Estou no Wattpad #29


É verdade, depois de vos ter apresentado o capítulo 28 na quarta-feira, eis que vos trago um bónus; só porque estou de férias. Estarei uma semana completamente arredado do blogue, daí que tenha decidido presentear-vos com mais um emocionante capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, agora que faltam pouquinhos capítulos para o grande final. O baile trouxe grandes revelações para o anti-herói, mas as surpresas estão longe de acabar. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E NOVE: CÃES

A aldeia-riscada não tinha mais nada para me oferecer. Aceitei acompanhar uma caravana de mercadores até à cidade de Venille, a troco do sempre bem condimentado guisado rezoli. Na verdade, precisava de uma desculpa para regressar a Constania, engolir o meu orgulho e pedir a Dooda que me perdoasse, ainda que ele já o tivesse feito. Não me sentia arrependido pela traição aos Doze Vermelhos e, se voltasse atrás no tempo, teria feito tudo outra vez, mas o que eu fizera ao meu melhor amigo tornara-se incomportável de suportar. O perdão dele só me fazia sentir mais culpado, principalmente porque nunca lho fora solicitado. Venille revelou-se um destino pouco agradável. O odor do couro acabado de curtir impregnava o ar e o guinchar dos abutres fazia-me perguntar o que raio acontecera às gaivotas que em tempos dominavam aqueles céus. Consolei-me entre as coxas de uma prostituta de olhos amendoados que me fazia lembrar Lucilla, mas a mulher não era aquilo que eu esperava. Possuía uma dignidade improvável para a profissão e uma autoconfiança que se lhe aderia ao corpo como uma segunda pele. Gritou um último gemido de prazer e, quando caiu para o lado, disse-me que seria traído por aqueles que eu traíra. Nunca ouvira falar de oráculos que viam o futuro através da cópula, pelo que zombei da mulher e disse-lhe que lhe pagara para foder e não para tecer profecias. A verdade é que eu estava inebriado pela zurrapa da noite e limitei-me a virá-la de costas para me voltar a servir do seu corpo. Ainda assim, nunca esqueci as suas palavras, e os nomes de Dooda, Dzanela, Bortoli, Marovarola, Brovios e Agravelli ficaram-me gravados na mente. Na manhã seguinte, regressei a Constania.”

O general Pantaleoni foi alvo de um ataque de espirros, as senhoras da corte mexericavam e os flautistas chegavam ao píncaro das suas melodias. Talvez por isso tenham demorado tanto tempo a ouvir os gritos.

Língua de Ferro lamentou não ter Apalasi consigo, mas lançou-se na direção das portas do salão. Ceil seguiu-lhe os passos, mas o amplo salteador parou-lhe a progressão com uma mão no peito.

― Não. Tu ficas aqui. Avisa o teu pai do que se está a passar.

O olhar estóico da rapariga adquiriu contornos febris.

― O que se está a passar? Mas o que mijo de ratazana sei eu do que se está a passar?

― O Capitólio ― disse ele ― está a ser alvo de um ataque.

Língua de Ferro deixou a jovem, quando assomou à porta um jovem criado, com um coto a sangrar onde devia ter uma mão. O rosto perdera parte da cor e tinha os olhos cheios de terror.

― Eles. Eles vêm aí ― balbuciou, com a língua a entaramelar-se, antes de cair desmaiado para a sua direita.

Língua de Ferro ouviu os gritos aterrorizados das senhoras da corte presentes no salão, mas não esperou que a massa de gente envolvesse o rapaz caído como corvos em busca de um banquete. Tranpôs a portada dupla e, quando subiu a escadaria, viu um rasto de sangue tanto nos degraus como na balaustrada. Dedadas vermelhas corriam o mármore do corrimão.

Ouviu um grito do corredor à esquerda, e um grito do corredor à direita. Avançou em passos largos até à cozinha, onde se deparou com os cadáveres mastigados das copeiras e ajudantes de cozinha, envolvidas por massas de entranhas, dejetos e sangue, e com expressões do mais puro horror nos rostos.

O odor nauseabundo de carne acabada de abater não guardava segredos para Língua de Ferro. Nele, pôde reconhecer um outro odor familiar.

O cheiro a cão.

