Estive a Ler: Os Mares do Destino, Elric #3


E ouviu qualquer coisa, uma coisa que não eram os sussurros taciturnos do mar: uma chiadeira regular, como a que um homem faz ao andar quando veste couro rígido. A mão direita desceu-lhe à anca esquerda e à espada que daí pendia. Deu uma volta, olhando em todas as direcções em busca da origem do ruído, mas a névoa distorcia-o. Podia vir de qualquer parte.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Mares do Destino”, terceiro volume da série Elric

O terceiro volume de Elric chegou às prateleiras nacionais em 2009, pelas mãos da Edições Saída de Emergência. Foram, porém, nos distantes anos de 1976 que o original conheceu a luz do dia. Os Mares do Destino, do famigerado autor britânico Michael Moorcock, foi o segundo volume da saga, ainda que a edição portuguesa tenha decidido respeitar a ordem cronológica da série, transformando-o na terceira publicação em terras nacionais e, na verdade, o último a ser publicado por cá.

Os Mares do Destino é um livro de 208 páginas, com edição de Luís Corte Real e tradução de Luís Rodrigues. O escritor, Michael Moorcock, é um dos símbolos da literatura fantástica, autor de uma centena de livros e vencedor de diversos prémios literários. Para além de escritor, Moorcock é editor de revistas, politicamente anarquista, músico controverso e cronista respeitado. É, também, um dos mais influentes autores de Fantasia vivos.

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Michael Moorcock ( Fonte: http://avclub.com )

Elric é o imperador albino de Melniboné, o herdeiro de um império outrora ufano e glorioso, conhecido pelo caráter soberbo e cruel dos seus habitantes. Revelou-se, porém, um governante mais benévolo que os antecessores, mas também mais pensativo e preocupado. A inveja do primo Yyrkoon levou-o a estabelecer um pacto com o Duque Arioch, uma divindade do Caos, que o conduziu a uma espada sugadora de almas, a terrível Tormentífera. Obstinado em conhecer os Reinos Jovens, livres do domínio de Melniboné, para perceber a razão do declínio da sua nação e impedir a sua queda, Elric deixa a terra natal e lança-se numa aventura sem igual.

Se A Fortaleza da Pérola levou Elric pelo mundo dos sonhos, Os Mares do Destino convida-o a enlear-se numa viagem entre mundos e tempos, de uma forma mais bem conseguida do que eu augurava. A prosa de Moorcock é maravilhosa, por vezes demasiado detalhada, mas sem perder flexibilidade ou fluidez narrativa. Os acontecimentos sucedem-se em catadupa, sem serem explorados ad nauseam. Por muito que Moorcock nos leve por uma fantasia mais tradicional (reparem há quantos anos o livro foi escrito!), somos presenteados por uma narrativa misteriosa em que acabamos por ser sempre surpreendidos. Pelo menos, eu fui.

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Capa Saída de Emergência ( Fonte: http://fnac.pt )

Dividido em quatro partes, Os Mares do Destino apresenta-nos o conto “A Canção da Espada Negra”, que serve de introdução ao livro. Elric procura a cidade de Xanardwys, mas o que encontra é um cenário terrivelmente apocalíptico, uma verdadeira chuva de anjos. São, na verdade, os Senhores do Caos, que parecem ter perdido uma batalha celestial contra os seus arqui-inimigos, os Senhores da Lei, enviados da Singularidade. De entre os anjos cadentes, Elric encontra o seu padroeiro, Arioch, que parece demasiado frágil para lhe dar atenção.

“A prosa de Moorcock é maravilhosa, por vezes demasiado detalhada, mas sem perder flexibilidade ou fluidez narrativa.”

Nessa constatação, Elric encontra um cavaleiro chamado Renark von Bek, um conde que parece ter vindo do nosso mundo. É a primeira evidência da viagem que Elric iria empreender pelos caminhos do Multiverso. Elric e Renark encontram um navio, na qual um grupo de crianças velam o corpo de um feiticeiro moribundo chamado Patrius, e um capitão de dúbias intenções, Quelch, alerta-os para a viagem que os espera: uma viagem entre mundos e entre tempos distantes. Após a introdução ao livro, seguem-se três secções intituladas “Rumo ao Futuro”, “Rumo ao Presente” e “Rumo ao Passado”.

