo, escondi-me numa aldeia-riscada, que era o que chamavam àqueles fragmentos de cidades semi-destruídas pela Seca que agora não eram suportados por legislação ou magistérios, o que os tornava esconderijos perfeitos para todo o tipo de contrabandistas, caloteiros, ladrões e assassinos. Esperei que os rumores sobre a minha fuga se espalhassem, até procurar um velho ourives, vendedor de pedras contrafeitas que chegara de Veza dois dias antes. Foi através dele que cheguei a Bortoli, que engordara a carteira a olhos vistos e se havia tornado um famigerado mecenas, a quem se lhe conhecia fortuna em todas as sete cidades do deserto oriental. Vi-o quando passou por aquela aldeia, cercado de uma segurança apertada, seguido por uma caravana de camelos, rolos de seda e paletes de especiarias. Não deixei que ele me visse; caso me identificasse naquele momento, tenho a certeza que ordenaria a minha morte, mesmo num povoado clandestino como aquele. Observei-o de longe, escondido nas sombras dos becos e das vielas, enquanto ele fazia os seus negócios obscuros. Por aqueles dias, já não era segredo para mim que Mario Bortoli almejava fazer sombra ao novo Imperador, e que havia selado importantes alianças com tribos rezolis para lhe fazer oposição. Sub-repticiamente, através do ourives, deixei-lhe mensagens, oferecendo a minha espada aos seus serviços. Chamem-me ingénuo, mas eu acreditava que aquele mundo tornara-se demasiado pequeno para mim. Daria um olho da cara para ver a expressão de Bortoli no dia em que finalmente assinei uma das missivas que trocámos.”

― Dooda Vvertagla não era a pessoa que você julga que era ― disse-lhe Sander Camilli enquanto desciam a escadaria. ― Se ele fosse esse sujeito honrado de que fala, teria ele comandado um lendário grupo de salteadores? Liderado o assalto ao Império?

Língua de Ferro acompanhava-lhe o passo com as mãos nos bolsos e a mente enegrecida pelos pensamentos. Não se sentia confortável por ter deixado Apalasi no quarto, mas seria profundamente desrespeitoso apresentar-se armado num baile. As palavras de Camilli pareciam unhas a esgravatar uma borbulha cheia de pus na sua mente.

― Ele tinha um sentido de justiça, senador. Quem de nós tem moral para censurá-lo? Trabalhamos para o mesmo, ainda que ele tenha declinado a oportunidade de ser coroado quando ela se lhe apresentou.

Sander Camilli soltou uma risadinha nervosa.

― Pergunto-me quanto você conheceu do homem, Valentina.

Língua de Ferro não partilhou da sua falsa alegria. As palavras de Sander Camilli estavam impregnadas de azedume. A crer nas palavras da Intendente, o senador fora apaixonado por Dooda, e era notório que o seu desprezo por ele devia-se essencialmente à rejeição.

― Muito mais do que você, asseguro-lhe.

― Lamento, Valentina, mas depois da sua traição, julga mesmo que ele o perdoou? Ele era obcecado por Lucilla. Recorde-se que ambos estiveram por detrás da sua captura. Atiraram-no para a Prisão.

Língua de Ferro suspirou.

― Ele suicidou-se para me salvar.

Foram interpelados por uma gargalhada. Na base da escadaria, com um paramento militar coberto de estrelas douradas e dragonas aos ombros, a Intendente testemunhava a discussão. Tinha uma máscara de lacre escuro na forma de uma coruja sobre o rosto, mas Língua de Ferro não sentiu dificuldade alguma em identificá-la.

― Está a falar de Dooda Vvertagla, Língua de Ferro? Prometemos-lhe que saberia a verdade neste baile, concedo-lhe isso. Dooda estava condenado à morte. ― Sander chegou à base da escadaria e enlaçou o braço no da Intendente. ― Tinha uma doença grave, peneias azuis. Partes do corpo que enegreciam. Não há para isso uma cura milagrosa e Dooda não ia esperar pelos dias terríveis que esperam os condenados. Usou a vida para conseguir fazer valer as suas intenções e atirar Allen para as vossas mãos. Lucilla e Eduarda percebiam que Allen começava a fugir ao seu jugo, a ter ideias próprias, a manifestar vontade em exercer o título que lhe atribuíram em público. Convenhamos, era inexperiente na política, mas com Sander a aconselhá-lo, daria um bom líder.