Sem título
“Cão” (Fonte: simania.co.il)

Atrás de um aparador, o animal de olhos vazios que lhe guardara a porta na noite anterior debruçava-se sobre o corpo de Mia, arrancando-lhe um pesado seio do peito à dentada, enquanto a cozinheira soltava o estertor final. Uma boca de sangue e músculos postos a nu abriu-se-lhe no peito e Língua de Ferro viu-se visado do último e desesperado olhar da mulher. Que porra de merda é esta?, pensou para si mesmo enquanto o cão engolia o pedaço de carne. Esperou que o animal se virasse para si e o reconhecesse, mas quando ele o fez, sentiu-se intimidado.

O cão era enorme, tinha os olhos completamente vazios e as mandíbulas ameaçadoramente abertas estavam vermelhas do sangue das suas vítimas. Sangue que pingava e tamborilava no solo de mármore. O que queres com isto, essência?, perguntou em silêncio. Porque não me usas a mim, se é verdade que me controlas?

Uma voz atrás de si respondeu aos seus pensamentos:

― Cada instrumento tem a sua função ― disse Anos, com uma expressão tristonha no rosto. O cão soltou um silvar assustador e aproximou-se com o dorso a ondular. ― E, ao contrário dos animais, somos seres humanos. A essência pode definir as nossas tarefas e fazer-nos aceitá-las, mas ainda assim há algo mais profundo em nós que nos pode fazer recusá-la. O livre-arbítrio.

Língua de Ferro deslizou o olhar do rapaz para o cão. Anos avançou, pé ante pé, para o animal, passando pelo salteador com uma mão no ar.

― Porque é que estás a fazer isto? ― perguntou.

― Há algumas semanas, quando chegaste, perdi o meu dom ― disse o rapaz. ― Inicialmente, julguei que a essência te enviara para me substituir, mas agora percebi o que aconteceu. A essência não te criou oposição, porque o Fluído indicava que matarias a minha família e reclamarias o trono. Dentro de ti, ela já percebeu que essa intenção desapareceu ou, pelo menos, foi mitigada. O meu pai pode ter-se avassalado à doutrina, mas nem ele pretende reclamar a coroa, nem está destinado a isso. Ela queria um de nós dois com a coroa de acanto na cabeça, porque apenas um dos seus instrumentos lhe pode dar voz com legitimidade. Espalhar o verbo pelo Império. O meu irmão é um sério obstáculo a isso. Eles vieram, para o matar.

O silvar do cão tornou-se mais carregado com a aproximação do rapaz.

― Eles? ― perguntou Língua de Ferro.

― Sabes a quem me refiro. Durante mais de trezentos anos, o poder distribuído às famílias originais de Chrygia retrocedeu e avançou de forma periódica, até que a essência percebeu que os deuses haviam escolhido um caminho pantanoso e de interesses questionáveis. Um caminho que poderia levar-nos a todos ao abismo, baseado no poder e na arrogância. Nessa altura, os circuitos comerciais foram desviados e Chrygia passou por um período de contusão social, durante o governo de Cacetel Damasi. A cidade tinha então duas mil pessoas e chamava-se de capital do Império, a funcionar como coração das rotas comerciais. A descentralização foi essencial nos planos da essência em reformular o mundo. Ela não tinha intenção de modificar os planos sociais, mas reverter a forma como as pessoas a encaravam. Acreditava que a arrogância dos homens provinha dos deuses, e então tirou-lhes os deuses e tirou-lhes a água. Mas mesmo a caminho da extinção, os homens continuam arrogantes.

Os olhos de Língua de Ferro abriram-se de susto, não só pelas palavras do pequeno Anos, como pelo movimento súbito do canídeo. O enorme cão lançou-se para o rapaz e abocanhou-lhe a cabeça careca, fazendo chover um jato de miolos à sua volta. O jovem parecia ter-se entregue a ele voluntariamente, pelo que não exibira qualquer tremor ou lançara qualquer grito nos momentos que antecederam a sua morte. Língua de Ferro deu um passo atrás, incrédulo por ter permitido que a criança fosse assassinada. O animal mastigou-lhe os restos, sem deixar de o mirar de olhos vazios.

Sem título
“Cão” (Fonte: mundotentacular.blogspot.com)

Claro, percebeu. A essência quer ver Allen morto. Isso explica a minha vontade de o matar. Deu outro passo para trás, quando ouviu sons desagradavelmente familiares atrás de si. Dois cães, com a pelagem tão negra quanto a do primeiro, de olhos tão brancos e altura tão elevada quanto a dele, transpuseram a porta na sua direção. A essência não quer livrar-se apenas de Allen, mas também dos instrumentos que já não lhe servem.

