Estive a Ler: Elantris, Elantris #1


A Shaod podia tomar um mendigo, um artesão, um nobre ou um guerreiro. Quando chegava, a vida da pessoa afortunada terminava e recomeçava; ela descartava sua antiga existência mundana e mudava-se para Elantris. Lá podia viver em bem-aventurança, governar com sabedoria e ser venerada por toda a eternidade. A eternidade terminou há dez anos.

O texto seguinte aborda o livro “Elantris”, primeiro volume da série Elantris

Que Brandon Sanderson é um fenómeno literário ninguém duvida. O autor de Mistborn, The Stormlight Archive, Alcatraz e Reckoners escreve livros atrás de livros, grande parte da sua obra passada no universo Cosmere. Foi também o responsável por concluir a série A Roda do Tempo após a morte do autor, Robert Jordan. Se nos perguntarmos o que lhe falta fazer, a resposta é simples: concluir as sagas iniciadas. O que, dada a velocidade com que publica livro atrás de livro, não parece difícil. Há, no entanto, um nome que paira na mente dos seus leitores mais acérrimos: Elantris. Para quando a continuação?

Elantris foi o primeiro livro publicado por Brandon Sanderson. Foi produzido como um stand-alone, mas a repercussão foi tanta e tão boa que o fandom apelou desde logo à continuação, que Brandon assegurou mas ainda não concretizou. Publicado pela Tor Books em 2005, o livro que catapultou o autor de Mistborn: Nascida das Brumas “ainda” não foi publicado em Portugal, mas a Leya publicou-o no Brasil em 2012, com tradução de Marcia Blasques.

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Fonte: http://www.17thshard.com/forum/gallery/image/885-raoden/

Antes de vos falar sobre a minha química para com a obra de Brandon no geral, e para com Elantris, em particular, gostaria de contextualizar-vos. Elantris é o nome de uma cidade, que passou do Paraíso ao Inferno num piscar de olhos. Já lá vamos! Ao contrário dos sistemas de magia que conheci em Mistborn (baseados em metais), em Warbreaker (respiração e cores) e em White Sand (areia e água), o sistema mágico de Elantris não se fortalece ou enfraquece consoante a “ingestão” ou captura seja do que for. Ele é baseado no AonDor, aquela componente de vida que faz os mares agitarem-se ou as pedras caírem, como exemplos. Está também intimamente relacionado com o alfabeto aónico, cujas letras formam partes dos nomes dos personagens e têm relação com a geografia do shardworld (mundo/planeta), Sel.

No livro, porém, esta magia é apresentada como um dom que se transformou numa doença / maldição. Aqueles que eram presenteados com o Shaod (escolhidos involuntariamente e, aparentemente, ao acaso) dominavam o AonDor e podiam fazer coisas incríveis, como transportar-se para longas distâncias, curar doentes e realizar milagres. Eles eram vistos como deuses e consideravam-se como tal, muito embora não se preocupassem muito nas crenças dos comuns, à sua volta. A partir do momento em que recebiam o dom, mudavam-se para a cidade de Elantris, a capital de Arelon, e aí eram reverenciados. Elantris era mais do que uma capital, era um santuário.

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Fonte: http://geral.leya.com.br/pt/literatura-fantastica/elantris/

As coisas mudaram, no entanto, dez anos antes da ação do livro ter início, num acontecimento trágico conhecido como o Reod: o AonDor, sem explicação aparente, abandonou os elantrinos. Aqueles que ali viviam foram tomados pela loucura ou morreram, e os que receberam a Shaor depois disso tornaram-se uma espécie de mortos-vivos. O cabelo caía-lhes, a pele ficava cinzenta e enrugada, o coração parava de bater. Continuavam a ser enviados para Elantris, com uma cesta de alimentos na mão, mas a ideia era apartá-los, bani-los da sociedade. Chutá-los para a lixeira. A própria cidade transformou-se. Perdeu o dourado das suas edificações sublimes, tornou-se oca e cheia de lama e muco.

“Eles eram vistos como deuses e consideravam-se como tal, muito embora não se preocupassem muito nas crenças dos comuns”

Kae foi outrora uma pequena aldeia nas imediações de Elantris, mas transformou-se numa cidade, a capital de Arelon. Quando se deu o Reod e os elantrinos caíram, deu-se uma revolução sócio-económica, com os criados a matarem os seus patrões e os mercadores a tornarem-se nobres. Iadon tornou-se o primeiro rei da nova dinastia, sediando o seu trono em Kae. No entanto, se fora um mercador notável, Iadon transformou-se num rei medíocre. Outras nações importantes espreitavam as suas fragilidades para lhe caírem em cima.

