Estive a Ler: Se Acordar Antes de Morrer


Peço informações suplementares. Onde estou? Onde está o meu Dono? Porque é que ninguém quer brincar comigo?

O texto seguinte aborda o livro Se Acordar Antes de Morrer

Ler João Barreiros é estar disposto, goste-se ou não do estilo, linguagem e conteúdo, a conhecer o melhor da ficção científica escrita na língua de Camões. Se Acordar Antes de Morrer foi publicado pela Edições Gailivro em 2010, incluindo vários contos do autor nacional. A coletânea faz parte da Coleção 1001 Mundos, que colige os mais variados livros de Ficção Especulativa publicados pela editora.

Co-fundador da Simetria e da Épica, João Barreiros destacou-se como escritor, editor e crítico de ficção científica. Professor de filosofia, venceu por mais de uma vez o prémio Nova, que reconhece os melhores contos publicados na América do Sul.

Não é novidade que sou admirador do trabalho de João Barreiros. Acho que, para qualquer autor de Ficção Especulativa nacional ele é uma referência, quanto mais não seja pela luta constante que trava, não só para a expansão da FC cá dentro, como para a promoção da escrita nacional no estrangeiro. A sua carreira literária passa sobretudo por histórias curtas, contos e noveletas, e posso dizer que já li uma boa parte do seu trabalho.

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Fonte: https://nit.pt/coolt/livros/joao-barreiros-star-wars-um-filme-fantasia-putos

Terrarium, o romance em mosaicos que escreveu com Luís Filipe Silva, foi lançado numa versão melhorada em 2016, resultando na minha melhor leitura do ano passado escrita por autores nacionais. Mas é de Se Acordar Antes de Morrer que estamos a falar. Senti-me bastante atraído por este livro sobretudo por dois contos: “Brinca Comigo” e “Disney no Céu entre os Dumbos”. Surpreendentemente, as notas introdutórias de cada conto acabaram por ser experiências de leitura quase mais interessantes que os próprios contos. Quase.

Infelizmente, as minhas expectativas traíram-me. O livro abria com os dois contos que tinha mais interesse em ler, e acabei por não gostar muito deles. Não que lhes falte qualidade, mas achei-os arrastados e sem qualquer novidade. “Brinca Comigo” mostra um mundo futurista em que o Noddy, as Barbies e os Kens têm de se “aguentar à bronca” numa era em que a raça humana abandonou a superfície da Terra. Divertido e irreverente, achei-o um conto ótimo para quem não conheça o autor. Pessoalmente, já li bem melhor dele.

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Algo comum na escrita de João Barreiros é a aliança entre a sátira, o horror e a ficção científica, sempre de forma coesa e hilariante. São estas três componentes a marca literária do escritor, sempre dotado de um entusiasmo jovial que, tanto encanta como, por vezes, pode fazer cansar. “Disney no Céu entre os Dumbos” é um conto muito bem escrito, divertido na medida em que exorciza a figura Disney e satiriza o mainstream. Mas, para quem leu o seu conto “Mais do Mesmo” e o livro Terrarium primeiro, pode achá-lo um tanto ou quanto… repetitivo. As minhas expectativas não ajudaram.

“Surpreendentemente, as notas introdutórias de cada conto acabaram por ser experiências de leitura quase mais interessantes que os próprios contos.”

O pequeno conto “Efemérides” mostrou-se interessante, uma visita guiada a um evento, num mundo paralelo onde Kennedy não morreu. “Fantascom – A Catastrófica Chegada” só pecou por extenso. O conto apresenta-nos o escritor Gervásio Quiroga, numa convenção de fantástico onde ele é o único escritor vivo, obrigado a engolir as diretrizes do regime. Foi também o primeiro conto que li com o alter-ego de João, José de Barros, como personagem.

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Fonte: http://a-chave-dicotomica.blogspot.pt/2012/07/lisboa-electropunk-um-cenario-futurista.html

Continuando em onda de convenções literárias, “Liscon 2060” apresenta-nos Álvaro de Sousa e a terrível viagem do Porto para Lisboa, para um evento que termina muito mal para o herói. Um conto bem divertido e de leitura fácil. A partir daqui, os contos tornaram-se, para mim, mais interessantes. “Noite de Paz” traz-nos um exército armado aos confins do mundo para abater o temível e maquiavélico Pai Natal. Na sequência de “Efemérides”, embora tenha sido escrito dez anos depois, “A Síndroma de Abraão” revisita a chegada do homem à Lua de um jeito bem engraçado.

“Os Minino da Noite” foi um dos meus contos preferidos da coletânea. A Fortaleza Europa trouxe novas regras ao nosso mundo e uma série de acontecimentos obrigou os não-europeus a regressar aos países de origem. O que aconteceu? Onde estão as crianças? Protagonizado pela personagem Olga, “Por Amor à Prole” fala de maternidade, de um jeito que só João Barreiros podia escrever. Absolutamente delicioso.

Já tinha lido “Por Detrás da Luz” na antologia da Saída de Emergência A Sombra Sobre Lisboa. O conto é uma homenagem a Lovecraft, uma história com cabeça, tronco e membros, de que sempre me irei recordar pela positiva. O conto “Se Acordar Antes de Morrer” traz a história que dá título e capa ao livro. Numa homenagem a George Romero, o conto mostra-nos um robot vestido de Pai Natal que faz os mortos- vivos que o mordem perguntarem-se por que raio não tem carne.

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Fonte: https://www.slideshare.net/andebuca/se-acordar-antes-de-morrer-12832334

Os contos “O Teste” e “Sincronidade” conduzem-nos numa visita peculiar a uma Lisboa futurista, enquanto “Uma Noite na Periferia do Império” apresenta-nos as aventuras e desventuras do Embaixador Cultural dos Croap’tic, Sua Senhoria Canto-Franco (qualquer semelhança com o Poupas da Rua Sésamo não é coincidência) e do seu companheiro símio, o servo Chirptic. Um dos contos mais excêntricos de Se Acordar Antes de Morrer.

Por fim, “Um Homem e o Seu Gato” faz referência à obra original de Harlan Ellison, “A Boy and his Dog”, um conto que fala de IA’s, conflitos de interesses… e de amor. O amor profundo de Sequeira pelo seu gato, o Senhor Luvas. Em suma, Se Acordar Antes de Morrer acabou por ser mais uma excelente leitura com o nome João Barreiros estampado na capa.

Avaliação: 7/10

5 comentários em “Estive a Ler: Se Acordar Antes de Morrer

  1. Oie,

    Tenho que voltar a pegar-lhe comecei mas fiquei um pouco cansado, mas pelo que percebo os melhores contos estão mais guardados para o final, espero que o João não veja este comentário, ainda me mata no FF 😀

    Excelente comentário e uma pessoa que como sabes tem a “nossa” admiração 😉

    Abraço

    1. Vi o teu comentário, sim. Pronto, estás morto! Pun!

  2. …aliás já estou a renovar as baterias da minha vibro-lâmina de serviço para poderem estar em funções no próximo FF. Coitadinhas das tuas orelhas…

    1. Estás bem lixado, Paulo 😂😂😂
      Acho que fazes muito bem em ler. Os contos são todos bons, alguns mais exaustivos que outros, o que prejudica a experiência de leitura sobretudo quando já conheces bem as ideias do autor. Penso que se a coletânea começasse com contos mais pequenos e leves beneficiaria a experiência. Tanto o Brinca Comigo como o Disney são ótimos, acho que gostaria mais deles se fossem mais intervalados com outros.

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