― Talvez ainda julguem que sim ― disse Língua de Ferro, certo de que o pretendiam coroar.

Chegou à base da escadaria e prosseguiram o caminho, lado a lado, em direção ao Salão de Baile.

― Nunca excluímos essa hipótese, se bem que o rapaz está bastante fragilizado de saúde ― disse Sander Camilli com um suspiro, e caso Língua de Ferro não ouvisse o seu testemunho no Senado, julgá-lo-ia sincero.

Um par de guardas abriu as portas do salão para eles, quando a Intendente sussurrou:

― Lucilla tencionava matá-lo. Regan virou-se contra ela e tentou defender o irmão. Se, até ali, não viam Allen como um verdadeiro perigo, posso dizer que o irmão dele, por tudo o que haviam partilhado, era bem mais arrojado e podia, realmente, arruinar-lhe os planos a favor do irmão. Com Dooda a trabalhar como espião, tornou-se imperial que Eduarda deixasse Ccantia por sua conta e risco e se fixasse em Chrygia como um dos membros do Triunvirato. Foi por isso, essencialmente, que montaram a emboscada a Regan. Durante uma campanha nos desertos, a sua diligência foi atacada. Ele escapou com graves ferimentos, mas não foi muito longe.

Língua de Ferro fechou os olhos, enquanto transpunha as pesadas portas do salão. Tentava acreditar que aquilo era mentira, que Lucilla e Eduarda não eram os autores morais da morte de Regan. Algo dentro dele, a sua vontade, insistia consigo que era mentira, mas tudo lhe parecia fazer demasiado sentido para sê-lo. O Salão estava repleto de pessoas, homens vestidos de gibão e ternos de algodão, senhoras com belos corpetes de seda, veludo e pano de prata, cheios de folhos e pedrarias. Muitos traziam máscaras nos rostos, outros limitavam-se a usar perucas e disfarces pontuais. Sander Camilli e Língua de Ferro eram dos poucos que não portavam qualquer disfarce.

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Baile (Fonte: youtube.com)

― E no que é que a morte de Regan está relacionada com a morte de Dooda? ― perguntou-lhes.

― Dooda estava feito com eles, é claro ― disse Sander, e parou para se virar para ele. Esperou que um casal com máscaras na forma de focinhos de aves, com belos trajes de veludo, passasse por si. ― Ele amava Lucilla, apesar de nunca retomarem a velha relação que vós conhecestes. De certo modo, até apadrinhou o romance entre Anéis da Morte e a mulher. Pelo que me contaram, todos eles mudaram muito desde que traíste os Doze Vermelhos. As relações modificaram-se, e Dooda foi aquele que mais sofreu, refugiando-se numa máscara de passividade quando todo o seu interior regurgitava de veneno. Ele estava doente há já algum tempo, e limitou-se a aceitar aquele relacionamento como parte de algo maior. Vingar-se de ti.

Língua de Ferro cerrou os dentes.

― Ela traiu-o tanto quanto eu…

― Os argumentos de uma mulher podem ser um pouquinho mais convincentes ― interferiu a Intendente, com ironia no tom de voz. ― Com Regan morto, Allen nas tuas mãos e Eduarda no poder, Sander nada podia fazer para interferir na gestão do Império. Estava em minoria. Só o mantiveram no poder porque tinha influência no senado e conhecimentos que lhes faziam falta. Digamos que o meu esposo nunca se lhes opôs com frontalidade. Era um carneirinho na sua presença.

Sentiu uma ligeira tensão entre o casal, quando trocaram um olhar cauteloso.

― Isso não é bem assim ― contrapôs Sander, mas Língua de Ferro sabia que era e que Lucilla o utilizara como bode expiatório, rotulando-o como senhor malvado de Chrygia para sacudir dos seus ombros várias responsabilidades.

Transeuntes passaram por eles, com vestes requintadas, alguns com máscaras nos rostos, todos eles mexericos e gargarejos. Esperou que um grupo de cinco pessoas passasse por eles e reverenciassem Camilli, para lançar-lhes uma última pergunta.