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Fonte: https://solrac-onaicilef.deviantart.com/art/Elantris-Sketch-of-Raoden-and-Sarene-361258445

Na verdade, dez anos após Elantris cair, o mundo vive uma guerra santa. Embora comunguem das mesmas origens (o Shu-Kheseg), o Shu-Dereth e o Shu-Korath têm visões próprias e distintas do Deus (Jaddeth e Domi), e embora o Shu-Korath seja mais antigo, restam apenas duas nações que lhe são devotas: Kae e Teod. O que significa, na prática, que foram as únicas que ainda não caíram diante do poder bélico de Fjorden, a imensa nação que tem usado a religião como um meio de controlar o mundo. Quando Kae e Teod se converterem ao Shu-Dereth, como aconteceu com a pobre Duladel, Fjorden governará o mundo. Wyrn é o senhor de Fjorden, um título que o apresenta como um messias, um filho de Deus, o seu criado.

Está então na hora de apresentar os três personagens que dão vida ao livro. Raoden era o príncipe de Kae. Filho do rei Iadon, no entanto um líder muito mais dotado que o pai, Raoden conspirava sub-repticiamente com vários nobres para a sobrevivência do seu povo. Entre esses nobres encontravam-se Roial, Shuden, Aan e o general Eondel, entre outros. O motivo porque muitos ainda aceitavam Iadon, era porque acreditavam que Raoden seria o seu sucessor natural, e ninguém duvidava de que ele seria o rei de que precisavam. O pior aconteceu, porém, quando Raoden acordou certo dia e descobriu que fora tomado pela Shaod. A família simulou a sua morte, e Raoden foi então convertido num elantrino, conduzido para a cidade das trevas.

“O cabelo caía-lhes, a pele ficava cinzenta e enrugada, o coração parava de bater.”

Em Elantris, Raoden conhece um dula, Galladon. Na verdade, se o povo de Duladel era conhecido pelo caráter despreocupado e otimista, Galladon não podia fugir mais ao estereótipo. Ele é terrivelmente pessimista, mas também se torna o melhor amigo de Raoden e o seu braço direito. À medida que conhece Elantris, Raoden também verifica a suas deficiências e o seu potencial. Eles não podem morrer de causas naturais, mas sentem todas as dores e podem sofrer até à loucura, tornando-se hoed. Raoden percebe que Elantris é controlada por gangues, que são lideradas por Karata, Aanden e Shaor, e depressa percebe que precisa uni-los e dar vida àquela cidade de mortos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/541417186434868457/

Sarene é a princesa de Teod, filha do rei Eventeo. Ela estava prometida em noivado a Raoden, por motivos plenamente políticos, e nunca o conhecera pessoalmente, embora se tivesse encantado com as mensagens que iam enviando um ao outro. Por isso, sofre uma grande desilusão quando chega a Kae e descobre que o príncipe morreu. Acompanhada pelo seu seon (bolas de luz falantes que servem para transmitir mensagens, dar conselhos ou supervisionar criados), Ashe, Sarene tem um choque ao perceber que os seus planos de casamento fracassaram. Ainda assim, uma minuta do contrato nupcial permite que ela seja vista como viúva, o que a equipara a ser filha do rei Iadon.

“Por isso, sofre uma grande desilusão quando chega a Kae e descobre que o príncipe morreu.”

Inicialmente, ela suspeita que o rei teve participação na morte do filho e move-se de modo a deixar que pensem que é tola e estúpida, mas rapidamente conquista os velhos amigos de Raoden para o seu lado e ocupa o lugar de líder nas reuniões secretas que o príncipe havia deixado vago. Sarene surpreende-se também ao perceber que o seu tio paterno, Kiin, faz parte desse grupo. Para além de ter uma grande família, onde se contam vários filhos, um deles com, aparentemente, algum tipo de deficiência ou autismo, Kiin revela-se também um grande cozinheiro. Mas o verdadeiro desafio de Sarene começa quando Hrathen chega a Kae.

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Fonte: https://www.pinterest.com/botanicaxu/elantris-emperors-soul/

Hrathen é um gyorn, um sacerdote do Shu-Dereth com uma tradicional armadura vermelha, e chega a Kae com uma missão. Hrathen tem três meses para converter aquele povo à sua doutrina, caso contrário Wyrn avançará com as suas tropas e devastará a cidade. Para ele, não chegará a tanto. Tanto o seu dom de oratória como as capacidades de intriga política chegarão para fazer Iadon cair da cadeira do poder e colocar nela um rei mais fácil de ser convertido. A tarefa, no entanto, pode ser mais difícil do que previa.

São três os grandes obstáculos com que se cruza. O primeiro é Dilaf. Trata-se de um jovem sacerdote de Kae que Hrathen transforma em seu acólito, um arteth, mas Dilaf revela-se demasiado fervoroso na sua crença do Shu-Dereth, demasiado fogoso, demasiado difícil de controlar. E com ideias demasiado próprias e demasiado apaixonadas. O segundo obstáculo é Sarene. A jovem consegue embaraçá-lo em público e fintar todos os seus planos, num braço-de-ferro de intriga política que poderá não acabar como ele previa. O último obstáculo é a própria Elantris. A cidade dos mortos pode ser utilizada como peça chave dos seus planos, mas… e se a cidade voltar à vida?

