Estive a Ler: O Deus no Sarcófago


Arus, o vigia, sentiu as mãos que seguravam a besta tremerem, e pingos de suor pegajoso surgirem à flor da pele ao descobrir o corpo tombado no chão de mármore diante de si. Não lhe agradava nada deparar-se com a Morte naquele local desolado durante a noite.

O texto seguinte aborda o conto “O Deus no Sarcófago”

“The God in the Bowl” é um dos contos originais do herói de espada & feitiçaria Conan, O Cimério, escrito pelo autor americano Robert E. Howard. Publicado somente após a morte do autor, o conto passa-se na Era Hiboriana e conta como Conan rouba um museu do Templo de Kallian Público e, ao fazê-lo, se vê enredado numa sequência de acusações e de eventos bizarros.

A história foi publicada pela primeira vez em setembro de 1952 na Space Science Fiction e foi reproduzida muitas vezes desde então. A versão que li, traduzida por Luís Filipe Silva para a coletânea A Rainha da Costa Negra das Edições Saída de Emergência em setembro de 2007, foi chamada “O Deus no Sarcófago”.

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Fonte: https://io9.gizmodo.com/what-is-best-in-life-to-see-brand-new-conan-the-barbar-1753300337

Continuo então a participar no ciclo de leituras em volta de Robert E. Howard, um dos meus autores de eleição, que dura até meados de dezembro. “O Deus no Sarcófago” é mais um belo exemplo daquilo que o autor americano conseguiu fazer com o seu protagonista. Mais uma vez, Howard deixa claro que foi muito mais que o pai de um herói fanfarrão, dançando entre o policial e o horror com carisma e um talento irrevogável.

“Uma noite no município de Numalia, a segunda maior cidade de Nemedia, Conan entra num lugar incrível: um edifício antiquíssimo que os leigos chamavam Templo de Kallian Publico.”

A proficiência de Howard salta à vista neste conto, onde não só testemunhamos a ginástica narrativa de Howard com um certo encanto não deliberado, como compreendemos como este herói pulp se consegue transmutar nas mais diversas contingências. Leio e releio a obra de Howard e só consigo dizer que Conan é muito mais do que os media fizeram chegar até nós.

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Fonte: https://grimdarkalliance.com/2016/12/07/the-god-in-the-bowl-by-robert-e-howard/

Uma noite no município de Numalia, a segunda maior cidade de Nemedia, Conan entra num lugar incrível: um edifício antiquíssimo que os leigos chamavam Templo de Kallian Publico. Ele planeia roubar o museu do templo, mas vê-se arrastado para uma investigação de assassinato quando o cadáver estrangulado do dono e curador do templo é encontrado por um vigia noturno.

Embora Conan seja o principal suspeito, tanto o magistrado investigador, Demetrio, como o prefeito da polícia, Dionus, oferecem-lhe o benefício da dúvida, permitindo-lhe não só permanecer livre, como também manter a espada enquanto os seus homens procuram provas que o condenem ou absolvam no interior daquelas instalações sombrias. Muita dessa tolerância deveu-se, porém, à imponência e brutalidade que a figura de Conan lhes inspirava.

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Fonte: https://guilhermeon.wordpress.com/page/2/

À medida que a investigação se desenrola, o magistrado é informado por Promero, funcionário do Kallian Publico, que o templo recebeu da Stygia um estranho sarcófago, semelhante a uma tigela, que encontram aberto e vazio. Diz-se tratar-se de uma relíquia inestimável, encontrada entre os túmulos escuros muito abaixo das pirâmides estigias e enviada para Caranthes de Hanumar, sacerdote de Ibis, “por causa do amor que o remetente prestava ao sacerdote de Ibis”.

Apoderando-se desse artefacto raro, os funcionários do Templo acreditavam que o sarcófago continha o lendário diadema dos reis gigantes, cujos parentes primordiais moravam naquela terra do sul escuro antes que os ancestrais dos stygianos lá chegassem. No entanto, claramente, o objeto no interior não era qualquer diadema, mas algo muito mais terrível.

“Sem adjetivos para além do muito satisfatório, considero este um dos contos de Robert E. Howard que mais me surpreendeu”

Enquanto o magistrado e os seus homens se preocupavam em investigar sobre tal informação, a hipótese de que o conservador do Templo tenha sido atacado por algo inumano ganha forma, ainda que as suspeitas sobre Conan não sejam afastadas de todo. Com vários dedos apontados para si, Conan revela o seu propósito naquela noite e prepara-se para enfrentar o mal ali encerrado com a sua espada.

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Fonte: https://whitedevilblog.wordpress.com/2014/03/26/frank-frazetta-chained/

Já tinha lido este conto há tantos anos, que não me lembrava sequer da história. Por isso, foi com a surpresa de quem lê algo pela primeira vez que me senti enredado neste conto, suspeitando de tudo e de todos, até mesmo do protagonista. A história começa como um policial envolvente, com vários detalhes e pormenores a serem considerados, fazendo-me lembrar dos romances de investigação criminal do século passado.

De uma aura Agatha Christie, o conto toca o exótico, o suspense, a aventura e o horror lovecraftiano, de forma consistente e, para lá de bem escrita, credível. Sem adjetivos para além do muito satisfatório, considero este um dos contos de Robert E. Howard que mais me surpreendeu, embora não seja das melhores histórias curtas do autor norte-americano.

Avaliação: 8/10

Um comentário em “Estive a Ler: O Deus no Sarcófago

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