Estive a Ler: A Súbita Aparição de Hope Arden


Eu sou os meus pés nas suas botas pretas enquanto ando pelo hotel, eu sou justiça, eu sou vingança, vai-te foder mundo se pensas que me podes fazer isto, vai-te foder se pensas que eu não sei como ripostar, se pensas que simplesmente me deixarei rolar e morrer, o meu pai olhava assassinos nos olhos, a minha irmã seria capaz de trespassar com um sabre de luz a porra da cabeça do demónio, e eu

Ei Macarena!

O texto seguinte aborda o livro A Súbita Aparição de Hope Arden

A britânica Catherine Webb estreou-se no mundo da literatura aos 14 anos com Mirror Dreams, e com sete romances de fantasia em carteira, enveredou pelo mundo da ficção científica, onde se viria a destacar sob o pseudónimo Claire North. Em 2014, o primeiro romance sob este pseudónimo tornou-se um best-seller. Trata-se de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, publicado pela Edições Saída de Emergência o ano passado. Em 2015, Claire North publicou Touch e em 2016, The Sudden Appearence of Hope.

A Súbita Aparição de Hope Arden, título da versão portuguesa, traz Claire North novamente para as estantes nacionais, cerca de dez meses após a publicação de As Primeiras Quinze Vidas de Harry August. Mais uma vez, pelas mãos da Saída de Emergência. Com 448 páginas e tradução de Teresa Martins Carvalho, a versão nacional tem edição de Luís Corte Real e pertence à Colecção Bang!, chancela que acolhe o melhor da Ficção Especulativa publicada em português.

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Fonte: http://file770.com/?p=23130

Sempre se ouviu dizer que “primeiro estranha-se e depois entranha-se” e foi isso mesmo o que me aconteceu durante a leitura de A Súbita Aparição de Hope Arden. Comecei esta leitura com o pé atrás; se leram a minha opinião a As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, desta autora, sabem que gostei mas que podia ter sido uma experiência muito, mas muito melhor. Ele tinha todo o potencial para isso, e uma vez mais atraído pelo potencial e pela premissa, pedi este novo livro da autora. O livro trata de uma rapariga que as pessoas se esquecem quando deixam de a ver, não é louco? Pois bem, comecei a ler o livro e achei o início estranho. Primeiro estranhei…

… E depois entranhei.

Fui atirado para uma narrativa sobre beleza e perfeição e uma rapariga que usa o seu dom (ou será maldição?) para roubar joias a personalidades famosas e afins. Pareceu-me algo um pouco superficial e uma perspetiva bem feminina. E depois? Depois mordi o isco e fui puxado para um thriller de tirar o fôlego, um policial cheio de reviravoltas, centrado na questão da tal rapariga que narra a história ser esquecida pelo mundo. O plot é bom, a forma como a história é conduzida incrível, os conhecimentos sobre história, arquitetura e medicina bem agradáveis, mas esqueçam isso tudo porque o que manda neste livro acima de tudo o resto é a escrita da autora. Aos solavancos. Insana. Brilhante. A Súbita Aparição de Hope Arden é um dos melhores livros que já li na vida.

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Capa Saída de Emergência

Hope Arden é uma rapariga de quem o mundo esqueceu. A mãe atravessou a pé o deserto do Sudão a Istambul, até chegar a Inglaterra na caixa de um camião; acabou a pedir esmola. O pai, um polícia local, cuidara dela por uma noite. Alguns anos depois, reencontraram-se e casaram. Hope foi a filha mais velha. A mais nova, Gracie, sofre de graves problemas de saúde. Talvez por isso, a atenção concentrou-se na benjamim da família. Talvez por isso, Hope tenha ficado para trás. Talvez por isso se tenham esquecido dela. Não. Todas as pessoas se esquecem dela. Começou quando fez 16 anos. As pessoas olham para ela, falam com ela, mas se ela se afastar por uns segundos, esquecem-se não só do seu rosto como daquilo que ela disse ou fez. Hope é esquecível.

A Súbita Aparição de Hope Arden é um dos melhores livros que já li na vida.”

Quando mais ninguém se lembrava dela, quando começou a ser vista com surpresa pelos membros da própria família, Hope saiu de casa. Com essa capacidade, facilmente adentrou no mundo do crime. Precisava roubar para sobreviver. Pouco a pouco, tornou-se uma ladra. Esperta, ágil, intocável. O seu calcanhar de Aquiles? As câmaras de vigilância. As pessoas podem esquecer-se, mas os computadores não. Ainda assim, as câmaras de nada valem às autoridades. Podem capturá-la, sempre acabarão por esquecer-se dela.

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Fonte: https://twitter.com/denisewalker_

Hope não é, no entanto, a única pessoa esquecível no mundo. Em tempos, enamorou-se de um rapaz chamado Parker. Possuía a mesma capacidade. Sempre que se encontravam um com o outro, era a primeira vez. Começaram a escrever notas um sobre o outro, diários; começaram a tirar fotografias. A dada altura, acabaram por não voltar a encontrar-se. Hope está agora no Dubai para roubar o diamante Crisálida, que será transportado por Shamma bint Badar, uma descendente real, numa festa de elite. É ali que conhece a milionária Reina bint Badr al Mustakfi, e tornam-se amigas, ainda que Reina não se recorde dela de cada vez que a vê.