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Fonte: https://www.deviantart.com/tag/elantris

O que dizer mais sobre este livro? Um misto de novela argentina com The Walking Dead e muita intriga política? Podia perfeitamente procurar defeitos nele, uma vez que foi o primeiro livro publicado pelo autor, e a verdade é que ele os tem, dependendo e muito do ponto de vista de cada um. A ação do livro começa lenta e vai avançando bastante com o desenrolar da leitura, mas será que os acontecimentos frenéticos da segunda e terceira partes do livro teriam tanto impacto sem o background bem construído da primeira? Duvido muito.

“Um misto de novela argentina com The Walking Dead e muita intriga política?”

Sinceramente, até me senti um pouco desiludido com os acontecimentos finais da trama, quando Brandon Sanderson, como é seu apanágio, destrói tudo o que podia dar credibilidade à trama num todo irrealista com muito recurso a magias e endeusamentos, mas esse já é mesmo o jeito dele, há que aceitar caso se goste do todo. Uma conclusão mais credível e não tinha como não dar nota máxima ao livro. Mas, como disse anteriormente, se quisermos encontrar defeitos, há muito por onde pegar. Isso acontece em todas as obras, claro está.

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Fonte: https://www.deviantart.com/tag/elantris

A verdade é que Elantris me apaixonou do primeiro ao último instante, e mesmo a inserção de [SPOILER SPOILER SPOILER] criaturas com excesso de ossos [/SPOILER SPOILER SPOILER] na trama não me roubou a ideia de que este é um livro muito mais fluído e credível do que a trilogia Mistborn. Não só o sistema de magia em Elantris parece mais enraizado na cultura e faz mais sentido, como foi explicado nos momentos indicados, e não constantemente colocado em causa como aconteceu em Mistborn, onde durante muito tempo me pareceu que o autor ia apresentando explicações forçadas e “metidas a martelo”.

“A verdade é que Elantris me apaixonou do primeiro ao último instante”

É uma mera opinião pessoal e não coloco em causa que Mistborn tem um mundo mais bem construído e com mais detalhes, mas pessoalmente não “comprei” a história e tão pouco a engoli, o que aconteceu de uma forma bem mais envolvente com Elantris. Suponho, porém, que isso também depende muito da nossa interpretação pessoal sobre ambas as obras. Elantris não tem a tempestade de plot-twists de Warbreaker, mas gostei tanto de um como do outro.

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Fonte: https://www.deviantart.com/art/Elantris-399139039

A principal força de Elantris centra-se nos protagonistas. Apesar de nos últimos capítulos serem incluídos os pontos de vista de Galladon, Lukel e Dilaf, o livro é, em todo o resto, apresentado pelo olhar de Raoden, Sarene e Hrathen. Que personagens! É impossível deixar este livro sem sentir saudades do otimismo de Raoden e da sua capacidade de melhorar tudo à sua volta, a argúcia e senso político de Sarene, sempre com o seon Ashe a flutuar sobre o ombro, e aquele que mais me impressionou, o sacerdote de armadura vermelha, Hrathen. Não posso dizer muito mais sobre ele porque estaria a spoilar, mas que personagem incrível e surpreendente é o gyorn.

“Que personagens!”

Acredito que se este fosse o meu primeiro livro de Brandon, tornar-me-ia mais um acérrimo acólito da Igreja Cosmérica, mas mesmo sem abençoar o excesso de deus ex machina e recursos divinos pouco convincentes do autor, não há como deixar de admirar as suas histórias e Elantris é a prova de todo o seu potencial, ainda que se note claramente ser um livro de estreia. The Stormlight Archive é uma das séries que tenciono ler, mas esperarei também que o autor se decida a escrever as sequelas de Elantris e Warbreaker. Por ora, este é um dos livros dele que posso recomendar sem reservas.

Avaliação: 9/10

Cosmere:

The Stormlight Archive (Tor Books):

#1 The Way of Kings

#2 Words of Radiance

#2.5 Edgedancer

#3 Oathbringer

Mistborn Era 1 (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

Mistborn Era 2 (Leya):

#1 A Liga da Lei

#2 As Sombras de Si Mesmo

#3 Os Braceletes da Perdição

Mistborn (Tor Books):

#1 Mistborn: Secret History

Warbreaker:

#1 Warbreaker

White Sand (Dynamite):

#1 White Sand Volume 1

#2 White Sand Volume 2

#3 White Sand Volume 3

Elantris (Leya):

#1 Elantris

#* The Emperor’s Soul

Mulheres Perigosas (Saída de Emergência)

#* Sombras Para Silêncio nas Florestas do Inferno

(*) conto incluído em antologia

 

19 comentários em “Estive a Ler: Elantris, Elantris #1

  1. Viva,

    Tenho que o ler até porque já o tenho à imenso tempo em formato digital, não é fácil um livro deixar-te assim tão satisfeito 🙂

    Abraço

    1. Acho que sim, mas também tens um tal de República de Ladrões que é ainda melhor xD

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