Especial: Os Grandes Mistérios de Patrick Rothfuss


Tenham ou não lido algum dos seus livros, o nome Patrick Rothfuss é bem familiar para qualquer fã de fantasia. Aquele sujeito misterioso que parece fazer um cosplay do Hagrid de Harry Potter em cada aparição, é tão somente um dos mais talentosos autores da literatura fantástica mundial. Um dos mais amados e odiados. Amado por uns, odiado por outros, e muitas vezes, amado e odiado pelos mesmos. O motivo? Pat Rothfuss é dono de uma escrita capaz de envergonhar alguns poetas célebres, o seu personagem central é um dos mais carismáticos do multiverso fantástico e a sua história está carregada de mistérios e charadas. O problema? Só publicou 3 livros, um deles sendo um mero spin-off sem relevância aparente, e parece ter deixado todas as respostas para o último e eternamente adiado volume final da sua série.

A trilogia que se predispôs a escrever é conhecida em Portugal como Crónica do Regicida, cuja ideia passa por apresentar um anti-herói no outono da vida, a gerir uma estalagem vulgar numa povoação remota. A personagem esconde a sua verdadeira identidade do mundo que o julga morto, pois as suas façanhas despertaram inimigos tenebrosos da mesma forma que inspiraram canções e lendas. Quando salva a vida a um cronista que por ali passava, porém, resolve a contar a sua verdadeira história para que fique registada, e cada um dos três volumes corresponde a cada um dos três dias que ele leva a narrar os acontecimentos que constituirão a sua inusitada biografia.

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Fonte: http://commons.wikipedia.org/

Desse modo, Patrick Rothfuss desenvolve uma narrativa bem oleada, escrita na primeira pessoa com exceção dos capítulos de Interlúdio em que o autor passa para uma narração na terceira pessoa, revelando o protagonista Kvothe na realidade atual. Se O Nome do Vento, o romance de estreia, catapultou o autor para as bocas do mundo (lê a minha opinião aqui), o segundo livro trouxe mais perguntas do que respostas, e um rol de mistérios que se adensam a cada página. As teorias, porém, são mais do que muitas. No nosso país, a Crónica do Regicida foi publicada pela chancela 1001 Mundos, com o segundo livro original, O Medo do Homem Sábio, dividido em dois (volume 1 e volume 2).

Quem é Pat Rothfuss?

Mas afinal quem é este famoso autor? Norte-americano, natural do Wisconsin (como outro dos meus autores preferidos, Scott Lynch), relegou o seu amor pela Engenharia Química em prol da Psicologia Clínica, duas áreas que usou e abusou na conceção dos livros. Acabou por se dedicar a qualquer área que lhe interessasse, tornou-se mestre na Universidade Estadual de Washington e retornaria ao Wisconsin, à universidade onde tirara o bacharelato, como professor. Patrick James Rothfuss é um dos mais respeitados autores de literatura fantástica em solo americano, sendo muitas vezes comparado a outros nomes maiores do género como Robert Jordan ou George R. R. Martin.

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Fonte: http://gentaroendo.deviantart.com

Que Mistérios São Estes?

Enumerar os incontáveis mistérios que os seus poucos livros encerram demoraria uma infinidade de artigos. Mas se julgam que uma prosa incrivelmente elegante e poética, o facto do autor ser idolatrado pelo próprio George R. R. Martin e o seu nome ter sido registado em cada lançamento no top do ranking do New York Times não são motivos mais do que suficientes para ler Patrick Rothfuss, deixo-vos com uma pequena seleção dos mistérios mais intrincados que fomentam milhares de teorias na cabeça dos fãs. Quem não gosta de SPOILERS tem aqui uma ótima oportunidade para saltar fora. Eu avisei!

