Especial: Introdução ao Império Malazano de Erikson


Montanhas voadoras, dragões, zombies, deuses a jogar o jogo dos tronos e cães horríveis cheios de raiva a verter das mandíbulas. É muito disto o que nos oferece Steven Erikson no seu livro inaugural, Jardins da Lua, publicado em Portugal pela Saída de Emergência no outono de 2016. É para dissecar os eventos do primeiro livro e para conhecer mais ao pormenor este mundo completamente louco que escrevo uma breve introdução ao Império Malazano. Em boa verdade, não nos é permitido conhecer muito mais antes de sair o segundo livro, mas esta saga começa com imensas informações que são importantes reter antes de continuar a leitura da mesma, ainda que no segundo volume, Deadhouse Gates, apenas quatro personagens transitem do livro inaugural.

O acontecimento conhecido como Cerco de Pale pode ser considerado como o momento chave do livro de Steven Erikson Jardins da Lua, não só porque é o ponto de partida dramático para a série, como é o primeiro momento onde nós – os leitores – nos conseguimos de facto situar na história e perceber o que está ali a acontecer. O cerco é descrito de forma pouco precisa mas esclarecedora que baste para o rumo da história, e os eventos narrados são de um cuidado maravilhoso e com um tom de decadência e queda que deixa claros os dotes literários do autor canadiano.

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Fonte: https://bibliosanctum.com/2016/02/15/short-sweet-review-gardens-of-the-moon-by-steven-erikson/

Mas quem é este tal de Erikson?

Nascido em 1959 em Toronto (Canadá), Steven Erikson é o pseudónimo de Steve Rune Lundin, um escritor formado em arquelogia e antropologia. Depois de casar-se, viveu no Reino Unido com a família, mas regressou ao Canadá, onde se fixou em Winnipeg. Erikson iniciou-se no mundo das letras com um ciclo de contos intitulados A Ruin of Feathers sobre um arqueólogo da América Central, a que se seguiram vários livros. Com o pseudónimo Steven Erikson, porém, viria a ganhar notoriedade quando se dedicou à fantasia, mais concretamente com a saga de grande envergadura Malazan Book of The Fallen, conhecida em Portugal como Saga do Império Malazano.

Que série é esta?

O universo Malazan foi criado por Steven Erikson e Ian C. Esslemont no início dos anos 80, para uma campanha de RPG, inspirado no jogo de mesa Dungeons & Dragons e na obra de Glen Cook, The Black Company, autor que viria a considerar Malazan uma obra-prima da imaginação e uma possível marca de água futura para o género fantástico. Erikson escreveu os dez volumes da série The Malazan Book of The Fallen, do qual Jardins da Lua é o primeiro de dez, mas para além desta sequência, existe uma série de contos e prequelas escritas pelos dois criadores, Erikson e Esslemont. Amigo pessoal de Erikson, o co-criador do universo é também ele um arqueólogo de origem canadiana que viria a publicar a sua própria série de seis volumes, Novels of the Malazan Empire.

“Ao ler Jardins da lua, as pessoas vão odiar ou amar o meu trabalho. Não há meio-termo. […] Os livros dessa série não são para leitores preguiçosos. Não é possível apenas passar por eles. Para piorar, o primeiro romance começa no meio do que parece ser uma maratona: ou você entra a correr e consegue manter-se em pé ou então fica para trás.” Steven Erikson

Erikson não perde muito tempo a narrar-nos batalhas nem momentos concretos das mesmas. Não nos conta como o personagem x chegou ali e porquê, não nos conta o que o personagem y andou a fazer antes ou qual o seu propósito específico. Ele apresenta-nos a imagem do que está a acontecer em primeiro plano, e geralmente, a sua narrativa ocorre após determinadas calamidades. O pós-guerra, o pós-morte, a depressão daí resultante, é o momento mais querido e explorado pelo autor ao longo do livro, assim como o pré-traição, o pré-colapso, na fase final.

