Estive a Ler: A Coroa, A Primeira Lei #3


— Estás sempre bêbedo a esta hora da manhã?

— Eminência, ofende-me. — Nicomo Cosca sorriu. — Habitualmente, embebedo-me muitas horas antes.

O texto seguinte aborda o livro “A Coroa”, terceiro volume da série A Primeira Lei 

Joe Abercrombie nasceu em Lancaster em 1974 e atualmente mora em Bath com a esposa e os filhos. Foi editor freelancer de filmes e trabalhou em vários documentários e eventos musicais, até dedicar-se a corpo inteiro à escrita. A Lâmina (The Blade Itself), o seu primeiro romance, viu os direitos vendidos para 24 países, conquistando o público que se havia apaixonado pelas histórias de George R. R. Martin.

Em 2008, Abercrombie foi finalista do prémio John W. Campbell na categoria Autor Revelação, graças ao sucesso da trilogia A Primeira Lei. A série, cujo livro A Coroa (The Last Argument of Kings) é o terceiro volume, foi publicada em Portugal pela Edições Asa / 1001 Mundos. Com tradução de Renato Carreira, este terceiro livro encerra a trilogia com um tomo de 636 páginas que se tornaram um marco indelével da alta fantasia moderna.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/First_Law_Wiki

Tenho motivos de sobra para dizer que Joe Abercrombie é um dos novos autores de fantasia com maior potencial. A sua prosa é algo banal, mas competente, e as suas histórias cativam com facilidade qualquer bom amante de literatura fantástica. Ainda assim, termino esta que é a série mais elogiada do autor com um sabor agridoce, o que está relacionado às escolhas narrativas de Joe.

Quem leu as minhas opiniões aos livros anteriores, sabe que eu adorei alguns núcleos e odiei outros, que julguei que a jornada de Bayaz, Logen, Ferro e companhia aos Limites do Mundo para encontrar uma pedra mágica era completamente out, e mais out ficou quando compreendemos o que ali se passou. Todos os capítulos deles no segundo volume serviram somente para o desenvolvimento de personagens e de relações. Tudo o resto foi pura perda de tempo.

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Fonte: 1001 Mundos

Com alguns spoilers do primeiro terço do livro, posso dizer que encontramos o grupo a regressar a Adua no início deste terceiro volume. Acabam por separar-se e cada um segue o seu caminho, com Logen a rumar ao norte para enfrentar Bethod, Jezal a tentar ser um homem melhor e a encontrar o amor nos braços de Ardee e Ferro a manter-se próxima de Bayaz, uma vez que pretende cobrar a promessa de vingança que este lhe deu. Malacus Quai e Pé Longo mantêm-se próximos, com participações decisivas no transcorrer da história.

“Tenho motivos de sobra para dizer que Joe Abercrombie é um dos novos autores de fantasia com maior potencial.”

Mas o coração da União está dilacerado após a morte dos herdeiros ao trono, e o Conselho Fechado move as suas peças desesperadamente, para impedir que a futura e mais do que certa morte do rei coloque um inimigo no trono. É ao Conselho Aberto que cabe a votação, e votos são comprados, jogadas são dadas, braços medem forças à margem dos olhares comuns. O juiz superior Marovia e o arquileitor Sult parecem ser os mais influentes, defrontando-se em jogos de bastidores que deixam claro que o rei é pouco mais do que um fantoche.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

Sand dan Glotka, o torturador, vê-se entre a espada e a parede quando o seu superior oficial, Sult, e os seus financiadores secretos, a misteriosa firma bancária Valint e Balk, o empurram em direções opostas. Com o seu lado mais emocional à tona de água quando o assunto é Ardee West, a irmã do seu melhor amigo a quem prometeu que cuidaria, Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.

Dos práticos Severard e Frost, à ruiva Vitari, passando pelo sempre charmoso Nicomo Cosca e a sua grande língua, Glotka é obrigado a chamar todos os recursos para se livrar da grande embrulhada em que o meteram, e a aparição inesperada de Carlot dan Eider, que havia libertado por comiseração, não o ajuda a resolver os problemas em mãos, principalmente quando ela é um deles. O anúncio de uma guerra iminente é a gota de água que poderá conduzi-lo definitivamente à ruína… ou uma janela de oportunidade única de ascensão.

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Fonte: https://dejan-delic.deviantart.com/art/His-Majesty-s-Inquisition-429415014

A norte, a ação concertada entre o exército da União e os nortenhos dissidentes a Bethod não parece dar frutos, com a saúde fragilizada do marechal Burr e os constantes braços-de-ferro entre os generais Kroy e Poulder a não contribuírem para os tão almejados progressos. É em Collem West e no nortenho Cão que as esperanças parecem recair, mas os dois homens sofreram demasiadas perdas para que a responsabilidade pareça, de facto, mais do que uma esperança vaga.

“Glotka terá de lidar com várias pontas soltas e só poderá contar com os seus melhores amigos: os instrumentos de tortura.”

A Primeira Lei é uma série que explica que o mundo onde vivem foi, no início dos tempos, palco de demónios e criaturas malignas. Um dia, tanto as criaturas como todo o tipo de magias foram atirados para o Outro Lado, tornando-se proibitivo entrar em contacto com ele: esta é a Primeira Lei. Duas leis foram decretadas, sendo que a segunda tratava de proibir o consumo de carne humana. Kanedias, o Criador, e Juvens, o mago original, defrontaram-se, assim como alguns dos seus discípulos. No fim, sobraram poucos, mas Bayaz, o Primeiro dos Magos, continuou a medir forças com Khalul, que se havia tornado influente em Gurkhul.