O CHANDRIAN

A escrita de Rothfuss é bonita sim, mas bla bla bla Whiskas Saquetas o que realmente me amarrou a Patrick Rothfuss foi o mito do Chandrian. O que fazer quando o vilão da história é, aos olhos do “povo”, uma lenda? Pat podia seguir um caminho tradicional, colori-lo como o monstro papão que persegue o herói da história e que ninguém acredita realmente na sua existência até o ver, mas não. O Chandrian é, antes de mais, um nome de código que, segundo a própria etimologia criada pelo autor, significa um grupo de sete pessoas. Pensem nos contos tradicionais portugueses e substituam os trasgos ou as mouras encantadas por uma trupe de assassinos que produzem chamas azuis. Eles não passam de rumores de histórias passadas de pais para filhos nas comunidades rurais, até que o protagonista da história, era ainda um menino, dá com eles a matar-lhe a família. Arrepiante, não?

Pois é, e mais impressionante do que isso – para muitos dos fãs, frustrante até – é que ele nunca mais os vê, e mesmo a sua fome de vingança parece minguar à medida que cresce e vê o pagamento de dívidas como um problema bem mais real. A verdade é que os boatos sobre os Chandrian parecem flutuar durante anos à sua volta, sem que se consigam materializar em algo. Mas as pequenas descobertas de Kvothe concluem o mesmo: o líder dos Chandrian, um sujeito sinistro que ouvira chamar de Haliax, pode muito bem ser um personagem histórico de irrevogável importância. Se termos o vilão da história como parte da mitologia já era bom, considerá-lo como peça determinante no mundo tão fluente e subtilmente criado pelo autor é fantástico.

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Fonte: http://kingkiller.wikia.com/wiki/Haliax
OS QUATRO CANTOS DA CIVILIZAÇÃO

E por falar nele, temos mesmo de encarar os Quatro Cantos da Civilização como mais um mistério do autor. Para além das poucas referências sobre a história de algumas cidades mais importantes e a relação da Universidade para com alguns povos, da divisão original dos dias da semana (onzena) e das moedas em voga e do sistema de magia explicado ao pormenor numa toada incrivelmente científica, pouco mais sabemos sobre eles. Temerant, o mundo criado por Patrick Rothfuss onde os Quatro Cantos da Civilização se localizam é estranhamente original, ainda que seja em muito similar ao nosso mundo pré-industrial.

É, na verdade, a ausência de qualquer infodump, o mundo em aberto que Pat Rothfuss nos dá e todo o mistério que nos faz conhecê-lo pouco a pouco e sem grandes pormenores, o que faz dele, para mim, um mundo tão maravilhoso. Se a ausência de algo pode parecer preguiça do autor no desenvolvimento do worldbuilding, posso dizer que vejo a subtileza com que ele o revela mais como uma qualidade do que como um defeito. A cada nova jornada, o leitor é surpreendido com os detalhes mais leves e, aparentemente, insignificantes.

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Fonte: http://kingkiller.wikia.com/wiki/Temerant
BAST

Um dos personagens mais incríveis da série é o aprendiz e ajudante de taberneiro de Kvothe. Ele protagoniza um conto na antologia Histórias de Aventureiros e Patifes, escrito por Patrick Rothfuss, que pode dar pistas quanto à sua identidade e reais motivações, mas este fae é uma das personagens mais enigmáticas da série, não obstante a sua aparência jovial e divertida.

Bast surge nos Interlúdios, formando com Kvothe e o Cronista uma estranha trindade, em que cada um dos vértices parece esconder coisas uns dos outros. As atitudes de Bast e os motivos que o levam aos comportamentos mais inesperados são, no entanto, um dos enigmas mais ricos e propícios a especulações nesta série. Só para que conste, as suas pernas terminam em cascos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/471752129692339195/
AURI

Se Bast é a personagem mais enigmática nos Interlúdios, o núcleo da Universidade tem uma charada em forma de gente igualmente perturbadora. Mais do que uma até, mas nomear alguns dos professores e até colegas de Kvothe e o que cada um deles pode esconder exigiria um testamento. Auri é uma menina escondida do mundo nos labírinticos corredores subterrâneos da Universidade. Quem é ela? O que está ela ali a fazer? Essas são apenas algumas das perguntas que o comum leitor pode fazer.