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Steven Erikson | Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=5FljiPBUc18

Se os acontecimentos após o Cerco de Pale são os mais depressivos e tensos, é quando a luta pela resistência dos povos livres se estreita e Darujhistan se torna o centro de todas as atenções, que conhecemos alguns dos personagens mais incríveis e os momentos mais ativos e intensos da história. Uma história de literatura fantástica que todo o fã do género deve ler – e mais do que uma vez – na vida. Os parágrafos seguintes contêm SPOILERS de Jardins da Luapor isso estás por tua própria conta e risco.

As partes envolvidas

O Cerco a Pale é o momento de guerra aberta mais evidente ao longo do primeiro volume, mas o clima de tensão e disputa está presente em todo o livro. De um lado, está o Império, representado pela Imperatriz Laseen, do outro as Cidades Livres de Genabackis, que são obrigadas a recorrer às forças de exércitos de mercenários como a Guarda Escarlate e os Tiste Andii. A Cria da Lua, uma montanha voadora cheia de corvos, vigia as Cidades Livres e tanto pode disparar raios como enviar corvos e dragões para defender as terras visadas.

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Fonte: https://www.tor.com/2016/09/19/a-beginners-guide-to-malazan-characters-gardens-of-the-moon/
O IMPÉRIO

Os Manda-Chuvas do Império

Eles podem ser considerados os chefões lá do sítio. Laseen fora comandante da Garra, a principal força armada do Império, mas traiu o Imperador Kellanved e tornou-se Imperatriz. Lorn é a sua conselheira, uma mulher enigmática com várias fragilidades, que ainda assim não deixa de ser uma guerreira exímia, sem medo de sujar as mãos ou de percorrer o mundo em jornada para alcançar os seus intentos (como ressuscitar múmias, por exemplo). Usa uma espada de otaratal. Tayschreen é o Alto Mago, o homem forte da magia para a Imperatriz. Mas é uma pessoa tão mesquinha que nem os seus sequazes parecem muito dispostos a confiar nele. Dujek Umbraço é, por sua vez, o Alto Punho. Rosto do exército, é um homem a percorrer o outono da vida, que não obstante a sua lealdade ao Império, não deixa de ver a atual Imperatriz como uma traidora.

Os Queimadores de Pontes

O Nono Pelotão dos Queimadores de Pontes é um dos instrumentos da Imperatriz. Whiskeyjack é o sargento. Fora um dos homens mais poderosos do Império, mas com a queda de Kellanved perdeu estatuto e poder, embora todos se recordem de quem ele foi um dia. Ben Ligeiro é um mago poderoso, escuro e delgado, pode viajar entre Labirintos. Kalam é um ex-assassino da Garra, também de pele escura. O pelotão inclui ainda Piedade, uma assassina de aspeto inofensivo, Azarve e Violinista, escavadores, Trote, um guerreiro barghastiano e Marreta, um curandeiro.

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Fonte: https://www.tor.com/2016/09/19/a-beginners-guide-to-malazan-characters-gardens-of-the-moon/

Os Magos

Hairlock é um mago muito especial. Especialmente porque é cortado ao meio da primeira vez que aparece em cena, durante a batalha às portas de Pale. Ainda assim, continua na história, com a mente transportada para um boneco. Tattersail, por sua vez, é a feiticeira mais poderosa apresentada no livro. Meio gordinha e com alguns problemas pessoais, mas isso nada que tem a ver para o caso. Se ela quisesse, poderia ser a Alta Maga do Império sem problemas. A cena em que enfrenta um cão é das mais bem escritas do livro e graças a uma carta que lhe sai no baralho dos dragões, uma moeda vai andar boa parte da narrativa a girar.

Mesmo agora, ao aproximar-se da tenda de comando, o som fraco continuava dentro da sua cabeça, como ficaria durante algum tempo, acreditava ela. A moeda girava e girava. Oponn rodopiava duas caras para o cosmos, mas era a aposta da Senhora. Continua a girar, prata. Continua a girar.

