Estou no Wattpad #30


A minha publicação quinzenal, Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, chegou ao capítulo 30. No último capítulo, Língua de Ferro assistiu a uma verdadeira carnificina protagonizada por um grupo de cães de olhares brancos, enviados pela essência para espalhar o terror no Capitólio. O pequeno Anos não escapou à tragédia e o salteador só sobreviveu graças à intervenção de Tayscar, Seji e Marovarola, que teriam sido coordenados por Língua de Ferro no sentido de invadirem a cidade em seu auxílio, pelas filhas de Lucilla e Eduarda, que o herói levara a crer que estavam mortas. Espero que gostem deste novo capítulo.

CAPÍTULO TRINTA: O DILEMA DE RAVELLA

“A puta deu-me um cartão com o nome dela. Lançou-me um olhar com tanto de terror como de sedução, que teve um certo efeito em mim. Não olhei para o cartão antes de abandonar a cidade, e quando o fiz, as minhas tripas deram um nó. Aquelas letras arcaicas tanto podiam significar Helica como Secile, mas os meus olhos leram Lucilla. Sempre que me lembro disso, pergunto-me se ela queria dar-me a conhecer o seu nome, ou as respostas para as minhas perguntas. Fora por Lucilla que eu traíra os Doze Vermelhos, e imagino o quanto teria sido evitado se eu não o fizesse. As vidas que teriam sido poupadas. E fora a cabra quem movera as montanhas para a conceção de um novo mundo, sem olhar a quem. Naqueles tempos, e em todos os que se seguiram, eu não consegui olhar para o rosto de uma mulher sem a ver a ela. Durante a travessia dos desertos, rumo a Constania, com as virilhas apertadas na sela de Hije, estalada pelo sol, era nela em quem eu pensava.”

Empecilho sentiu-se arquejar quando viu um par de cães entrar pelo salão. Eram medonhos e enormes. Aconteceu tudo depressa demais. Saltaram por cima de mesas, perseguiram senhoras de vestidos elaborados e estraçalharam senhores de fatos e lenços aos pescoços. Os gritos aumentavam e as pessoas espezinhavam-se na direção das portas enquanto outros viam nas paredes um refúgio de pouco conforto. Ouviu os gritos de algumas pessoas quando lançarem-se pelas varandas se tornou a alternativa mais atraente. Sander Camilli e a família encostaram-se a uma parede, com uma mulher de uniforme que devia ser a célebre Intendente a organizar um muro de guardas à sua volta. O rapaz viu o horror nos olhos do senador. Não era para menos; dois enormes cães de olhar vazio invadiram o Salão de Baile para devorar as suas gentes, pessoas da elite chrygiana, a nata da civilização. A expressão facial de Camilli empalidecera. Não lhe restava um pingo de sangue.

Ainda assim, como se se preservasse alheio a tudo aquilo, Jupett Vance estava sentado a seu lado, com uma expressão divertida no rosto enquanto pegava num palito de madeira e o cravava numa lasca de queijo fatiado, que levou à boca. Os gritos à sua volta eram ensurdecedores. Empecilho trocou um olhar cúmplice com Boca de Sapo, que parecia tão disposto a erguer-se dali quanto ele.

Como se lhes lesse os pensamentos, Vance disse:

― Não se precipitem, eles estão comigo.

O ar com que o dissera parecia que tal asserção os pudesse apaziguar. Não aconteceu. Assim que acabou de comer, levantou-se, para ver um rapaz a desafiar um cão com uma valentia imberbe. Uma das filhas de Sander Camilli gritou.

― Para com isso, Degas. Não sejas parvo.

Mas quando o animal investiu, foi um sujeito de uniforme militar quem o tirou da frente e se viu alvo da bocarra horrível do canino. Vance deu uma palmadinha no ombro de Empecilho, abrindo um sorriso largo. A alegria nos olhos do homem parecia esclarecer todos os esforços daquele dia.

― General Pantaleoni ― gemeu uma voz feminina vinda de algures.

O homem viu o braço ser-lhe arrancado à dentada, e com um esgar de horror deixou-se cair para trás. O cão atirou o braço para o lado, mostrou as gengivas naquilo que podia ser um sorriso sádico e lançou-se ao rosto do general, que não demorou a morrer. O rapaz que ele havia salvo queria vingá-lo, voltando a desafiar o animal.

― Pai! Pai! ― gritou.

Não o deixaram enfrentar a fera. Pessoas do seu círculo familiar fizeram uma barreira semicircular à sua volta, e entre soluços e gemidos afastaram-no para longe. O jovem soçobrou nos braços de uma mulher gorda que devia ser a sua mãe. Empecilho viu senadores a tentarem fugir, mas os cães sentiam-lhes o medo e alcançavam-nos na corrida, manchando os seus tecidos ricos com vermelho de sangue. Encontrá-los foi fácil. Os homens que temem raramente têm o discernimento suficiente para ser subtis.