O cão que matou Mia e Anos ergueu as patas dianteiras, fê-las cair no chão com um bambolear suave e ganhou balanço para a frente, lançando-se para cima do salteador. Língua de Ferro viu-lhe os músculos a pulsar no peito, as patas perfeitamente fletidas e a investida pareceu-lhe um borrão em retrospetiva. Não teria barreira mágica para se defender, sabia-o, mas nunca precisara dela. Os reflexos assumiram o lugar que lhe pertenciam quando abriu a bocarra do animal com as próprias mãos e puxou-lhe a cabeça com um torção. Língua de Ferro era um bárbaro, uma lenda dos desertos, um animal em corpo de gente. O peso do oponente fê-lo cair para o lado.

Mataria aquele animal com toda a propriedade. Fê-lo com selvajaria. Mas tanta bravura e ferocidade, paixão à vingança e corpulência física não lhe bastariam. Havia mais dois cães daqueles a avançar para ele, com raiva a verter-se-lhes das mandíbulas. Seria desmembrado e transformado em ração, se tiros não fossem disparados da entrada da cozinha, fazendo os animais encolherem-se e ganirem antes de caírem com manchas vermelhas nos dorsos negros como a noite.

Os cães gigantescos foram abatidos a tiro, o que lhe revelou não estarem protegidos pelo halo de proteção que os escolhidos pela essência costumavam deter. Talvez tal blindagem não granjeasse os animais, ou talvez a essência não os achasse importantes para lhas conceder. Língua de Ferro sentiu os dedos cheios de sangue que não era seu quando removeu os dedos da boca do animal que enfrentara. Sentou-se no mármore, com os reflexos embotados pela reação da essência no seu corpo. Viu vultos turvos à sua volta. Quando sentiu mãos nos seus ombros, reconheceu o jovem que o abraçava. Sob as sobrancelhas douradas, Tayscar parecia preocupado.

Atrás dele, sobranceiro, Seji ajeitava o mosquete com o ar presunçoso de quem salvara o dia. Atrás dele, às portas da cozinha, um homem com uma sobrecasaca de veludo cheia de bolsos e botões removeu uma máscara cinzenta do rosto, cujo nariz proeminente dava-lhe uma aparência risível. Era Dagias Marovarola, a balançar os caracóis negros e a gingar as ancas.

― Dívida saldada, Valentina. Não precisas agradecer-me. ― Aproximou-se de uma mesa, removeu a tampa de uma panela, sorveu o ar à sua volta e perguntou: ― O que é que há para jantar?

Se não tivesse assistido à morte de uma mulher e de uma criança inocentes, talvez sorrisse. Língua de Ferro ergueu-se de súbito e disse:

― Jantas depois. Ainda há trabalho a fazer. Por que raio demoraram tanto tempo a chegar?

Tayscar atirou-lhe um dedo indicador, acusatório:

― O seu plano deixou muitas brechas abertas. Porque não nos contou ainda nos Poços o que pretendia?

Não podia perder tempo a explicar-lhes tudo.

― Nunca verbalizei o meu plano em voz alta. Limitei-me a matar dois camelos e a pedir a Empecilho para os enterrar. Precisava fazê-los acreditar que tinha morto as miúdas. Duvidava que, através de mim, a essência não o descobrisse, e desse modo, Vance também o soubesse, mas precisava colocá-las em segurança e temia que Sander Camilli as mandasse matar. Para provar a minha lealdade à essência e conquistar a confiança de Chrygia, achei por bem forjar a morte das raparigas e enterrar os camelos junto ao cadáver do pai delas.

― E mandou-as de volta, sozinhas ― grunhiu Seji, com censura.

― Chegaram vivas, não chegaram?

― Por pouco ― respondeu Tayscar, cheio de azedume. ― Quase que as matou.

Isso não aconteceria, pensou Língua de Ferro, sem o verbalizar. Algo dos deuses mortos que matou o pai delas ainda vive no seu íntimo, e regressará, mais cedo ou mais tarde.

― Não importa. ― Virou o rosto para Marovarola. ― Uma vez que estás aqui, significa que elas transmitiram a mensagem e estão em segurança.

Marovarola passou com uma manga pelo nariz, limpando o muco que lhe escorria para a boca.

― Sim, Valentina. A tua cavalaria chegou. Tal como planeaste, sabotamos um comboio, fizemo-nos passar por locais e seduzimos umas copeiras. Onde é que está o maldito Camilli para o matar?