A cada livro, a personagem torna-se mais misteriosa, embora seja difícil não sentir empatia por ela, tal a lealdade e amizade que devota a Kvothe. Auri é tão importante no mundo da Crónica do Regicida que Rothfuss escreveu um livro sobre ela, traduzido em português como A Música do Silêncio. Um título prometedor, não? Muito, ainda que seja pouquíssimo aquilo que o livro revela sobre os seus segredos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/mcapaldi936/kingkiller-chronicles/
AS PORTAS DE PEDRA

É o título do último livro da trilogia, aquele que falta publicar ao autor e que, espera-se, consiga esclarecer todos os segredos de Pat Rothfuss para esta série. Mas quem leu os restantes livros sabe do que se trata. Vários são os personagens que citam “as portas de pedra” como quem cita um santo ou um deus. A mais evidente para o leitor é aquela que Kvothe encontra no Arquivo da Universidade, uma porta de pedra sem maçaneta ou dobradiça, com a palavra Valaritas gravada. Um mistério com muitas perguntas e nenhuma resposta.

Também na propriedade dos Lackless, segundo as palavras de Caudicus no segundo volume, existe uma porta similar. Pouco mais se sabe sobre estas portas, para além de que Mestre Elodin garante tratar-se de um segredo de grandes dimensões e a fae Felurian diz que o grande moldador que roubou a lua encontra-se encerrado para lá delas. Os mais atentos descobrirão também que a canção que a mãe de Kvothe proibira de o cantar em criança aludia aos Lackless, como também falava de uma porta sem maçaneta, o que nos conduz a um novo mistério.

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Fonte: https://black3.deviantart.com/art/The-Doors-of-Stone-635762619
A IDENTIDADE DE KVOTHE

O protagonista da história é visto na atualidade como uma figura mitológica, uma criatura capaz das maiores maravilhas, mas o leitor sabe que muito do que ele fez foi por mero acaso ou sorte, e tudo o resto, por encenação. Ainda assim, sabemos desde os primeiros parágrafos que Kvothe matou um rei, e não só não o vimos a fazê-lo, como ainda não conhecemos rei algum. Será Kvothe uma personagem tão digna de confiança assim? O que nos remete a várias perguntas.

Quem é Kvothe? Quem é o rei? Colocando aqui as minhas teorias pessoais, inicialmente pensei que fosse Ambrose, o seu eterno rival, cujo estatuto nobre o coloca, ainda que um pouco distante, na linha de sucessão ao trono. Mas depois pensei se não seria o Kvothe o próprio rei. Os leitores mais atentos já perceberam, e isto é mais que uma mera teoria, que a mãe de Kvothe era uma Lackless, que fugira com um cantor e por isso fora renegada pela própria família (o que explica a aversão de Meluan Lackless aos Edema Ruh no segundo volume).

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Fonte: https://thereforeigeek.com/tag/doors-of-stone/

Ainda assim, parece-me que se Kvothe se tornasse um rei, não o deveria aos laços aristocráticos, embora eles pudessem pesar se Rothfuss planeasse uma reviravolta importante para assegurar (e legitimar) a ligação de Kvothe a uma princesa ou rainha. Estou a viajar? Talvez, mas pôr-nos a viajar parece ser mesmo a intenção do autor. No entanto, pairaria uma última questão no ar. Se Kvothe fosse o rei, ninguém o chamaria de Regicida, certo?

Certo, mas perdoem-me uma nova viagem, e que tal se Kvothe arranjasse maneira de forjar a sua morte e fazer o povo acreditar que Ambrose era o próprio Kvothe? O seu inimigo seria morto pelo assassínio do rei e ele refaria a sua vida como um velho estalajadeiro. Pouco provável, devido à questão da cor do cabelo, mas nada nos impede de especular.

