Estive a Ler: Liberdade e Revolução, Império das Tormentas #2


— Tens andado a contar histórias sobre mim, Hume?

O texto seguinte aborda o livro “Liberdade e Revolução”, segundo volume da série Império das Tormentas

Após a chegada de Poder e Vingança, o primeiro volume do Império das Tormentas de Jon Skovron, em março, eis que a Saída de Emergência não perde tempo em lançar o segundo volume, publicado pelo autor em fevereiro deste ano. Conhecido dentro do género Young Adult, onde escreveu livros como Misfit, Man Made Boy e This Broke Wondrous World, Skovron sai da sua área de conforto para conceber o Império das Tormentas, uma trilogia de fantasia adulta passada num mundo onde piratas e feiticeiros coexistem com hostilidade.

Jon Skovron tem vários contos publicados em revistas como a ChiZine e a Baen’s Universe, assim como em antologias como Summer Days e Summer Nights, da Harlequin Teen. Vive com os dois filhos e os gatos nas proximidades de Washington, nos Estados Unidos. Bane and Shadow, o segundo volume de Império das Tormentas foi publicado pela Saída de Emergência como Liberdade e Revolução, um livro de 432 páginas com tradução de Maria João Trindade.

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Fonte: https://www.orbitbooks.net/2015/07/23/meet-jon-skovron/

Quando falamos de fantasia é difícil não comparar um autor com outro, mas por vezes tal empresa é ingrata. O Império das Tormentas de Jon Skovron dificilmente seria comparado a um Robert E. Howard ou a uma Robin Hobb, uma vez que tanto as temáticas como o estilo são incomensuravelmente distintos. Agora, se estivermos a falar de um Scott Lynch ou de um Brandon Sanderson, são nomes que me vêm à cabeça de imediato, tal a semelhança a nível de ambiente e plot utilizados. Infelizmente, ao estabelecermos tal comparação, Jon Skovron fica a perder por larga escala.

Alquimistas malignos, ninjas, piratas, gangues, ladrões e prostitutas são alguns dos ingredientes que Skovron nos oferece neste Império das Tormentas. O worldbuilding tem grande qualidade e a ambientação é das que mais me agradam neste género de fantasia. O que falta ao autor para chegar ao nível de alguns dos melhores escritores da nova geração é mesmo mais credibilidade, senso de continuidade narrativa e um maior propósito em fazer o leitor comprar a história. Mas… já lá vamos. Sinceramente, acho que este segundo volume trouxe um salto qualitativo em relação ao primeiro.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/liberdade-e-revolucao/

A história de Liberdade e Revolução começa um ano após os acontecimentos narrados em Poder e Vingança. Se não leste o primeiro volume, aviso que este texto trará spoilers. Se podíamos esperar ver o Ruivo amarrado ou feito prisioneiro numa cela às mãos dos biomantes, encontramo-lo mais endiabrado e irreverente do que nunca. Ele é usado pelos biomantes e treinado por eles, mas vive uma tranquila vida de lorde no Palácio Imperial de Pico da Pedra. Aliás, os servos do Imperador encarregaram-se de eliminar o seu avô para atribuir-lhe o título de Lorde Pastinas mas, apesar da rédea curta, Ruivo passeia-se pelo Palácio e redondezas a seu bel-prazer.

Conhecemos também a família imperial, de quem nem sequer conhecíamos os nomes no volume inaugural da história. Durante o ano que ninguém viu, o protagonista – filho de uma pintora e de um prostituto, que sobrevivera nos bairros da lata de Círculo do Paraíso após a morte destes – tornou-se amigo íntimo do Príncipe Leston. O príncipe é tímido e inseguro, para além de não conhecer muito do que se passa para lá das suas próprias paredes e nem suspeitar da malignidade dos biomantes. Sim, os alquimistas do Imperador fazem experiências com homens e animais e sequestram pessoas em todos os cantos do Império para esse efeito.

“Alquimistas malignos, ninjas, piratas, gangues, ladrões e prostitutas são alguns dos ingredientes que Skovron nos oferece neste Império das Tormentas.”

Já o Imperador Martarkis é praticamente apenas a casca de um homem, com mais de um século de vida. Usou o poder dos biomantes para se rejuvenescer, permitindo-lhe conceber um filho que prolongasse a sua dinastia, mas nos dias de hoje permite que o Conselho de Biomantes faça a gestão do Império a seu bel-prazer. A fragilidade do Imperador é conhecimento da população, tanto que várias figuras da cidade tramam uma conspiração para depor o imperador e colocar no trono o seu filho, Leston. Isto fez-me lembrar Elantris, muito embora a atitude deste príncipe não se equipare à da personagem de Brandon Sanderson.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/497577458804169268/

Leston é gentil mas solitário, e tenta desesperadamente fugir ao cerco das suas pretendentes, usando Ruivo para o ajudar. O que Ruivo não previa era que ele próprio caísse na pretensão de uma das damas da corte. Com um humor apurado e um espírito leve, lady Merivale Hempist é uma das melhores personagens do livro e aquela que mais me agradou. Ela ajudará Ruivo a fugir de apuros… quando não for ela o seu maior apuro. Já a mãe de Leston, a Imperatriz Pysetcha, refugiou-se em Ponta do Ocaso, na península, possivelmente para estar longe das tramas dos biomantes.