Vance virou-se então para a família de Camilli e fez estalar os dedos. Os cachos cinzentos da sua peruca caíram-lhe sobre os ombros.

― Basta! Podemos evitar aqui um genocídio.

Respondendo ao seu estalar de dedos, os cães baixaram as orelhas e aproximaram-se dele, lentamente, pata após pata. Um sujeito de cabelos escuros avançou à frente da guarda armada e, com os dentes cerrados numa expressão hostil, perguntou:

― Quem é você e o que quer de nós?

― Eu sou fiel à essência, Vance ― disse Sander Camilli, respondendo à pergunta com uma afirmação enigmática para muitos dos presentes. ― O meu convite para estardes presente é uma prova disso mesmo. Por isso pergunto-te, para quê tudo isto?

Sem título
Fonte: pinterest.com/charletoncarter/malazan-book-of-the-fallen-art

Vance Cego avançou, caminhando em círculos à volta do homem que o abordara inicialmente, um sujeito bem parecido e musculado. As jovens que o acompanhavam encolheram-se de terror, encaixadas umas nas outras como peças de um quebra-cabeças numa ponta da mesa.

― Não lhe faça mal ― gemeu uma das filhas de Sander Camilli, a mais velha. Empecilho leu no olhar da rapariga que gostava dele.

― Varro, o esclavagista ― disse Vance, sondando o homem. Uma linha de suor cruzou a testa do visado. ― Sempre tiveste mais jeito para barganhar que aqueles que se usaram de ti. Porque foi isso que eles fizeram contigo. Todos eles.

O homem ficou tenso. Era mais alto que Vance, mas não tinha a insensatez de o enfrentar. Aquelas palavras estavam cheias de bile. Com um movimento veloz, Jupett Vance arrancou o cinturão que prendia as calças ao homem e, com a outra mão, puxou-lhas para baixo. Algumas pessoas levaram as mãos à boca, escandalizadas, e Varro não conseguiu deixar-se humilhar mais pelo sujeito de olhar vazio. Dobrou-se para voltar a puxar as calças para cima, mas Vance torceu-lhe os braços, um atrás do outro, e, alto o suficiente para que todos o ouvissem, disse-lhe ao ouvido:

― Varro. O teu nome é conhecido nos desertos como vendedor de escravos, mas não passas de um prostituto. Usas a tua virilidade para conseguires o que queres, e para que aqueles por quem lutas consigam o que querem. Esses tempos acabaram.

Em vão, Varro tentou debater-se. Vance puxou-lhe os braços e todos os presentes ouviram-nos estalar. Os cães avançaram e voltaram a parar, com as línguas a dançar fora das bocas na expectativa de mais uma refeição. O grito de Varro foi comovente.

A filha de Camilli abraçou-se ao pai para não ver aquilo. Vance deixou o homem tombar de joelhos, com os cabelos caídos para a frente do rosto, e dirigiu-se à mesa onde estivera sentado, para recolher uma faca. Depois, ergueu o rosto de Varro com uma mão e fez passar-lhe a faca levemente pelo rosto. Devia estar bastante afiada, porque um filete de sangue escorreu-lhe pelo rosto. Sem sobreaviso, dobrou-se para pegar no sexo do esclavagista e lacerou-o. Um corte vertical, que não chegou para o desmembrar, mas serviu para incutir nos cães uma instrução primária.

Vance afastou-se, deixando o homem a gritar, e enquanto a rapariga suplicava para que alguém fizesse alguma coisa, os cães caíram sobre o torso de Varro para o empurrarem para o chão e o devorarem. Foi nesse momento que Língua de Ferro entrou no salão, seguido por Tayscar e Seji. Empecilho aproveitou que a atenção de Vance, sorridente, se voltava para os recém-chegados, para levar uma mão à perna de Ravella.

― Temos de fazer alguma coisa ― disse.

A mulher, que permanecera cabisbaixa e silenciosa até ali, não pareceu receber bem as suas palavras. Empecilho tentou incutir-lhe a sua preocupação com o olhar, mas não obteve daí qualquer sucesso. Agora que o jogo de Vance estava praticamente ganho, a falsa lealdade que antes demonstrara tão cautelosamente parecia agora irrelevante. O peso dos seus dedos na perna da mulher incomodou ambos, e o olhar que trocaram oscilou entre o constrangimento e a obstinação.

― Do que estás a falar? ― perguntou ela com hostilidade.

― Não podemos deixar que Vance mate Língua de Ferro.

O olhar que ela lhe lançou refulgia de ódio. Ódio velho como óleo ressequido numa panela.

― Porque não? Língua de Ferro nunca foi cortês para comigo. Ele é um traidor. Foi um traidor uma vez, e continuou a sê-lo. Vance disse-me que ele lutaria pela nossa causa. Disse-me qual era a sua importância nos nossos planos, e agora aqui o vês, disposto a lutar connosco em prol de Allen.

