Estive a Ler: O Homem Pintado, Ciclo dos Demónios #1


Leesha não queria morrer. Sabia-o agora. Demasiado tarde. Mas, mesmo que desejasse voltar para trás, a sua casa ficava agora mais distante do que a cabana de Bruna e não havia nada entre uma e outra.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O HOMEM PINTADO”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

O Homem Pintado foi o romance de estreia de Peter V. Brett, autor norte-americano formado em Literatura Inglesa e História da Arte. Fã confesso de bandas-desenhadas e Dungeons & Dragons, Peter saltou para o estrelato com o seu primeiro livro, cujo sucesso o “obrigou” a prorrogar a série. A trilogia inicialmente pensada transformou-se numa saga de culto, ainda em publicação.

Ao lado de Joe Abercrombie e Patrick Rothfuss, Peter V. Brett é outro dos autores de literatura fantástica que mereciam uma casa melhor do que a Coleção 1001 Mundos do Grupo Leya, tão questionável a nível de títulos que até mudou o nome desta série durante a publicação. O primeiro volume, com 608 páginas e tradução de Renato Carreira, nem sequer tem o nome da série impresso no livro.

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Fonte: http://onlythebestscifi.blogspot.com/2010/04/review-painted-man-by-peter-v-brett.html

O livro é grande, em boa verdade, mas as letras também e Brett consegue manter o leitor agarrado às páginas, na expectativa do que se sucede em seguida. Confesso que não consegui ler menos de 100 páginas por dia. Brett convida o leitor a manter-se acordado na noite escura, a devorar as páginas do seu livro e a conhecer os demónios terríveis que amedrontam os seus lugares imaginados. A premissa tem uma vibe muito M. Night Shyamalan, muito embora a descrição das personagens na sinopse não me tenha entusiasmado por aí além. Felizmente, o livro revelou-se melhor do que eu esperava.

“…só posso granjear elogios à forma como o autor explorou as hipocrisias da sociedade.”

A escrita do autor norte-americano é simples, mas revela conhecimentos e maturidade literária, algo que falta em muitos autores do género. Pessoalmente, achei a escrita fluída e bastante competente. E a história revelou-se também prometedora e bem construída; pena que Brett tenha perdido completamente a mão no terço final do livro, caindo em clichés e desenrolares algo forçados.

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Fonte: http://pilulasliterarias.blogspot.com/2014/09/analise-o-homem-pintado-de-peter-v.html

A história é contada em capítulos com ponto de vista – o conhecido POV – protagonizados por Arlen, Rojer e Leesha. Quando a história começa, eles são crianças, cada um a viver numa povoação distinta. É aqui que conhecemos os dramas e dilemas de Arlen, personagem central da narrativa.

Todas as noites, os nuclitas atacam. São demónios de fogo, de ar, de madeira, de rocha, de água ou de areia, que assumem diferentes formas e respeitam uma ordem natural de entreajuda, rivalidade ou estratificação entre eles. Quando a noite cai, erguem-se do Núcleo e materializam-se, correndo atrás de vidas humanas para delas se alimentarem. É a típica história do papão que só aparece à noite, mas aqui todos sabem que eles vêem e cada um faz o que pode para se proteger.

A essa proteção chamaram guardas. Tratam-se de símbolos mágicos herdados de tempos imemoriais que, gravados, repelem os demónios e os impedem de entrar em determinados territórios. As guardas podem ser encontradas nos limites amuralhados das Cidades Livres, em postes, na madeira das residências ermas ou mesmo em círculos portáteis, usados em viagens.

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Fonte: https://thedemoncycle.deviantart.com/gallery/37869437/Random-from-Featured

Quem se utiliza muito desses círculos são os Mensageiros. De Fort Miln a Angiers, passando pelo Rio Divisor e pelas muitas terras do mundo fracturado de Thesa, esta figura viaja de terra em terra distribuindo correio e notícias, geralmente acompanhada de um Jogral. Tanto um como o outro são filiados a uma Associação, devendo responder a certas normas e deveres. Estes Mensageiros, uma vez que passam a grande maioria das noites ao relento, são também Guardadores, exímios na arte de esculpir ou traçar guardas.