No centro de tudo estava a paixão de Bayaz pela filha de Kanedias, Tolomei, que conduziu a uma rixa com o Criador e à consequente morte de pai e filha. Várias perspetivas são projetadas sobre esta história, enquanto Bayaz digere a desilusão de não ter encontrado a Semente, a pedra que lhe permitiria contactar diretamente o Outro Lado, uma ferramenta para repelir Khalul e os seus devoradores. Enquanto isso, faz o seu jogo político que atinge o zénite quando o rei Guslav V morre.

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Fonte: http://firstlaw.wikia.com/wiki/Category:Characters_from_the_Union

Posso garantir que, sem recurso a magias, a saga A Primeira Lei tornar-se-ia possivelmente uma das minhas favoritas. A magia apresentada não tem qualquer explicação e a História dos magi é insípida. Bayaz seria um personagem muito mais interessante se se limitasse ao campo político / científico. Como foi apresentado, juntou-se à amuada Ferro como um dos piores personagens da série. A única porção de sobrenatural que achei bem executado na saga foi a que esteve relacionada à Segunda Lei. Os devoradores foram um dos pontos mais positivos.

A própria História do mundo criado é estéril, fazendo parecer que Casamir, Arnault e Harod foram os únicos reis da União, tantas as vezes em que os mesmos nomes foram referidos e sublinhados. Assim como as lutas antigas de Logen foram recitadas até à exaustão. Em comparação com o segundo volume, as batalhas brilhantemente descritas onde Cão e West participaram, e a estadia de Glotka em Dagoska, este último livro perdeu qualidade.

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Fonte: https://darey-dawn.deviantart.com/art/The-First-Law-trilogy-483682777

Ainda assim, todos os capítulos e secções focados em Glotka foram geniais. Que personagem! Tornou-se facilmente um dos meus preferidos, e todos os volte-faces e jogadas em que participou são memoráveis. Também West e Cão mantiveram a toada, sendo dos restantes personagens os que mais me agradaram, e sobremaneira. Ardee West surpreendeu-me e muito pela positiva neste volume final, e ainda um louvor adicional aos secundários Eider, os práticos Severard e Frost, o juiz Marovia e o sargento Pike. Fantásticas criações do autor.

“Em comparação com o segundo volume, as batalhas brilhantemente descritas onde Cão e West participaram, e a estadia de Glotka em Dagoska, este último livro perdeu qualidade.”

Também Jezal e Logen melhoraram em relação ao segundo volume. Vimos Jezal dan Luthar de regresso à casa de partida, a tornar-se um homem melhor, fez-me lembrar a construção de Elend ao longo da trilogia Mistborn, conseguindo ser mais rico como personagem, mas os seus capítulos tornaram-se francamente deprimentes com o nível de auto-comiseração do mesmo. Já Logen Novededos finalmente mostrou ao que veio, mostrando ser o personagem que o autor prometia desde o início e que nunca tinha sido até então. A partir do momento em que se junta à campanha militar, a sua performance melhora consideravelmente.

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Fonte: https://geeklyinc.com/geekly-guide-to-authors-joe-abercrombie/

A trilogia também vive muito de personagens-fantasma. Marovia só aparece em carne e osso praticamente neste último volume, Malacus Quai e Pé Longo foram meras ferramentas narrativas, porque se tiveram um ou dois momentos de protagonismo não foram mais que promessas, e há uma série de nomes que quem não ler os três livros de seguida vai ter dificuldade em lembrar-se deles. Salem Rews é um exemplo, apesar de ser um foreshadowing bem interessante. Yoru Sulfur, outro personagem importante na narrativa, apareceu de pára-quedas sem que me recordasse de onde ele tinha vindo.

“A trilogia também vive muito de personagens-fantasma.”

Não posso afiançar que foi problema de tradução, se uma vontade do autor, mas a repetição exagerada de certas expressões incomodou-me um pouco. O termo “rosado”, tão ostensivamente repetido nos POV’s de Ferro e a expressão “se disserem alguma coisa de Logen, digam que…”, como exemplos, irritaram-me. A própria edição da 1001 Mundos não inspira grande confiança: erros ortográficos ocasionais, capas pouco atrativas e títulos que não fazem justiça aos originais.

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Fonte: https://dejan-delic.deviantart.com/art/Northmen-519093474

Em jeito de conclusão, é um livro e uma saga que levo com carinho. Não comprei o plot central da narrativa, tanto em redor da Primeira Lei, como as movimentações forçadas de Bayaz, e o final deixou-me a pensar “a sério que isto acabou assim?”, quando depois de tantos volte-faces e plot-twists de nos deixar a chorar por mais tanto ficou por dizer, mas é uma série bem “comestível”, com personagens bem construídos e mudanças improváveis.

O livro surpreendeu-me com os jogos políticos, mas foram sobretudo as descrições de batalhas, o percurso de Collem West e a peculiaridade do personagem Sand dan Glotka o que mais me agradou. Uma mão cheia de personagens incríveis e uma história bem escrita da qual gostei, mas os factores negativos também pesam e quando a desilusão trai as expectativas, há que fazer justiça ao que sentimos. Não custa sublinhar, porém, que Glotka é um dos melhores personagens da literatura fantástica e A Primeira Lei uma série de leitura obrigatória.

Avaliação: 7/10

A Primeira Lei (1001 Mundos):

#1 A Lâmina

#2 A Forca

#3 A Coroa

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3 thoughts on “Estive a Ler: A Coroa, A Primeira Lei #3

  1. Viva,

    Pensei que fosse uma trllogia que te enche-se mais as medidas, mas pronto ainda assim e pelo que percebo valeu bem a pena ler e ainda bem.

    Abraço e boas leituras a ver se estamos juntos no sábado 😛

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #11 – Notícias de Zallar

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