Um dos principais motivos pelo qual as ações aberrantes dos biomantes são encaradas tão levianamente é a perspetiva de salvaguarda que eles tentam demonstrar. Não são apenas um grupo de alquimistas poderosos tentando dominar o mundo com a sua prepotência e com as suas artes, eles acreditam e levam a acreditar, que o seu comportamento é uma defesa para o futuro. As suas experiências têm como resultado desejável toda a sorte de recursos para proteger o Império dos inimigos. Segundo a profecia do Mago Negro, um povo estrangeiro virá para os esmagar a todos, e o único povo estrangeiro com uma civilização tão sofisticada que fosse capaz de ombrear com o Império é Aukbontar.

Por isso, quando Pico de Pedra recebe uma delegação de Aukbontar com o intuito de encetar alianças com o Império, delegação essa encabeçada pela embaixadora Nea Omnipora e por um curioso estudioso da flora chamado Etcher, os biomantes começam a mover os seus cordelinhos para os silenciarem. Cabe ao príncipe Leston e a Ruivo enfrentá-los, mesmo que o preço a pagar seja, quiçá, demasiado caro.

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Fonte: https://www.pinterest.com/explore/arte-pirata/

A mulher por quem Ruivo se apaixonou, a guerreira Vinchen Esperança Sombria, procura desesperadamente encontrar soluções para resgatar Ruivo às mãos dos biomantes. Durante o ano que se passou espalhou o terror pelos mares do Império, sob o título Terrível Desgraça, acompanhada por Brigga Lin, o biomante que mudara de sexo e desafiara a ordem, e pelos velhos amigos de Ruivo, Urtigas, Grosso, Sadie, Ausente Finn e o primo Alash. Ao conquistarem o navio Guardião, capitaneado pelo corajoso capitão Brice Vaderton, Grosso e Urtigas reconhecem o pequeno Jillen como Jilly, uma menina de Círculo do Paraíso que se fizera grumete para procurar a mãe.

“Sem a necessidade de apresentar a sua linguagem peculiar, a introdução das falas típicas daquele mundo pareceu-me muito mais fluída neste Liberdade e Revolução.”

A guerra contra os biomantes, porém, ainda nem sequer começara. Quando surgem evidências de que os biomantes andam a sequestrar centenas de meninas para formar exércitos sobrenaturais, Esperança Sombria recorre à Velha Yammy, a velha amiga de Ruivo com o dom da adivinhação, mas também ela havia desaparecido. A maré leva Urtigas e Grosso de novo a Círculo de Paraíso, com o intuito de recrutar gente para a sua causa, mas tudo o que encontram é morte e vingança, enquanto Esperança procura recuperar a fé e a sua própria esperança.

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Fonte: https://pbario.deviantart.com/art/Pirate-attack-114247588

A nível de escrita, a gíria criada por Jon Skovron para o seu mundo não teve tanto impacto neste livro como no primeiro. Não me parece, porém, que tal se deva somente ao entranhar da mesma na minha mente. Sem a necessidade de apresentar a sua linguagem peculiar, a introdução das falas típicas daquele mundo pareceu-me muito mais fluída neste Liberdade e Revolução.

“Em suma, Liberdade e Revolução é um livro descomplexado e sem grandes propósitos, mas que se lê muito bem.

De facto, este volume é todo ele mais fluído e maduro do que o primeiro, assim como exibe uma aura mais negra. As personagens apresentadas no primeiro volume são bem desenvolvidas, e as adições ao elenco são refrescantes e bem-vindas. Adorei Merivale, Heme, Vassoura e a bela Lymestria, assim como a história do passado de Urtigas e os deliciosos Moxy Poxy e Senhor Chapeleira. Toda a ação foi intensa e o ritmo elevadíssimo. E somos surpreendidos. Vimos personagens importantes a morrer.

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Fonte: https://za.pinterest.com/pin/669980882036219167/

O livro só não é aquela coca-cola toda porque, de facto, se Ruivo continua carismático e fora da caixa, por vezes de tal forma exagerado que faz o livro parecer um mangá, Esperança Sombria continuou sem expressão, sem a fibra que me parecia ser necessária para realizar tudo o que ela realizou. Já Brigga Lin, que era suposto ser outra personagem mega badass, passou-me completamente ao lado. Não gostei dela nem um pouco.

A verdade é que, se a magia fosse explicada e não parecesse tão básica e fácil, e se o autor não se focasse tanto nos problemas amorosos e lamechices das personagens, este seria um livro extraordinário. Se já havia gostado da Batalha dos Três Cálices no primeiro volume, os núcleos de Círculo do Paraíso, de Pico da Pedra e o discorrer de batalhas navais foram todos eles bem desenvolvidos neste novo livro. Em suma, Liberdade e Revolução é um livro descomplexado e sem grandes propósitos, mas que se lê muito bem.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

Império das Tormentas:

#1 Poder e Vingança

#2 Liberdade e Revolução

#3 Destruição e Redenção

25 comentários em “Estive a Ler: Liberdade e Revolução, Império das Tormentas #2

  1. Viva,

    “De facto, este volume é todo ele mais fluído e maduro do que o primeiro, assim como exibe uma aura mais negra”

    Não tinha gostado muito do primeiro volume mas depois de ler o teu comentário talvez o irei ler, a ver vamos e até lhe deste um 7/10 hummm

    Abraço e boas leituras

    1. Já tinha dado 7/10 ao primeiro volume, mas de facto gostei mais deste.

      Abraço e boas leituras.

Comentário

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