Ganoes Paran

Pode-se considerar o Macho Alfa lá do sítio. Paran aparece, ainda em criança, no Prólogo, é visto como o homem certo para desempenhar as tarefas mais arriscadas, é capitão do exército, enviado pela Conselheira Lorn para aniquilar uma miúda possuída por um Ascendente (ao melhor estilo Exorcista), são dele os momentos Nicholas Sparks do livro, fica “amigo” do grupo mais badass do exército, é morto, enfrenta seres do além, ressuscita e ainda tem tempo de proteger os pobres e necessitados. Um aparte: é o herói da história mas está do lado dos maus. Caput?

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Fonte: http://subterraneanpress.com/gardens-of-the-moon
A RESISTÊNCIA

Anomander Rake

É o senhor de quem se fala, A Juba do Caos, Senhor da Cria da Lua e um daqueles papões de quem o Império deve temer. Sim, é dele a imagem da capa do livro e é mesmo tão badass como imaginam. Trata-se de um Tiste Andii de cabelo prateado, dois metros de altura, pele negra e uma imensa espada às costas, chamada Dragnipur. As Cidades Livres podem contar com a sua experiência e perícia em combate inigualável. Até se pode transformar em dragão, por curiosidade. As suas intenções, no entanto, são dúbias. Alegadamente, é aliado de Caladan Brood, um senhor da guerra lendário que lidera as companhias terrenas de Tiste Andii.

O Conselho de Darujhistan

A cidade é governada pelo Conselho, um grupo de nobres pouco ortodoxos, em que se incluem Lady Simtal, Turban Orr e Estrasyan D’Arle. Estes são ricos e todos cheios de não-me-toques, mas em vez de se preocuparem com a segurança da cidade e com a sua liberdade, parecem mais interessados em enrolarem-se uns com os outros, fazer festas e trocar favores. São todos eles meio frívolos, meio conspiradores, e estão diretamente relacionados com os personagens centrais da trama.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Gardens_of_the_Moon

A Sociedade dos Assassinos

A Sociedade dos Assassinos é liderada por Vorcan, uma mulher enigmática. Eles trocam favores e encetam acordos com o Conselho, mas medem forças com o escol conselhio pela liderança de Darujhistan. É muito comum encontrar assassinos desta sociedade a saltitarem pelos telhados da cidade, e também a matar gente por encomenda, aqui e ali.

A Cabala

O Conselho e a Sociedade de Assassinos pensam que controlam Darujhistan, mas a verdade é que existe uma cabala de magos, onde se encontra por exemplo Mammot, um historiador, e Baruk, um alquimista, que move as peças a seu bel-prazer. Baruk é frequentemente visitado por Anomander Rake e pela sua mensageira, um corvo peculiar chamado Bruxa.

O Centro de Tudo

O centro de tudo podia muito bem ser a Taberna da Fénix, até porque é onde os personagens principais da segunda metade do livro se encontram sempre. Kruppe é um homem de grande apetite e humor apurado, que interfere nas principais ações da trama… nos seus sonhos. Coll é um antigo nobre caído em desgraça. Rallick Nom, um assassino da Sociedade. Murillio, um jovem atraente que seduz mulheres de poder. E o jovem ladrão Crokus Jovemão, o sobrinho de Mammot, pode ser visto como o Frodo, o Jon Snow lá do sítio, porque a moeda que não para de girar cai-lhe nas mãos do nada e ele torna-se o special one, o escolhido, o maravilhoso Crokus. Um pormenor: vai-se apaixonar pela miúda do Exorcista.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Gardens_of_the_Moon/Dramatis_Personae
QUANDO OS MUNDOS CHOCAM

Tudo explode. Bem, nem tudo. A verdade é que os Queimadores de Pontes e Paran se encaixam na perfeição à narrativa de Darujhistan, revêm um pouco os seus valores, há personagens que morrem, outros transformam-se, outros cruzam-se e ficam amiguinhos, há combates nos telhados da cidade em que estamos a seguir a escrita do autor e não sabemos quem é quem, há combates através de Labirintos – o sistema de magia – e uma ressurreição a fazer lembrar muito o Imhotep e algumas passagens do filme A Múmia, mas tudo bem, e armadilhas e planos por baixo de planos e pessoas a mudar de lado e um baile a acontecer quando o mundo está para acabar. Mas o mundo de Malazan está longe do fim, ainda que nem todos os lugares ou personagens possam dizer o mesmo.

