Estive a Ler: A Filha do Gigante de Gelo


O fragor metálico das espadas extinguira-se, o grito da chacina calara-se; reinava agora o silêncio na neve manchada de vermelho. O sol pálido, que cegava com o seu brilho sobre os campos gelados e as planícies cobertas de neve, emitia raios prateados através das couraças gastas e das lâminas quebradas, no campo onde jaziam os mortos.

O texto seguinte aborda o conto “A Filha do Gigante de Gelo”

“The Frost-Giant’s Daughter” é um conto de fantasia protagonizado por Conan O Cimério, escrito pelo autor norte-americano Robert E. Howard. Passado na fictícia Era Hiboriana, o conto foi inicialmente rejeitado pelo editor da revista Weird Tales, Farnsworth Wright, que achou que a aventura não se ajustava à imagem passada até ali pelo herói cimério. Howard viu-se obrigado a mudar o título do conto e o nome da personagem principal. No entanto, após a sua morte, o conto foi publicado na sua forma original.

A história mostra Conan a perseguir o espetro de uma bela mulher através das neves congeladas da região fictícia de Nordheim. Em Portugal, o conto foi publicado pela Saída de Emergência na coletânea A Rainha da Costa Negra em 2007, com tradução de Sérgio Gonçalves. A tradução tem o título “A Filha do Gigante de Gelo”.

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Fonte: http://www.sffaudio.com/tag/gollancz/

Este conto prova que, mesmo quando as escolhas de um bom escritor são muito questionáveis, é difícil que o resultado final seja mau. De facto, não gostei muito de “A Filha do Gigante de Gelo”, o que não faz dele um mau conto. A escrita de Howard delicia-me seja em que forma for e, neste conto, foi ela – a escrita – o que me fez aproveitar a leitura.

A Filha do Gigante de Gelo é a primeira história de Conan em termos cronológicos.”

O conto é pequeníssimo, e ainda bem, com um princípio, um meio e um fim de arestas bem polidas. Estruturalmente coeso, transmite um ambiente de frio resultante do cenário gelado, com referências a vikings, como pela aura de morte e desolação que resultam de uma batalha. A história em si, no entanto, não me surpreendeu nem agradou.

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Fonte: http://imaginante.artstation.com/projects/vd2b3

“A Filha do Gigante de Gelo” é a primeira história de Conan em termos cronológicos. O herói encontra-se num local gelado de Nordheim, a norte da Ciméria. É relatado o seu passado recente, quando no decorrer da sua viagem se vê atirado para uma batalha violenta entre homens do norte numa planície desolada. Uma batalha entre os Aesir e os Vanir, que resulta numa autêntica carnificina. Não queres saber a história? Então podes ficar por aqui.

“A Ciméria é um território comummente apontado “a norte”, e este conto mostra a aridez gelada das terras que lhe são setentrionais.”

Conan vence um viking de cabelos vermelhos, mas cai exangue de forças no campo de batalha. É ali que avista uma mulher assombrosamente bela, quase nua, que se diz chamar Atali. Deslumbrado pela nudez da mulher, vê-se alvo dos seus insultos, que o impelem a persegui-la quando ela se afasta. A perseguição ocorre nas neves por longos e longos quilómetros. Conan pretende capturá-la, mas acaba vítima de uma armadilha terrível.

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Fonte: https://clashatdevilsreef.wordpress.com/2013/10/15/the-frost-giants-daughter/

O logro montado para o encurralar parece chamar o animal que há em si, fazendo Conan atacar mortalmente alguns dos seus inimigos e capturar a mulher. Ela grita para que o seu pai, Ymir, a salve. E, pouco depois, desaparece num raio que transforma completamente a paisagem onde Conan se encontrava.

“Foi talvez a história mais fraca que li de Howard, mas ainda assim a sua escrita poética mais uma vez não desilude.

O herói percebeu que a bela mulher não era mais do que a filha do Gigante de Gelo Ymir, e cai sem consciência. Quando acorda, está de novo no cenário de batalha, por entre os cadáveres. Vários dos seus companheiros Aesir abordam-no e percebem que está vivo, salutando-o pela sua sorte. Conan julga ter sonhado, mas ao encontrar o véu de Atali, percebe que a experiência vivenciada não foi um sonho.

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Fonte: https://ifanboy.com/articles/ifanboy-upstarts-ethan-wright/

Tal crença é partilhada por um sujeito de entre os Aesir, que diz ter já testemunhado semelhante visão. Este é um dos contos mais etéreos e menos credíveis do mundo de Conan, talvez por isso eu não tenha gostado tanto dele como da maioria. Ainda assim, vale por mostrar uma nova visão sobre Conan, não só um lado mitológico como por explorar uma área geográfica pouco visitada. A Ciméria é um território comummente apontado “a norte”, e este conto mostra a aridez gelada das terras que lhe são setentrionais.

Robert E. Howard já havia escrito várias histórias sobre vikings, muito embora eu nunca tenha lido nenhuma, mas o enredo de “A Filha do Gigante de Gelo” foi abertamente inspirado na obra de Thomas Bulfinch, não só a lenda de Atalanta que pode ser lida em The Outline of Mythology, como fez uma inversão de papéis da história de Daphne e Apollo. Foi talvez a história mais fraca que li de Howard, mas ainda assim a sua escrita poética mais uma vez não desilude.

Avaliação: 5/5

Um comentário em “Estive a Ler: A Filha do Gigante de Gelo

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