Estive a Ler: Origem


As sombrias religiões retiraram & a doce ciência reina.

O texto seguinte aborda o livro “Origem”, quinto volume da série Robert Langdon

Natural do Exeter, o norte-americano Dan Brown publicou o seu primeiro livro, Fortaleza Digital, em 1998, ao que se seguiram Ponto de Impacto e Anjos e Demónios, a primeira aventura protagonizada pelo simbologista de Harvard, Robert Langdon. O seu maior sucesso foi o polémico best-seller O Código da Vinci, mas os outros cinco livros também obtiveram um êxito estrondoso.

O sucesso foi tal que Dan Brown colocou os seus quatro primeiros livros na lista de mais vendidos do The New York Times em simultâneo. O mais recente romance, Origem, chegou a Portugal em outubro, pelas mãos da Bertrand Editora. Com 552 páginas e tradução de Nuno Castro, o novo livro foi apresentado em Portugal pelo próprio autor, que esteve presente no Centro Cultural de Belém no passado dia 15 de outubro.

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Fonte: http://voceetaolivro.com.br/2016/10/novo-livro-dan-brown-2017/

Origem é o livro de Dan Brown que menos gostei, mas dificilmente o poderei catalogar como uma desilusão. Bem mais otimista e menos inquietante que Inferno, o mais recente livro do autor norte-americano encontra-se no meio termo entre a riqueza de conhecimentos oferecida em O Código DaVinci e a aposta mais aprofundada no plot de O Símbolo Perdido.

Dizer que Dan Brown é mera leitura de entretenimento é negligenciar as toneladas de conhecimento que ele verte ao longo das suas páginas, sempre numa toada de perseguição e ritmo alucinante permeado pelo bom-humor que lhe é característico. Em Origem, não consegui deixar de rir aquando da referência ao “Já Passou” da Frozen, apenas um dos vários momentos leves que entremearam a perseguição mais soft a que Robert Langdon já foi sujeito.

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Fonte: https://www.bertrand.pt/ficha/origem?id=19198452

Neste livro, novamente protagonizado pelo famoso simbologista, Langdon é incitado pelo seu antigo aluno de Harvard, Edmond Kirsch, hoje um génio da computação, milionário e celebridade mundial, a aparecer no Museu Guggenheim de Bilbau, a fim de assistir a uma apresentação que, na sua ótica, irá mudar o mundo. Não irei revelar os segredos do livro, mas fica desde já advertido que continuar a ler esta opinião poderá influenciar bastante a tua experiência de leitura.

“Origem é o livro de Dan Brown que menos gostei, mas dificilmente o poderei catalogar como uma desilusão.”

O personagem central do livro, Edmond Kirsch, afirma ter descoberto a resposta para duas das perguntas mais inquietantes da Humanidade. “De onde vimos?” “Para onde vamos?” Robert Langdon pensa tratar-se de uma nova análise para estas velhas questões, certo da aversão do seu antigo aluno a qualquer espécie de religião, mas a forma como Kirsch o adverte que a sua descoberta mudará tão profundamente o pensamento mundial inquieta-o.

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Fonte: https://www.headstuff.org/humour/i-robert-langdon-4-friar/

Para coroar essa sensação, Kirsch compara a sua descoberta às de Darwin e diz ter-se encontrado com três líderes espirituais, o bispo católico António Valdespino, amigo próximo da família real espanhola, o rabino Yehuda Köves e o imã islâmico Syed al-Fadl, que ficaram tão aterrorizados com a sua descoberta, que o próprio bispo fez-lhe uma chamada telefónica ameaçadora. Ludibriando os três religiosos, Kirsch diz-lhes que revelará a verdade ao mundo um mês depois, mas em apenas três dias convida um naipe restrito de celebridades para comunicar a descoberta em pleno Guggenheim de Bilbau.

“Dizer que Dan Brown é mera leitura de entretenimento é negligenciar as toneladas de conhecimento que ele verte ao longo das suas páginas”

Robert Langdon depressa descobre que o anúncio será também reproduzido via online, para milhões de pessoas em todo o mundo, e que Kirsch o incluiu na apresentação. Através dos fones usados tradicionalmente como guias de museu, Langdon toma contacto com Winston, um afável acompanhante que depressa revela-se não como uma gravação, mas como uma Inteligência Artificial criada por Kirsch (cuja pronúncia britânica faz Langdon lembrá-lo de Hugh Grant) que não só guia o simbologista até à apresentação como parece ter um controlo remoto sobre todas as tecnologias à sua volta.

