Estive a Ler: Os Despojados


O ar da loja era doce e quente, como se todos os perfumes da primavera estivessem ali aglomerados. Shevek ficou ali, entre os expositores de pequenos luxos bonitos, alto, pesado, sonhador, como os animais de grande porte nos seus cercados, os carneiros e os touros estupefactos pelo nostálgico calor da primavera.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Os Despojados

Chegou aos escaparates nacionais a obra Os Despojados (1974), da autora norte-americana Ursula K. Le Guin. Este livro pertence ao Ciclo Hainish, uma série de Ficção Científica que propõe uma reflexão sobre o nosso modo de vida e sobre a forma como os sistemas políticos e sociais foram instituídos. Pelas mãos da Edições Saída de Emergência, a edição nacional de The Dispossessed tem tradução de Fernanda Semedo e possui uma Carta da Editora escrita por Safaa Dib.

Autora muito premiada e nome inconfundível no género da Ficção Especulativa, Ursula K. Le Guin tem mais de 22 romances publicados, para além de várias coletâneas de contos, livros YA, poesia e ensaios. Foi ao explorar o sentido cívico do Homem e as questões de identidade social nos seus livros de FC que Ursula ganhou maior expressão a partir dos anos 70. A viver em Portland, a autora foi distinguida em 2014 com a medalha do National Book Foundation pelo seu contributo para as Letras Americanas.

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Fonte: http://www.yesmagazine.org

Ursula K. Le Guin é um monstro da Ficção Especulativa e a sua prosa é qualquer coisa que me fascina sempre que leio um livro dela. A maturidade literária da escritora é fenomenal e Os Despojados é um claro exemplo dessa experiência. A par de uma escrita elegante, maleável e bem temperada, Ursula brinda-nos com conhecimentos de física, com a sua própria visão sobre temas de profundo caráter científico e, acima de tudo, temas sociais. Aquilo que somos, a forma como somos escalados pela sociedade e como esta funciona ou não são temas debatidos de forma minuciosa pela autora norte-americana.

Os Despojados é um livro dividido em 13 capítulos, que se alternam entre o passado e o presente. O protagonista é Shevek, um físico natural de Anarres que é convidado a visitar o planeta Urras, o que por si só consiste numa inovação para ambas as civilizações. Anarres é visto pelos urrastis como uma lua, lugar que sabem ser habitado mas que nem por isso guardam grande interesse em visitar.

A jornada de um homem em busca da reconciliação de dois mundos 

Em Anarres, um planeta conhecido pelas extensas áreas desérticas e habitado por uma comunidade proletária, vive Shevek, um físico brilhante que acaba de fazer uma descoberta científica que vai revolucionar a civilização interplanetária. No entanto, Shevek cedo se apercebe do ódio e desconfiança que isolam o seu povo do resto do universo, em especial, do planeta gémeo, Urras.
 Em Urras, um planeta de recursos abundantes, impera um sistema capitalista que atrai Shevek, decidido a encontrar mais liberdade e tolerância. Mas a sua inocência começa a desaparecer perante a realidade amarga de estar a ser usado como peão num jogo político letal.
 Que esperança e idealismo restam a Shevek, aprisionado entre dois mundos incapazes de ultrapassar as diferenças? E ao desafiar ambos os regimes políticos, conseguirá ele abrir caminho para os ventos da mudança?
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Capa Saída de Emergência

Enquanto Urras é uma sociedade capitalista, estandardizada e organizada segundo padrões previamente estabelecidos, Anarres é um mundo muito mais livre, onde nem o dinheiro nem o altruísmo possuem valor, e as pessoas seguem determinados comportamentos porque sentem ser a coisa certa a fazer. Não há prisões nem castigos, porque aquilo que realmente os condena é a opinião do vizinho. Os anarrestis regem-se pela opinião dos outros sobre si, que é algo de muito importante na sua sociedade.

Shevek foi abandonado pela mãe, Rulag, aos dois anos de idade, sendo educado pelo pai. A cultura anarresti aplaude a união entre o homem e a mulher, ainda que não crie qualquer oposição à fragmentação das famílias quando o trabalho, determinado pela organização chamada Divtrab, assim o exige. As mulheres são vistas como iguais, tendo semelhante direito ao trabalho e às posições sociais que lhe são inerentes, algo que já não acontece na cultura de Urras. Como tal, Shevek fez parceria com Takver e com ela teve dois filhos, Sadik e Pilun, ainda que tenha sido obrigado, por mais de uma vez, a separar-se deles. É um personagem bastante constante, agregado à sua cultura e aos credos odonianos. Porém, não pára de os questionar, e de se questionar a si mesmo.

“Ursula brinda-nos com conhecimentos de física, com a sua própria visão sobre temas de profundo caráter científico e, acima de tudo, temas sociais.”