― Porquê Allen? O que é que ele tem de especial? E porque quereriam eles deixá-lo nas minhas mãos?

― Porque ― disse Sander Camilli ―, na melhor das hipóteses, ele encher-te-ia os ouvidos com mentiras. Na pior, matá-lo-ias. Qualquer das hipóteses seria conveniente aos seus planos.

Retomaram a marcha. Entre tantas figuras desconhecidas, Língua de Ferro reconheceu alguns rostos. Ciaran portava-se com um verdadeiro anfitrião, conduzindo os convivas às suas mesas em passos lentos e arrastados, ainda assim perfeitamente cortês. Exuberâncias de loiças e guardanapos em leque transformavam as correntezas de mesas numa excentricidade luxuosa. Havia malabaristas e trovadores, e os sons das flautas eram abafados pelas conversas intermináveis dos convidados. Língua de Ferro sentia que vários olhares eram-lhe endereçados, todos eles com cautela e hostilidade. O baile era em sua honra e ao serviço que prestara a Chrygia ao quebrar o cerco da cidade, mas o que sentia era uma profunda desconfiança. As pessoas não estavam ali para o reverenciar, mas sim para festejar, porque nenhuma figura da nobreza que se prezasse podia faltar a um evento daqueles. Concentrou o rosto marcado pelas bexigas do General Pantaleoni, com profundas olheiras e olhar grave, numa mesa com a esposa, o sogro, um senador velho e cadavérico, e o filho, Degas, que apontou na direção de Língua de Ferro mal o viu, com ousadia e indignação no olhar. Vários dos senadores que havia encontrado na Câmara do Senado também ali estavam, a fitá-lo com desagrado. Tentarão matar-me esta noite?

― E se Allen me contasse a verdade? ― perguntou.

― Não seria uma grande perda ― respondeu a Intendente. ― Mas seria pouco provável. Allen sempre teve dotes de ator, e tinham o pai dele nas suas mãos. A morte do irmão fora um aviso bem sério de que não estavam para brincadeiras. Só quando raptamos as filhas deles é que Lucilla e Eduarda começaram a perceber que tínhamos as nossas armas e não éramos tão inofensivos como pensavam. Em boa verdade, até eles estavam assustados com aquilo que as miúdas tinham dentro delas, mas eram as filhas. A partir daí, começou um braço de ferro entre nós, e com Bortoli a morder-lhes os calcanhares, decidiram envolver-te no jogo deles.

Língua de Ferro sentiu-se derrotado. Sentia-se um idiota. Lucilla estivera por detrás de todas as armadilhas. Odiava-a profundamente, e mais profundamente do que isso, amava-a. E era isso que o dilacerava por dentro. Dooda, Lucilla e Eduarda tinham-no enganado. Meneou a cabeça e tentou atirar esses pensamentos para depois.

Sander Camilli cumprimentou uma matrona exuberante, que ergueu a máscara nariguda para o reverenciar com uma mesura, e voltaram a avançar. Varro liderava uma mesa ampla, cheia de jovens mulheres, belas e de pouca roupa, que emborcavam licores uns atrás dos outros. O esclavagista trocou com Sander um breve aceno de cabeça, mas não se deteram por mais tempo. Língua de Ferro viu no olhar de Varro um veneno ácido, a borbulhar. Sorriu ao reconhecer várias figuras familiares numa mesa próxima. Boca de Sapo tinha uma máscara de urso no rosto, Ravella um exuberante vestido drapeado com madrepérolas e Empecilho um fino fato vermelho de veludo. Com um olhar brilhante e sincero, o rapaz acenou-lhe, quando o viu. A figura de costas, com uma ampla peruca grisalha cheia de cachos e um gibão de veludo verde, era Jupett Vance. Não precisava ver-lhe o rosto para sabê-lo.

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Baile (Fonte: servandorocha.com)

Mais à frente, uma larga mesa esperava-os com distinção. Língua de Ferro reconheceu que lhes pertencia e quis fechar o seu esclarecimento com uma última questão.

― Falaram no pai de Allen. Que Luce e Eduarda o tinham em seu poder. Onde está ele? Talvez possa falar-lhe depois.