É através de Reina que Hope conhece o Perfection. Um aplicativo de beleza que busca a perfeição e tornou-se a tendência do momento. Todas as pessoas querem ser perfeitas, e essa app acumula ou subtrai pontos consoante o estilo de vida dos usuários. Por exemplo, quanto mais fizeres dieta, quanto mais exercício fizeres, quantos mais tratamentos de beleza fizeres, mais pontos acumularás no Perfection. Esquece o fast food e os pequenos pecados da vida. Todas as pessoas podem ter o Perfection, mas parece evidente que só os mais ricos podem alcançar o sucesso com a aplicação.

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Fonte: http://www.telegraph.co.uk/travel/destinations/middle-east/united-arab-emirates/dubai/

O Clube 106 é uma elite privada, composta pelos 106 membros com maior pontuação, granjeados com moradia privada e acesso às melhores festas. O Perfection é criação dos Pereyra-Conroy, uma família riquíssima. Matheus Pereyra-Conroy, o patriarca, morreu, deixando toda a herança aos dois filhos. Filipa foi a mente por detrás do Perfection, mas foi Rafe quem o tornou um instrumento de obsessão. Infeliz por não conseguir ser bonita, derrotada pelas exigências do Perfection, Reina suicida-se. E Hope ganha uma aversão muito pessoal à aplicação e aos seus criadores.

“As pessoas podem esquecer-se, mas os computadores não.”

O roubo do Crisálida é apenas o início desta história. Ao colocar o diamante no mercado negro, Hope é interpelada por duas enigmáticas figuras na net: Byron14 e mugurski71. Ambos competem pela compra da joia, mas as suas intenções parecem abarcar muito mais do que a mera aquisição de um diamante roubado, e o Perfection está no centro de todo esse despique. Antigos amantes em lados opostos da barricada, Byron e Gauguin jogarão com Hope a seu bel-prazer para alcançar as suas intenções. Hope, no entanto, está determinada em ser mais do que um joguete nas suas mãos. E tem um trunfo: nenhum deles se pode lembrar dela.

Paralelamente a esse jogo sinistro que a colocará entre a vida e a morte por várias vezes, Hope tem ainda de lidar com os seus próprios sentimentos. Ela ama Luca Evard, o Inspetor da Interpol que a persegue há anos, mas nem ele se lembra de cada vez que a encontra, nem lhe parece que a quereria caso se lembrasse. Do Dubai a Istambul, de Hong Kong a S. Paulo, de Veneza à Escócia, a luta pela sobrevivência de Hope torna-se uma luta pela sobrevivência humana.

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Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Lord_Byron

O livro é mesmo esta maravilha toda. Mas, como referi acima, foi a escrita da autora, muito mais do que a história, que me deliciou. Tudo bem, irritei-me um pouco no terço inicial do livro com a quantidade de vezes que a palavra “conquanto” foi repetida, e o final não foi tão apoteótico e esclarecedor como eu imaginara, mas não deixa de ser um dos melhores livros que já li. Catherine Webb, Claire North ou como raio te chamas, minha cara, escreves bem que te fartas.

“O plot é bom, a forma como a história é conduzida incrível, os conhecimentos sobre história, arquitetura e medicina bem agradáveis, mas esqueçam isso tudo porque o que manda neste livro acima de tudo o resto é a escrita da autora.”

Somos brindados do início ao fim com revelações sobre o passado da personagem feitas a espaços, através de flashbacks. Conhecemos pormenores bastante interessantes da sua vida, por vezes a meio de cenas de ação. Os capítulos são pequenos, fluídos e entusiásticos, de uma forma muito personalizada. Já tinha gostado da escrita da Claire em As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, mas aqui a autora ultrapassou-se claramente.

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Fonte: https://www.bloomberg.com/news/articles/2013-11-12/wi-fi-networks-shouldnt-become-spy-networks

Também somos granjeados com várias citações de políticos, historiadores, figuras da Antiguidade, curiosidades sobre povos antigos, imensos nomes técnicos sobre anatomia humana e ainda vários trechos de músicas ao longo da narrativa. Os poemas de Lord Byron são um aspeto central da obra, uma vez que uma das personagens refugia a sua identidade no poeta britânico, mas toda a obra é também ela perpassada por outro clássico. Nos momentos mais inusitados, Claire presenteia-nos com Ei, Macarena!, o que me fez rir por mais do que uma vez. A música de Los Del Rio parece estar sempre na cabeça da protagonista / narradora, o que justifica a sua aparição ao longo da narrativa.

Concluindo, leiam este livro. Não sei se posso qualificá-lo como ficção científica, porque se tirarmos o facto de a protagonista ser “esquecível”, trata-se de um thriller policial / de espionagem narrado do ponto de vista do ladrão. E que grande thriller. Acho que a passagem em que se dá uma certa matança é só dos textos mais insanos, brilhantes e velozes que já li.

Avaliação: 10/10

6 comentários em “Estive a Ler: A Súbita Aparição de Hope Arden

  1. Viva,

    Não li o comentário mas pela pontuação estou mais que convencido, o meu obrigado por não deixares passar ao lado esta perola, depois comento melhor 😉

    Abraço

    1. Então porque é que não leste? 😀
      Força nisso e depois diz-me o que é que achaste.
      Grande abraço.

Comentário

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