Estive a Ler: Caminho das Sombras, Anjo da Noite #1


Um derramador era mais ou menos como um assassino… da mesma maneira que um tigre era mais ou menos como um filhote de gato. Entre os derramadores, Durzo Blint era sem dúvida o melhor.

O texto seguinte aborda o livro “Caminho das Sombras”, primeiro volume da série Anjo da Noite

The Way of Shadows foi publicado em 2008 pela Orbit Books. Livro de estreia de Brent Weeks, o volume inaugural da trilogia The Night Angel foi impresso em 10 idiomas diferentes e adaptado para uma graphic novel da Yen Press. Natural do Montana, Brent vive e trabalha no Oregon, e é considerado um dos nomes emergentes da fantasia atual. The Way of Shadows foi nomeado para o David Gemmell’s Legend Award em 2009.

O romance não foi publicado em Portugal, mas chegou até nós através da editora brasileira Arqueiro, que lançou o primeiro volume da trilogia Anjo da Noite com o título Caminho das Sombras, tendo já lançado o segundo volume em 2017. Com um total de 432 páginas, a versão pt-br tem tradução de Fernanda Abreu.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/540713498980995764/

Este livro tem vários condimentos interessantíssimos. Para além do cenário me parecer um pouco um Locke Lamora no Japão, os personagens têm imenso potencial. A escrita não impressiona, mas é bem agradável. Brent Weeks teve aqui um livro de estreia cheio de carisma e de personalidade, não deixando de lado uma revoada de plot-twists bem agradáveis – alguns expectáveis, outros meio forçados, mas… Vamos spoilar contextualizar.

A trilogia Anjo da Noite passa-se num mundo ficcional chamado Midcyru, mas se aproximarmos o nosso monóculo podemos concentrar-nos num estado chamado Cenária. Começamos por explorar as Tocas, os bairros decrépitos da cidade. É ali que encontramos Azoth, um menino sem eira nem beira com um sentimento raro de proteção para com os seus semelhantes, o melhor amigo Jarl e a inócua Menina-Boneca, por quem nutre uma dedicação sem paralelo.

“É completamente cego para tudo isto que o pequeno Azoth quer tornar-se um derramador, e pede para que Blint faça dele seu aprendiz”

Marginalizado pela sociedade e vendo o seu maior rival, um rapaz medíocre e violento chamado Rato, à beira de ganhar um papel de destaque à frente das gangues, O Punho, Azoth decide mudar de vida. Nesse momento, testemunha um massacre levado a cabo pelo lendário Durzo Blint, um derramador, e sabe de imediato que deseja tornar-se como ele. Um derramador é basicamente um mercenário, com a especial diferença de que a sua arte é tão infalível que parece óbvio que ele usa algum tipo de magia.

Sem título
Fonte: http://www.editoraarqueiro.com.br/livros/caminho-das-sombras/

E usa mesmo. A magia do Talento é a mais utilizada neste primeiro volume de Anjo da Noite, e para que funcione ela basicamente necessita que três parâmetros se ajustem. A primeira exigência é a glore vyrden, a centelha de vida humana que talvez todos possuam, mas para a maioria pode ser tão pequena que ninguém a identifique. Depois, naqueles que possuem a glore vyrden, é necessário que tenham um canal condutor, para pôr essa centelha em ação. Mas ninguém pode ser considerado um mago se não tiver o dom de absorver a luz do sol ou do fogo. Só com esse dom consegue repor a glore vyrden sempre que a utiliza.

“A premissa lembra Scott Lynch, a magia lembra Robin Hobb, algumas cenas lembram George R. R. Martin

Aqueles que têm um canal condutor bloqueado, porém, podem ainda tornar-se magos, porque toda a regra tem exceção. Trata-se do ka’kari, um artefacto poderosíssimo que torna o seu portador imortal. Existem seis desses no mundo de Midcyru, mas é atrás de um em particular que parte da trama de Caminho das Sombras gira, até porque o Deus-Rei Garoth Ursuul de Khalidor também entra na corrida pelo “objeto”.

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Fonte: http://nightangel.wikia.com/wiki/Kylar_Stern

Existe ainda um tipo de magia muito interessante chamado de Vir, usado pelos chamados bruxos (meisters, vürdmeisters e a prole do Deus-Rei). Basicamente, o modo de uso baseia-se numa oração à deusa Khali, que sorve a glore vyrden dos utilizadores e volta para eles através de tatuagens, através das quais podem usar a quantidade de Talento que necessitem.