A Intendente baixou a cabeça e Sander respirou pausadamente, antes de apontar para a mesa. Encontrou os filhos de Sander Camilli sentados em fila, todos virados para a frente do Salão. Estava ali o pequeno Anos, que o saudou com um sorriso mal o viu, estavam ali Ceil e Amehia, com sorrisos abertos e a mexericar, e três outras raparigas de tons pálidos que seriam suas irmãs. Viu também Allen, com um aspeto amarelo e febril.

― Valentina ― sussurrou Sander num tom cansado. ― Disse-te que descobririas a verdade neste baile. Aqui a tens. Eu sou o pai de Allen e Regan. Ainda acreditas que sou eu o assassino do teu amigo?

Língua de Ferro estreitou os olhos com a surpresa. Sentiu-se a mergulhar em água fria. Fixou o rosto doente de Allen, mas ele não lhe retribuiu o olhar. Estava pálido e não parecia sentir a melhor das vontades em estar ali presente. Era assessorado por um escravo, e cada movimento parecia doer-lhe. Recebeste um tratamento doloroso, e o teu torturador está entre nós, se ainda não o reconheceste, pensou Língua de Ferro. Por alguma razão, sentia pena de não ter sido ele a torturá-lo.

A mesa onde se encontravam era a mais comprida e exuberante do Salão, e um empregado vestido de terno apressou-se a chegar para trás o seu cadeirão. Seria o primeiro dos três a sentar-se, como direito de convidado de honra. Depois de Língua de Ferro sentaram-se Sander Camilli e a Intendente, um de cada lado. O último lugar que faltava preencher pertencia à senhorita Finn, que chegou com um passo apressado e logo os cumprimentou com distinção.

― Está tudo a postos ― disse. ― Dei instruções para começarem a servir.

Sander Camilli sorriu-lhe antes que ela se sentasse.

― Obrigado, mãe!

Língua de Ferro abriu a boca num misto de admiração e sorriso. Recordou-se do hábito comum aos dois em empurrar as lunetas contra a cana do nariz e sentiu vontade de rir. O pai e a avó de Dzanela, pensou, ao recordar-se do velho amigo. O amigo que o traíra para salvar a família das mãos de Lucilla. Beliscou uma azeitona e depois de remover o caroço da boca com os dedos, colocou-o na borda de um prato. Finn pareceu observá-lo e lançou-lhe um olhar de censura. Língua de Ferro esperou que a refeição fosse servida para aproximar a boca do ouvido de Sander Camilli.

― Sabe que a sua filha Ceil se anda a encontrar com Varro?

O senador sorriu.

― Também eu já me encontrei com ele. O que é que isso pode ter de mal?

Língua de Ferro tossicou com um sorriso trocista.

― É do conhecimento público a relação que encetam ― disse. ― Preocupam-me mais as motivações do vendedor de escravos. Ele fê-lo a mando de Lucilla, e a sua filha parece apaixonada por ele.

Sentiu um breve constrangimento atravessar os olhos de Sander Camilli, enquanto cortava um pedaço de pernil assado.

Sem título
Máscara (Fonte: pinterest.com/explore/cyrano-de-bergerac-play)

― Pelo que me constou, a minha filha Ceil também se encontrou consigo e, no entanto, não me parece apaixonada.

Língua de Ferro cerrou os dentes. O homem não queria ver o que estava à frente dos seus olhos.

― Ceil usou-me para agravar Degas Pantaleoni. Para que ele rompesse o noivado e ficasse livre para Varro.

― Permita-me a descortesia, Valentina, mas esse assunto não é da sua conta. Meta-se na sua vida.

O salteador não engoliu aquilo.

― Isto é a minha vida, Sander. Não me disse antes que tencionava coroar-me? ― O constrangimento parecia cada vez mais notório em Sander Camilli. ― Eu sei que há quem queira matar-me esta noite. E que você planeia usar-me como seu instrumento, enquanto prepara a coroa para o seu rico filho Allen. Também sei que Ceil não é filha de uma escrava qualquer e que você matou a mãe dele quando a encontrou com um amante.

Sander Camilli virou o rosto para si, completamente aturdido.

