Estive a Ler: A Forca, A Primeira Lei #2


A neve caía. Pontos brancos rodopiando no ar além do penhasco, transformando os pinheiros verdes, as rochas negras e o rio castanho no fundo em fantasmas cinzentos.

O texto seguinte aborda o livro “A Forca”, segundo volume da série A Primeira Lei 

Natural de Lancaster, Joe Abercrombie é um dos mais famosos autores de Fantasia da atualidade, conhecido sobretudo pela saga A Primeira Lei. Após crescer numa rígida escola britânica, Joe tornou-se acérrimo adepto de jogos de computador, ocupando parte do seu tempo a criar mapas fictícios. Estudou Psicologia na Universidade de Manchester, sempre com a ideia de vir a revolucionar o mundo da Literatura Fantástica. Publicou o primeiro livro, The Blade Itself, em 2004, ao que se seguiu Before They Are Hanged, o segundo volume da série inaugural.

Pelas mãos da Edições ASA / 1001 Mundos, Before They Are Hanged chegou a Portugal em 2012 com o título A Forca. Com tradução de Renato Carreira e 656 páginas, A Forca regressa ao mundo ambicioso de Joe Abercrombie com a frase de Heinrich Heine na capa: «Devemos perdoar os nossos inimigos, mas não antes que sejam enforcados.» O autor vive atualmente em Bath, Inglaterra, com a esposa e as filhas.

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Joe Abercrombie (Fonte: https://www.joeabercrombie.com/author/)

Li Joe Abercrombie pela primeira vez o ano passado. “Está Difícil para Todos”, conto presente na antologia Rogues organizada por George R. R. Martin foi a minha porta de entrada, mas tantos eram os elogios de vozes “especialmente especializadas” que me aventurei nesta série A Primeira Lei, tida como a mais surpreendente do autor. Realmente, o estilo de Joe aproxima-se muito ao meu, tanto em escrita como em ideias, mas tanto o final do conto como o do primeiro volume da trilogia, A Lâmina, não me encheram as medidas.

Ainda assim, não há como negar que Joe Abercrombie é um dos autores mais talentosos da Literatura Fantástica mundial. A leitura de A Forca veio reforçar essa ideia aos meus olhos, apesar de não conseguir ombrear com os meus preferidos no género. Dono de uma escrita elegante e competente e criador de histórias ricas e envolventes, o autor britânico conquista pela irreverência dos seus personagens, mas também me parece demasiado escudado nos velhos clichés.

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Fonte: https://www.fnac.pt/A-Forca-Joe-Abercrombie/a596336

A Primeira Lei é passado em Midderland. Logen Novededos ganhou fama de sanguinário no norte gelado, onde lutou durante muitos anos ao lado de Bethod, um veterano de guerra que conquistara o norte a pulso. As rixas acentuaram-se e Bethod ganhou uma feiticeira como conselheira, avançando para o centro, tentando expandir os seus domínios. O centro de Midderland é dominado pela União, com capital em Adua, onde perambulam personagens carismáticos como o major Collem West, o inquisidor Sand dan Glotka e o espadachim Jezal dan Luthar. O rei Guslav V não parece muito influente, sendo o Círculo Fechado o verdadeiro cérebro por detrás de todas as ações da União.

E a União está sob ameaça. A norte, a guerra contra Bethod e os seus carls. A sul, a guerra contra Gurkhul e o impiedoso imperador Uthman-ul-Dosht, discípulo do profeta Khalul. Certo de que os exércitos da União não terão capacidade de os travar a ambos, o Primeiro dos Magos, Bayaz, empreende uma jornada para vencer o inimigo através da magia. No início, o mundo era habitado por demónios e seres mágicos, mas uma cisão drástica fez com que todas as criaturas fossem atiradas para o Outro Lado. Tocá-lo e recorrer à magia é quebrar a Primeira Lei, mas Bayaz sabe que as leis antigas estão a ser violadas.

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Logen Novededos (Fonte: https://thetattooedbookgeek.wordpress.com/2016/04/25/sharp-ends-book-review/)

Para alcançar os seus intentos misteriosos, ele pega no seu aprendiz Malacus Quai e num navegador experiente, chamado Pé Longo, no guerreiro nortenho Logen Novededos, no egocêntrico Jezal e na antiga escrava sulista Ferro Maljinn, e condu-los numa viagem até aos confins do mundo, em busca de uma pedra. Os caminhos que são obrigados a atravessar escondem, porém, todo o tipo de perigos.

Glokta, por sua vez, é enviado pelo arquileitor Sult a Dagoska, o último bastião da União no Sul, localizado numa península. O objetivo, ajudar à defesa da cidade e descobrir o que acontecera ao superior da Inquisição, Davoust, então desaparecido. Glotka fora um antigo veterano de guerra, que havia capitulado em batalha contra os gurkeses e conhecera de perto os seus métodos. Para surpresa do conselho administrativo da cidade, composto pelo velho governador Vrums, o seu filho Korsten dan Vurms, o general Vissbruck, a magistrada da guilda dos especieiros Carlot dan Eider e o sacerdote nativo Kahdia, Glotka chega com plenos poderes para as decisões políticas e militares de Dagoska.