É completamente cego para tudo isto que o pequeno Azoth quer tornar-se um derramador, e pede para que Blint faça dele seu aprendiz. Durzo Blint é assim o maior destaque de entre os derramadores. Eles seguem um código de ética profissional muito restrito, porque são pagos para matar, mas estão proibidos de encetar qualquer relação afetiva, uma vez que tal tornar-se-ia um ponto fraco a que os seus inimigos facilmente teriam acesso.

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Fonte: https://offbeatworlds.deviantart.com/art/Night-Angel-645839804

Blint recusa-se determinantemente a fazer de Azoth um derramador, mas acaba por aceder à insistência do rapaz e lança-lhe um desafio para que concorde em fazer dele seu aprendiz. Para Azoth, a tarefa em causa pode ser difícil, mas recompensadora a todos os níveis, principalmente depois que o seu rival despedaça o rosto de Menina-Boneca, deixando-a entre a vida e a morte. O rapaz aceita o repto e assassina Rato, obrigando Durzo Blint a fazê-lo mudar de identidade. Azoth morre para o mundo, tornando-se um assassino chamado Kylar Stern.

“Brent Weeks consegue ser fluído e oferecer uma bela panorâmica de História e Arquitetura sem ser maçante.”

O Sa’Kagé é o submundo de Cenária, que mexe meticulosamente nos destinos de todos os membros da comunidade, do mais andrajoso varredor de ruas ao próprio rei Aleine IX. O Sa’Kagé é liderado por um Shinga, papel importante que pode revelar-se bastante perigoso para aquele que lhe veste a pele. Há ainda o conselho chamado de Os Nove, em que cada um desempenha uma função no controlo de uma atividade em particular. Mama K, a melhor amiga de Durzo Blint e uma espécie de conselheira sentimental de Azoth/Kylar, é a responsável pelos bordéis da cidade.

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Fonte: http://www.gaiaonline.com

Há ainda Logan Gyre, o filho de um duque que se torna o melhor amigo de Kylar. Com uma educação refinada e um porte físico admirável, Logan torna-se o centro da atenção de Solon Tofusin, Dorian e Feir, três amigos treinados na academia de Talento, o Sho’cendi, principalmente graças às profecias de Dorian, que entrelaçam Logan e Kylar numa luta pelos destinos da própria Cenária.

Para além destes personagens, há muitos outros com pontos de vista, o Conde Drake, o General Brant Agon, Terah Grasin, Neph Dada, o próprio Garoth Ursuul e o seu filho, o que transformou a narrativa numa manta de retalhos sem ponta por onde se pegasse. A própria trama parece beber de forma descarada de várias fontes. A premissa lembra Scott Lynch, a magia lembra Robin Hobb, algumas cenas lembram George R. R. Martin (inclusive um Casamento Vermelho quase passado a papel químico).

“O imenso leque de personagens sem grande significado com pontos de vista acabou por prejudicar e muito o livro no seu todo. Ainda assim, é uma leitura que vale a pena.”

E, infelizmente, ficou muito pouco de Weeks, ou pelo menos algo que o distinguisse pela positiva. Os dilemas amorosos e o tempo perdido em paixões assolapadas bem pouco credíveis tirou muita da “magia” do livro e deu-lhe uma aura juvenil. Ainda assim, o ambiente que ele oferece, as cenas deliciosamente sangrentas e a qualidade da escrita compensam o resto. Brent Weeks consegue ser fluído e oferecer uma bela panorâmica de História e Arquitetura sem ser maçante. Os diálogos são maioritariamente bons.

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Fonte: https://vynthallas.deviantart.com/art/Elene-Cromwyll-557638291

Houve uma sequência em especial que me fez cair em afeição por este livro. O envolvimento na festa em que Kylar reencontra a sua paixão de infância e luta com o seu melhor amigo, tudo para trapacear um homem que acaba por não ser quem ele pensava. A correria atrás do artefacto foi para mim bem mais saborosa que os plot-twists finais, que me soaram confusos e forçados.

Quanto ao Anjo da Noite, trata-se de uma divindade em quem os derramadores acreditam, mas o próprio Kylar vem a fundir a sua imagem à dele ao longo da narrativa – uma pequena presunção. Espero ver mais e melhor deste personagem ao longo do segundo volume, e ver outros personagens, como Elene e Jarl, por exemplo, melhor desenvolvidos. O imenso leque de personagens sem grande significado com pontos de vista acabou por prejudicar e muito o livro no seu todo. Ainda assim, é uma leitura que vale a pena.

Avaliação: 6/10

Anjo da Noite (Arqueiro):

#1 Caminho das Sombras

#2 À Margem das Sombras

2 comentários em “Estive a Ler: Caminho das Sombras, Anjo da Noite #1

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