Estive a Ler: Deuses Americanos


Posso acreditar em coisas que são verdade e posso acreditar em coisas que não são verdade.

O texto seguinte aborda o livro Deuses Americanos

Uma das obras mais aclamadas de Neil Gaiman, Deuses Americanos foi o quarto romance publicado pelo escritor britânico. Lançado em 2001 pela Headline no Reino Unido e pela William Morrow nos E.U.A., com um total de 480 páginas, o livro chegou às livrarias nacionais em 2009.

A edição portuguesa foi publicada pela Editorial Presença, com um total de 493 páginas. O livro venceu os prémios Hugo e Nebula, ambos na categoria de Melhor Romance, em 2002, e foi adaptado para série de televisão pelo canal Starz em 2017, com Ricky Whittle e Ian McShane nos papéis principais.

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Fonte: http://vsbattles.wikia.com/wiki/Mr._Wednesday

Antes de vos falar de Deuses Americanos, é preciso estabelecer dois pontos. Primeiro: fantasia urbana está longe de ser a minha praia. É um segmento da fantasia que, muito sinceramente, não me diz nada. Segundo: tenho uma relação de amor e ódio por Neil Gaiman. Adorei alguns livros do autor, como a coletânea Coisas Frágeis, que inclui, entre outros, os contos “Um Estudo em Esmeralda” e “O Problema de Susan”, assim como a sua mais recente publicação, Mitologia Nórdica, foi uma excelente leitura.

“O autor foi bem sucedido (…) na crítica ao capitalismo, ao consumismo exacerbado, mas também aos velhos costumes e à falta de adaptação aos tempos modernos.”

No entanto, passei alguns livros a reconhecer-lhe mérito enquanto, interiormente, ficava com um gosto azedo na garganta. Tanto o livro Bons Augúrios, que escreveu a quatro mãos com Terry Pratchett, como a série em quadradinhos Sandman, ou mesmo o conto Como o Marquês Perdeu o Seu Casaco, foram leituras bem vazias para mim.

Não que não os tenha compreendido. Percebi a intenção do autor, as metáforas nas entrelinhas, os jogos de duplos sentidos, e apreciei realmente a sua escrita cuidada. Pura e simplesmente, pareceu-me tão rebuscado como pouco desenvolvido. Em Deuses Americanos, encontrei exatamente o mesmo problema.

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Fonte: https://www.presenca.pt/livro/deuses-americanos/

Este livro fala de deuses, mas não só. Gaiman colocou em posição de esgrima os velhos deuses dos antigos panteões contra os novos deuses da era moderna (consumismo, moda, tecnologia, etc…). O autor foi bem sucedido nesse quesito, na crítica ao capitalismo, ao consumismo exacerbado, mas também aos velhos costumes e à falta de adaptação aos tempos modernos.

“A escrita deliciosa de Neil Gaiman rendeu-me alguns bons momentos como leitor, e gostei da história.

Também as próprias origens da América e o esquecimento colectivo do nosso passado comum foi abordado, com êxito. Os vários interlúdios mostraram um pouco de como os deuses chegaram e foram esquecidos, em todo o mundo, culminando no “Império Americano” que se vive nos dias de hoje.

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Fonte: https://www.starz.com/series/americangods

A escrita deliciosa de Neil Gaiman rendeu-me alguns bons momentos como leitor, e gostei da história. Simplesmente ficou a sensação de muito pouco. As deambulações infinitas do protagonista serviram somente para embarcarmos numa road trip pela América e conhecermos um elenco extenso de personagens, dos “mortais” Chad Mulligan, Laura, Sam e Audrey, aos “deuses” Czernobog, Jacquel, Ibis, Nancy e Quarta-Feira, entre outros. Termino este livro a achá-lo uma experiência de leitura interessante, mas que poderia ter sido contada em três ou quatro capítulos, ao invés de vinte, que a coisa era a mesma.

“No fim, fica a ideia que este Deuses Americanos é uma narrativa tão patética, que é quase boa.”

Sombra foi um protagonista fraco e sem grande interesse, praticamente um títere que era empurrado de um lado para o outro e lá ia ele, sem grandes indagações. Foi a participação efetiva de Quarta-Feira que lhe deu vida, assim como ofereceu uma conotação cómica à narrativa.

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Fonte: http://ateremos.com/american-gods-serie-clip-mr-wednesday-shadow-moon/

A história acompanha Sombra desde que é libertado de uma prisão, quando lhe comunicam que a esposa, Laura, faleceu, e leva-o numa espiral de acontecimentos onde, pouco a pouco, junta as peças de um puzzle e descobre que está a ser alvo de uma grande cabala.

Conhecemos uma morta-viva (dos pormenores mais alicantes do livro), uma família russa com comportamentos no mínimo estranhos, uma não menos estranha trindade que gere uma agência funerária, uma moeda especial, um carrossel surpreendente e, claro, deuses e mais deuses. Há cenas bastante irreais e embaraçosas, como o protagonista a viajar entre espaços montado num pássaro-trovão.

No fim, fica a ideia que este Deuses Americanos é uma narrativa tão patética, que é quase boa. Possivelmente a ideia de Gaiman era mesmo essa, mas uma série de tramas melhor amarradas traria toda uma outra maturidade à narrativa. O livro não é mau, colecciona vários apontamentos interessantes e a ideia funciona, mas parece-me mais uma das obras do autor que foram francamente superestimadas ao longo dos anos.

Avaliação: 5/10

Um comentário em “Estive a Ler: Deuses Americanos

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