Fala-se de: Blade Runner 2049


Com direção de Denis Villeneuve e argumento de Hampton Fancher e Michael Green, Blade Runner 2049 é a tão esperada sequela do clássico de 1982 dirigido por Ridley Scott, que tardiamente ganhou reconhecimento assim como tardiamente conheceu uma sequência. Falamos de um produto neo-noir passado num período pós-moderno, onde a espécie humana recorreu ao desenvolvimento de inteligências artificiais (os replicantes) para realizar os trabalhos que menos se interessavam em fazer. Uma das principais questões em debate é: onde se encontra a humanidade? Nos seres humanos ou naqueles que estes criaram?

Passado trinta anos após os acontecimentos do primeiro filme, Blade Runner 2049 apresenta-nos um mundo fragmentado, respaldado nas criações artificiais para sobreviver no moribundo ecossistema do planeta Terra. As colónias humanas continuam a ser exploradas pela Tyrell Corp, agora nas mãos do megalómano Niander Wallace, personagem interpretado por Jared Leto. Deste modo, a população endinheirada vive as mordomias das colónias extraterrestres, enquanto a Terra, poluída e parcialmente abandonada, é lar das classes pobres de humanos, mas sobretudo dos imensos replicantes que as habitam, ocupando posições diversas na estratificação social terrena.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=dZOaI_Fn5o4

K é um blade runner. O personagem interpretado por Ryan Gosling é um replicante subordinado a Joshi (Robin Wright) com uma tarefa em mãos. Foi descoberto que uma replicante gerou uma criança, e tal é um precedente que, mais do que ser ocultado, deve ser imediatamente apagado. A tarefa de K é matar essa criança. Muito embora a moral de K encontre reservas em relação a essa questão, o que realmente o impede de executar a tarefa é uma data que viu inscrita numa árvore, junto à casa de Sapper Morton (Dave Bautista). A mesma data que marcava a base de um cavalo de madeira, pertence de uma das suas recordações mais antigas.

O rumo dos acontecimentos leva-o a encontrar a doutora Ana Stelline (Carla Juri), uma cientista especializada em implantes de memória que se encontra enclausurada numa cela de vidro devido a problemas imunitários, mas a busca pela verdade terá uma forte opositora. Luv (Sylvia Hoeks) é uma replicante leal a Wallace, uma investigadora e guarda-costas que rapidamente vê em K um alvo a abater. Por outro lado, há Joi (Ana de Armas), a esposa de K que, muito embora seja uma mera realidade virtual sem corpo físico, é uma companheira dedicada que tenta alegrar o espírito misantropo do polícia.

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Fonte: https://nit.pt/coolt/cinema/critica-blade-runner-2049-um-tipo-magia

Blade Runner 2049 é um filme de envolvimento psicológico. Para além de debater temas como a humanidade e conter uma certa carga policial, é uma charada futurista que nos obriga a pensar em conjunto com o protagonista, e todo o ambiente de suspense e ambiente noir é um dos pontos mais positivos do conjunto. Toda a realização é muito bem executada, a linguagem visual é apelativa e segui a linha narrativa com agrado. No entanto, apesar de a crítica generalizada sobre o filme ser bastante positiva, não foi um filme que me agradou muito.

“Toda a realização é muito bem executada, a linguagem visual é apelativa e segui a linha narrativa com agrado.”

Extremamente lento para a longevidade do filme, quase três horas de exibição, Blade Runner 2049 focou-se nos ângulos da expressão facial de Ryan Gosling em grande parte do filme. Tudo bem que essa lentidão é uma das marcas da franquia e até mesmo da obra que lhe serviu de base (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas de Phillip K. Dick), mas o que podia ter sido um filme woow! com sequências de ação bem conseguidas, e vale realçar que a performance da actriz Sylvia Hoeks, a antagonista, foi uma das mais-valias do filme, não passou de um filme insípido, onde nem sequer as emoções dos personagens foram bem transmitidas para o espetador, com a exceção da personagem Joi, obrigada a lidar com a infelicidade de não ser uma pessoa real. Ana de Armas foi das atrizes que mais conseguiu falar com o público, mais do que Harrison Ford, por exemplo.

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Fonte: https://www.agambiarra.com/blade-runner-2049-trailer-final/

E, por falar em Harrison Ford, foi uma das grandes desilusões do filme. Ao fazerem regressar o mítico Rick Deckard, esperava-se que ele fosse um dos personagens mais participativos do filme. Puro engano. Para além de entrar em pouco mais do que na última meia hora do longa-metragem, pareceu completamente alienado, como se não pertencesse àquele mundo ou não soubesse simplesmente o que fazer ou dizer. A luta no Casino foi um tanto ou quanto patética, e não acrescentou nada à trama – para além de minutos, claro está. A participação de Harrison Ford valeu pela frase “os olhos dela eram verdes” e posso até garantir que os seios generosos das IA’s tiveram mais tempo de antena do que ele.

“Extremamente lento para a longevidade do filme, quase três horas de exibição, Blade Runner 2049 focou-se nos ângulos da expressão facial de Ryan Gosling em grande parte do filme.”

Também Jared Leto e Lennie James tiveram participações pequeníssimas. Se o Morgan de The Walking Dead foi para mim uma aparição surpresa e que surgiu numa das fases mais empolgantes e bem executadas do filme, esperava muito mais (participações) do personagem de Jared Leto, que parece cotado para fazer apontamentos pequeníssimos nos filmes onde o seu nome é mais alardeado (estou a falar do Joker, sim!). Ainda assim, o personagem Wallace foi delicioso nas suas aparições.

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Fonte: http://theindependent.uk/

No geral, achei que se o filme tivesse hora e meia, duas horas, com os mesmos acontecimentos, me teria agradado muito mais. Demasiado focado no personagem de Ryan Gosling e com muito tempo gasto a mostrá-lo a pensar, Blade Runner 2049 manteve a toada da obra original, mas ganharia em adicionar mais ação e até um pouco de humor, mais ao estilo brilhantemente executado na série The Expanse. A linha narrativa, no entanto, agradou-me, assim como a revelação final que deixou claro que teremos um terceiro filme, talvez em breve.

“A participação de Harrison Ford valeu pela frase “os olhos dela eram verdes” e posso até garantir que os seios generosos das IA’s tiveram mais tempo de antena do que ele.”

Fica, no entanto, a prova de que Denis Villeneuve é um diretor talentoso e ainda que a minha opinião a Blade Runner 2049 não seja tão positiva assim, fica provado que a nova adaptação de Duna ficará bem entregue nas mãos do realizador canadiano. É um filme que vale a pena ver, para quem esteja disposto a mastigar uma história interessante e um tanto ou quanto simples, que vale pelo ambiente. E uma banda sonora com Hans Zimmer, o que é sempre um ponto a favor.

Avaliação: 5/10

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