Empecilho deixou a perna da mulher, apertou os dedos em volta da mesa e trocou um olhar nervoso com Opyas “Boca de Sapo” Raymon.

― Allen era irmão de Regan. Tu sabes disso.

― E daí? Não sou obrigada a gostar dele por ser irmão de um homem que amei. Allen é um cobarde e um fingido. Tu sabes tão bem como eu que ele incentivou Bortoli a matar Lucilla com medo que ela lhe revelasse a verdade.

― Qual verdade?

― Que Sander Camilli nunca fora uma ameaça séria. Lucilla e Eduarda montaram um circo em volta dele, e isso acabou por funcionar a seu favor. Sander Camilli é pai de Allen e era pai de Regan, e se Bortoli soubesse disso, e soubesse que Camilli era um idiota frágil, teria usado Allen como moeda de troca para conquistar a coroa.

Empecilho deixou os ombros desvanecerem-se e suspirou.

― Ele não o usou como moeda de troca ― disse ― mas quase. Não foi melhor tratado por causa disso.

Ambos recordavam-se da tortura inflingida a Allen, bem espelhada no seu rosto amarelo, pálido e aterrorizado. O irmão de Regan estava agora encostado a uma parede.

― Isso aconteceu, porque Vance conhecia a verdade ― disse ela. ― E tinha a sua quota-parte de influência em Bortoli.

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Fonte: turbosquid.com/3dmodels

― Ele conhecia a verdade, porque tu lha contaste ― insistiu Empecilho, apertando agora um braço à mulher. ― Foi Regan quem te contou tudo isso, antes de morrer. Eu só me pergunto por que raio confiaste a verdade a Vance Cego e não a confiaste a Língua de Ferro. Porquê Vance? O que é que ele fez para comprar a tua lealdade desta forma?

Ravella revirou os olhos.

― Vance é um sacana bonito.

― Para os infernos com as tuas mentiras.

O rosto de Ravella endureceu.

― «Não contes isto a ninguém, a não ser ao homem pálido, que, sem ver, trará a verdade ao mundo.» Foram as últimas palavras dele. E, se queres saber toda a verdade, ainda bem que o fiz.

Empecilho fechou os olhos, antes de suspirar profundamente e voltar o olhar para Língua de Ferro, que se aproximava ferozmente, com a lâmina nua de Apalasi a brilhar à frente dos olhos. Vance Cego recebeu-o de braços abertos.

― Podes não gostar de Língua de Ferro ou de Allen, Ravella, mas se não fizeres nada para evitar isto, o teu amante morto nunca te perdoará, porque, por tua causa, também a família dele estará morta. Podes ainda não ter percebido isso, mas os homens cegos também podem ser traiçoeiros. Vance matou os deuses. Onde quer que eles estejam, sabem perfeitamente o que ele é capaz de fazer à cabeça de um homem. Regan não estaria decerto seguro das implicações quando te pediu isso, Ravella. Certamente que não estava.

Pela primeira vez, viu Ravella claudicar. Empecilho sabia que ela se tornara extraordinariamente leal a Vance Cego, uma sombra agarrada à sua pele. Nas noites quentes, ouvira os soluços e gemidos enquanto copulavam selvaticamente. Eram irmãos de pele, comungavam das mesmas origens, e as palavras de Regan haviam surtido nela um efeito profundo, algo a que ela precisava agarrar-se porque não lhe restava mais nada no mundo. Mas Empecilho sabia que os momentos que partilhara com Regan, as horas de vigília em Selaba, os tratamentos e o carinho que nele depositara e que dele retornaram, tinham um significado ainda mais profundo para ela. Vance e Regan tinham significado para Ravella, até ali, uma mesma força, a quem ela se entregara sem reservas e a que ela se escudava de tudo o resto. Agora, pareciam dois pólos distintos. Pela primeira vez, pareciam agora exigir uma escolha. Pela primeira vez, reclamavam uma decisão. Empecilho esperava que ela deixasse de mentir a si própria e fizesse essa escolha.

Independentemente de qual fosse, Vance Cego era o rosto de uma força maior. De um deus animal, uma energia primordial mais velha que os próprios deuses. Não era um construto, mas um construtor. Língua de Ferro tinha muitos argumentos, mas não seria obstáculo para tal empresa.

Jupett Vance atirou a peruca para o lado e, num tom bem-humorado, disse:

― Como é, Língua de Ferro? Viraste a casaca, mais uma vez?

Língua de Ferro olhou para a lâmina de Apalasi e lançou um olhar seco ao homem calvo.

― Este aço vai-te dizer quem é que virou a casaca.

Vance encolheu os ombros.

― Assim seja. Devo-te a desforra pela morte de Lucilla, não é verdade?

Língua de Ferro rugiu como um leão.

― Deixa-te de tretas. Vamos dançar.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove | Capítulo Trinta

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