― Falem mais baixo ― exortou a Intendente ao seu lado direito.

― Eu… eu… ― Sander Camilli engoliu a afronta e fez baixar os ombros, sem hipótese de rebater. ― Gostaria de saber como tomou conhecimento de tudo isso. Matarei o maldito traidor que deu com a língua nos dentes. Certamente que foi um opositor dentro do senado.

― Poupe-se a isso ― grunhiu Língua de Ferro. ― Descobri por minha conta e risco. Talvez ainda esteja a tempo de juntar-se àqueles que pretendem reclamar a minha cabeça esta noite.

― Cale-se ― exigiu Sander Camilli, baixo o suficiente para não despertar atenções. ― A minha filha Ceil é imprevisível e caprichosa. A mãe dela era igual. Eu amava-a, mas traiu-me da pior forma que uma mulher pode trair um homem. Encontrei-a nos braços do meu melhor amigo, o senador Cavallare. Matei-os aos dois e não é algo de que me arrependa. Acontece que Cavallare era irmão de Simono Gogios, o avô de Degas, que me tem criado alguma oposição no Senado. Ele é um dos impulsionadores da ideia de que você deve ser morto, Valentina. Não fosse a importância do General Pantaleoni, já teria quebrado aquela família. Ainda assim, se puder evitar que Ceil se case com Degas de forma passiva, tanto melhor. Quanto à relação de Ceil com Varro, eu próprio lhe pedi para o manter entretido, sob rédea curta. Não me parece merecedor de grande preocupação desde que nos chegou a notícia da morte de Lucilla, mas pretendo saber se ainda detém qualquer motivação para se nos opôr.

Língua de Ferro mastigou calmamente, ao compreender que Sander estava consciente de todos os pequenos passos que eram dados no interior do Capitólio. Tinha bons olhos, e usava a filha Ceil a seu bel-prazer, embora parecesse cego para com as vontades autónomas da rapariga. Sentiu-se propenso em dizer-lhe que a filha Amehia estava apaixonada pelo rapaz Pantaleoni, quando alguém abriu o baile com um rugido. Nem dois minutos mais tarde, Ceil lançou-se para a sua frente e esticou um braço na sua direção.

― Senhor Valentina, dá-me a honra desta dança?

Língua de Ferro sorriu. Várias máscaras, removidas para o jantar, foram recolocadas, e o perímetro de dança ficou cheio de gente. O salteador foi arrastado pela rapariga para o centro do salão e sentiu-se aliciado pelo seu olhar ansioso e prometedor. Uma opereta começou a tocar e Ceil segurou-lhe os ombros largos. Puxou-o para lhe dizer aos ouvidos:

― Deixe-me comandar os seus passos. Limite-se a seguir-me.

― Ora, julguei que você comanda sempre os meus passos. Esta noite, você vai descobrir que eu nasci para dançar.

A rapariga soltou uma gargalhada. Língua de Ferro sentiu a maciez daquela pele nos seus dedos endurecidos, uma frescura tentadora que lhe relembrava porque era tão bom sentir-se vivo. No rosto da rapariga, porém, viu outros traços. Mais duros e tentadores. Viu o rosto de Lucilla. Deu passos para a esquerda e para a direita, seguindo-a atentamente. A dado momento, ao padrão dos seus passos começaram a dançar em círculos. Língua de Ferro viu-se visado do olhar venenoso de Varro e do olhar ofendido de Degas Pantaleoni. Quando o corpo de Ceil tombou para trás, suportado pela mão ampla do guerreiro, este perguntou-lhe:

― Sentes alguma coisa por Varro?

A rapariga não parava de rir. Lançou-se para a frente, para retomar a posição original, e levou as mãos às ancas.

― Está com ciúmes, senhor Valentina?

Ele sorriu-lhe, e quando se preparou para responder, ouviu os primeiros gritos. A sua expressão ensombrou-se. Sentiu os ombros a ficarem tensos.

― O que foi? ― perguntou ela, assustada.

― Socorro! ― gritou uma voz distante. Em pouco tempo, os soluços arrastados e guinchos aterrorizados começaram a fazer-se ouvir por todo o salão. ― Eles vêm aí!

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Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito

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