Odo é uma figura severamente respeitada em Anarres, uma mulher que terá estabelecido a ordem e criado uma religião em seu redor. Ao aceitar o convite que lhe foi endereçado, viajando para Urras para desenvolver os seus estudos de física, Shevek sabe que terá de lidar com uma cultura mais sofisticada, para quem Odo significa pouco mais que uma filósofa lunar, que terá envolvido toda a civilização anarresti com as suas ideologias. Shevek terá também que se despojar do právico, o seu idioma natal, e habituar-se ao iótico, uma língua que foi obrigado a aprender no âmbito dos seus estudos.

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Fonte: http://www.goodreads.com/book/show/13651.The_Dispossessed

A inserção de Shevek em Urras ocorre de forma rápida e processual. Se, por vezes, a sua adaptação parece transcorrer de maneira mais natural e de assimilação contínua, por outras lembra um mergulho abrupto, tais as diferenças entre as duas sociedades. Em Anarres, as pessoas são cabeludas. Em Urras, até as mulheres são carecas. Em Anarres, as mulheres podem trabalhar em qualquer ofício. Em Urras, são reservadas a tarefas do lar e a prazeres mundanos, e não parecem sentir qualquer infelicidade por isso.

O Inferno dos anarrestis é a própria Urras, um mundo capitalista onde todos tentam aproveitar-se uns dos outros para fins comerciais ou políticos, e Shevek descobre, em pouco tempo, que aqueles que o convidaram para ali estar apenas o fizeram porque acreditam que os seus conhecimentos lhes podem ser úteis. Do mesmo jeito, Shevek percebe que os círculos que lhe são apresentados reservam-se às classes altas da sociedade urrasti. Onde estão as pessoas pobres? Porque o tentam manter longe delas?

Este livro agradou-me, tanto pela premissa, pela história em si, como pela escrita da autora, que eu já tinha o gosto de conhecer. Mas houve algo neste livro que não funcionou para mim. Mea Culpa da minha falta de dedução lógica, só percebi que o livro ia saltando entre passado e presente quase a meio do livro, e em vários momentos perguntei-me o que personagens do passado de Shevek estavam a fazer em Urras, quando a ação se passava em Anarres. Isso, confesso, criou alguma confusão na minha cabeça.

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Fonte: http://www.dialecticmusic.com/2015/10/15/books-the-dispossessed

Os Despojados, é, no entanto, um livro brilhante em detalhes. A instrução de Shevek é incrível, como incríveis são os conhecimentos de física que a autora revela ou parece revelar, as questões que ela interpõe entre o personagem e esses mesmos conhecimentos, aquilo que nós pensamos de nós mesmos e da sociedade onde vivemos. É um livro para refletir, acima de tudo, sobre a nossa identidade coletiva. Não esperem momentos de grande ação. Algo que, para mim, não funcionou muito bem neste livro, foram os vários momentos de conversas e de desenvolvimento entre personagens no passado do personagem que tornaram estes mundos reais e críveis, mas que acabaram por tornar o livro aborrecido. Gostei do livro, mas sim, é um livro aborrecido de se ler.

“Shevek descobre, em pouco tempo, que aqueles que o convidaram para ali estar apenas o fizeram porque acreditam que os seus conhecimentos lhes podem ser úteis.”

Shevek acaba por ser arrastado para um mundo em que ele não acredita, um mundo que ele não tolera. É um personagem que vive em permanente arrastamento, usando oportunidades que lhe são dadas, sabendo que estas não são mais que imposições. Ele é explorado, de certa forma, por todos aqueles que o rodeiam, seja em Anarres ou em Urras, e a única coisa que ele sabe que deseja, realmente, é estar em paz com a sua família. Por aquilo que ele acredita que é o seu dever, porém, até isso relega para segundo plano. Shevek deixa-se levar permanentemente pelas circunstâncias, empurrado pelas necessidades prementes. É um personagem bem desenvolvido, mas demasiado frugal, demasiado mole, sem grandes atrativos que levem o leitor a gostar dele.

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Fonte: http://www.booksonthewall.com/blog/ursula-le-guin-quote-dispossessed

As culturas de Urras e Anarres são o que de mais rico a autora nos dá neste livro. Os planetas são a antítese um do outro, mas ainda assim existem em ambos os casos coisas boas e más, preconceitos, intrigas, desigualdades sociais, fome e presunção de legitimidade. Podemos achar que viver num destes planetas é melhor do que viver no outro, mas a autora dá-nos a capacidade de questionar se seria mesmo isso o que preferiríamos. Acho que depende muito do modo de ser de cada um, da maneira de pensar, da educação, daquilo em que acreditamos. Se o capitalismo não é um sistema social perfeito, também a anarquia não o é. Podemos acreditar que há mundos melhores para se viver, ou que podemos tornar o mundo em que vivemos num mundo melhor.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 6/10 [ ∗∗∗]

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