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Fonte: https://www.tripadvisor.co.uk/LocationPhotoDirectLink-g187454-d190276-i214301825-Guggenheim_Museum_Bilbao-Bilbao_Province_of_Vizcaya_Basque_Country.html

Quem também está presente no evento é Ambra Vidal, que não só é a diretora do museu, como a noiva do príncipe de Espanha, Julián. E é também a responsável pela inclusão no evento de um convidado de última hora: o almirante aposentado da Marinha Luís Ávila, cujos propósitos não parecem ser os melhores. Do Museu Guggenheim de Bilbau à Sagrada Família de Barcelona, passando pela Casa Milà e pelo Palácio da Zarzuela, Dan Brown dá-nos a conhecer uma variância de personagens intrigantes como o padre Beña, os membros da Guardia Real Díaz e Fonseca, o comandante Diego Garza ou a relações públicas da família real Mónica Martin, ao mesmo tempo que explora questões como o ateísmo, a Igreja Palmariana ou a credibilidade dos meios de Comunicação Social.

Personalidades famosas como Winston Churchill, Charles Darwin, António Gaudi, Joan Miró, Francisco Franco, Friedrich Nietzsche ou William Blake são referências de destaque ao longo da obra, fazendo de Origem uma leitura de pendor especulativo com uma forte componente de entretenimento, ao mesmo tempo que oferece imensas curiosidades e informações de cultura geral. Desta vez, Robert Langdon é acompanhado por Ambra Vidal numa aventura de crime e perseguição que não se distingue por aí além das anteriores, voltando à formula que lhe deu sucesso e da qual parecia estar a afastar-se com Inferno.

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Fonte: http://ultimas-curiosidades.blogspot.pt/2015/03/barcelona-tecnologia-3d-acelera.html

Com menos suspense, menos velocidade e menos conhecimentos surpreendentes, Origem parece uma simulação bastante menos brilhante de O Código DaVinci, desta feita passada em Espanha. A inovação passa, desta vez, por o livro estar virado para o futuro e para as tecnologias. De facto, o brilhantismo dedutivo de Robert Langdon é aqui ultrapassado pela Inteligência Artificial que acompanha os protagonistas e os salva de quase todos os problemas. Winston alia uma panóplia interminável de recursos a um bom humor refrescante, ainda assim senti muito mais inquietação do que empatia para com o personagem ao longo da narrativa.

“Na verdade, as grandes descobertas de Edmond Kirsch não beliscaram minimamente as crenças religiosas, e até expuseram a pouca fiabilidade da crença ateísta do personagem.”

De facto, Dan Brown desliga-se um pouco da História e parece fazer uma nova abordagem aos problemas discutidos por Isaac Azimov, enquanto faz as pazes com a Igreja. Se durante quase todo o livro parecemos estar a ser conduzidos para uma verdade inquietante que esmagará as religiões, acabamos por assistir a uma tentativa de conciliação entre a ciência e a religião. Na verdade, as grandes descobertas de Edmond Kirsch não beliscaram minimamente as crenças religiosas, e até expuseram a pouca fiabilidade da crença ateísta da personagem. Sem a sua intervenção, a simulação não teria lugar, pelo que deixa facilmente em evidência a necessidade de uma figura criadora.

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Fonte: https://spainattractions.es/la-pedrera-barcelona/

Quanto à descoberta futurista, gostei bastante da forma como foi exposta, embora não se possa dizer que seja uma surpresa para qualquer um nos dias que hoje se vivem. O cenário conciliatório exposto pela personagem é que acabou por entrar em contradição com tudo o que ela vinha defendendo, apesar de me ter agradado a perspetiva otimista que sentenciou o livro.

Acabou por ser uma ótima leitura, apesar de todas as lacunas supracitadas, uma aventura viciante com uma mão cheia de personagens e debates interessantes. Mais uma vez, o vilão não foi muito fácil de encontrar (apesar das pistas flagrantes) e as cenas na Sagrada Família foram as melhores do livro; posso dizer, as únicas que me fizeram sentir o hype que senti durante a leitura dos livros anteriores do autor. Origem não trouxe nada de novo, mas voltou a provar que Dan Brown sabe conservar o seu público.

Avaliação: 7/10

Robert Langdon (Bertrand Editora):

#1 Anjos e Demónios (lido não comentado)

#2 O Código DaVinci (lido não comentado)

#3 O Símbolo Perdido (lido não comentado)

#4 Inferno

#5 Origem

 

 

 

2 comentários em “Estive a Ler: Origem

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