Por sua vez, os Jograis mitigam os medos e dramas pessoais dos populares com os seus malabarismos, canções e pantominas. Uma das histórias que cantavam remonta a um passado longínquo, quando um sujeito chamado de Libertador escorraçou os demónios da face de Thesa com guardas de ataque. Os demónios viriam, porém, a regressar muito tempo depois, quando os homens já se haviam esquecido dos símbolos de ataque, restando-lhes apenas as guardas defensivas.

“…foram os capítulos protagonizados por Rojer e Leesha a alma do livro.”

A primeira parte do livro é seguramente aquela em que mais gostei de Arlen, embora nunca tenha sido um personagem que me suscitasse grandes simpatias. O seu papel na comunidade do Ribeiro de Tibbet, os conflitos com o pai, as certezas do que não queria para a sua vida e a devastadora perda que sofreu foram um aperitivo interessante para esta história. Também gostei do seu tempo em Miln, com o Mensageiro Ragen e a sua esposa Elissa, que o acolheram, e da sua aprendizagem com Cob.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=DSxSIoq0mjU

Mas foram os capítulos protagonizados por Rojer e Leesha a alma do livro. O trajeto de Rojer surpreendeu-me desde o primeiro momento, quando Brett o colocou, quase um bebé, nas mãos do Jogral baboso que olhava para o generoso decote da sua mãe. As suas desventuras com Arrick Doce-Canção foram muito boas, revelando um dom inusitado para a música, sempre acompanhado pela tragédia que permeia a vida de artista.

Com Leesha, Brett revelou mão firme e uma consistência narrativa de salutar. Fez-me lembrar as intrigas de Ken Follett em Kingsbridge, tal a forma como conseguiu cativar-me e fazer-me torcer pela protagonista, da mesma forma com que me fez odiar Elona e os restantes vilões. No Outeiro do Lenhador, todos pareciam pessoas verídicas, de carne e osso, e só posso granjear elogios à forma como o autor explorou as hipocrisias da sociedade.

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Fonte: http://amalgamate.katalyst.com.au/students/caitlin-liebich/projects/creature-design-the-painted-man

Senti, no entanto, que os vários saltos temporais prejudicaram a narrativa, sobretudo porque vários núcleos mereciam ter sido melhor explorados neste primeiro volume. Perdi a pouca simpatia que tinha por Arlen e perguntei-me se o maior cobarde em toda a história não era ele, o moralista que passou a trama a fugir de terra em terra, abandonando todos os que o amavam.

“O Homem Pintado é um livro muito satisfatório

Krasia pareceu-me ser uma cidade interessante de ver explorada, mas preferia que fosse apresentada apenas no segundo volume. O autor perdeu imenso tempo a apresentar a cultura krasiana, que por sinal é extremamente semelhante à islâmica, para deixar o protagonista por lá pouco tempo. Quando a cidade tiver maior foco narrativo, sinto que o impacto não será tão grande.

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Fonte: http://amalgamate.katalyst.com.au/students/caitlin-liebich/projects/creature-design-the-painted-man

E, a partir do momento em que os três protagonistas se cruzam, Peter V. Brett pareceu ter ligado o piloto automático. O livro perdeu a magia e a consistência e seguiu um rumo previsível. De uma escolha romântica cliché e pouco credível, a uma batalha sem a emoção e o volume de páginas que merecia, passando por uma violação esquecida em três tempos, o terço final desiludiu-me bastante.

Ainda assim, O Homem Pintado é um livro muito satisfatório, uma espécie de prólogo gigante de uma série com muito potencial. Bem escrito e envolvente, o livro inaugural do Ciclo dos Demónios deixa claro o porquê de Peter V. Brett ser um dos novos autores de fantástico mais procurados dos últimos anos.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (Gailivro / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

#3 A Guerra Diurna

#4 O Trono dos Crânios

#5 O Núcleo

8 comentários em “Estive a Ler: O Homem Pintado, Ciclo dos Demónios #1

  1. Luisa Bernardino 25 jan 2018 — 11:49 pm

    Olá amigo 🙂
    Gostei da tua opinião. Como sempre muito completa e descritiva. Tenho esta saga na minha lista faz tempo. Acho que será das próximas compras a fazer. Pena não ter sidoa SDE a publicar.
    Beijinhos

    1. Olá amiga. 🙂
      Obrigado. É uma série com muito potencial e acho que vais gostar. Vou começar em breve o segundo volume.
      Beijinho e boas leituras.

Comentário

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