Na primeira, Elric encontra-se perdido, depois de fugir de Pikarayd, o mais oriental dos Reinos Jovens. Sem cavalo e a entrar em desespero, sem um caminho visível que o conduzisse às Ilhas das Cidades Púrpuras, o albino depara-se com um navio de grandes dimensões. Algo no seu íntimo, porém, segreda-lhe que algo ali está errado. Aparte o capitão do navio ser cego e o timoneiro ser o seu irmão-gémeo, alguns dos tripulantes da embarcação parecem ter algo das feições do próprio Elric nos seus rostos. Erekose, Corum e Hawkmoon são os três homens, a que se junta Elric. O capitão chama-os Os Quatro, e destaca-os para se infiltrarem numa cidade terrível e destruir duas criaturas poderosas chamadas Agak e Gagak.

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Elric (Fonte: http://geek.com )

Em “Rumo ao Presente”, Elric é obrigado a tomar uma decisão sobre o caminho a seguir. O capitão oferece-lhe uma escolha, entre ficar numa ilha desolada e procurar o Portal Carmim que o pode conduzir a casa, ou seguir viagem com ele. Uma viagem que não terá retorno. Elric decide então procurar o caminho de casa, mas a ilha terrível que o espera contém várias surpresas, entre a quais um sol azul e um exército de saqueadores vindos de várias áreas e períodos do seu mundo. Com Tormentífera em punho, Elric não encontra dificuldades em enfrentá-los, muito embora seja a ação de Smiorgan Careca, um conde das Cidades Púrpuras, a influenciar o rumo dos acontecimentos.

Na última parte, “Rumo ao Passado”, Elric regressa ao seu mundo, onde é salvo pelo navio do Duque Avan Astran da Velha Hrolmar, um aventureiro de renome. Astran mostra a Elric um mapa de R’lin K’ren A’a, a mítica terra de onde, se diz, o povo de Melniboné teve origem, antes de fundar o seu império na Ilha dos Dragões. Elric aceita acompanhá-lo e provar a existência de tal civilização, na tentativa de obter respostas para os mistérios que o perseguem, mas a morte e a desolação são bem mais constantes e reveladores.

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Elric (Fonte: http://tapiocamecanica.com.br-os-quadrinhos-que-o-tempo-esqueceu-29/ )

Com exceção de Elric, os restantes personagens não foram muito desenvolvidos ou explorados, muito embora a prosa de Moorcock nos consiga deixar uma imagem nítida e peculiar sobre eles. Muitas vezes, passamos pelas histórias e deixamo-las com mais perguntas do que respostas, e ainda assim elas sucedem-se como peças de um puzzle que devemos compreender como um todo. São as perguntas e as dicotomias de Elric a verdadeira essência deste livro, que tanto podem frustrar a experiência de leitura como fazer-nos aceitá-la como aquilo que ele tem para oferecer.

“Elric decide então procurar o caminho de casa, mas a ilha terrível que o espera contém várias surpresas, entre a quais um sol azul e um exército de saqueadores vindos de várias áreas e períodos do seu mundo.”

As demandas e as aventuras de Elric não são impressionantes ou originais, talvez por tantos terem sido os autores que se inspiraram na obra de Moorcock, mas garanto que transportam consigo o melhor da tradição de Espada e Feitiçaria. Os vários enigmas, assim como a sensação de continuidade, em que nenhuma trama consegue ficar definitivamente encerrada na mente do personagem-título, oferecem uma certa mística e sentimento de dúvida que me agradou.

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Elric (Fonte: http://foroparalelo.com/general/elric-melnibone-lectores-fantasia-heroica-36313/ )

De certa forma, pode-se considerar que este livro está dividido em contos, todos eles permeados por uma história maior, que se vai interligando à medida que a narrativa avança. As relações de Elric com a sua génese, com a espada Tormentífera e com o seu patrono Arioch são desenvolvidas de forma gradual e com um cuidado notável. A escrita de Moorcock cativa, mas é sobretudo a forma como ele conta estas histórias oníricas que me faz gostar delas.

“Muitas vezes, passamos pelas histórias e deixamo-las com mais perguntas do que respostas, e ainda assim elas sucedem-se como peças de um puzzle que devemos compreender como um todo.”

Elric de Melniboné é um personagem digno de se ler, não só pela sua estrutura mental, uma inconstância de valores que se materializa num rol de charadas sem resposta, como por aquilo que ela suscita. Faz-nos pensar sobre as nossas origens, sobre aquilo que julgamos certo, sobre até que ponto a nossa integridade está ligada à educação que conhecemos. Os Mares do Destino é uma bela experiência de leitura, para quem embarcar nele sem esperar uma narrativa sólida, com princípio, meio e fim. Ler Michael Moorcock é ler o melhor do género de Espada e Feitiçaria.

Avaliação: 7/10

Elric (Saída de Emergência):

#1 Príncipe dos Dragões

#2 A Fortaleza da Pérola

#3 Os Mares do Destino

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