Estive a Ler: A Torre do Elefante


— Existe sempre uma maneira, se a vontade estiver associada à coragem — respondeu abruptamente o cimério irritado.

O texto seguinte aborda o conto “A Torre do Elefante”

“A Torre do Elefante”, publicado originalmente na revista Weird Tales em 1933, é um dos contos protagonizados pelo herói Conan, o Cimério, escrito pelo autor norte-americano Robert E. Howard. Está definido na era pseudo-histórica de Hyborian e conta como Conan se infiltrou numa torre cheia de perigos para roubar uma jóia lendária ao terrível feiticeiro Yara. Devido à sua visão única sobre o mundo criado e elementos fantásticos atípicos para a época, a história é considerada um clássico na tradição de Conan e é frequentemente citado pelos seguidores de Howard como um dos seus contos mais incríveis.

Robert Ervin Howard, mais conhecido como Robert E. Howard, foi um talentoso escritor norte-americano que deixou testemunhos incríveis no fantástico ao longo dos seus 30 anos de vida. Constante colaborador das revistas pulp fiction, muito populares nos Estados Unidos da Grande Depressão dos anos de 1930, o escritor é atualmente mais conhecido por ter sido o criador dos personagens Conan e Solomon Kane, bem como por ser considerado, historicamente, o “pai” do subgênero de espada & feitiçaria (sword and sorcery).

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Fonte: https://www.counter-currents.com/tag/robert-e-howard/

Howard trabalhou para que quase todas as suas histórias do gênero sword and sorcery pudessem ocorrer sem contradição num mesmo mundo, começando com as aventuras pré-históricas das vidas passadas de James Allison, evoluindo para a saga de Kull, passando então para os tempos da Atlântida e da Lemúria, para chegar à Era Hyboriana de Conan e então, finalmente, na História conhecida pelos humanos. Nos seus trabalhos, Howard teceu a sua obra de forma a que um grande cataclismo sempre separasse uma era da seguinte. Dessa forma, cada civilização sabia muito pouco sobre a anterior, sendo recordada apenas por mitos e lendas.

Confesso que, muito embora a escrita de Howard pareça simplista e as suas histórias pouco cativantes nos dias em que vivemos, sou um fã incontornável de Howard e da sua prosa leve e dinâmica, que consegue ser rica em vocabulário sem aborrecer. Para além de que todas as características fantásticas das suas histórias eram uma novidade na época em que foram escritas. Robert E. Howard foi um criador de mão-cheia, e a melhor forma de reverenciá-lo é ler os seus escritos, uma e outra vez, e continuarmos a apaixonar-nos por ele.

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Fonte: http://www.badassoftheweek.com/conan.html

É verdade que Conan é uma personagem que faz parte do imaginário coletivo da cultura de massas. As aventuras do bárbaro conquistador, mercenário, pirata e a maioria das vezes, um mero errante, são com certeza clássicos pulp, pura leitura de entretenimento que, não obstante a ausência de algo que obrigue o leitor a pensar, oferece uma míriade de características únicas que a definem como uma literatura exótica, única, atemporal. “A Torre do Elefante”, que leio pela segunda vez, é um tradicional exemplo deste paradigma. Ler os contos originais de Conan é sempre um refresh na mente de qualquer leitor (e autor).

“Robert E. Howard foi um criador de mão-cheia, e a melhor forma de reverenciá-lo é ler os seus escritos, uma e outra vez, e continuarmos a apaixonar-nos por ele.”

A história deste conto é situada em Zamora, também chamada de Cidade dos Ladrões. Conan está a embebedar-se numa típica espelunca barulhenta quando ouve um homem a descrever uma joia fabulosa chamada Coração do Elefante. A joia é mantida numa torre por um terrível feiticeiro chamado Yara, de quem até mesmo o Rei de Zamora tem medo, uma vez que ele transformou um príncipe numa aranha, pisando-a em seguida. Quando Conan pressiona o patife para obter mais informações, seguem-se insultos e dá-se um combate. Na confusão, uma vela é derrubada por alguns dos espectadores, e a taberna mergulha na escuridão. Nesse momento, Conan mata o sujeito e escapa para as ruas da cidade, onde salva uma mulher de origens abastadas, a quem o malfeitor pretendia sequestrar e vender como escrava.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=Z2nXpgLamAQ

Depois de toda a confusão na taberna, o cimério decide-se a roubar a jóia, encontrando no caminho Taurus de Nemedia, também conhecido como o Príncipe dos Ladrões, que possui um desejo similar. Os dois ladrões concordam em trabalhar juntos e, depois de lutar contra os leões nos jardins da torre, escalam o pináculo da mesma. Ao chegar ao topo, Taurus é morto pela picada venenosa de uma aranha gigante que Conan, por sua vez, mata num duelo frenético. Isto é apenas o início de uma demanda hercúlea por parte do herói cimério na enigmática Torre do Elefante.

“”A Torre do Elefante”, que leio pela segunda vez, é um tradicional exemplo deste paradigma.”

Dono de uma vontade férrea e quase sempre de espada em punho, Conan enfrenta monstros terríveis, conspiradores volúveis e fanáticos religiosos. Muito embora a sua moral seja muitas vezes questionável, Conan tende a salvar os povos e as mulheres que encontra, pagando por vezes com o próprio corpo. O bem contra o mal é uma dualidade presente ao longo do conto, como em todos os que o precedem e seguem, com a vitória do bem a prevalecer. Ainda assim, as lutas morais das personagens, o detalhe de cada envolvimento e motivação e o mero mistério em torno das índoles dos protagonistas mostra que Howard não se limitava a seguir o modelo simplista dos pulps com régua e esquadro.

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Fonte: https://abepapakhian.deviantart.com/art/In-the-Tower-of-the-Elephant-552932208

O próprio Conan, como um personagem tendenciosamente bom, parece a maior parte das vezes apático e indiferente, e não o herói que acorre ao perigo de imediato assim que se depara com um problema. Não só ponderado como ardiloso, o protagonista é um estratega ímpar, que quase sempre age apenas depois de considerar algum tempo sobre os perigos em mãos. Como se pode ver neste conto, o desejo material leva a que aja como um ladrão, ainda que pareça comer demónios e deuses caprichosos ao pequeno-almoço.

“Ainda assim, as lutas morais das personagens, o detalhe de cada envolvimento e motivação e o mero mistério em torno das índoles dos protagonistas mostra que Howard não se limitava a seguir o modelo simplista dos pulps com régua e esquadro.

Concluindo, “A Torre do Elefante” é mais um testemunho incrível de um autor inusitado que nos deixou trabalho para ser lido e relido por gerações e gerações. Conan é uma personagem incrível, temperada a fogo como o aço, e por muito que a fórmula nos pareça batida e repetida, consegue sempre surpreender com a inconstância dos seus pensamentos e com a forma como combate a aparente impermeabilidade dos seus inimigos. Selvagem e intempestivo, Conan é aquele velho amigo que sabe sempre bem revisitar.

Avaliação: 8/10

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