Estive a Ler: O Sangue dos Elfos, The Witcher #3


Outro choque, mergulho na lama, violenta batida contra o solo assustadoramente parado após aquele selvagem galope. O penetrante e rouco relincho do cavalo que tenta erguer o quadril. O trote de ferraduras, a fulminante passagem de garupas e cascos. Capas e xairéis negros como a noite. Gritos.

O texto seguinte aborda o livro “O Sangue dos Elfos”, terceiro volume da série The Witcher 

Convidado da Saída de Emergência na última edição da ComicCon Portugal, Andrzej Sapkowski autografou centenas de exemplares dos seus livros já publicados em português, sempre com um copo de vinho a acompanhá-lo. Publicado pela primeira vez em 1994, O Sangue dos Elfos é o terceiro volume da série The Witcher, que serviu de base para o jogo de computador com o mesmo nome.

Em Portugal, o livro é uma das apostas fortes da Coleção BANG! para este início de ano, estando disponível nas livrarias a partir de hoje. Com um total de 288 páginas, tradução de Tomasz Barcinski e adaptação de Rui Azeredo, O Sangue dos Elfos retoma a história de Geralt de Rivia, o famoso bruxo caçador de monstros. Se os dois primeiros volumes foram narrados em forma de contos, este livro inicia The Witcher, no que diz respeito à ação propriamente dita.

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Fonte: https://heavymetalhanzo.deviantart.com/art/The-Witcher-III-Hunting-The-Royal-Griffin-546925749

Fiquei de queixo caído com as primeiras páginas deste livro. As descrições de batalha com que O Sangue dos Elfos tem início são tão deliciosamente “What the Fuck!” que as minhas expectativas quadriplicaram. Não posso dizer que tenham sido, de todo, goradas, mas a promessa perdeu-se um pouco ao longo do livro. Ainda assim, este é, claramente, um livro melhor que o antecessor.

“Senti alguma falta de senso ou de elos de ligação entre os capítulos.”

A escrita de Sapkowski, que me parecera menos elaborada e até menos competente em A Espada do Destino, voltou a superar-se. Em boa verdade, posso dizer que a escrita é o melhor do livro: madura, fluída e bem-humorada. E as ideias narrativas do autor polaco são bem interessantes. Infelizmente, acho que ele tem alguma dificuldade em executá-las, ou talvez seja o seu jeito de o fazer que não me “apaixona”.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/fantasia-o-202346/o-sangue-dos-elfos/

O mundo onde The Witcher se passa ainda me é estranho. Parece ser um mundo original inspirado no folclore eslavo e nos contos de fadas, mas no entanto sucedem-se expressões latinas que deixam claro que a etimologia deste mundo tem base no nosso latim e também no dinamarquês, como o idioma westerosi das Crónicas de Gelo e Fogo foi construído a partir do idioma anglo-saxónico.

Senti alguma falta de senso ou de elos de ligação entre os capítulos. São sete ao todo, iniciados com pequenos trechos de livros fictícios que nos dão algumas pistas do que podemos encontrar em cada capítulo. Algumas ideias e mesmo o nexo causal entre os acontecimentos perdem-se, acabando por fazer o leitor sentir-se desfasado do que vai acontecendo entretanto.

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Fonte: https://www.brokenjoysticks.net/2017/03/16/love-witcher-read-blood-elves/

Se, por um lado a opção do autor em fazer saltos temporais entre capítulos tornou a leitura ágil, sem pormenores de somenos importância explorados ad nauseam, fiquei um pouco desiludido por não testemunhar qualquer encontro entre Geralt e Yennefer, não ver como o bruxo e Jaskier se reencontraram, e mesmo a ligação inicial entre a feiticeira com a pequena Ciri só nos foi apresentada posteriormente, através de lembranças.

“De certa forma, se os dois primeiros volumes foram uma prequela para a série, este terceiro pode ser considerado um prólogo.

Também achei que o autor focou-se imenso em Triss Merigold para depois abandoná-la a “meio da estrada” e não voltar a aparecer. Tratando-se de uma saga grande, feita de livros pequenos, acabo por compreender a opção, muito embora não me possa deixar de desagradar o tempo de antena dado aos anões, que falaram, falaram, falaram, e depois de uma cena de ação (por sua vez excelente), desapareceram do mapa para não mais voltarem a dar cor de si. E, neste caso, ainda bem.

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Fonte: http://booksfrommars.blogspot.pt/2015/07/guest-book-review-blood-of-elves_2.html

A narrativa voltou a girar em torno da Criança Surpresa, Cirilla de Cintra, que se vê nas mãos de Geralt de Rivia quando a cidade cai às mãos dos exércitos nilfgaardianos e todos julgam que a princesinha morreu durante a batalha. Geralt reclama então para si a responsabilidade de a levar para Kaer Morhen, onde um grupo de bruxos se encarrega da sua educação como guerreira e bruxa.

Questões como a menstruação e os dons mediúnicos da menina, porém, deixam claro que ela precisa do cuidado de mãos mais sensíveis. O que se torna imperial quando o velho amigo de Geralt, o trovador Jaskier, canta em público como ela sobreviveu à batalha, gerando rumores que a podem colocar em risco, tanto quanto a Geralt. A partir daí, vários reinos e facções políticas erguem uma caçada à origem de tais rumores, levando Geralt a elaborar um plano e a “dividir as tropas”.

Felizmente, tudo o que desgostei no livro foi compensado com belas sequências de ação e de aventura, sempre com Geralt, Ciri, Yennefer, Triss e Jaskier como protagonistas. Os acontecimentos na Redânia, com a participação de Phillipa Eilhart e a caça ao misterioso Rience foram excelentes, assim como o último capítulo que desenvolveu magistralmente a relação de Yennefer com a leoazinha de Cintra.

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Fonte: https://steamey.deviantart.com/gallery/46768332/The-Witcher

De facto, a caracterização e profundidade das personagens são os trunfos deste livro, e este talvez merecesse mais umas quantas páginas para que elas conhecessem um desenvolvimento mais sustentado. De certa forma, se os dois primeiros volumes foram uma prequela para a série, este terceiro pode ser considerado um prólogo.

Como fã de fantasia, The Witcher está longe de me encantar, mas não só O Sangue dos Elfos foi uma boa leitura, como é impossível negar a sua qualidade. A escrita é muito boa e a narrativa só precisava de mais alguma linearidade e consistência para poder afirmar o mesmo. Para um livro escrito em 94, meus amigos, isto é bom. Leiam.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

The Witcher (Edições Saída de Emergência):

#1 O Terceiro Desejo

#2 A Espada do Destino

#3 O Sangue dos Elfos

#4 O Tempo do Desprezo

#5 Batismo de Fogo

#6 A Torre da Andorinha

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