WORLDBUILDING

Só nos é dado a conhecer um bocadinho do Império Malazano, principalmente o território entre Pale e Darujhistan no continente de Genabackis. Sabemos que o Império foi fundado no ano de 1058 do Sono da Cresta na pequena ilha de Malaz. Posteriormente, Kellanved nomeou como capital do Império Unta, uma das Sete Cidades, sendo que Sete Cidades é o nome pelo qual é conhecido o maior continente de todos. Neste mundo, para além das raças supracitadas, há espécies que já foram extintas e só existem ainda como zombies, cheias de nomes estranhos, jaghut, t’lan imass e afins, há os exércitos de moranthianos que têm como transporte voador uma espécie de abelhas gigantes, os Qorl; há os barghastianos, os vários graus de Tiste, e outros que ainda haveremos de ouvir falar.

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Fonte: https://www.reddit.com/r/Malazan/comments/5226fh/gardens_of_the_moon/
OS ASCENDENTES

Esta espécie de seres divinos são muito importantes na trama, porque eles podem aparecer quando bem lhes apetece e interferir na história. Em nenhum momento senti o “deus na máquina”, porque eles são muito mais importantes do que isso. Eles têm objetivos específicos, tiveram vida e têm uma história e um passado, como podem mexer-se a favor do Império ou das Cidades Livres, dependendo dos seus interesses. Sim, porque se há coisa que Oponn, Cotillion, Trono Sombrio e afins são é interesseiros.

A MAGIA

A magia é um dos aspetos mais interessantes de Jardins da Lua. Os Labirintos são dimensões a que magos e Ascendentes podem recorrer e retirar deles o seu poder, assim como usá-los para percorrer grandes distâncias em pouquíssimo tempo, se possuírem tal habilidade. Os Labirintos são lugares em que se pode entrar e sair, todos eles com uma geografia e história própria. Existem Labirintos próprios de magos humanos, como o Thyr, usado por Tattersail, ou os Labirintos Ancestrais, como o Kurald Galain usado por Anomander Rake e o poderoso Omtose Phellack, o Labirinto Jaghut usado pela “múmia”, o Tirano Jaghut. E o Ligeirinho tem a capacidade de aceder a vários Labirintos em simultâneo, o que o transforma num personagem para lá de maravilhoso.

PS: A única coisa capaz de anular o poder de um Labirinto é o minério conhecido como otaratal, e já vos disse quem é que tem uma espada feita de otaratal, não já?

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Fonte: http://www.fantasybookreview.co.uk/blog/top-10-fantasy-series/
CONCLUSÃO

Entrar em Jardins da Lua pode não parecer fácil. Eu, por exemplo, adorei a escrita de Erikson, principalmente na primeira metade do livro, muito embora seja ótima em todo, mas a grande maioria do fandom odiou o prólogo, por isso quem ainda não leu não desanime às primeiras. Em muitos, mas muitos momentos mesmo, vi-me obrigado a andar páginas para trás para compreender o que estava ali a acontecer, se tinha sido eu que não tinha lido bem, se estava meio a dormir ou distraído, mas a narrativa é mesmo complexa e obriga a alguma atenção para não deixar passar pormenores ao lado. Apesar disso, a história é muito boa e não é exagero meu considerar esta uma das melhores estreias literárias no género nos últimos anos. Malazan não deve muito à consistência temporal, como já foi dito pelo próprio autor, mas é uma saga que entra facilmente no top de favoritas de qualquer apaixonado pelo género.

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