Sem título
“Pirata” (Fonte: fineartamerica.com)

Língua de Ferro suspirou profundamente, enquanto passava por eles e dirigia-se ao quarto para recuperar Apalasi.

― O jogo mudou, Marovarola. E o alvo também. Não vamos matar Sander Camilli.

Marovarola seguiu-o pelo corredor em passos bambos e rápidos, com Tayscar e Seji a segui-los sem vontade.

― Como assim? ― perguntou Marovarola. ― Quem é que vamos matar então?

Língua de Ferro pegou num candeeiro sobre uma cómoda e voltou a pousá-la.

― Vance Cego. O nosso velho amigo está aqui para matar Allen e eu vou impedi-lo. Estes cachorrinhos foram uma manobra de diversão para espalhar o terror no Capitólio e tirar-me do Salão de Baile.

Dagias Marovarola parou, com os olhos muito abertos.

― Mas, por que carga de água queres tu salvar Allen? O maldito é um cabrão presunçoso.

Língua de Ferro virou-se rapidamente e encostou o homem a uma parede, pelo pescoço. Viu os olhos de Marovarola a abrirem-se muito e apertou ainda mais os polegares na sua garganta. Sentiu vontade de o estrangular, ou talvez fosse a vontade da essência.

― Também tu és um cabrão presunçoso. Eu sei tudo, Marovarola. Eu sei que foram vocês que mataram o Regan.

Soltou-lhe o colarinho e deixou-o cair sentado no solo. Seji e Tayscar trocaram um olhar confuso. Quando Língua de Ferro lhes virou as costas, Marovarola começou a gargarejar.

― Ora, Val, Dzanela era um cretino. Demasiado certinho, demasiado seguidor das suas próprias regras. Lembras-te do que ele lhes chamava? Ética de salteador. Sim, foram mesmo essas as palavras que ele disse quando trocei dele. Antes de lhe dar um tiro. Não tive gosto em fazê-lo, mas Eduarda pagou-me uma pipa de ouro pela vida dele…

As palavras morreram-lhe na boca, ao perceber que se denunciara. Língua de Ferro lançou-lhe um olhar mortífero. Se tivesse uma arma nas mãos, possivelmente matá-lo-ia ali. Fá-lo-ia de mãos nuas. Sentiu-se impelido a fazê-lo, mas queria saber mais sobre aquilo.

― Marovarola, eu convivi convosco. Eu vi o horror nos olhos de Eduarda. Eu senti a verdade das vossas palavras. E agora, descubro que é tudo mais uma mentira que me atiraram aos olhos?

Dagias Marovarola fechou os olhos.

― Luce e Eduarda inventaram muitas mentiras. O medo pelas filhas deles era verdadeiro. E o medo que sentiam por Sander Camilli também…

Língua de Ferro fechou a boca numa expressão que sugeria fortemente que lhe iria cuspir em cima. Não o fez.

― Sander Camilli nunca lhes fez realmente oposição. O filho dele, sim.

― Sander Camilli teve um filho muito parecido com o profeta que os levou ao poder ― revelou Marovarola. ― Eles temiam que a força que enviara Vance para eles, que os alertara para o final do mundo como o conheciam e os exortou a reservar a água em poços, lhes roubasse agora o que tinham conquistado a favor de Camilli. Ora, Val, se o que Tayscar e Seji me contaram é verdade, tu estiveste lá dentro. Viste o que as miúdas tinham dentro delas. Eduarda e Luce estavam apavorados com isso. E, mesmo assim, também temiam que ele as matasse.

― A essência usou Sander Camilli para atrasar o regresso dos deuses ― disse Língua de Ferro. ― Mas nunca o quis no poder. Nem a ele, nem a Allen, nem a Luce ou a Eduarda. A essência quis-me no poder. A mim. Pelo menos, provisoriamente. Por alguma razão, vejo-me a cair envenenado aos pés de um criado qualquer, e vejo Vance a tutorar o pequeno Anos até que este atingisse a maioridade. A essência não contava que ambos nos virássemos contra ela. Agora, só lhe parece restar Vance, e Vance nunca me pareceu talhado para o poder. Muito provavelmente, os ditames do Fluído levam agora Semboula numa outra direção. Ou Vance tem um segredo qualquer com ele, ou não restará muito mais à raça humana quando a água dos Poços acabar. Quando isso acontecer, a raça humana será extinta.

Marovarola arqueou as sobrancelhas, e começou a rir como um louco.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove

Anúncios

Comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s