O que ele não esperava era ter de lidar com uma conspiração hedionda, um mercenário volúvel chamado Nicomo Cosca, uma doação imprevisível do banco Valint e Balk, um cerco terrível à cidade… e a visita de um velho mago chamado Yulwei, que o alerta para um ataque de devoradores, seguidores eleitos por Khalul para violarem a Segunda Lei: a proibição de se comer carne humana. Para o ajudar, Glotka apenas conta com a sua mente astuta e com o poderio físico dos seus práticos: Frost, Severard e Vitari.

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Sand dan Glotka (Fonte: Mat Edwards)

Nas terras de Angland, os exércitos da União preparam-se para repelir Bethod. O próprio príncipe herdeiro Ladisla comanda um dos exércitos, ainda que lhe falte tanto experiência como sensatez. O marechal Burr coloca o príncipe sob a supervisão de West, promovendo este a coronel. São surpreendidos com a aliança improvável de um grupo de nortenhos, um grupo formado por Cão, Rudd Três Árvores, Tul Cabeça de Trovão, Dow Negro e Sisudo. Homens lendários no norte, que se haviam juntado outrora a Logen Novededos, que os liderara.

Enquanto os generais Kroy e Poulder medem forças, os regimentos acabam por separar-se e a West cabe-lhe a tarefa ingrata de vigiar o príncipe, ainda que não compreenda nenhuma das suas diretivas. O frio ameaça abalar as suas forças mais do que a guerra, e é obrigado a recrutar forjadores numa colónia penal. O homem de rosto queimado chamado Pike e a rapariga Cathil viriam a transformar as vidas de West, Cão e Ladisla de modo incontornável.

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The First Law art (Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/The_First_Law_Trilogy )

É, para mim, uma pena que Joe Abercrombie tenha criado o núcleo de Bayaz. É ele que move toda a narrativa, é certo, mas tanto os personagens parecem irrelevantes como a própria demanda soa a algo posto ali porque é giro e tal. É por alguns autores insistirem na ideia de uma demanda por um objeto mágico capaz de salvar o mundo, que o estigma que a Literatura Fantástica é coisa para miúdos perdura. Bayaz é um personagem com uma história pouco interessante e algo estereotipada, transformado no velho mago tradicional.

Joe Abercrombie parece ter aprendido com os mestres e as descrições de batalha não devem em nada às de Bernard Cornwell, um dos melhores a fazê-lo.”

Logen Novededos é um personagem cheio de potencial, que foi transformado, da metade do primeiro volume até aqui, de um guerreiro sanguinário num gigante troglodita, que até tem experiência de guerra e inteligência, mas que parece um atrasado mental quando se move ou fala. Ferro Maljinn teve um final completamente irreal no primeiro volume, e neste tornou-se extremamente irritante. Jezal e Malacus Quai acabam por ser os personagens mais agradáveis do núcleo, mas ambos foram bem melhores e mais explorados no primeiro volume.

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The First Law art (Fonte: https://geeklyinc.com/geekly-guide-to-authors-joe-abercrombie/)

Mas, é importante sublinhar, este núcleo central não ocupa todo o protagonismo do livro. E é isso que faz de A Forca um livro bom. Os imensos capítulos de Glotka, West e Cão salvam a “honra ao convento”. Se no primeiro volume já havia gostado do major West com a sua natureza impulsiva e tons cinzentos, e do antigo aliado de Logen, sempre furtivo e leal, neste livro a sua envolvência nas batalhas de Angland foi excelente. Joe Abercrombie parece ter aprendido com os mestres e as descrições de batalha não devem em nada às de Bernard Cornwell, um dos melhores a fazê-lo. E as intrigas secundárias dentro destes núcleos foram surpreendentes e muito agradáveis de se ler.

“A leitura de A Forca veio reforçar essa ideia aos meus olhos, apesar de não conseguir ombrear com os meus preferidos no género.”

Se os capítulos de West e Cão agradaram-me imenso, os de Glotka foram deliciosos. O personagem é o melhor da saga, parecendo quase um upgrade do Tyrion Lannister de George R. R. Martin. Preferi a sua estadia em Dagoska, repleta de boas surpresas, mas todas as passagens do inquisidor foram brilhantes. Em parte, graças aos seus pensamentos e diálogos cheios de sarcasmo, ideias mirabolantes e toda a sorte de soluções para os mais variados problemas, em parte pelos cenários e personagens excelentes que gravitaram à sua volta.

Resumindo, gostei bastante de A Forca, ainda que o tema central e os supostos protagonistas não me convençam e lamento a forma como Joe os tenha desenvolvido. Espero em breve ler o terceiro e último volume desta trilogia A Primeira Lei, que será certamente surpreendente. Abercrombie faz-nos emergir na leitura e sentir as dores dos personagens como se fossem nossas.

Avaliação: 7/10

A Primeira Lei (1001 Mundos):

#1 A Lâmina

#2 A Forca

#3 A Coroa

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