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Fonte: https://www.pinterest.com/carmarquezjd/kvothe/
O MECENAS DE DENNA

Há ainda a questão do mecenas de Denna. Denna é a amada do protagonista, que tão depressa aparece como desaparece da sua vida, sempre com o argumento que tem de seguir as diretrizes do seu mecenas, um sujeito misterioso que ninguém, para além dela, parece saber quem é. Segundo a descrição da cantora, trata-se de um sujeito violento, que embora tenha alguma idade (sabemos que tem cabelos brancos e usa bengala), é bom dançarino. Mais do que isso, é um homem que gosta de jogar. Apanhando todas as pequenas subtilezas que Denna vai contando a Kvothe, a minha aposta recai sobre Bredon, teoria que encontrei num site americano que me deixou perplexo com a evidência. Sim, estou a falar do enigmático companheiro de jogo de Kvothe durante a sua estadia na corte de Alveron. O único que não parecia interessado em mexericar sobre as suas origens. Talvez porque  as conhecesse?, pergunto eu.

Parece difícil ser outra a personagem, tão bem que as pistas se encaixam, para além de que nenhuma outra já apresentada se ajusta às características enunciadas. Há, porém, uma questão de maior importância. Quem é, na realidade, este homem? Quais os seus propósitos? O lado lógico do leitor irá certamente apontar para a possibilidade de Bredon pertencer ao Chandrian ou trabalhar para ele, com algum intuito diabólico, mas a verdade pode não ser tão “preto no branco” assim. Personagens de má índole não têm obrigatoriamente que pertencer ao lado negro da força.

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Fonte: http://kingkiller.wikia.com/wiki/Denna

Pelo menos, assim o espero. Gostaria sinceramente que este Bredon fosse, por exemplo, um Amyr. Sabem de quem eu estou a falar? Aquela irmandade aparentemente extinta que levava a justiça de terra em terra? Sim, essa mesma. Este Bredon poderia muito bem ter sido destacado para investigar Kvothe e a sua relação com o Chandrian. De facto, a possibilidade de os Amyr continuarem no ativo é levantada no último livro, e acredito que possa estar relacionada ainda com Trapis e Skarpi, dois personagens que Kvothe encontrou em Tarbean que escondem seguramente ainda muitos segredos.

São estes os enigmas que mais me intrigaram e me deixaram com um cada vez maior apreço pela mente complexa de Patrick Rothfuss. Seja nos livros já publicados, no pequeno livro A Música do Silêncio protagonizado pela personagem Auri ou no conto A Árvore Reluzente protagonizado por Bast, todas as frases parecem ter um propósito específico e o quadro geral parece um elaborado jardim, maravilhosamente podado pelo incrível autor norte-americano.  Nenhum pormenor parece ter sido deixado ali por acaso, e resta-nos esperar pelo tão adiado terceiro livro da Crónica do Regicida.

35 comentários em “Especial: Os Grandes Mistérios de Patrick Rothfuss

  1. Há algumas semelhanças com o nosso mundo, sim. Modeg é a França, Atur é Roma, siglística é programação, Feluriana é a Flor do Mato e Bast é Pã.

    1. O nome de Auri pode ser Ester, Bredon é o mecenas de Denna e pode ser Gris ou Cinder, Meluan é tia de Kvothe, víntico antigo parece nossa língua.

  2. Arueh pode ser a China, os Montes Tempestuosos Sibéria, Cáucaso e Himalaia, Ademre a Rússia e Tahl a Índia, há muito em comum, se notarem bem.

  3. O rei que Kvothe matou pode ser Roderic, pois ele disse que teve de sacrificar um anjo (Roderic), por causa de um demônio (Ambrose).

  4. Elodin é um amyr, e Taborlin também, talvez sejam os mesmos. E Syphus, o mago-negro-rei contado por Marten é um dos chandrianos, segundo Sheyhn.

  5. Auri pode ser a fada da lua, sim, como diz o coração de Kvothe. A própria lua não, senão, como ela brilharia? Mas a fada dela, sim.

  6. Auri pode ser uma Lackless, e também uma encantada. Elodin, Skarpi, Denna e Auri são as personagens-chaves.

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