Estive a Ler: Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe


Os homens chamaram-me louco; mas a ciência ainda não nos ensinou se a loucura é ou não a suprema inteligência, se quase tudo o que é glória, se tudo o que é profundidade, não vem de uma doença do pensamento, de um modo do espírito exaltado a expensas do intelecto geral.

O texto seguinte aborda o livro Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe

Conhecido por escrever sobre o mórbido e sobre o enigmático, Edgar Allan Poe foi um dos primeiros escritores norte-americanos de contos, visto como o precursor da ficção policial e um dos mais controversos autores noir da sua época, sendo um dos fundadores do que é habitualmente conhecido como o cenário de fundo dos dramas policiais, o ambiente enublado e soturno. A Poe é também reconhecida a contribuição para a ficção científica, mas o seu percurso passa sobretudo pelo horror.

Nome de vulto da ficção fantástica na primeira metade do século XIX, Edgar foi o primeiro escritor americano a ganhar a vida apenas da escrita, o que lhe proporcionou um percurso espinhoso com vários amargos de boca. Morreu aos 40 anos, por razões ainda hoje desconhecidas, mas deixou um legado que influenciou milhares e milhares de escritores em todo o mundo.

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Fonte: https://www.poetryfoundation.org/poets/edgar-allan-poe

Para dar a conhecer este nome e a sua riquíssima obra, amplamente difundida mas com tendência a cair no esquecimento, às novas gerações, a Edições Saída de Emergência lançou uma edição de luxo no nosso país com 28 dos seus contos mais emblemáticos, cuja edição bem cuidada está a cargo de Safaa Dib. Com 496 páginas e encadernação em capa dura, Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe chega até nós acompanhado pelos desenhos de 28 prodígios da ilustração nacional, que casam na perfeição com os temas tratados.

As ilustrações estão a cargo dos seguintes artistas: Zé Burnay, Leonor Pacheco, Carlos Correia, João Sequeira, Ana Afonso, André Coelho, Luís Corte Real, Patrícia Cassis, Sónia Oliveira, Mosi, Ricardo Cabral, Daniela Viçoso, Uma Joana, Filipe Alves, Ricardo Venâncio, Patrícia Furtado, Luís Morcela, Susana Monteiro, Nuno Saraiva, Jorge Coelho, Osvaldo Medina, Sofia Neto, Miguel Mendonça, Luís Cavaco, Pedro Brito, Tiago Pimentel, Sofia Lobato, André Caetano. Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe foi apresentado no Cinema São Jorge a 7 de setembro, incluído no evento MOTELX 2017.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/-o-202348/-os-melhores-contos-de-edgar-allan-poe/

Não foi um livro que li de fio a pavio, até porque já conhecia vários dos contos apresentados, mas permitiu-me revisitar um autor de que é impossível ficar-se indiferente. Reli uma ou outra história que já conhecia, como Os Crimes da Rua Morgue, Berenice e O Poço e o Pêndulo, e adorei algumas que ainda não tinha lido, como é o caso de Eleonora, O Coração Delator ou A Queda da Casa de Usher, em especial esta última.

“Morreu aos 40 anos, por razões ainda hoje desconhecidas, mas deixou um legado que influenciou milhares e milhares de escritores em todo o mundo.”

De assinalar uma certa harmonia editorial e até uma simbiose entre os temas tratados nos contos, assim como uma sequência de histórias protagonizadas pelo mesmo personagem, como acontece com Auguste Dupin, o peculiar “detetive” que surge em Os Crime da Rua Morgue, O Mistério de Marie Rogêt e A Carta Furada. Tal fluidez editorial não seria possível, porém, sem o maravilhoso trabalho realizado por Edgar Allan Poe.

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Fonte: Saída de Emergência

A escrita é intimista e cativante, arranca-nos do nosso mundo e eleva-nos aos estados psíquicos mais selvagens, hipnotiza-nos e sacode-nos, de uma realidade à outra, com toques de humor, com momentos de suspense e de êxtase, mexendo nos medos mais primários, tocando os lugares menos prováveis da nossa mente, fazendo-nos sorrir da nossa própria ingenuidade. Ler Poe é regressar ao quente aconchego de um velho clássico, e sentirmo-nos em casa ao inquietar-nos.

Porque Edgar Allan Poe foi, acima de tudo, um autor que não se preocupou somente em ser original, em fundar um género, em criar algo novo. Poe preocupou-se em não deixar de surpreender, em inquietar o leitor e agitá-lo até aos seus próprios limites. De alguma forma, segue o padrão dos autores da sua época, do mundo da sua época, extrapolando-o na insanidade que, costuma-se dizer, só aos poetas é permitida. Poe trabalhou tanto o poema como a prosa, mas em ambas foi sublime.

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Fonte: http://gqportugal.pt/os-melhores-contos-edgar-allan-poe/

Comparo facilmente a escrita de Poe à de H. P. Lovecraft, um dos seus “discípulos” mais famosos. Ambos escrevem na primeira pessoa, inquietam com a proximidade que estabelecem com o leitor e sobretudo com a forma com que trabalham os medos e os receios mais básicos deste. No entanto, enquanto Lovecraft criou uma mitologia e trabalhou com um terror mais fantasioso, Poe vai aos pormenores mundanos que mais nos aterrorizam. O crime, a morte, o próprio significado da vida.

“A escrita é intimista e cativante, arranca-nos do nosso mundo e eleva-nos aos estados psíquicos mais selvagens, hipnotiza-nos e sacode-nos, de uma realidade à outra”

Edgar Allan Poe não escreve somente sobre detetives e criminosos, escreve sobre mortos-vivos, vampiros, orangontangos e canibais. As suas histórias estão tão repletas de pormenores, sujos e viscerais, que acabamos por nos perguntar como conseguem ser tão simples e de tão fácil interpretação. Independentemente do tempo em que escreveu, a obra de Allan Poe é intemporal e um cânone para todo o autor de ficção policial e de horror.

Resta ainda deixar um louvor à Saída de Emergência, não só por “desenterrar” este ícone, mas por todo o cuidado de edição do livro. Trata-se de uma edição lindíssima em capa dura, uma verdadeira edição de colecionador com “belas” e arrepiantes ilustrações de nomes nacionais que, independentemente do desenvolvimento das suas carreiras, permanecerão eternizados nestas páginas. Todo o trabalho de promoção do livro merece também os meus elogios. Quem quiser ver a exposição dedicada a Edgar Allan Poe, não faltem dia 28 de outubro ao Festival Bang! no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

3 comentários em “Estive a Ler: Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe

  1. Josefino Agripino 13 abr 2020 — 3:47 am

    Poxa, que edição deslumbrante. Aguardando um exportador para o outro lado do Atlântico…

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